{"id":291612,"date":"2022-09-11T23:10:32","date_gmt":"2022-09-12T02:10:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=291612"},"modified":"2022-09-12T11:12:26","modified_gmt":"2022-09-12T14:12:26","slug":"auxilio-brasil-vira-ovo-choco-e-deixa-bolsonaro-engasgado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/auxilio-brasil-vira-ovo-choco-e-deixa-bolsonaro-engasgado\/","title":{"rendered":"Aux\u00edlio Brasil vira ovo choco e deixa Bolsonaro engasgado"},"content":{"rendered":"<p>Os benefici\u00e1rios do Aux\u00edlio Brasil j\u00e1 receberam uma parcela do benef\u00edcio turbinado e est\u00e3o \u00e0s v\u00e9speras de receber o segundo. E, at\u00e9 o momento, n\u00e3o verificamos os efeitos eleitorais favor\u00e1veis a Bolsonaro.<\/p>\n<p>Restando 20 dias para as elei\u00e7\u00f5es presidenciais, o cen\u00e1rio \u00e9 de estabilidade. Lula mant\u00e9m a dianteira, sempre no patamar de 45% dos votos. Bolsonaro segue em segundo, com cerca de 30% das inten\u00e7\u00f5es. Ciro Gomes e Simone Tebet oscilam como consequ\u00eancia do desempenho em debates e sabatinas, mas sem condi\u00e7\u00f5es de alterar o quadro.<\/p>\n<p>Sem nenhum fato novo relevante (como foi, por exemplo, o atentado sofrido por Bolsonaro em 2018), as inten\u00e7\u00f5es de voto seguir\u00e3o est\u00e1veis at\u00e9 a \u00faltima semana, com a manuten\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio atual. O fato novo tentado por Bolsonaro at\u00e9 agora n\u00e3o funcionou: o aumento do benef\u00edcio e do n\u00famero de benefici\u00e1rios do Aux\u00edlio Brasil a dois meses das elei\u00e7\u00f5es. Esse aporte financeiro n\u00e3o se converteu em aumento das inten\u00e7\u00f5es de voto do atual presidente e este texto \u00e9 uma tentativa de explicar o por qu\u00ea.<\/p>\n<p>Nossa hip\u00f3tese \u00e9 que a estabilidade na disputa presidencial deriva de duas l\u00f3gicas pol\u00edticas distintas que organizam as campanhas de Lula e de Bolsonaro. O atual presidente segue priorizando um discurso voltado quase exclusivamente para seus apoiadores mais fi\u00e9is, que n\u00e3o o abandonaram nem em seus piores momentos de popularidade. J\u00e1 o ex-presidente privilegia a\u00e7\u00f5es e falas de amplia\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do seu eleitorado cativo, em um tipo de estrat\u00e9gia que presidiu as elei\u00e7\u00f5es presidenciais brasileiras desde 1994.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia de Lula \u00e9 muito mais coesa do que a de Bolsonaro. O atual presidente se divide em aderir \u00e0 l\u00f3gica tradicional, baseada no aux\u00edlio Brasil, ou manter sua forma de fazer pol\u00edtica que o levou \u00e0 vit\u00f3ria em 2018. J\u00e1 foi assim em sua pr\u00e1tica de governo e, de fato, h\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o estrutural entre estrat\u00e9gia eleitoral e forma de governar.<\/p>\n<p><strong>L\u00f3gica pol\u00edtica de Bolsonaro<\/strong><br \/>\nA l\u00f3gica pol\u00edtica do bolsonarismo \u00e9 totalmente ancorada no sentimento antissistema e antipol\u00edtica que cresceu na sociedade brasileira de 2015, resultado de duas din\u00e2micas paralelas. Por um lado, o uso pol\u00edtico da pauta do combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, pela m\u00eddia e pelo judici\u00e1rio, com a opera\u00e7\u00e3o Lava jato. Por outro lado, a recess\u00e3o econ\u00f4mica provocada em parte por medidas do governo Dilma e em parte pela sabotagem institucional comandada por Eduardo Cunha, Michel Temer e A\u00e9cio Neves.<\/p>\n<p>As elites pol\u00edticas, empresariais e jur\u00eddicas esperavam que o desfecho desse processo fosse um retorno da direita tradicional ao poder pelas urnas em 2018. Contudo, o bolsonarismo emergiu como alternativa por duas raz\u00f5es, uma conjuntural e outra mais estrutural. A raz\u00e3o conjuntural foi a completa desmoraliza\u00e7\u00e3o da direita tradicional com o governo Temer, que j\u00e1 come\u00e7ou sem legitimidade pelo impeachment\/golpe e que terminou afundado em mais corrup\u00e7\u00e3o e crise econ\u00f4mica. J\u00e1 a raz\u00e3o estrutural \u00e9 o papel da viol\u00eancia na forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica brasileira. Bolsonaro representa o retorno de um tipo de conflito que jamais foi resolvido em nossa sociedade, mas que a democracia e a constitui\u00e7\u00e3o de 1988 ao menos apontavam para superar. A interven\u00e7\u00e3o militar no Rio de Janeiro e o brutal assassinato de Marielle Franco, em 2018, s\u00e3o express\u00e3o dessa dimens\u00e3o.