{"id":295911,"date":"2022-12-10T10:11:45","date_gmt":"2022-12-10T13:11:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=295911"},"modified":"2022-12-10T11:18:52","modified_gmt":"2022-12-10T14:18:52","slug":"maratona-de-almerinda-retrata-odisseia-do-povo-trabalhador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/maratona-de-almerinda-retrata-odisseia-do-povo-trabalhador\/","title":{"rendered":"Maratona de Almerinda retrata odisseia do povo trabalhador"},"content":{"rendered":"<p>Almerinda foi enxotada da cama pela pr\u00f3pria culpa por dormir demais naquele dia. N\u00e3o que fossem tantas horas de sono, pois mal havia chegado do trabalho na noite anterior, ap\u00f3s mais de duas horas tentando manter as pestanas atentas enquanto se equilibrava, em p\u00e9, no meio daquele monte de gente chamada povo, que se apertava no \u00f4nibus. No entanto, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para descanso al\u00e9m da conta para quem labuta em troca do m\u00ednimo.<\/p>\n<p>J\u00e1 nem se lembrava de um dia em que n\u00e3o fosse tamanha correria. N\u00e3o tinha tempo nem para ela, esmalte nas unhas era luxo. Um desperd\u00edcio! Vivia a lavar lou\u00e7a, ch\u00e3o, roupa, toda sujeira feita por outros. Desde sempre foi assim, at\u00e9 na aurora da vida, quando era puxada pela m\u00e3o apressada da m\u00e3e at\u00e9 a casa dos patr\u00f5es. Acabou por tomar o lugar dela, j\u00e1 que, enfartada, a velha mal conseguia se levantar da cama ao lado.<\/p>\n<p>Aos 30, continuava solteira, sem filhos, a m\u00e3e para cuidar. Alguns namoricos breves, que, por raros minutos, davam ao corpo sofrido um pouco de alegria. Enquanto a \u00e1gua do caf\u00e9 esquentava, procurou se lembrar do \u00faltimo. Correu os meses para tr\u00e1s, mas antes que pudesse recordar do derradeiro beijo, percebeu que a \u00e1gua j\u00e1 havia fervido. Preparou o caf\u00e9, cortou o p\u00e3o dormido, passou um pouco de margarina. N\u00e3o fez men\u00e7\u00e3o de reclamar do simpl\u00f3rio dejejum, s\u00f3 conhecia aquele.<\/p>\n<p>Passos apertados a levaram para o ponto de \u00f4nibus, onde tantos outros id\u00eanticos aguardavam o coletivo, que j\u00e1 apontava na esquina, cambaleando entre buracos na rua, como se fosse um capoeirista, que tentava impedir um chute ali, um soco acol\u00e1. Como de costume, Almerinda n\u00e3o conseguiu um lugar para se sentar. Foi em p\u00e9, a m\u00e3o firme no ferro, junta a tantas outras. Os passageiros, de t\u00e3o grudados, pareciam uma massa, que, aos solavancos, era carregada e despejada ao longo do caminho.<\/p>\n<p>Quase duas horas em p\u00e9 fizeram Almerinda fechar os olhos e cochilar, talvez na tentativa de sonhar. N\u00e3o havia sonho para sonhar. N\u00e3o naquela vida! Vida? Foi despertada por um &#8220;D\u00e1 licen\u00e7a!&#8221; Encolheu o corpo sofrido ainda mais, enquanto uma senhora tentava passar. Bocejou ao mesmo tempo em que percebeu que deveria descer dali a dois pontos. Foi se espremendo para chegar o mais pr\u00f3ximo da sa\u00edda.<\/p>\n<p>N\u00e3o demorou muito, foi despejada na rua, onde caminhou mais alguns passos at\u00e9 chegar ao edif\u00edcio cheio de grades. O porteiro logo a reconheceu, acionou o bot\u00e3ozinho de salvo conduto, que abriu passagem para a empregada do apartamento 901. Almerinda cumprimentou o funcion\u00e1rio com um sorriso n\u00e3o convincente, ao mesmo tempo em que ele disse: &#8220;O elevador de servi\u00e7o est\u00e1 quebrado&#8221;.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o enfrentar olhares de desaprova\u00e7\u00e3o, ela tomou a decis\u00e3o de enfrentar os in\u00fameros lances de escada. Chegou quase esbaforida. Tocou a campainha, ao mesmo tempo em que tomou ci\u00eancia das horas: 6h05! Cinco minutos atrasada! A patroa, irritada, abriu a porta e, j\u00e1 de costas para a empregada, disse: &#8220;Quem acorda cedo toma \u00e1gua fresca, Almerinda!&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Almerinda foi enxotada da cama pela pr\u00f3pria culpa por dormir demais naquele dia. 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