{"id":293738,"date":"2022-10-27T09:18:25","date_gmt":"2022-10-27T12:18:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=293738"},"modified":"2022-10-27T09:18:25","modified_gmt":"2022-10-27T12:18:25","slug":"afegaos-continuam-vivendo-no-aeroporto-de-guarulhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/afegaos-continuam-vivendo-no-aeroporto-de-guarulhos\/","title":{"rendered":"Afeg\u00e3os continuam vivendo no Aeroporto de Guarulhos"},"content":{"rendered":"<p>Fugindo do poder dos radicais do Talib\u00e3, dezenas de afeg\u00e3os continuam chegando diariamente ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo. Munidos com o visto humanit\u00e1rio, muitos deles entram no Brasil e, sem conseguir ajuda para moradia ou trabalho, acabam montando acampamento no aeroporto.<\/p>\n<p>Ao menos uma centena deles continuava fazendo do Terminal 2 sua moradia. Segundo a prefeitura de Guarulhos, at\u00e9 a manh\u00e3 de ontem havia 116 afeg\u00e3os vivendo no aeroporto, aguardando acolhimento.<\/p>\n<p>Alguns deles est\u00e3o no aeroporto h\u00e1 quase 20 dias. Mas o movimento por l\u00e1 \u00e9 sempre constante. H\u00e1 quem fique muitas semanas. H\u00e1 quem tenha chegado h\u00e1 poucos dias. \u00c9 o caso de uma afeg\u00e3* de 27 anos que trabalha com redes sociais de um \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico e que veio com o marido para o Brasil. No pa\u00eds h\u00e1 cinco dias, ela diz que deixou seu pa\u00eds natal porque, desde que o Talib\u00e3 assumiu o poder no Afeganist\u00e3o, ela n\u00e3o pode mais exercer uma profiss\u00e3o. Por ser mulher, ela tamb\u00e9m n\u00e3o pode mais estudar. \u201cEu espero encontrar um bom lugar para viver no Brasil. Esse aeroporto n\u00e3o \u00e9 uma casa, n\u00e3o h\u00e1 camas, \u00e9 problem\u00e1tico [viver aqui]\u201d, disse.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m aqueles que conseguem um lugar para morar. Esse \u00e9 o caso de uma afeg\u00e3* de 26 anos que chegou ao pa\u00eds com suas duas irm\u00e3s. Elas ficaram vivendo no aeroporto por 14 dias, at\u00e9 que, com a ajuda de volunt\u00e1rios que t\u00eam atuado no aeroporto desde agosto deste ano, conseguiu uma casa para ficar. \u201cEu estou em uma casa e feliz\u201d, disse \u00e0 reportagem. Agora, ela espera que o pa\u00eds possa lhe abrir outras oportunidades. \u201cEu espero que o Brasil me ofere\u00e7a oportunidades para tentar realizar meus sonhos. Meu sonho \u00e9 fazer meu mestrado e conseguir meu emprego\u201d, disse.<\/p>\n<p><strong>Raz\u00f5es humanit\u00e1rias<\/strong><br \/>\nO Brasil se tornou destino de muitos afeg\u00e3os desde que, em setembro do ano passado, foi publicada uma portaria interministerial autorizando o visto tempor\u00e1rio e a autoriza\u00e7\u00e3o de resid\u00eancia por raz\u00f5es humanit\u00e1rias.<\/p>\n<p>\u201cA emiss\u00e3o de vistos para cidad\u00e3os afeg\u00e3os come\u00e7ou em setembro de 2021, por meio de uma Portaria Interministerial que autorizou o visto tempor\u00e1rio e a autoriza\u00e7\u00e3o de resid\u00eancia por raz\u00f5es humanit\u00e1rias para nacionais afeg\u00e3os, ap\u00e1tridas e pessoas afetadas pela situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia no Afeganist\u00e3o\u201d, explicou o defensor p\u00fablico federal Guillermo Rojas de Cerqueira C\u00e9sar.<\/p>\n<p>\u201cSegundo dados da ACNUR [Alto-comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados], entre o come\u00e7o de setembro do ano passado e o in\u00edcio do mesmo m\u00eas deste ano, 5.846 vistos humanit\u00e1rios foram autorizados por esta portaria. Segundo a Pol\u00edcia Federal, 2.240 entradas de pessoas afeg\u00e3s no Brasil foram permitidas\u201d, acrescentou o defensor.<\/p>\n<p>Ao chegar ao Brasil, os afeg\u00e3os recebem alimentos, \u00e1gua, roupas e vacinas que s\u00e3o distribu\u00eddos pela prefeitura de Guarulhos ou por volunt\u00e1rios. Mas, pela Lei de Migra\u00e7\u00e3o (Lei n\u00ba 13.445\/2017), esses afeg\u00e3os tamb\u00e9m deveriam ter assegurados seus direitos a moradia, trabalho, assist\u00eancia jur\u00eddica, educa\u00e7\u00e3o e acesso a programas e benef\u00edcios sociais.