{"id":296142,"date":"2022-12-14T02:21:03","date_gmt":"2022-12-14T05:21:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=296142"},"modified":"2022-12-14T02:20:50","modified_gmt":"2022-12-14T05:20:50","slug":"mst-faz-brotar-feijao-arroz-e-cafe-para-mesa-do-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mst-faz-brotar-feijao-arroz-e-cafe-para-mesa-do-brasileiro\/","title":{"rendered":"MST faz brotar feij\u00e3o, arroz e caf\u00e9 para mesa do brasileiro"},"content":{"rendered":"<p>Arroz, feij\u00e3o, farinha, batata, mandioca, tomate, cenoura, salada, caf\u00e9, leite, a\u00e7\u00facar, queijo. A maioria das comidas que vem \u00e0 mente quando se pensa na alimenta\u00e7\u00e3o b\u00e1sica brasileira \u00e9 produzida pela agricultura familiar, que representa 76,8% dos estabelecimentos rurais no pa\u00eds. Destes, boa parte s\u00e3o do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que tem, atualmente, cerca de 450 mil fam\u00edlias assentadas pelo Brasil.<\/p>\n<p>Ao longo da \u00faltima d\u00e9cada, o arroz org\u00e2nico se tornou o carro-chefe das linhas de produ\u00e7\u00e3o do movimento. De acordo com o Instituto Riograndense do Arroz (Irga), \u00f3rg\u00e3o vinculado ao governo do Rio Grande do Sul, o MST \u00e9 o maior produtor de arroz sem veneno da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Como explica Milton Fornazieri, dirigente nacional do setor de produ\u00e7\u00e3o do movimento, \u201cnada \u00e9 por acaso\u201d: a marca alcan\u00e7ada \u00e9 fruto de uma escolha tomada no final dos anos 1990.<\/p>\n<p>Desde a cria\u00e7\u00e3o dos primeiros assentamentos do MST no Rio Grande do Sul na d\u00e9cada de 1980, as fam\u00edlias que ocuparam as chamadas terras baixas, principalmente na regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre, passaram a cultivar arroz. \u201cMas dentro do modelo do pacot\u00e3o fornecido pelas grandes distribuidoras de veneno e adubo qu\u00edmico\u201d, conta Fornazieri.<\/p>\n<p>Em 1998, com a constata\u00e7\u00e3o da degrada\u00e7\u00e3o ambiental deste modelo, o alto gasto em insumos e inseticidas e casos de adoecimento, opta-se por plantar, experimentalmente, arroz sem veneno em um assentamento, a ser consumido pelas pr\u00f3prias fam\u00edlias agricultoras.<\/p>\n<p>\u201cCom essa primeira experi\u00eancia, se tiram aprendizados. E ent\u00e3o, a partir da dire\u00e7\u00e3o do MST, se toma a decis\u00e3o pol\u00edtica de largar o veneno e produzir o org\u00e2nico. Ainda em 1998, 1999\u201d, lembra Fornazieri. \u201c\u00c9 um processo longo, de muito estudo, muito conhecimento, que vem se transformando.\u201d<\/p>\n<p>\u201cA agroecologia n\u00e3o \u00e9 uma transi\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma ruptura. Uma ruptura com o sistema convencional. Porque voc\u00ea n\u00e3o consegue fazer meia agroecologia\u201d, enfatiza Nelson Krupinski, presidente da Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da regi\u00e3o de Porto Alegre (Cootap). A cooperativa integra, junto com outras do Rio Grande do Sul e do Paran\u00e1, o Grupo Gestor do Arroz Org\u00e2nico do MST.<\/p>\n<p><strong>Arroz e feij\u00e3o<\/strong><br \/>\nA estimativa do Grupo Gestor \u00e9 que a colheita do pr\u00f3ximo ano seja de 16.250 toneladas de arroz org\u00e2nico. A produ\u00e7\u00e3o \u00e9 feita por 380 fam\u00edlias distribu\u00eddas em 17 assentamentos e organizadas em nove cooperativas da Reforma Agr\u00e1ria. As principais marcas de arroz do movimento s\u00e3o Terra Livre, Ra\u00edzes do Campo e Campo Vivo.