{"id":294084,"date":"2022-11-04T07:02:11","date_gmt":"2022-11-04T10:02:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=294084"},"modified":"2022-11-04T11:05:40","modified_gmt":"2022-11-04T14:05:40","slug":"lula-vai-enfrentar-pela-frente-terceiro-e-quarto-turnos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lula-vai-enfrentar-pela-frente-terceiro-e-quarto-turnos\/","title":{"rendered":"Lula vai enfrentar pela frente terceiro e quarto turnos"},"content":{"rendered":"<p>O leitor ou a leitora permite que eu interrompa, por um momento, as celebra\u00e7\u00f5es pela maravilhosa vit\u00f3ria no segundo turno? A intensa comemora\u00e7\u00e3o \u00e9 mais do merecida. Depois de tantos anos de sofrimento e barbaridades, voltamos finalmente a respirar.<\/p>\n<p>Sem esquecer, entretanto, que a luta continua. Bolsonaro, derrotado por pequena margem, tende a continuar aprontando. Seus apoiadores mais radicais, muitos deles inclinados \u00e0 ilegalidade e \u00e0 viol\u00eancia, est\u00e3o ressentidos e inconformados. Lula ter\u00e1 de enfrentar, provavelmente, o que alguns na m\u00eddia est\u00e3o chamando de \u201cterceiro turno\u201d, isto \u00e9, um embate perigoso contra o golpismo da extrema-direita bolsonarista. Os cuidados com a seguran\u00e7a do presidente eleito, diga-se de passagem, devem ser redobrados.<\/p>\n<p>De todo modo, arrisco prever que a vit\u00f3ria de Lula nesse terceiro turno ser\u00e1 mais f\u00e1cil do que foi a vit\u00f3ria no segundo. Bolsonaro tem pouco apoio interno e externo para uma aventura, como se viu pelo que aconteceu depois da apura\u00e7\u00e3o dos votos. O resultado da elei\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo amplamente reconhecido, tanto no Brasil como no exterior.<\/p>\n<p>Lamento dizer, por\u00e9m, que teremos tamb\u00e9m um \u201cquarto turno\u201d. N\u00e3o quero sobrecarregar o leitor ou a leitora com preocupa\u00e7\u00f5es sinistras, mas nunca \u00e9 prudente ignorar a realidade, por mais raz\u00f5es que tenhamos, neste momento, para cultivar o otimismo e as melhores expectativas para o futuro do nosso querido Pa\u00eds.<\/p>\n<p>O que seria esse \u201cquarto turno\u201d? Trata-se do processo pelo qual o poder econ\u00f4mico-financeiro tenta enquadrar o presidente eleito, atuando para que o futuro governo contemple seus interesses e privil\u00e9gios. Isso inclui extrair compromissos sobre o que ser\u00e1 e o que n\u00e3o ser\u00e1 feito. E ainda, talvez mais importante, inclui a pretens\u00e3o de escalar o time do futuro presidente, indicando quem deve e quem n\u00e3o deve ser nomeado para as principais fun\u00e7\u00f5es, sobretudo na \u00e1rea econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>O artigo talvez esteja ficando um pouco abstrato e vago. Vou tentar ser mais espec\u00edfico. O poder econ\u00f4mico-financeiro tem um objetivo primordial \u2013 n\u00e3o tendo conseguido emplacar a terceira via nas elei\u00e7\u00f5es, o seu esfor\u00e7o agora \u00e9 para garantir que Lula fuja o m\u00ednimo poss\u00edvel do script tradicional. Usando palavras mais fortes: procura-se colonizar o novo governo. Esta press\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 em curso h\u00e1 algum tempo, tendo come\u00e7ado antes do primeiro turno. Lula e seus auxiliares, tarimbados que s\u00e3o, parecem estar resistindo. Sabem muito bem que seria uma l\u00e1stima vencer no primeiro, segundo e terceiro turnos para perder no quarto.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou falando de um fen\u00f4meno novo. Em 2002, a press\u00e3o dos interesses econ\u00f4mico-financeiros resultou na nomea\u00e7\u00e3o por Lula de Palocci para a Fazenda e Meirelles para o Banco Central. Em 2014, essa press\u00e3o desembocou na nomea\u00e7\u00e3o por Dilma de Levy para a Fazenda.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria nunca se repete totalmente, mas o padr\u00e3o desejado por esses interesses \u00e9, na ess\u00eancia, o mesmo. Com uma diferen\u00e7a importante \u2013 o ponto de partida do establishment financeiro \u00e9 melhor desta vez, pois a lei de autonomia do Banco Central, aprovada durante o governo Bolsonaro, estabelece que o comando da autoridade monet\u00e1ria permanecer\u00e1 nas m\u00e3os de um executivo do mercado, Roberto Campos Neto, pelos primeiros dois anos do futuro governo. Lula herda, portanto, o presidente do Banco Central escolhido por Bolsonaro.<\/p>\n<p>No entanto, o establishment quer mais, sempre mais. Busca o controle do Minist\u00e9rio da Fazenda, com a indica\u00e7\u00e3o de um nome deles, ou palat\u00e1vel a eles, para o comando deste que \u00e9 o minist\u00e9rio mais importante. Dou de barato que o superminist\u00e9rio da Economia, uma p\u00e9ssima ideia retomada por Bolsonaro, ser\u00e1 dividido de novo em Fazenda, Planejamento e Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio. A Fazenda permanecer\u00e1, entretanto, o minist\u00e9rio mais poderoso.