{"id":294810,"date":"2022-11-19T16:40:13","date_gmt":"2022-11-19T19:40:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=294810"},"modified":"2022-11-19T20:43:29","modified_gmt":"2022-11-19T23:43:29","slug":"jovens-negros-tem-menos-acesso-ao-mercado-de-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/jovens-negros-tem-menos-acesso-ao-mercado-de-trabalho\/","title":{"rendered":"Jovens negros t\u00eam menos acesso ao mercado de trabalho"},"content":{"rendered":"<p>\u201cMuito, muito. \u00c9 muito dif\u00edcil a gente conseguir um emprego. Por qual motivo, eu n\u00e3o consigo entender, mas que \u00e9 dif\u00edcil, \u00e9. Principalmente agora na \u00e9poca de pandemia, est\u00e1 mais dif\u00edcil ainda. S\u00e3o poucas vagas, e as vagas s\u00e3o muito concorridas. Eles querem que a gente tenha experi\u00eancia de 30 anos, s\u00f3 que a gente tem apenas 25 anos de idade. Ou voc\u00ea tem que ter muita experi\u00eancia, tem que ter estudo. Quando a gente n\u00e3o tem nenhum dos dois, fica muito dif\u00edcil\u201d, desabafa uma jovem negra, de 25 anos, de Belo Horizonte.<\/p>\n<p>O depoimento, n\u00e3o identificado, faz parte do estudo Jovens Negros e o Mercado de Trabalho, uma pesquisa in\u00e9dita encomendada pelo Banco Mundial ao N\u00facleo de Pesquisa Afro do Centro Brasileiro de An\u00e1lise e Planejamento (Cebrap) e ao Instituto de Refer\u00eancia Negra Peregum.<\/p>\n<p>A jovem n\u00e3o est\u00e1 sozinha \u2013 o estudo mostra que, embora a popula\u00e7\u00e3o negra seja maioria no Brasil, 56%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), essa parcela \u00e9 a que tem os menores \u00edndices de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade e ao mercado de trabalho. S\u00e3o tamb\u00e9m os negros que mais sofrem com os altos \u00edndices de viol\u00eancia e encarceramento no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O estudo usa dados de pesquisas do IBGE, al\u00e9m de entrevistas feitas com jovens em Bel\u00e9m, Recife, Bras\u00edlia, Belo Horizonte e Porto Alegre. Os dados mostram que a contrata\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo os sal\u00e1rios variam de acordo com a ra\u00e7a, o g\u00eanero e se se trata, ou n\u00e3o, de uma pessoa com defici\u00eancia. Prova disso \u00e9 que, no Brasil, de um lado, quase metade dos empregadores s\u00e3o homens brancos (45%) e mais da metade das mulheres brancas t\u00eam v\u00ednculo empregat\u00edcio formal. Do outro lado, 60% dos trabalhadores informais s\u00e3o negros.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisa, o esfor\u00e7o de inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho \u201cmuitas vezes \u00e9 cercado de constrangimentos que terminam por [se] constituir [em] barreiras de ingresso\u201d, diz o texto. Dentre os 70 entrevistados, 28 jovens mencionaram barreiras percebidas no processo de contrata\u00e7\u00e3o. Em primeiro lugar, 28 pessoas destacaram a relev\u00e2ncia da apar\u00eancia, como a cor de pele ou \u201c&#8230;destoar de um padr\u00e3o de RH [recursos humanos]\u201d. Dezessete dos entrevistados chamaram a aten\u00e7\u00e3o para a falta de experi\u00eancia, 11 para a forma\u00e7\u00e3o insuficiente, seis destacaram o territ\u00f3rio de origem ou de resid\u00eancia e seis, a identidade de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Mesmo no mercado de trabalho formal, o tratamento entre brancos e negros n\u00e3o \u00e9 igual. Entre pessoas com a mesma escolaridade e o mesmo status ocupacional, homens negros, mulheres brancas e mulheres negras n\u00e3o t\u00eam a mesma renda dos homens brancos com escolariza\u00e7\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o semelhantes. Os dados nacionais mostram que homens brancos profissionais e propriet\u00e1rios recebem, em m\u00e9dia, R$ 8.458, enquanto as mulheres negras, profissionais e propriet\u00e1rias recebem 54% menos, ou R$ 3.966.