{"id":293297,"date":"2022-10-18T05:14:18","date_gmt":"2022-10-18T08:14:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=293297"},"modified":"2022-10-18T05:18:52","modified_gmt":"2022-10-18T08:18:52","slug":"prostituta-respeitosa-manaus-ja-se-esvai-sem-ser-celebridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/prostituta-respeitosa-manaus-ja-se-esvai-sem-ser-celebridade\/","title":{"rendered":"Prostituta respeitosa, Manaus j\u00e1 se esvai sem ser celebridade"},"content":{"rendered":"<p>Hoje quero falar contigo, Manaus, para te dizer que uma cidade, que vota majoritariamente contra seus pr\u00f3prios interesses e que n\u00e3o sabe escolher entre o fascismo e a democracia, \u00e9 uma cidade desmemoriada. Confesso minha vergonha e minha perplexidade pelos 622.846 votos dados ao Coiso no primeiro turno da elei\u00e7\u00e3o presidencial contra 430.562 a seu advers\u00e1rio, embora ignore o peso do or\u00e7amento secreto nesta escolha. Manaus votou em quem quer acabar com o voto.<\/p>\n<p>Eleitores \u201cesqueceram\u201d o sofrimento recente de pessoas asfixiadas, sem oxig\u00eanio, mortas por quem alardeou que a vacina causava aids e debochou dos que agonizavam com covid. Sem falar na mem\u00f3ria da ditadura, que em passado n\u00e3o t\u00e3o distante, torturou e assassinou, entre outros, o Thomazinho Meirelles e prendeu, entre outras, a Bia, ambos amazonenses, al\u00e9m de realizar uma lavagem cerebral no campo da cultura e da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma cidade que ignora seu passado se condena a \u201ccem anos de solid\u00e3o\u201d. Por isso, para que Manaus tenha \u201cuma segunda oportunidade sobre a terra\u201d, \u00e9 preciso lembrar que a ditadura militar derrubou, em 1964, o presidente eleito pelo voto popular, suprimiu a elei\u00e7\u00e3o direta para presidente e governadores, fechou o Congresso, cassou governadores, ministros do STF e parlamentares, censurou teatro, cinema e m\u00fasica, amorda\u00e7ou a imprensa: tudo aquilo que hoje \u00e9 o pesadelo de todos n\u00f3s e o sonho do Coiso, ele que instituiu o sigilo de cem anos sobre a corrup\u00e7\u00e3o e criou o or\u00e7amento secreto.<\/p>\n<p>Contra isso lutou Thomazinho, que adorava a pa\u00e7oquinha da sua m\u00e3e, dona Maria. Sua hist\u00f3ria de resist\u00eancia j\u00e1 \u00e9 bem conhecida. A da Bia, n\u00e3o. Deixa que eu te conte quem foi ela. A atriz de teatro Maria de Nazar\u00e9 Palheta, a Bia, morava na antiga Carolina Neves, hoje rua Elisa Bessa, vizinha do Escabego L\u00eago-L\u00eago e do Lauro Chib\u00e9. No carnaval, ela sa\u00eda sempre no bloco \u201ceu sozinha\u201d, mascarada e fantasiada, desfilando pelas ruas e becos, cada ano na pele de um personagem diferente.<\/p>\n<p>Foi em 1953 ou 1954 que a Bia, mascarada e vestida de enfermeira, carnavalizou seu entusiasmo dionis\u00edaco e ofereceu carinho e colo \u00e0s crian\u00e7as do bairro de Aparecida, entre elas eu e minha irm\u00e3 Tequinha, que jogamos confete sobre seus cabelos compridos e sua pele de macaxeira. Dez anos depois, quando ela encenou a pe\u00e7a de Sartre A Prostituta Respeitosa, \u201cimpr\u00f3pria para menores\u201d, fingi ter um ano a mais e fui assisti-la, no dia do meu anivers\u00e1rio, no Teatro Amazonas.<\/p>\n<p>O imponente teatro foi inaugurado em 1896, no apogeu da borracha, mas n\u00e3o abrigou um movimento com atores locais para dialogar com a arte importada a peso de ouro pela burguesia de igarap\u00e9. Por isso, \u00f3peras, com\u00e9dias e at\u00e9 o \u201ccancan\u201d dos cabar\u00e9s de Paris sumiram do palco, quando em 1912 a economia entrou em crise. O Teatro Amazonas virou dep\u00f3sito de borracha na 2\u00aa Guerra Mundial. As pelas de l\u00e1tex coagulado ocuparam palco, sal\u00e3o nobre, plateia, camarotes e at\u00e9 o fosso da orquestra, para atender os Acordos de Washington sobre essa mat\u00e9ria prima estrat\u00e9gica. Era a Batalha da Borracha.