{"id":293921,"date":"2022-10-31T17:58:27","date_gmt":"2022-10-31T20:58:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=293921"},"modified":"2022-11-03T05:47:56","modified_gmt":"2022-11-03T08:47:56","slug":"associacao-socorre-e-acolhe-mulheres-dependentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/associacao-socorre-e-acolhe-mulheres-dependentes\/","title":{"rendered":"Associa\u00e7\u00e3o socorre e acolhe mulheres dependentes"},"content":{"rendered":"<p>A nutricionista Isabela Cristina, de Mossor\u00f3 (RN), 40 anos, come\u00e7ou a beber ainda na adolesc\u00eancia, de forma recreativa. Sua depend\u00eancia do \u00e1lcool foi um processo que progrediu pouco a pouco ao longo da vida adulta.<\/p>\n<p>&#8220;Era o que chamamos de uma alcoolista funcional, trabalhava, cumpria meus compromissos normalmente. Por\u00e9m, no final do dia, tinha sempre que ter essa recompensa. Eu j\u00e1 era alcoolista, mas n\u00e3o sabia&#8221;, conta.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o foi evoluindo at\u00e9 que veio a pandemia. &#8220;Comecei a beber todos os dias, naquele confinamento, assistindo lives [transmiss\u00f5es ao vivo pela internet]. Beber era minha \u00fanica divers\u00e3o. A partir de um determinado momento, comecei a acordar \u00e0s 5h e come\u00e7ava a ingerir \u00e1lcool, at\u00e9 meu marido me alertar sobre o uso excessivo e eu decidir buscar ajuda&#8221;, lembra.<\/p>\n<p>O per\u00edodo de isolamento social provocado pela pandemia, principalmente ao longo de 2020 e 2021, levou as pessoas a aumentarem o consumo de \u00e1lcool. Um estudo realizado pela Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana de Sa\u00fade (Opas) em 33 pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e do Caribe apontou que 42% dos entrevistados no Brasil relataram alto consumo de \u00e1lcool durante esse per\u00edodo, particularmente entre as mulheres.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o tenha sido causa, a pandemia acabou desvelando um problema que vem gerando preocupa\u00e7\u00e3o em especialistas: o aumento do consumo de \u00e1lcool pela popula\u00e7\u00e3o feminina. N\u00e3o h\u00e1 muitas pesquisas dispon\u00edveis sobre esse cen\u00e1rio, mas alguns n\u00fameros s\u00e3o reveladores.<\/p>\n<p>O levantamento do Sistema de Vigil\u00e2ncia de Fatores de Risco e Prote\u00e7\u00e3o para Doen\u00e7as Cr\u00f4nicas (Vigitel), uma plataforma do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, mostra que, de 2010 a 2018, o \u00edndice de mulheres de 18 a 24 anos que bebem al\u00e9m do recomendado cresceu de 14,9% para 18%. Na faixa et\u00e1ria dos 35 aos 44 anos, esse \u00edndice passou de 10,9% para 14%.<\/p>\n<p>Chama a aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m o consumo de bebida alco\u00f3lica entre mulheres idosas: 11,3% daquelas com idades entre 55 e 65 anos bebe al\u00e9m do recomendado, de acordo com o 3\u00ba Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela Popula\u00e7\u00e3o Brasileira, realizado pela Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz).<\/p>\n<p>&#8220;Os homens ainda bebem mais que as mulheres, mas pesquisas recentes est\u00e3o mostrando que as meninas adolescentes j\u00e1 est\u00e3o bebendo igual ou mais do que os meninos adolescentes, ent\u00e3o est\u00e1 havendo uma mudan\u00e7a nessa faixa et\u00e1ria&#8221;, destaca Claudia Leiria, psic\u00f3loga especializada em depend\u00eancia qu\u00edmica e fundadora da Associa\u00e7\u00e3o Alcoolismo Feminino (AAF). A entidade desenvolve um acolhimento exclusivo para mulheres alcoolistas.<\/p>\n<p>Segundo o Observat\u00f3rio Brasileiro de Informa\u00e7\u00f5es sobre Drogas (Obid), at\u00e9 2030 o n\u00famero de mulheres dependentes do \u00e1lcool ser\u00e1 igual ao dos homens. &#8220;Por que isso \u00e9 preocupante? A mulher tem menos \u00e1gua no corpo do que os homens e, conforme avan\u00e7a a idade, essa propor\u00e7\u00e3o de \u00e1gua corporal vai diminuindo. Portanto, quando a mulher consome o \u00e1lcool, ele tem pouca dilui\u00e7\u00e3o da subst\u00e2ncia, que fica mais concentrada, e causa mais danos do que no homem&#8221;, explica Leiria.