{"id":291321,"date":"2022-09-05T07:13:31","date_gmt":"2022-09-05T10:13:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=291321"},"modified":"2022-09-05T09:15:27","modified_gmt":"2022-09-05T12:15:27","slug":"dialogo-no-escuro-faz-publico-vivenciar-mundo-sem-enxergar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/dialogo-no-escuro-faz-publico-vivenciar-mundo-sem-enxergar\/","title":{"rendered":"Di\u00e1logo no Escuro faz p\u00fablico vivenciar mundo sem enxergar"},"content":{"rendered":"<p>Imagine uma cidade em total escurid\u00e3o onde nada pudesse ser visto e nenhuma luz entrasse. Por 45 minutos, voc\u00ea passaria por bares, pontes, parques e cruzamentos de carros, mas eles s\u00f3 seriam percebidos por meio de sons, cheiros ou toques. Assim \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o proposta pela nova exposi\u00e7\u00e3o em cartaz no Unibes Cultural, que fica ao lado do Metr\u00f4 Sumar\u00e9, em S\u00e3o Paulo, chamada de Di\u00e1logo no Escuro.<\/p>\n<p>A mostra, criada na Alemanha, j\u00e1 esteve em cartaz por mais de 40 pa\u00edses, entre eles, o Brasil. Ela j\u00e1 passou por S\u00e3o Paulo e volta para mais uma temporada. \u201cEssa \u00e9 uma exposi\u00e7\u00e3o que foi montada na Alemanha em 1989\u201d, disse Andrea Calina, curadora da promo\u00e7\u00e3o no Brasil. \u201cEla j\u00e1 passou por 170 cidades e 47 pa\u00edses e est\u00e1 fixa hoje em 29 localidades. Ela j\u00e1 foi vista por dez milh\u00f5es de pessoas\u201d, afirmou ela, em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil.<\/p>\n<p>S\u00e3o quatro ambientes que reproduzem uma cidade atual. E a ideia \u00e9 que qualquer pessoa possa vivenciar o mundo de uma forma diferente: sem o sentido da vis\u00e3o, mas praticando a empatia. \u201cMuitas das mensagens da mostra &#8211; al\u00e9m da inclus\u00e3o e da diversidade e de se discutir os preconceitos entre n\u00f3s e eles, com quem eu me pare\u00e7o ou quem \u00e9 igual a mim &#8211; trazem tamb\u00e9m reflex\u00f5es sobre o p\u00f3s pandemia, como \u00e9 a escuta ativa, a comunica\u00e7\u00e3o humana, a solidariedade, a coopera\u00e7\u00e3o, a compaix\u00e3o\u201d, explicou Andrea.<\/p>\n<p>Ao entrar na sala expositiva, a pessoa recebe uma bengala em que uma de m\u00e3os ficar\u00e1 sempre apoiada. Com a ajuda de um guia, o visitante ir\u00e1 explorar os ambientes com a outra m\u00e3o e se reconhecer como parte de um novo mundo.<\/p>\n<p><strong>Cego aos 13 anos<\/strong><br \/>\nAo final, o divertido guia da exposi\u00e7\u00e3o, Sonny P\u00f3lito, termina a experi\u00eancia promovendo um bate-papo com o visitante. \u00c9 ent\u00e3o que ele finalmente conta sua hist\u00f3ria: ele ficou cego aos 13 anos de idade.<\/p>\n<p>\u201cComecei a perder minha vis\u00e3o com dez anos de idade. Com 12 ou 13 anos deixei de enxergar os livros e as revistas. Mas consegui terminar os meus estudos. Hoje, sou formado, terminei a faculdade e passei por v\u00e1rias empresas\u201d, revelou ele.<\/p>\n<p>P\u00f3lito \u00e9 um dos fundadores da startup [empresa emergente] Inclue. E, na exposi\u00e7\u00e3o, ele \u00e9 o guia que conduz uma pessoa com vis\u00e3o a se locomover por uma cidade onde nada \u00e9 visto. \u201cFui treinado para poder fazer com que a experi\u00eancia seja a melhor poss\u00edvel. E, se poss\u00edvel, inesquec\u00edvel\u201d, contou.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas entram aqui com muito medo porque \u00e9 escuro. \u00c9 uma barreira. Mas, no fim, nosso objetivo \u00e9 fazer com que elas possam andar e entender como \u00e9 viver sem o sentido da vis\u00e3o. \u00c9 se aproximar um pouquinho da escurid\u00e3o e entender como essas pessoas vivem sem enxergar. Elas v\u00e3o passar por v\u00e1rios ambientes que s\u00e3o do cotidiano, do dia a dia. E elas v\u00e3o entender como \u00e9 tocar, ouvir e usar os outros sentidos. \u00c9 uma troca: l\u00e1 fora as pessoas me guiam. Aqui dentro, eu posso guiar as pessoas para que elas possam passar por essa experi\u00eancia\u201d, acrescentou o guia.