{"id":295176,"date":"2022-11-27T00:04:04","date_gmt":"2022-11-27T03:04:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=295176"},"modified":"2022-11-26T23:10:34","modified_gmt":"2022-11-27T02:10:34","slug":"lula-precisa-conter-generais-e-faria-lima-para-poder-governar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lula-precisa-conter-generais-e-faria-lima-para-poder-governar\/","title":{"rendered":"Lula precisa conter generais e Faria Lima para poder governar"},"content":{"rendered":"<p>Passados cinco s\u00e9culos de processo civilizat\u00f3rio \u2013 da exporta\u00e7\u00e3o do Pau-Brasil ao capitalismo rentista, que, na pobreza do pa\u00eds, faz a festa do sistema financeiro internacionalizado \u2013, passados 200 anos da descoloniza\u00e7\u00e3o (nada obstante a depend\u00eancia econ\u00f4mico-pol\u00edtica que chega aos nossos dias), e ap\u00f3s 133 anos, completados este m\u00eas, de experi\u00eancia republicana, sem republicanismo e quase sempre sem povo, somos, na imperec\u00edvel gravura de Darcy Ribeiro, &#8220;um pa\u00eds por ser&#8221;: a permanente expectativa de um futuro que teima em n\u00e3o chegar, tra\u00edda a na\u00e7\u00e3o pela sua classe dominante, a mesma de sempre, aquela que nasce com os latifundi\u00e1rios da casa-grande colonial e os armadores de navios negreiros para instalar-se hoje na Fiesp e na Faria Lima: uma burguesia sem pioneiros, herdeira da lavoura de exporta\u00e7\u00e3o sustentada pelo bra\u00e7o escravo de africanos e semiescravo de emigrantes sobre-explorados; uma &#8220;elite&#8221; alienada e alien\u00edgena, presa, econ\u00f4mica e ideologicamente, aos projetos de domina\u00e7\u00e3o das metr\u00f3poles; uma elite que pode dizer: &#8220;o pa\u00eds vai mal, mas meus neg\u00f3cios v\u00e3o bem&#8221;.<\/p>\n<p>Entender o presente \u00e9 o desafio que se coloca para a esquerda brasileira. Como explicar nosso fracasso em construir uma sociedade fraterna em uma das mais ricas e belas prov\u00edncias do mundo? Como explicar nossa hist\u00f3ria presente, pautada pela emerg\u00eancia de uma extrema-direita com ra\u00edzes populares, em condi\u00e7\u00f5es de fraturar o processo democr\u00e1tico-institucional, sustentado at\u00e9 aqui aos trancos e barrancos, ao pre\u00e7o de tanta dor? Como explicar a resist\u00eancia pol\u00edtica e social \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o (quase 400 anos de explora\u00e7\u00e3o do bra\u00e7o africano)? O nosso pa\u00eds ostenta o miser\u00e1vel t\u00edtulo de \u00faltimo basti\u00e3o escravocrata das Am\u00e9ricas, para ao fim do regime condenar suas v\u00edtimas ao desamparo e \u00e0 fome.<\/p>\n<p>Como explicar, ainda hoje, a vit\u00f3ria do latif\u00fandio sobre a reforma agr\u00e1ria \u2013 um projeto capitalista levado a cabo pelas na\u00e7\u00f5es desenvolvidas h\u00e1 algo como dois s\u00e9culos? Nada mais indicativo do atraso e do reacionarismo de nossa classe dominante. Sen\u00e3o, vejamos: em 1823, em nossa primeira Constituinte, Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio (o patriarca da Independ\u00eancia, que desejava formar o Reino Unido Portugal-Brasil e Algarves) apresentou um projeto de reforma agr\u00e1ria e aboli\u00e7\u00e3o gradativa da escravid\u00e3o; em 1964, a defesa da reforma agr\u00e1ria pelo presidente Jo\u00e3o Goulart foi uma das raz\u00f5es aventadas pelos militares para sua deposi\u00e7\u00e3o; na segunda d\u00e9cada do terceiro mil\u00eanio os camponeses do MST (que lutam por terra para nela produzir) s\u00e3o criminalizados pelo aparelho repressor, e os ind\u00edgenas s\u00e3o assassinados ou expulsos de suas terras por grileiros.<\/p>\n<p>Como explicar quase 70 anos de apego nacional a um monarquismo nascido arcaico, e a resist\u00eancia ao republicanismo, a persist\u00eancia do poder da terra, das oligarquias, do mandonismo, da segrega\u00e7\u00e3o de classe, do racismo estrutural e da concentra\u00e7\u00e3o de renda, da pobreza nos n\u00edveis de miserabilidade que d\u00e3o o quadro das grandes cidades brasileiras, a come\u00e7ar por S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro? Pobreza que se naturaliza, como se naturalizam a opress\u00e3o de classe, o desemprego, a fome (em pa\u00eds que \u00e9 o terceiro exportador mundial de alimentos).