<\/p>\n<p>Outro fator biol\u00f3gico \u00e9 o tamanho padr\u00e3o da mulher, que s\u00e3o mais baixas que os homens. Nesses casos, o \u00e1lcool percorre o sistema circulat\u00f3rio mais rapidamente no organismo. &#8220;A mulher tamb\u00e9m tem mais gordura corporal e a gente sabe que o \u00e1lcool fixa-se mais em tecido adiposo, ou seja, ele adere mais \u00e0 gordura do que ao m\u00fasculo, permanecendo um tempo maior no organismo da mulher do que o homem&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p><strong>De mulheres para mulheres<\/strong><br \/>\nApesar da crescente preocupa\u00e7\u00e3o com o consumo excessivo de \u00e1lcool pelas mulheres, fen\u00f4meno at\u00e9 pouco tempo negligenciado e at\u00e9 silenciado socialmente, h\u00e1 poucas pol\u00edticas de acolhimento espec\u00edficas para esse p\u00fablico. Foi o que percebeu a empreendedora Grazi Santoro, quando decidiu buscar ajuda para enfrentar a pr\u00f3pria depend\u00eancia. S\u00f3bria h\u00e1 14 anos, ela buscou ajuda nos Alc\u00f3olicos An\u00f4nimos (AA), onde diz ter sido bem acolhida, mas o ambiente ainda \u00e9 hostil para as mulheres, que s\u00e3o estigmatizadas.<\/p>\n<p>&#8220;Durante todo o tempo em que eu fui acolhida no AA, e fiquei em recupera\u00e7\u00e3o, num grupo de 12 passos, me do\u00eda muito perceber que poucas mulheres chegavam nesse espa\u00e7o. Era predom\u00ednio de 10 homens para cada mulher. Quando n\u00f3s, mulheres, chegamos num grupo, a gente chega carente, muitas vezes separadas, solteiras, e o machismo estrutural est\u00e1 dentro de grupos, como est\u00e1 dentro de todos os espa\u00e7os sociais. O programa de 12 passos funciona e salvou minha vida, mas o ambiente \u00e9 machista, predominantemente composto por homens machistas. Ent\u00e3o, n\u00f3s somos assediadas e, \u00e0s vezes, at\u00e9 violentadas&#8221;, relata.<\/p>\n<p>Em fevereiro 2020, pouco antes da pandemia e j\u00e1 fora do anonimato como alcoolista, Grazi decidiu compartilhar sua hist\u00f3ria publicamente, para estimular outras mulheres que queriam tratar a depend\u00eancia a saber como fazer.<\/p>\n<p>&#8220;Foi quando lan\u00e7amos o Coletivo Alcoolismo Feminino, nos apresentando como mulheres em recupera\u00e7\u00e3o e buscando outras mulheres que queriam ajuda, al\u00e9m de familiares dessas mulheres que querem ajuda&#8221;.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s conceder uma entrevista em um programa de televis\u00e3o, na mesma \u00e9poca, Grazi viu a procura por ajuda explodir nas suas redes. Com isso, Grazi Santoro e a psic\u00f3loga Claudia Leiria come\u00e7aram a estruturar o coletivo a partir de grupos em aplicativos de mensagem do celular.<\/p>\n<p>Num primeiro momento, elas tentavam orientar as mulheres que chegavam a procurar um AA, mas muitas delas at\u00e9 j\u00e1 tinham ido e n\u00e3o se identificavam.<\/p>\n<p>&#8220;A gente come\u00e7ou ent\u00e3o a criar formas de acolhimento com base no que elas traziam de demanda e passamos a realizar os encontros virtuais. O tratamento n\u00e3o \u00e9 somente mudar os h\u00e1bitos e evitar certos lugares, mas cuidar de outras comorbidades que essas mulheres normalmente t\u00eam. Muitas, por exemplo, t\u00eam depress\u00e3o, ent\u00e3o n\u00e3o adianta s\u00f3 parar de beber, tem que tratar da depress\u00e3o. Outras viviam num ciclo de viol\u00eancia dom\u00e9stica e o consumo de \u00e1lcool potencializava isso, ent\u00e3o tinha que olhar paras as v\u00e1rias dimens\u00f5es do problema&#8221;, explica Grazi Santoro.<\/p>\n<p>Desde que come\u00e7ou como um coletivo, passando para uma associa\u00e7\u00e3o, a AAF j\u00e1 acolheu mais de 1,2 mil mulheres no pa\u00eds, al\u00e9m de brasileiras residentes na Europa e mulheres portuguesas e angolanas. Atualmente, contam com apoio da Opas\/OMS e chegaram a participar de eventos internacionais promovidos pela organiza\u00e7\u00e3o para falar sobre as especificidades do alcoolismo entre mulheres.<\/p>\n<p><strong>Grupos terap\u00eauticos<\/strong><br \/>\nUma das caracter\u00edsticas do processo de acolhimento e tratamento da depend\u00eancia do \u00e1lcool feito na Associa\u00e7\u00e3o Alcoolismo Feminino (AAF) \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o por meio de grupos terap\u00eauticos. S\u00e3o seis ativos no momento: codepend\u00eancia, transtornos alimentares, preven\u00e7\u00e3o de reca\u00eddas, viol\u00eancia contra mulheres, LBTQIA+, maternagem e familiares. Esses grupos tratam algumas das principais especificidades do alcoolismo entre mulheres.