<\/p>\n<p>Bolsonaro se elegeu sem um programa de governo, sem propostas concretas e com base na mobiliza\u00e7\u00e3o do sentimento contra tudo e contra todos. Funcionou na elei\u00e7\u00e3o de 2018, mas com um detalhe: ele n\u00e3o teve que enfrentar o ex-presidente Lula, que foi preso injustamente e impedido de concorrer, no movimento final da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, para assumir o comando da pol\u00edtica brasileira.<\/p>\n<p><strong>L\u00f3gica pol\u00edtica de Lula<\/strong><br \/>\nA elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro quebrou a l\u00f3gica de todas as elei\u00e7\u00f5es presidenciais desde 1994, ou seja, desde que o atual sistema partid\u00e1rio se estabilizou na polariza\u00e7\u00e3o entre PSDB e PT. Daquele pleito at\u00e9 2014, quem estava no governo buscava apresentar uma narrativa que dialogasse com a totalidade da popula\u00e7\u00e3o e que estivesse ancorada em uma pol\u00edtica p\u00fablica que pudesse ser identificada de modo simples e imediato com o governo. Quem estava na oposi\u00e7\u00e3o operava em l\u00f3gica similar: era preciso questionar a pol\u00edtica p\u00fablica governamental e apresentar uma alternativa que tamb\u00e9m dialogasse com o conjunto da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1994 e 1998 Fernando Henrique se valeu da estabilidade econ\u00f4mica conquistada com o Plano Real para vencer as elei\u00e7\u00f5es. Lula questionou a consist\u00eancia dessa estabilidade, pautando a necessidade de priorizar o combate \u00e0s desigualdades. Quando, em 1999, o Fernando Henrique perdeu o controle da economia, Lula ent\u00e3o organizou sua narrativa com base na incorpora\u00e7\u00e3o da estabilidade econ\u00f4mica (esvaziando o discurso do PSDB) e, ao mesmo tempo, se diferenciando dos tucanos ao priorizar a gera\u00e7\u00e3o de empregos e o combate \u00e0 fome e \u00e0 mis\u00e9ria, temas que dialogavam com toda a sociedade. Essa estrat\u00e9gia n\u00e3o somente venceu as elei\u00e7\u00f5es de 2002 e 2006 como orientou uma pr\u00e1tica de governo que possibilitou a Dilma Rousseff se apresentar como continuadora de Lula nas elei\u00e7\u00f5es de 2010 e 2014.<\/p>\n<p>Agora, Lula recupera essa estrat\u00e9gia a partir da mem\u00f3ria do seu governo, cujos resultados pr\u00e1ticos econ\u00f4micos foram excelentes, independente dos diagn\u00f3sticos acad\u00eamicos. Lula vem sendo criticado por n\u00e3o falar de futuro, mas pela l\u00f3gica das elei\u00e7\u00f5es presidenciais isso n\u00e3o necessariamente \u00e9 um problema. Na pr\u00e1tica, o que temos em 2022 \u00e9 um plebiscito entre duas l\u00f3gicas de fazer pol\u00edtica e duas l\u00f3gicas de governar.<\/p>\n<p><strong>Disputa das l\u00f3gicas<\/strong><br \/>\nEm 14 de julho de 2022 foi promulgada a PEC que aumentou o valor do Aux\u00edlio Brasil (programa de transfer\u00eancia de renda do governo Bolsonaro). Trata-se de uma Emenda Constitucional aprovada em 87 dias, uma das dez aprova\u00e7\u00f5es mais r\u00e1pidas da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Esse tipo de aumento \u00e9 vedado em ano eleitoral. Para contornar essa proibi\u00e7\u00e3o, Bolsonaro aprovou um Estado de Emerg\u00eancia, o que justificaria novos aportes para os mais pobres. Por tr\u00e1s dessa manobra constitucional, h\u00e1 uma n\u00edtida estrat\u00e9gia eleitoral comandada pelos partidos pol\u00edticos tradicionais de direita que est\u00e3o aliados \u00e0 Bolsonaro nessas elei\u00e7\u00f5es, qual seja, a de focar nas entregas econ\u00f4micas do governo como \u00fanico caminho que pode mudar o resultado eleitoral. E essa estrat\u00e9gia \u00e9 oposta \u00e0 l\u00f3gica pol\u00edtica do bolsonarismo e muito mais pr\u00f3xima da l\u00f3gica pol\u00edtica de Lula e do sistema pol\u00edtico brasileiro.