<\/p>\n<p>Como explicar a preemin\u00eancia do agrarismo exportador? Na col\u00f4nia e no imp\u00e9rio, depend\u00edamos da exporta\u00e7\u00e3o de madeira, de a\u00e7\u00facar, de algod\u00e3o, ouro e prata e caf\u00e9 em gr\u00e3o; chegamos mesmo a exportar ind\u00edgenas apresados pelos bandeirantes, pioneiros no assassinato em massa do gentio. Em pleno capitalismo p\u00f3s-industrial-monopolista somos exportadores de gr\u00e3os, carne e min\u00e9rios in natura, que reimportamos, por exemplo da China, na forma de trilhos.<\/p>\n<p>Como explicar uma Rep\u00fablica (esta que sobrevive a ditaduras e golpes de estado militares) descartada dos princ\u00edpios b\u00e1sicos do republicanismo, privatizada pelo grande capital?<\/p>\n<p>Desamparada do apelo popular, que a desconheceu, porque nasceu de um golpe militar, a Rep\u00fablica, nesses seus primeiros e dram\u00e1ticos 133 anos de exist\u00eancia, viveria a curatela da caserna, independentemente do car\u00e1ter e origem do governo. O ag\u00f4nico momento de hoje \u2013 o apagar das luzes do governo de extrema-direita, corrupto e assassino \u2013 n\u00e3o \u00e9 uma especificidade em leque de experi\u00eancias autorit\u00e1rias que conhece ainda golpes de estado e ditaduras militares. A desmilitariza\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, sem a qual ela n\u00e3o sobreviver\u00e1 e n\u00e3o alcan\u00e7aremos a democracia, n\u00e3o \u00e9 tarefa de um governo, mesmo consagrado pelas urnas; precisa ser projeto do clamor social.<\/p>\n<p>Como explicar que, a esta altura do caminhar da humanidade, o projeto da classe dominante brasileira seja uma &#8220;paz&#8221; que exclui a justi\u00e7a social? Como explicar que o mantra do &#8220;equil\u00edbrio fiscal&#8221; seja reclamado como prioridade sobre o desenvolvimento, que gera emprego e renda e \u00e9 o \u00fanico ant\u00eddoto conhecido no capitalismo contra o desemprego e a fome? Como explicar a aus\u00eancia de um projeto nacional para al\u00e9m dos interesses da classe dominante?<\/p>\n<p>Segundo o professor Lincoln de Abreu Penna (Qual rep\u00fablica queremos? Ed. Autografia. Rio de Janeiro. 2022) vamos encontrar as raz\u00f5es desse desarranjo \u2013 pol\u00edtico, econ\u00f4mico e social \u2013 em nossa forma\u00e7\u00e3o social, dominada pelo escravismo, pelo patrimonialismo, pelo autoritarismo, e em nossa incapacidade hist\u00f3rica de remover o legado escravocrata que em muitos aspectos condiciona o racismo estrutural e a pr\u00e1tica da concilia\u00e7\u00e3o de classes, de que resultou o que somos: uma grande periferia na periferia do capitalismo.<\/p>\n<p>O passado explica o presente e os mortos reinam entre os vivos. O que poderia ser uma grande pot\u00eancia econ\u00f4mica (apta portanto ao desenvolvimento social) \u00e9 um projeto de depend\u00eancia fundado na subordina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e estrat\u00e9gica nacional (subordina\u00e7\u00e3o, portanto, das atuais for\u00e7as armadas do estado brasileiro) \u00e0 l\u00f3gica econ\u00f4mica-militar dos EUA, como j\u00e1 fomos da Inglaterra, como j\u00e1 fomos de Portugal.<\/p>\n<p>Se estamos diante do legado de um passado que se faz t\u00e3o atual, \u00e9 preciso estud\u00e1-lo. Conhecer as ra\u00edzes de nossa forma\u00e7\u00e3o para compreender o presente, estudar o passado para impedir sua sobreviv\u00eancia no presente, e assim abrir caminho para a constru\u00e7\u00e3o de um novo pacto social de que poder\u00e1 resultar uma sociedade fundada na democracia e no socialismo \u2013 cuja defesa, por sinal, foi esquecida pela esquerda brasileira organizada. Da\u00ed o fim dos projetos revolucion\u00e1rios, a vit\u00f3ria de um reformismo cada vez mais bem comportado, os receios diante das possibilidades de ruptura, o desaparecimento dos partidos revolucion\u00e1rios, subsumidos pela institucionaliza\u00e7\u00e3o acr\u00edtica e por um eleitoralismo que imp\u00f4s as t\u00e1ticas e as pr\u00e1ticas do conservadorismo. Fen\u00f4meno que, lembra Lincoln, remonta \u00e0 Guerra Fria e \u00e0 op\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria comunista pela luta anti-imperialista, de que resultou o abandono da den\u00fancia do capitalismo e da sociedade fundada na explora\u00e7\u00e3o de classe, e, ao fim e ao cabo, o abandono da defesa do socialismo. A consequ\u00eancia de tanto desvio ideol\u00f3gico seria a inven\u00e7\u00e3o, entre n\u00f3s, de uma burguesia nacionalista \u00e0 qual os comunistas ofereceriam alian\u00e7a, de resto rejeitada.