<\/p>\n<p>\u201cEsse \u00e9 o grande gargalo da quest\u00e3o. Ao que parece, o governo subdimensionou a vinda desses imigrantes e n\u00e3o ofereceu um plano de interioriza\u00e7\u00e3o adequado, deixando esses cidad\u00e3os sem qualquer amparo assistencial. Atualmente, h\u00e1 um acolhimento emergencial, mas sem uma pol\u00edtica p\u00fablica adequada de acolhimento para essas pessoas\u201d, explicou o defensor.<\/p>\n<p>Segundo ele, o que os afeg\u00e3os mais necessitam nesse momento \u00e9 de um abrigo adequado. \u201cDe forma imediata, [eles precisam de] abrigamento adequado, por meio de centros de acolhida com infraestrutura necess\u00e1ria para manuten\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo familiar, al\u00e9m de assist\u00eancia social e assist\u00eancia psicol\u00f3gica. Posteriormente, um plano de interioriza\u00e7\u00e3o que valorize as capacidades individuais para inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho e inser\u00e7\u00e3o social na comunidade que os recebe\u201d, disse o defensor.<\/p>\n<p><strong>Volunt\u00e1rios<\/strong><br \/>\n\u201cEles precisam de tudo, eles n\u00e3o t\u00eam nada. Eles t\u00eam uma mala com 32 quilos, que \u00e9 a vida deles todinha\u201d, disse a volunt\u00e1ria Ot\u00edlia Christiane Silva Afonso, do Coletivo Frente Afeg\u00e3.<\/p>\n<p>\u201cEles vem para c\u00e1 como refugiados. Ent\u00e3o, a necessidade que eles t\u00eam \u00e9 de prote\u00e7\u00e3o humana, \u00e0 vida, \u00e0 sa\u00fade, ao nome e sobrenome. Eles est\u00e3o aqui porque n\u00e3o podem permanecer no pa\u00eds deles. Temos relatos de pessoas que t\u00eam forma\u00e7\u00e3o em diversos cursos e n\u00edveis superiores. Eles querem trabalhar, mas n\u00e3o est\u00e3o encontrando aqui esta oportunidade que foi dito que seria dada nessa chegada ao Brasil. Eles est\u00e3o vivendo um ref\u00fagio no aeroporto &#8211; um lugar de passagem \u2013 e n\u00e3o em um lugar de acolhimento. Isso \u00e9 de uma desumanidade muito grande\u201d, destacou Ot\u00edlia, uma das pessoas que se voluntariou para ajudar os afeg\u00e3os que chegam ao aeroporto.<\/p>\n<p>A pesquisadora e soci\u00f3loga Mariana Gerbassi, 25 anos, tamb\u00e9m integra o coletivo e vem trabalhando de forma volunt\u00e1ria para acolher os afeg\u00e3os. \u201cEles precisam de um emprego para conseguir se manter. Mas sem moradia, eles n\u00e3o conseguem emprego. Sem emprego, eles dependem da moradia p\u00fablica. E a moradia p\u00fablica tem o problema de n\u00e3o atender a realidade das fam\u00edlias afeg\u00e3s\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cUma das quest\u00f5es com que temos lidado \u00e9 que os afeg\u00e3os v\u00e3o para os abrigos e acabam voltando [ao aeroporto]. A quest\u00e3o dos abrigos p\u00fablicos \u00e9 que eles separam homens e mulheres, separam as fam\u00edlias. E para uma pessoa que n\u00e3o fala nem o ingl\u00eas, muito menos o portugu\u00eas, estar sozinho e em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade e ainda separar as fam\u00edlias, isso n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o eles preferem ficar no aeroporto, ainda que em uma situa\u00e7\u00e3o inferior, do que ficar separado de suas fam\u00edlias. Tamb\u00e9m tem uma quest\u00e3o cultural que \u00e9 espec\u00edfica dessa comunidade afeg\u00e3 e que os abrigos n\u00e3o tem conseguido atender, como o modo deles de se socializar. Isso s\u00e3o coisas que precisam de muita aten\u00e7\u00e3o\u201d, falou Mariana.<\/p>\n<p>Desde agosto, os volunt\u00e1rios v\u00e3o diariamente ao aeroporto. S\u00e3o eles que t\u00eam cobrado as autoridades, arrecadado doa\u00e7\u00f5es e oferecido alimentos, roupas, banhos, abrigos e at\u00e9 atendimento m\u00e9dico, psic\u00f3logo e aulas de portugu\u00eas para os afeg\u00e3os que chegam ao pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cDesde o come\u00e7o, reunimos o grupo para dar assist\u00eancia a essas pessoas. Eles chegavam, n\u00e3o tinham as refei\u00e7\u00f5es direito e fic\u00e1vamos preocupados. A partir desse momento, fomos reunindo pessoas, os grupos foram chegando e, hoje, os afeg\u00e3os fazem as tr\u00eas refei\u00e7\u00f5es di\u00e1rias, t\u00eam atendimento m\u00e9dico e cobertas\u201d, disse Ot\u00edlia. \u201cA prefeitura [de Guarulhos] tem ajudado com o almo\u00e7o e as quentinhas. Mas o caf\u00e9 da manh\u00e3 e as frutas eles s\u00f3 tem gra\u00e7as \u00e0 sociedade civil\u201d, acrescentou Mariana.