<\/p>\n<p>\u2013 \u201cBelo Teatro. Sua decad\u00eancia e abandono refletem o drama ou a trag\u00e9dia da Amaz\u00f4nia\u201d \u2013 lamentou o antrop\u00f3logo Eduardo Galv\u00e3o. \u201cUma gera\u00e7\u00e3o toda naufragou intelectualmente\u201d \u2013 concordou Djalma Batista. S\u00f3 no p\u00f3s-guerra quando surgiu, enfim, o Teatro Escola Amazonense de Amadores (TEAA), o palco voltou a se iluminar com duas pe\u00e7as encenadas pela Bia.<\/p>\n<p>\u201cJudas no Tribunal\u201d estreou em abril de 1963, com a Bia protagonizando a relatora do processo. A pe\u00e7a, com toques brechtianos, incorporou no corpo de jurados todos os espectadores, 339 dos quais votaram com a relatora, indultando o Iscariotes, contra 286 votos contr\u00e1rios. Ningu\u00e9m ali apoiava o traidor, \u00e9 claro, mas a maioria decidiu que quem devia conden\u00e1-lo \u201cera sua pr\u00f3pria consci\u00eancia, que decretou a pena de morte por enforcamento\u201d.<\/p>\n<p>Os ensaios da outra pe\u00e7a \u2013 A Prostituta Respeitosa \u2013 come\u00e7aram pouco antes do golpe militar de 1964, que prendeu artistas, l\u00edderes sindicais e estudantis no Quartel do GEF (Grupamento de Elementos de Fronteira) na ilha de S\u00e3o Vicente, o que criou constrangimento ao TEAA. Mas o espet\u00e1culo estreou sem problemas no dia 14 de julho, com Bia interpretando Lizzie, a meretriz e, no papel do negro, o ator branco H\u00e9lio \u00c1zaro, o corpo enegrecido pintado com pasta de rolha queimada misturada com cerveja.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio dessa pe\u00e7a antirracista \u00e9 uma cidade no sul dos Estados Unidos. Dois homens negros s\u00e3o acusados de um crime que n\u00e3o cometeram. Um deles \u00e9 assassinado por um homem branco. O outro foge e se refugia no quarto de Lizzie-Bia, pedindo que ela deponha em seu favor. Um senador e o primo do assassino a pressionam para prestar falso testemunho e incriminar o negro. Ela tenta n\u00e3o tomar partido.<\/p>\n<p>Embora os artistas fossem \u201camadores\u201d, fiquei deslumbrado como se estivesse na Broadway banhada por um igarap\u00e9. \u00c9 que Manaus n\u00e3o oferecia diversidade teatral para educar o p\u00fablico, que tamb\u00e9m era \u201camador\u201d, o que nos deixava sem par\u00e2metros cr\u00edticos. O sucesso local das duas pe\u00e7as resultou em convites para encen\u00e1-las no Par\u00e1 e no Amap\u00e1, cujos governadores haviam sido nomeados pela ditadura e n\u00e3o pelo voto popular: coronel Jarbas Passarinho (PA) e general Lu\u00eds Mendes da Silva (AP).<\/p>\n<p>O governador eleito do Amazonas, Pl\u00ednio Coelho, foi cassado e em seu lugar nomeado Arthur Reis, que era de direita, mas n\u00e3o era brucutu e incentivou o teatro desde que n\u00e3o fosse por ele contestado. Em Bel\u00e9m, as cinco apresenta\u00e7\u00f5es foram sucesso de p\u00fablico e de m\u00eddia. Mas em Macap\u00e1, com o Cineteatro superlotado no dia 7 de setembro, os aplausos dos espectadores foram interrompidos pelo general Mendes da Silva que, imbroch\u00e1vel, subiu ao palco e vociferou um discurso delirante e racista transcrito por Gebes Medeiros (O Jornal, 19\/09\/1964):<\/p>\n<p>\u2013 Povo do Amap\u00e1. Este espet\u00e1culo \u00e9 uma afronta aos nossos brios revolucion\u00e1rios. Esta pe\u00e7a \u00e9 autenticamente comunista e esses mo\u00e7os certamente est\u00e3o contaminados pelo credo vermelho. Qual dos senhores espectadores possui uma filha para casar com um negro? Tudo que est\u00e1 na pe\u00e7a \u00e9 falso. N\u00e3o existe prostitui\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos. Eu estive l\u00e1.