<\/p>\n<p>A ren\u00fancia \u00e0 batalha ideol\u00f3gica chega aos nossos dias, com as consequ\u00eancias consabidas. A revolu\u00e7\u00e3o transitou para o reformismo, a esquerda transitou para a socialdemocracia, que transitou para o centro, que transitou para a direita, que transitou para a extrema-direita, que namora o fascismo. A crise brasileira reproduz a crise da esquerda ocidental, pontuada pela decad\u00eancia dos partidos de esquerda tradicionais (como exemplificam os desastres do Partido Comunista Italiano e do Partido Comunista Franc\u00eas), a crise geral da socialdemocracia europeia, a vit\u00f3ria da extrema-direita na It\u00e1lia e, em alian\u00e7a com a direita, na Su\u00e9cia, ap\u00f3s o surto trumpista nos EUA.<\/p>\n<p>A crise estrutural dos partidos comunistas e de esquerda de um modo geral foi uma das muitas consequ\u00eancias, no Brasil e no mundo homogeneizado pelo ditado t\u00e1tico-ideol\u00f3gico do PCUS, da paralisia do pensamento e da teoria revolucion\u00e1ria, estancando a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o h\u00e1 reflex\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de interpreta\u00e7\u00e3o do processo hist\u00f3rico; sem reflex\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 teoria, e sem teoria n\u00e3o h\u00e1 nada: n\u00e3o h\u00e1 t\u00e1tica, nem estrat\u00e9gia, nem a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O conhecimento da forma\u00e7\u00e3o social brasileira, escreve Lincoln Penna, \u00e9, de substancial import\u00e2ncia para desvelarmos as raz\u00f5es de todos os males que t\u00eam coexistido com nossa fragil\u00edssima rep\u00fablica, &#8220;uma solu\u00e7\u00e3o das elites dominantes depois de abolida a escravid\u00e3o&#8221;, operada pelo seu bra\u00e7o armado, a oficialidade do ex\u00e9rcito sediada na Corte: &#8220;Sua inautenticidade [da Rep\u00fablica] se explica pelos rumos tra\u00e7ados por quem sempre deteve o poder de mando, desde os tempos das feitorias do in\u00edcio da empresa mercantil que nos acomodou no imp\u00e9rio colonial portugu\u00eas&#8221;.<\/p>\n<p>Conseguimos construir um pa\u00eds, estruturar um estado que hoje aspira \u00e0 modernidade, ainda que ao pre\u00e7o de uma hist\u00f3rica marcada pela viol\u00eancia: do genoc\u00eddio das popula\u00e7\u00f5es originais, da escravid\u00e3o dos negros, \u00e0 mis\u00e9ria de um capitalismo concentrador de renda e produtor de pobreza. Mas fracassamos na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade fraterna. Segue longe de n\u00f3s a Roma sonhada por Darcy Ribeiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passados cinco s\u00e9culos de processo civilizat\u00f3rio \u2013 da exporta\u00e7\u00e3o do Pau-Brasil ao capitalismo rentista, que, na pobreza do pa\u00eds, faz a festa do sistema financeiro internacionalizado \u2013, passados 200 anos da descoloniza\u00e7\u00e3o (nada obstante a depend\u00eancia econ\u00f4mico-pol\u00edtica que chega aos nossos dias), e ap\u00f3s 133 anos, completados este m\u00eas, de experi\u00eancia republicana, sem republicanismo e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":295177,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[95],"class_list":["post-295176","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-eleicoes-2022","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295176","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=295176"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295176\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":295179,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/295176\/revisions\/295179"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/295177"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=295176"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=295176"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=295176"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}