<\/p>\n<p><strong>Demanda crescente<\/strong><br \/>\nDesde janeiro, o Posto Avan\u00e7ado de Atendimento Humanizado ao Migrante, instalado no aeroporto, j\u00e1 havia atendido 1.138 afeg\u00e3os. Somente em outubro, 237 passaram pelo posto buscando ajuda.<\/p>\n<p>Por causa desse aumento na demanda, a prefeitura de Guarulhos abriu uma resid\u00eancia transit\u00f3ria para migrantes e refugiados, com capacidade para abrigar 27 pessoas. No entanto, o local est\u00e1 lotado. No dia 7 de outubro, para acolher emergencialmente fam\u00edlias afeg\u00e3s com idosos, deficientes e gr\u00e1vidas, foram abertas 20 novas vagas. Mas isso ainda \u00e9 insuficiente para atender a demanda que cresce a cada dia.<\/p>\n<p>Procurada pela Ag\u00eancia Brasil, a Secretaria estadual de Desenvolvimento Social informou que est\u00e1 investindo R$ 2,8 milh\u00f5es em 100 vagas de acolhimento e que metade desse valor est\u00e1 sendo utilizado para abrir 50 vagas at\u00e9 dezembro em uma Casa de Passagem em Guarulhos. O restante est\u00e1 financiando os 50 afeg\u00e3os que est\u00e3o vivendo atualmente na Casa de Passagem Terra Nova.<\/p>\n<p>Somente neste ano, informou a secretaria, 123 afeg\u00e3os j\u00e1 foram atendidos na Casa de Passagem Terra Nova. \u201cAs vagas de acolhimento s\u00e3o rotativas e o tempo de perman\u00eancia varia. Eles ficam de uma semana a 18 meses, por exemplo. Essas pessoas podem permanecer nos equipamentos por tempo indeterminado at\u00e9 comprovarem condi\u00e7\u00f5es de moradia aut\u00f4noma\u201d, informou o \u00f3rg\u00e3o, em nota.<\/p>\n<p>A Secretaria estadual da Justi\u00e7a e Cidadania tamb\u00e9m informa que atendeu cerca de 70 afeg\u00e3os com emiss\u00f5es de CPF, pedidos de protocolos de ref\u00fagios (SIS Conare), regulariza\u00e7\u00f5es de imigra\u00e7\u00e3o, aplica\u00e7\u00f5es de vacinas e distribui\u00e7\u00e3o de roupas. Dois mutir\u00f5es foram realizados para a realiza\u00e7\u00e3o desses servi\u00e7os: um deles em setembro e, o outro, agora em outubro.<\/p>\n<p>Por meio de nota, o Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores (MRE) informou que vem mantendo a\u00e7\u00f5es de coordena\u00e7\u00e3o com ag\u00eancias especializadas das Na\u00e7\u00f5es Unidas (Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Refugiados \u2013 ACNUR e Organiza\u00e7\u00e3o Internacional para as Migra\u00e7\u00f5es \u2013 OIM) &#8220;com vistas a buscar solu\u00e7\u00f5es para os casos de maior vulnerabilidade&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Na maioria dos casos, a vinda de afeg\u00e3os e afeg\u00e3s ao Brasil foi intermediada por organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, que os recebem e promovem sua integra\u00e7\u00e3o local. Parcela minorit\u00e1ria n\u00e3o conta com esse apoio pr\u00e9vio da sociedade civil organizada e chega ao pa\u00eds em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade. A assist\u00eancia social a essa popula\u00e7\u00e3o deve ser brindada pelos entes p\u00fablicos com compet\u00eancia legal para tanto. O Itamaraty, embora n\u00e3o conte com essa compet\u00eancia legal espec\u00edfica, vem atuando na articula\u00e7\u00e3o e oferecendo sugest\u00f5es de medidas a demais entidades governamentais envolvidas no assunto, nas esferas federal, estadual e municipal&#8221;, diz o \u00f3rg\u00e3o, em nota.<\/p>\n<p>O MRE informou ainda que promoveu uma reuni\u00e3o com embaixadas sediadas em Bras\u00edlia para mobilizar apoio financeiro a a\u00e7\u00f5es de acolhida.<\/p>\n<p><strong>*Os nomes das entrevistadas ser\u00e3o preservados por motivo de seguran\u00e7a<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fugindo do poder dos radicais do Talib\u00e3, dezenas de afeg\u00e3os continuam chegando diariamente ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo. 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