<\/p>\n<p>Ele esteve l\u00e1, n\u00e3o viu prostitui\u00e7\u00e3o, nem a bandeira do pa\u00eds. A pol\u00edcia prendeu os atores e levou-os em um cambur\u00e3o para a Delegacia. \u201cFicamos incomunic\u00e1veis, com dois policiais vigiando os nossos m\u00ednimos gestos\u201d \u2013 conta Gebes. Os meganhas entraram nos quartos do hotel e revistaram todas as maletas, embrulhos, material cenogr\u00e1fico, guarda-roupas. Entre os documentos apreendidos, havia um di\u00e1rio \u00edntimo da Bia e uma bandeira com estrelas, desconhecida das autoridades:<\/p>\n<p>Chefe de Pol\u00edcia \u2013 Que faz essa bandeira t\u00e3o escondida em sua pasta? O que ela representa? \u00c9 a bandeira de alguma Rep\u00fablica Comunista?<\/p>\n<p>Gebes \u2013 (responde entredentes, como se estivesse representando no palco) \u00c9 a bandeira do meu Estado. Do Amazonas. Era um presente ao governador.<\/p>\n<p>Narrado de forma exemplar no livro escrito por Selda Vale e Ediney Azancoth, o epis\u00f3dio \u201cn\u00e3o era fruto apenas do autoritarismo de um governador neur\u00f3tico, ignorante e d\u00e9bil mental, mas parte de um esquema de repress\u00e3o que se generalizava no Brasil contra os grupos de teatro, artistas, intelectuais, jornalistas, estudantes, sindicalistas\u201d.<\/p>\n<p>Manaus, a chuva de ontem continua molhando hoje teus filhos, como comprova o discurso racista da atual diretora do Teatro Amazonas, Sigrid Cetraro, que viralizou. Ela entroniza a bestialidade e nos faz retroceder ao tempo em que os fantasmas saltitavam sobre as pelas de borracha. Para que amanh\u00e3 a chuva n\u00e3o afogue teus netos, sua demiss\u00e3o do cargo foi pedida em nota de rep\u00fadio assinada por artistas e representantes do Conselho de Cultura do Estado.<\/p>\n<p>\u2013 \u201cMais ef\u00eamera ainda do que a curta mem\u00f3ria do sofrimento passado \u00e9 a imagina\u00e7\u00e3o projetada do sofrimento que ainda vir\u00e1. Devemos combater a apatia daqueles que nada fazem contra o que os espera\u201d \u2013 escreve Brecht, que nos leva a formular algumas perguntas:<\/p>\n<p>Seremos asfixiados outra vez, no plano local, por um r\u00e9u acusado de fraude ao comprar respiradores de uma importadora de vinhos e que se tornou c\u00famplice, no plano nacional, de um comprador de dezenas de im\u00f3veis com dinheiro vivo? Depois de nos asfixiar fisicamente, retirar\u00e3o o oxig\u00eanio intelectual das manifesta\u00e7\u00f5es culturais? Tem raz\u00e3o o poeta Ald\u00edsio Filgueiras ao dizer que \u201cessa Manaus que se vai, j\u00e1 se esvaiu h\u00e1 muito tempo, quando da seringueira se extraiu a \u00faltima gota de l\u00e1tex\u201d?<\/p>\n<p>Brecht insiste e n\u00f3s com ele:<\/p>\n<p>\u2013 Ningu\u00e9m vai me convencer de que \u00e9 in\u00fatil apelar para que as pessoas raciocinem contra seus inimigos. Vamos repetir sem cessar aquilo que j\u00e1 foi dito mil vezes, para n\u00e3o corrermos o risco de deixar de dizer uma vez menos do que \u00e9 necess\u00e1rio: quem esquece o passado, dele n\u00e3o poder\u00e1 escapar\u201d.<\/p>\n<p>A alternativa \u00e9 matarmos ontem a ave agourenta com uma pedra que ainda vamos atirar nas urnas no dia 30 de outubro, \u00e0 semelhan\u00e7a do oriki citado por Pierre Verger. Que a mem\u00f3ria do Thomazinho, da Bia e das pessoas asfixiadas nos salve. Que o nascimento de Sim\u00f3n Luiz na quinta-feira (6\/10), filho da candidata a vice-governadora Anne Moura, simbolize a virada. Que o rec\u00e9m-nascido \u201ccorrompa com sangue novo a anemia, infeccione a mis\u00e9ria com vida nova e sadia\u201c, como canta Jo\u00e3o Cabral:<\/p>\n<p>\u201cQue o entusiasmo conserve vivas\/suas molas\/e possa enfim o ferro\/comer a ferrugem\/o sim comer o n\u00e3o\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje quero falar contigo, Manaus, para te dizer que uma cidade, que vota majoritariamente contra seus pr\u00f3prios interesses e que n\u00e3o sabe escolher entre o fascismo e a democracia, \u00e9 uma cidade desmemoriada. 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