{"id":292864,"date":"2022-10-09T00:02:26","date_gmt":"2022-10-09T03:02:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=292864"},"modified":"2022-10-09T07:07:42","modified_gmt":"2022-10-09T10:07:42","slug":"lula-e-o-unico-que-pode-impedir-retrocesso-promovido-por-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lula-e-o-unico-que-pode-impedir-retrocesso-promovido-por-bolsonaro\/","title":{"rendered":"&#8216;Lula \u00e9 o \u00fanico que pode impedir retrocesso promovido por Bolsonaro&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Os percal\u00e7os hoje vividos pelo pa\u00eds (que voltou a temer o futuro) em muito remontam \u00e0 persistente dificuldade de a esquerda brasileira interpretar o processo social, mais precisamente aquele movimento que, segundo entendo, se anunciou em 2013 como a ponta de um iceberg de base imperscrut\u00e1vel. O que a quase todos parecia, naquela altura, um sopro na superf\u00edcie de lago sereno, seria revelado, mais tarde, como algo similar \u00e0 movimenta\u00e7\u00e3o de placas tect\u00f4nicas, apenas perceb\u00edvel quando as explos\u00f5es chegam \u00e0 superf\u00edcie. Poucos viram, ent\u00e3o (e Gilberto Carvalho foi um deles, granjeando o mau humor de diversos companheiros), uma mudan\u00e7a qualitativa no processo pol\u00edtico-social, que a esquerda, notadamente o politiburo petista, continuou imaginando congelado \u2013 mesmo ap\u00f3s os percal\u00e7os eleitorais de 2014, e o massacre a que nosso governo foi submetido em 2015.<\/p>\n<p>Nos duros idos do esfor\u00e7o coletivo por salvar o mandato de Dilma Rousseff, fui muito mal compreendido por nomeados l\u00edderes do nosso campo, quando, numa plen\u00e1ria da Frente Brasil Popular, que ajudara Jo\u00e3o Pedro St\u00e9dile a organizar, trouxe para discuss\u00e3o as dificuldades que nossas organiza\u00e7\u00f5es enfrentavam na mobiliza\u00e7\u00e3o popular. Continu\u00e1vamos presos \u00e0s apar\u00eancias, confundindo o carisma de Lula com a ascens\u00e3o do pensamento progressista. E hoje, ainda, ap\u00f3s a deposi\u00e7\u00e3o de Dilma, dos feitos e efeitos da Lava Jato, da pris\u00e3o de Lula, da elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro e do governo do grande capital, dos militares e dos milicianos, chegamos a 2022 convencidos de que ir\u00edamos simplesmente enfrentar mais um pleito, pois se trataria, como antes, de uma elei\u00e7\u00e3o \u201cnormal\u201d. Descart\u00e1vamos o papel das transforma\u00e7\u00f5es sociais na pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O pa\u00eds mudara e continu\u00e1vamos olhando a hist\u00f3ria pelo retrovisor, sem perceber a nova natureza do processo pol\u00edtico-eleitoral. O PT falhou em compreender que n\u00e3o se tratava, mais, t\u00e3o-s\u00f3, de enfrentar, como antes, a hoje falecida socialdemocracia paulista, mas de ter\u00e7ar armas, numa disputa de vida ou morte, com um novo projeto de poder da classe dominante. Um projeto de ambi\u00e7\u00f5es ditatoriais que namoram com o legado fascista, comandado por um candidato sem limites \u00e9ticos ou morais que, desde 2018, mais que a vit\u00f3ria puramente eleitoral (naquele ent\u00e3o impensada), se propunha a organizar e liderar a extrema-direita, e preparar as condi\u00e7\u00f5es objetivas para a instaura\u00e7\u00e3o de uma ditadura protofascista \u2013 que, ao esper\u00e1vel apoio do grande capital, associava in\u00e9dita e larga base popular.<\/p>\n<p>A consuma\u00e7\u00e3o desse projeto (que n\u00e3o se concluiu no atual governo, sua porta de entrada) est\u00e1 sendo adiada, aos trancos e barrancos, pela resist\u00eancia democr\u00e1tica difusa, mas a conquista do que se convencionou chamar de \u201ccora\u00e7\u00f5es e mentes\u201d das grandes massas \u00e9 um fato que n\u00e3o permite d\u00favida: 43% do eleitorado brasileiro referendaram o bolsonarismo.