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 14 profissionais volunt\u00e1rias, que incluem psic\u00f3logas e nutricionistas, que apoiam a recupera\u00e7\u00e3o dessas pessoas. Pelo menos 7 reuni\u00f5es e rodas de estudos ocorrer semanalmente de forma virtual. Integrantes da AAF tamb\u00e9m costumam promover palestras em empresas, cl\u00ednicas de recupera\u00e7\u00e3o, escolas, universidades e institui\u00e7\u00f5es da sociedade civil.<\/p>\n<p>Dona de um bar no interior do Rio de Janeiro, Eliete de Abreu Tavares, 40 anos, est\u00e1 h\u00e1 2 anos e 2 meses sem beber. Antes de buscar tratamento para sua depend\u00eancia, ela viveu in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es de constrangimento e at\u00e9 exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia entre amigos e familiares.<\/p>\n<p>&#8220;Me tornei uma pessoa agressiva, tinha apag\u00f5es alc\u00f3olicos, n\u00e3o me lembrava da noite anterior. Todo final de semana eu come\u00e7ava a beber feliz, alegre com todo mundo, mas, no dia seguinte, as pessoas n\u00e3o falavam comigo, porque eu tinha ofendido algu\u00e9m, tinha quebrado coisas em casa. Eu j\u00e1 n\u00e3o estava aguentando, \u00e9 um ciclo muito triste&#8221;, revela.<\/p>\n<p>Sem saber da exist\u00eancia da AAF, Eliete foi numa reuni\u00e3o do AA e n\u00e3o se sentiu bem. &#8220;Eu n\u00e3o me senti bem no AA, \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o muito machista. Al\u00e9m disso, sou l\u00e9sbica e n\u00e3o me sentia segura de falar da minha vida. Uma pessoa que conhecia foi quem me disse sobre um grupo de mulheres alc\u00f3olatras. Quando encontrei a AAF, foi um divisor de \u00e1guas na minha vida&#8221;, conta.<\/p>\n<p>&#8220;A diferen\u00e7a que eu vejo da AAF para os outros grupos de acolhimento \u00e9 que tem mais amorosidade, menos julgamento e mais acolhimento. A mulher se sente mais \u00e0 vontade para partilhar sua dor. Temos grupos terap\u00eauticos para mulheres que sofreram abusos e viol\u00eancia, para m\u00e3es ou filhos de alcoolistas, para mulheres que sofrem transtornos alimentares. Quando uma mulher recai, a gente dobra esse apoio, essa aten\u00e7\u00e3o, mas sem julgamento, at\u00e9 porque ela j\u00e1 chega carregada de muita culpa. \u00c9 preciso levantar a autoestima, fazer essa mulher acreditar nela&#8221;, argumenta.<\/p>\n<p>Atualmente, Eliete \u00e9 das volunt\u00e1rias na AAF, onde atua como guardi\u00e3 de um dos grupos de mensagens de mulheres. Esses grupos servem para troca de informa\u00e7\u00f5es e depoimentos, mas tamb\u00e9m funcionam como uma esp\u00e9cie de plant\u00e3o de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c0s vezes, uma das meninas entra num momento de crise, ela avisa no grupo e imediatamente entramos em contato para conversar, acolher, at\u00e9 ela se sentir melhor. Nossa doen\u00e7a \u00e9 emocional, quando voc\u00ea est\u00e1 feliz, euf\u00f3rica, \u00e9 perigoso. E quando voc\u00ea est\u00e1 triste demais, tamb\u00e9m \u00e9 um risco de recair&#8221;.<\/p>\n<p>Para mulheres que estejam sofrendo e desejam tratar a depend\u00eancia do \u00e1lcool, Eliete faz quest\u00e3o de deixar uma mensagem: &#8220;eu diria que elas n\u00e3o precisam ter vergonha, que elas n\u00e3o est\u00e3o sozinhas, s\u00f3 precisam se dar uma oportunidade, deixar a gente amar ela enquanto ela n\u00e3o consegue&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A nutricionista Isabela Cristina, de Mossor\u00f3 (RN), 40 anos, come\u00e7ou a beber ainda na adolesc\u00eancia, de forma recreativa. Sua depend\u00eancia do \u00e1lcool foi um processo que progrediu pouco a pouco ao longo da vida adulta. &#8220;Era o que chamamos de uma alcoolista funcional, trabalhava, cumpria meus compromissos normalmente. Por\u00e9m, no final do dia, tinha sempre [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":293922,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-293921","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/293921","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=293921"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/293921\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":293923,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/293921\/revisions\/293923"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/293922"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=293921"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=293921"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=293921"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}