<\/p>\n<p>Os benefici\u00e1rios do Aux\u00edlio Brasil j\u00e1 receberam uma parcela do benef\u00edcio turbinado e est\u00e3o \u00e0s v\u00e9speras de receber o segundo. E, at\u00e9 o momento, n\u00e3o verificamos os efeitos eleitorais favor\u00e1veis a Bolsonaro. De acordo com os dois levantamentos feitos pelo Datafolha, j\u00e1 com o novo valor do Aux\u00edlio Brasil, Lula obt\u00e9m 56% das prefer\u00eancias entre os benefici\u00e1rios contra 28% de Bolsonaro. J\u00e1 o IPEC de 05 de setembro apresenta um recorte de renda e n\u00e3o de quem recebe o benef\u00edcio, mas que mostra uma situa\u00e7\u00e3o similar: entre os que recebem at\u00e9 um sal\u00e1rio m\u00ednimo, Lula cresceu dois pontos em rela\u00e7\u00e3o ao levantamento anterior de 28 de agosto e agora tem 56% contra 21% de Bolsonaro, que perdeu um ponto.<\/p>\n<p>Em parte isso se explica pela pr\u00f3pria economia, uma vez que a infla\u00e7\u00e3o alta dos alimentos segue corroendo o valor do benef\u00edcio. Mas a principal raz\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica: Bolsonaro \u00e9 o maior sabotador da estrat\u00e9gia elaborada pelo \u201cCentr\u00e3o\u201d. O centro do seu discurso e das a\u00e7\u00f5es dos seus apoiadores \u00e9 o ataque \u00e0s institui\u00e7\u00f5es e \u00e0 democracia em geral, com foco nas urnas eletr\u00f4nicas, no STF e na m\u00eddia, em especial em jornalistas mulheres. O poss\u00edvel impacto positivo do Aux\u00edlio Brasil se perde em uma profus\u00e3o de ofensas e uma insistente mobiliza\u00e7\u00e3o golpista, o que ser\u00e1 refor\u00e7ado nos dias que antecedem ao feriado de 07 de setembro. N\u00e3o \u00e9 por acaso, inclusive, que candidatos aos governos estaduais da direita procuram se desvencilhar de Bolsonaro, mesmo quando est\u00e3o no mesmo partido do presidente. Cl\u00e1udio Castro (PL), no Rio de Janeiro, Romeu Zema (Novo) em Minas Gerais, ou ACM Neto (UB), na Bahia, focam suas campanhas na l\u00f3gica da realiza\u00e7\u00e3o de governos e em narrativas amplas e se recusam a reproduzir a l\u00f3gica bolsonarista de radicalizar.<\/p>\n<p>Em suma, ao n\u00e3o priorizar o tema da economia e da transfer\u00eancia de renda e ao seguir falando para os seus apoiadores e n\u00e3o para o conjunto da sociedade, Bolsonaro refor\u00e7a entre os benefici\u00e1rios o sentimento de que o aumento do Aux\u00edlio Brasil \u00e9 um ato eleitoreiro, sem garantia de continuidade e estabilidade. Com Lula, \u00e9 o oposto: h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o positiva entre votos e o Bolsa Fam\u00edlia porque ele operou na l\u00f3gica pol\u00edtica de governar para toda a sociedade e de apresentar na elei\u00e7\u00e3o uma narrativa capaz de convencer a maioria. O Bolsa Fam\u00edlia come\u00e7ou em 2004 e levou dois anos para ser testado e come\u00e7ar a dar resultados concretos, permitindo que a narrativa eleitoral se apropriasse do sucesso da pol\u00edtica p\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>Desfecho no primeiro turno?<\/strong><br \/>\nA grande aposta da campanha de Lula \u00e9 resolver o pleito em 2 de outubro. A vit\u00f3ria no 1\u00ba turno \u00e9 fundamental para a mobiliza\u00e7\u00e3o em defesa da democracia. J\u00e1 Bolsonaro joga todas as suas fichas em levar a disputa para o 2\u00ba turno, pois nesse caso ter\u00e1 mais tr\u00eas semanas para ampliar sua mobiliza\u00e7\u00e3o golpista. Sem nenhum fato novo, somente na reta final \u2013 na \u00faltima semana e mesmo nos \u00faltimos dias \u2013 \u00e9 que veremos movimentos mais significativos do eleitorado seja pela do voto \u00fatil de Lula ou pela opera\u00e7\u00e3o bolsonarista de despertar o antipetismo e o terrorismo contra as esquerdas. Combinadas, essas duas estrat\u00e9gias podem esvaziar definitivamente as candidaturas da terceira via e resolver a elei\u00e7\u00e3o no 1\u00ba turno.<\/p>\n<p><strong>*Josu\u00e9 Medeiros \u00e9 cientista pol\u00edtico e professor da UFRJ e PPGCS \u2013 UFRRJ<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os benefici\u00e1rios do Aux\u00edlio Brasil j\u00e1 receberam uma parcela do benef\u00edcio turbinado e est\u00e3o \u00e0s v\u00e9speras de receber o segundo. E, at\u00e9 o momento, n\u00e3o verificamos os efeitos eleitorais favor\u00e1veis a Bolsonaro. Restando 20 dias para as elei\u00e7\u00f5es presidenciais, o cen\u00e1rio \u00e9 de estabilidade. Lula mant\u00e9m a dianteira, sempre no patamar de 45% dos votos. 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