<\/p>\n<p>Apesar de seu discurso e de suas a\u00e7\u00f5es, apesar do desastre rotundo de seu governo, o capit\u00e3o aumentou em 2022 sua vota\u00e7\u00e3o sobre a obtida em 2018. Em que pese a forte oposi\u00e7\u00e3o, inclusive da grande m\u00eddia, nada obstante a frente ampla que se formou em defesa da democracia e da candidatura de Lula, que chegou a reunir consider\u00e1veis setores do chamado \u201ccentro\u201d, da socialdemocracia e mesmo da burguesia. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1, em toda a hist\u00f3ria republicana, precedente similar de avan\u00e7o do pensamento e da a\u00e7\u00e3o da extrema-direita brasileira.<\/p>\n<p>Os arreganhos integralistas dos anos 1930, em compara\u00e7\u00e3o, podem ser relegados ao cap\u00edtulo das insignific\u00e2ncias, tanto quanto Pl\u00ednio Salgado fica anos-luz distante da periculosidade do capit\u00e3o. N\u00e3o obstante as sondagens de opini\u00e3o, hoje t\u00e3o contestadas, haverem indicado a lideran\u00e7a de Lula na faixa de renda at\u00e9 dois sal\u00e1rios m\u00ednimos, e apoio majorit\u00e1rio ao candidato da extrema direita entre os eleitores que ocupam o topo da pir\u00e2mide salarial, o resultado do primeiro turno est\u00e1 a desmentir o imagin\u00e1rio segundo o qual Bolsonaro seria o candidato t\u00e3o s\u00f3 dos ricos e dos bem postos na vida, contingente de uma minoria m\u00ednima; mas igualmente desmente o imagin\u00e1rio segundo o qual Lula tinha sua candidatura abra\u00e7ada pela maioria dos pobres, pois, nesse caso, sua vit\u00f3ria teria sido esmagadora j\u00e1 no primeiro turno.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o que pretendo p\u00f4r de manifesto caminha para al\u00e9m do fato de Lula n\u00e3o haver cravado vit\u00f3ria no primeiro turno, e transcende mesmo a possibilidade de sua vit\u00f3ria no final deste m\u00eas. O que precisamos considerar \u00e9 o fato de um candidato de extrema-direita, expressando o discurso da extrema-direita, do confronto e do autoritarismo, haver obtido a aprova\u00e7\u00e3o de 43% do eleitorado. Essa vota\u00e7\u00e3o abarca todos os segmentos sociais e se espalha por todo o pa\u00eds, passando por sobre limita\u00e7\u00f5es rurais e urbanas, que as concentra\u00e7\u00f5es eleitorais dos candidatos n\u00e3o desmentem. Consagrado no Nordeste (ou seja, pelo eleitorado residente na regi\u00e3o), Lula n\u00e3o se revelou o candidato dos nordestinos, pois o nordestino emigrado votou, em grande parte, no ainda presidente, como demonstram os n\u00fameros de SP e RJ . O eleitorado mais firme de Lula parece situar-se junto da classe m\u00e9dia (onde o bolsonarismo tem evidente presen\u00e7a), enquanto suas maiores dificuldades, postas de lado as avenidas Paulista de todo o pa\u00eds, est\u00e3o localizadas nos bols\u00f5es urbanos de pobreza, dominados pela alian\u00e7a do assistencialismo com seitas religiosas e o crime organizado.<\/p>\n<p>Mas o que ainda se cobra do candidato, por interm\u00e9dio da imprensa corporativa e mesmo no seio da campanha, \u00e9 um mais caminhar ao \u201ccentro\u201d (o novo nome-fantasia da direita tupiniquim), enquanto o dito \u201cmercado\u201d mais lhe promete amarras em troca de um apoio que n\u00e3o oferece, ao tempo em que celebra o desfecho do primeiro turno por pelo menos adiar a elei\u00e7\u00e3o de Lula, e aplaude a elei\u00e7\u00e3o de um Congresso de maioria reacion\u00e1ria. Essa \u00e9 a classe dominante que o processo hist\u00f3rico brasileiro produziu, desapartada dos interesses do pa\u00eds. Processo que tamb\u00e9m nos legou um povo majoritariamente conservador, m\u00edstico, crente, temente \u00e0s mudan\u00e7as que lhe poderiam beneficiar.