<\/p>\n<p>A pandemia de covid-19 ressaltou as desigualdades. Dados demonstram como, ao longo de 2020, a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o aumentou no pa\u00eds, crescendo, entre brancos, de 9,2% para 11,6%. Entre negros, por\u00e9m, a taxa subiu de 11,4% para 16,6%.<\/p>\n<p>A pesquisa aborda tamb\u00e9m a desigualdade entre pessoas com e sem defici\u00eancia e mostra que, mesmo quando conseguem uma ocupa\u00e7\u00e3o, o valor dos rendimentos m\u00e9dios das pessoas com defici\u00eancia \u00e9 mais baixo do que o da popula\u00e7\u00e3o sem defici\u00eancia e as desigualdades raciais e de g\u00eanero seguem padr\u00e3o similar. Mulheres brancas com defici\u00eancia recebem 69% do que recebem os homens brancos com defici\u00eancia. J\u00e1 os homens negros com defici\u00eancia recebem 53% e as mulheres negras, 40% dos homens brancos.<\/p>\n<p>\u201cDessa forma, n\u00e3o \u00e9 surpresa que jovens afrodescendentes muitas vezes sejam c\u00e9ticos em geral quanto a continuar a estudar, a procurar emprego e permanecer nele. Mesmo quando jovens negros conseguem superar as desvantagens educacionais, suas inser\u00e7\u00f5es no mercado de trabalho permanecem prec\u00e1rias e n\u00e3o condizentes com sua forma\u00e7\u00e3o\u201d, diz o estudo.<\/p>\n<p><strong>Recomenda\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>\nDiante de tal cen\u00e1rio, o estudo faz uma s\u00e9rie de recomenda\u00e7\u00f5es para mudar a situa\u00e7\u00e3o atual do pa\u00eds, entre as quais destaca-se a realiza\u00e7\u00e3o de campanhas ou pol\u00edticas de promo\u00e7\u00e3o da inclus\u00e3o tecnol\u00f3gica. Tanto o acesso a computadores como o fornecimento de internet de qualidade gratuita, ou a pre\u00e7os acess\u00edveis, poder\u00e3o impactar na escolariza\u00e7\u00e3o e no mercado de trabalho nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>No setor privado, a recomenda\u00e7\u00e3o \u00e9 ter programas de trainee espec\u00edficos para negros. \u00c9 necess\u00e1ria tamb\u00e9m maior permeabilidade territorial e iniciativas de maior escala, para chegar de fato \u00e0 maior parte da popula\u00e7\u00e3o. Programas de subs\u00eddios salariais podem ser boas alternativas.<\/p>\n<p>O estudo chama a aten\u00e7\u00e3o para a necessidade de redu\u00e7\u00e3o de obst\u00e1culos econ\u00f4micos para a conclus\u00e3o escolar, o que ajudar\u00e1 crian\u00e7as e jovens, principalmente negros e com defici\u00eancia de origem desfavorecida, a prosperar academicamente. \u00c9 necess\u00e1rio ainda investimento em vagas priorit\u00e1rias em creches, uma vez que subs\u00eddios para cuidado dos filhos s\u00e3o fundamentais para permitir que jovens m\u00e3es de fam\u00edlias de baixa renda continuem estudando e aliviar irm\u00e3os mais velhos da obriga\u00e7\u00e3o de cuidar dos menores, o que tamb\u00e9m se configura como causa do abandono escolar prematuro de meninas.<\/p>\n<p>Os pesquisadores recomendam ainda subs\u00eddios salariais direcionados a criar incentivos para inser\u00e7\u00e3o de jovens negros e em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade no mercado de trabalho, seja por meio de uma pol\u00edtica de subs\u00eddio salarial ou de isen\u00e7\u00e3o fiscal para as empresas.<\/p>\n<p>Outra a\u00e7\u00e3o \u00e9 oferecer subs\u00eddios de transporte como assist\u00eancia \u00e0 procura de emprego. An\u00e1lises recentes mostram que pessoas de baixa renda tendem a viver muito mais longe do trabalho, requerendo muito tempo de deslocamento, mesmo em grandes \u00e1reas metropolitanas como S\u00e3o Paulo. Subs\u00eddios aos transportes para jovens que procuram emprego podem aliviar esta barreira de acesso a mercados de trabalho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cMuito, muito. \u00c9 muito dif\u00edcil a gente conseguir um emprego. Por qual motivo, eu n\u00e3o consigo entender, mas que \u00e9 dif\u00edcil, \u00e9. Principalmente agora na \u00e9poca de pandemia, est\u00e1 mais dif\u00edcil ainda. S\u00e3o poucas vagas, e as vagas s\u00e3o muito concorridas. 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