<\/p>\n<p>Como Lula reagir\u00e1 a essa press\u00e3o? Ele declarou durante a campanha, repetidamente, que volta para fazer mais e melhor. Ora, o desempenho p\u00edfio da economia e da sociedade brasileiras em termos de dinamismo e justi\u00e7a, exige uma mudan\u00e7a mais estrutural na condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica e em outras \u00e1reas. Como fazer essa mudan\u00e7a com a Fazenda e o Banco Central imobilizados, sob controle de setores que defendem o status quo?<\/p>\n<p>Obviamente, sob pena de configurar estelionato eleitoral, o novo governo n\u00e3o poder\u00e1 ser radicalmente diferente da Arca de No\u00e9 que venceu as elei\u00e7\u00f5es. Lula se apresentou como candidato de uma frente superampla, com expressiva participa\u00e7\u00e3o da direita tradicional, e esta realidade pol\u00edtica ser\u00e1 considerada, por suposto, na forma\u00e7\u00e3o do governo.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa, entretanto, capitular diante das press\u00f5es do chamado mercado. N\u00e3o acredito estar sendo idealista demais nem sonhando sonhos irrealiz\u00e1veis. Parece-me perfeitamente poss\u00edvel tourear essas press\u00f5es do poder econ\u00f4mico e conduzir o Pa\u00eds a um futuro melhor, de desenvolvimento com autonomia nacional e distribui\u00e7\u00e3o de renda. Isso requer coragem e clareza de prop\u00f3sitos que Lula certamente tem.<\/p>\n<p>Para terminar, vamos a algumas praticidades. Primeiro ponto: seria crucial manter o controle da Fazenda. Isso poderia se dar, talvez, pela nomea\u00e7\u00e3o de um pol\u00edtico da confian\u00e7a do presidente. Pode ser algu\u00e9m que n\u00e3o assuste o mercado, mas esse algu\u00e9m deveria estar comprometido com uma agenda inovadora. N\u00e3o um novo Palocci, pelo amor de Deus!<\/p>\n<p>Por que um pol\u00edtico, e n\u00e3o um economista? \u00c9 que o cargo exige, mais do que nunca, capacidade de interagir e negociar com o Congresso. Um pol\u00edtico com experi\u00eancia parlamentar poderia ajudar muito, sobretudo agora que os poderes do Congresso se agigantaram por causa da depend\u00eancia vital de Bolsonaro em rela\u00e7\u00e3o ao Centr\u00e3o. Economistas podem ocupar assessorias e secretarias e, quem sabe?, o comando do minist\u00e9rio do Planejamento. O ministro de Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio poderia talvez ficar com algu\u00e9m da \u00e1rea empresarial. E o Itamaraty ter\u00e1 grande peso na defini\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica externa do novo governo.<\/p>\n<p>Os bancos p\u00fablicos federais t\u00eam tamb\u00e9m import\u00e2ncia estrat\u00e9gica. \u00c9 o caso, por exemplo, do comando do BNDES, do Banco do Brasil e da Caixa Econ\u00f4mica Federal, institui\u00e7\u00f5es que ter\u00e3o papel decisivo na provis\u00e3o de cr\u00e9dito para setores priorit\u00e1rios e para impulsionar a retomada da economia e a gera\u00e7\u00e3o de empregos. Com a pol\u00edtica fiscal submetida a constrangimentos variados, em parte por causa da pesada heran\u00e7a deixada por Bolsonaro, a pol\u00edtica de cr\u00e9dito adquire ainda mais relev\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Por outro lado, no Banco Central, onde a presid\u00eancia e a maioria dos diretores ser\u00e3o, em 2023 e 2024, aqueles escolhidos por Bolsonaro, a margem de manobra \u00e9 muito menor. A lei prev\u00ea, por\u00e9m, que dois diretores ser\u00e3o nomeados no in\u00edcio de 2023 pelo novo governo. Os dois ser\u00e3o integrantes do Copom, onde se define a pol\u00edtica monet\u00e1ria, e ter\u00e3o responsabilidades espec\u00edficas, no campo dom\u00e9stico e na \u00e1rea internacional. Por exemplo, o Banco Central, junto com a Fazenda e o Itamaraty, conduz a participa\u00e7\u00e3o brasileira em f\u00f3runs como o G-20 e os BRICS. Recorde-se que, por um acaso feliz, o Brasil exercer\u00e1 a presid\u00eancia de turno desses dois f\u00f3runs em 2024!<\/p>\n<p>Bem, chega de palpites. Ningu\u00e9m me perguntou nada. Mas reitero, a t\u00edtulo de conclus\u00e3o e s\u00edntese: apesar das limita\u00e7\u00f5es e riscos, temos motivos para esperar que possa haver vit\u00f3ria no terceiro e quarto turnos tamb\u00e9m!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O leitor ou a leitora permite que eu interrompa, por um momento, as celebra\u00e7\u00f5es pela maravilhosa vit\u00f3ria no segundo turno? A intensa comemora\u00e7\u00e3o \u00e9 mais do merecida. Depois de tantos anos de sofrimento e barbaridades, voltamos finalmente a respirar. Sem esquecer, entretanto, que a luta continua. Bolsonaro, derrotado por pequena margem, tende a continuar aprontando. 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