<\/p>\n<p>A dificuldade de interpretar o processo social, como assinalada, est\u00e1 na raiz de nossa dificuldade de enfrentar o desafio posto no processo eleitoral, donde o resultado do primeiro turno, inesperado pelo pensamento m\u00e1gico, que jamais se casou com o realismo cr\u00edtico do racioc\u00ednio pol\u00edtico. Sinal da incompreens\u00e3o das altera\u00e7\u00f5es que continuamente se processam na sociedade, os estrategistas da candidatura popular privilegiam, no primeiro turno e ainda agora, as articula\u00e7\u00f5es pelo alto, na v\u00e3 suposi\u00e7\u00e3o (negada at\u00e9 aqui pela realidade imediata) de que se reproduzir\u00e3o nas bases populares, que s\u00e3o, afinal, quem decide, mesmo quando n\u00e3o s\u00e3o ouvidas. A onda de 2013, que encontrou seus principais desdobramentos na deposi\u00e7\u00e3o de Dilma e na elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro, segue viva e, na medida em que caminha, alarga as margens e avan\u00e7a em velocidade.<\/p>\n<p>O somat\u00f3rio de uma s\u00e9rie de erros nos levou a todos \u2013 direita dita civilizada, \u201ccentro\u201d e esquerda \u2013 a um impasse que nos colocou como possibilidade real a emerg\u00eancia de uma nova forma de implanta\u00e7\u00e3o de um regime ditatorial, o qual, dispensando os tanques, amea\u00e7a a tomada do poder no cume de um processo eleitoral legitimado. \u00c9 esta a amea\u00e7a que representa a eventualidade \u2013 que n\u00e3o deve ser desprezada \u2013 da reelei\u00e7\u00e3o disso que a\u00ed est\u00e1.<\/p>\n<p>S\u00f3 a vit\u00f3ria de Lula pode impedir o retrocesso perseguido por Bolsonaro e seus c\u00famplices. Com ela, elei\u00e7\u00e3o na qual apostamos com base na vontade e nos dados emp\u00edricos dispon\u00edveis, evitaremos o rompimento do dique que ainda cont\u00e9m a trag\u00e9dia em curso. Trata-se, pois, de uma necessidade hist\u00f3rica, um imperativo. \u00c9 muito, mas ainda n\u00e3o ser\u00e1 tudo. J\u00e1 est\u00e1 \u00e0 vista, independentemente do que nos dir\u00e3o as urnas no pr\u00f3ximo dia 30, nosso enfrentamento, no governo e fora dele, em todos os espa\u00e7os da vida social, com uma extrema-direita agressiva e org\u00e2nica, apoiada no grande capital e nas grandes massas, com s\u00f3lida base militar e miliciana, al\u00e9m de conex\u00f5es internacionais, num momento em que essa vertente cresce nos EUA, ganha as elei\u00e7\u00f5es na It\u00e1lia e, associada \u00e0 direita, controla o parlamento e o governo suecos. A antiga e vitoriosa socialdemocracia sueca transforma-se em aliada pol\u00edtica da Turquia, da Hungria, da Pol\u00f4nia, governadas pelo obscurantismo. A nova extrema-direita brasileira, ademais, tem como capo um militar sem escr\u00fapulos ou limites morais, que no entanto carrega como patrim\u00f4nio a inequ\u00edvoca lideran\u00e7a sobre 43% do eleitorado, ou seja, 1\/5 da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Este \u00e9 o fato pol\u00edtico que devemos considerar, para al\u00e9m do que nos diga o resultado do segundo turno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os percal\u00e7os hoje vividos pelo pa\u00eds (que voltou a temer o futuro) em muito remontam \u00e0 persistente dificuldade de a esquerda brasileira interpretar o processo social, mais precisamente aquele movimento que, segundo entendo, se anunciou em 2013 como a ponta de um iceberg de base imperscrut\u00e1vel. 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