<\/p>\n<p>A reportagem da Ag\u00eancia Brasil participou dessa experi\u00eancia junto com um grupo de estudantes e p\u00f4de sentir, por exemplo, a dificuldade que \u00e9 deslocar o seu p\u00e9 de uma cal\u00e7ada mais alta para a rua. E, depois, ter que atravessar essa rua rapidamente, antes que o sem\u00e1foro [sinal luminoso] volte a fechar para o pedestre. Lembrando que, na exposi\u00e7\u00e3o, o sem\u00e1foro \u00e9 adaptado, emitindo som para auxiliar o pedestre sobre o momento em que ele pode atravessar a rua. Mas, no dia a dia, poucos desses sem\u00e1foros realmente existem ou funcionam.<\/p>\n<p><strong>Experi\u00eancia<\/strong><br \/>\nO estudante e funcion\u00e1rio de uma rede de varejo Fernando Freire de Oliveira, 18 anos, participou desse grupo onde esteve a reportagem. \u201c\u00c9 uma experi\u00eancia bem diferente. \u00c9 dif\u00edcil eu me orientar sem ter a minha vis\u00e3o, que \u00e9 algo que eu mais presto aten\u00e7\u00e3o na minha vida\u201d, contou ele.<\/p>\n<p>\u201cA parte mais dif\u00edcil foi quando chegamos ao bar e era muito aberto e todo mundo acabou se perdendo. O Sonny teve que buscar a gente em cada canto da sala\u201d, disse ele, sobre a experi\u00eancia na sala expositiva.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tive medo, mas uma sensa\u00e7\u00e3o de desorienta\u00e7\u00e3o, de n\u00e3o saber onde estava, de me sentir perdido. E de ter que precisar da ajuda de outras pessoas para conseguir me mexer. A gente v\u00ea aqui a necessidade de olhar mais para essas pessoas que t\u00eam defici\u00eancia\u201d, explicou Fernando.<\/p>\n<p>O jovem aprendiz Lucas de Lima Oliveira, 19 anos, \u00e9 deficiente visual total. \u201cPerdi a vis\u00e3o aos seis anos de idade em decorr\u00eancia de uma trombose e press\u00e3o intracraniana. E, de uns tr\u00eas ou quatro anos para c\u00e1, estou me adaptando muito bem, totalmente. Depois que eu perdi a vis\u00e3o, automaticamente tive a sensa\u00e7\u00e3o de que precisaria me adaptar ao novo mundo. E agora estou fazendo tudo diferente\u201d, revelou.<\/p>\n<p>Ao lado dos amigos, Lucas tamb\u00e9m passou pela experi\u00eancia da exposi\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o teve dificuldades para enfrentar os desafios que eram apresentados pela sala. \u201cConsegui me orientar bem. Foi uma das melhores salas [em que estive]. Me adaptei muito r\u00e1pido. Aqui, eu consegui me locomover bem, mas acho que, por j\u00e1 ter passado por muitos lugares, sempre tenho uma dimens\u00e3o de onde estou entrando por conta do barulho, se \u00e9 um lugar muito grande\u201d, disse.<\/p>\n<p>Ele comparou a experi\u00eancia na sala expositiva com estar em uma cidade real. \u201cJ\u00e1 come\u00e7a pelas cal\u00e7adas: aqui n\u00e3o tem buracos nas cal\u00e7adas. A gente anda e n\u00e3o tem essas coisas. Quando simularam a gente atravessar a rua, aqui [na exposi\u00e7\u00e3o] n\u00e3o tinha buraco. N\u00e3o corremos risco de trope\u00e7ar\u201d, opinou.<\/p>\n<p>Destacando que muitas cidades n\u00e3o est\u00e3o preparadas para incluir as pessoas com defici\u00eancia, Lucas citou algumas dificuldades que enfrenta na vida cotidiana. \u201cAs ruas n\u00e3o est\u00e3o adaptadas para a gente. H\u00e1 buracos. O piso t\u00e1til as vezes n\u00e3o est\u00e1 presente em todo lugar\u201d, observou.<\/p>\n<p>Para a curadora da mostra, a exposi\u00e7\u00e3o ajuda a provocar transforma\u00e7\u00f5es. \u201cEssa exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante porque causa uma mudan\u00e7a na sociedade: uma mudan\u00e7a para quem trabalha porque se quebra preconceitos e barreiras e aumenta a empregabilidade; e uma mudan\u00e7a para quem vem, porque a pessoa se coloca no lugar do outro, exercitando a empatia. \u00c9 uma mudan\u00e7a para a sociedade, tornando-a mais inclusiva\u201d, finalizou Andrea.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine uma cidade em total escurid\u00e3o onde nada pudesse ser visto e nenhuma luz entrasse. Por 45 minutos, voc\u00ea passaria por bares, pontes, parques e cruzamentos de carros, mas eles s\u00f3 seriam percebidos por meio de sons, cheiros ou toques. 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