<\/p>\n<p>Martielo Webery \u00e9 engenheiro agr\u00f4nomo, nasceu e se criou no Assentamento Segredo Farroupilha, na cidade de Encruzilhada do Sul (RS) e trabalha na \u00e1rea da comercializa\u00e7\u00e3o da Cootap.<\/p>\n<p>\u201cA cooperativa financia os agricultores para fomentar a produ\u00e7\u00e3o, a\u00ed eles colhem seus frutos, nos entregam, a gente processa e comercializa\u201d, descreve.<\/p>\n<p>\u201cUma das partes mais complicadas \u00e9 a comercializa\u00e7\u00e3o. Nosso p\u00fablico dos assentamentos, se chegar e pedir para produzir seja qualquer que for o produto, de norte a sul do pa\u00eds, v\u00e3o produzir\u201d, avalia Martielo. \u201cS\u00f3 que nosso povo ainda n\u00e3o tem toda a expertise de comercializa\u00e7\u00e3o. Que hoje \u00e9 onde a cooperativa atua de forma mais firme: organizar os produtos que temos dentro dos assentamentos e disponibilizar para a sociedade\u201d, diz.<\/p>\n<p>O arroz org\u00e2nico do MST \u00e9 produzido na regi\u00e3o Sul do pa\u00eds e tem o mercado institucional como seu maior comprador, em especial no estado de S\u00e3o Paulo, com destaque para a prefeitura da capital paulista, que destina o arroz sem agrot\u00f3xicos para as merendas escolares.<\/p>\n<p>J\u00e1 o feij\u00e3o, que forma com o arroz o prato s\u00edmbolo do pa\u00eds, \u00e9 tamb\u00e9m cultivado em grande escala pelo MST nas regi\u00f5es Sul e Sudeste, em especial em S\u00e3o Paulo e no Paran\u00e1. A produ\u00e7\u00e3o de cerca de 100 mil toneladas por ano, no entanto, enfrenta s\u00e9rios desafios.<\/p>\n<p><strong>Commodities avan\u00e7am, alimentos retraem<\/strong><br \/>\nBasta ter ido ao mercado nesses \u00faltimos quatro anos para constatar que o governo Bolsonaro foi marcado por um salto inflacion\u00e1rio nos alimentos b\u00e1sicos, dos quais n\u00e3o escaparam o arroz e o feij\u00e3o. O primeiro chegou a subir 75% em 2020 e o feij\u00e3o preto, 45,3%.<\/p>\n<p>O empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o no contexto pand\u00eamico, o desmonte de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e \u00e0 agricultura familiar \u2013 como o Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (PNAE) \u2013 e, por outro lado, as facilidades de financiamento para a produ\u00e7\u00e3o de soja e milho transg\u00eanicos para a exporta\u00e7\u00e3o criaram uma combina\u00e7\u00e3o dif\u00edcil para os agricultores familiares enfrentar.<\/p>\n<p>Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), os gr\u00e3os que enchem a barriga da popula\u00e7\u00e3o seguem perdendo espa\u00e7o para as commodities comercializadas no exterior. A proje\u00e7\u00e3o de novembro da pr\u00f3xima safra de gr\u00e3os \u00e9 de 313 milh\u00f5es de toneladas. Desse montante, o arroz e o feij\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 4,3%.<\/p>\n<p>\u201cPassamos por um momento dif\u00edcil\u201d, atesta Webery. \u201cMas esperamos que no pr\u00f3ximo per\u00edodo possamos melhorar essa situa\u00e7\u00e3o\u201d, afirma, em frente \u00e0 barraca da cooperativa, visitada por milhares de pessoas ao longo do Festival da Reforma Agr\u00e1ria, realizado no come\u00e7o de dezembro em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><strong>Caf\u00e9, leite e a\u00e7\u00facar<\/strong><br \/>\nRond\u00f4nia, Bahia, Esp\u00edrito Santo, Minas Gerais e Paran\u00e1 s\u00e3o os estados onde, distribu\u00eddas em 120 territ\u00f3rios da reforma agr\u00e1ria, cinco mil fam\u00edlias produzem os caf\u00e9s do MST. O mais recente lan\u00e7amento \u00e9 um do extremo sul baiano que, agroecol\u00f3gico e \u201ccultivado com muita luta\u201d, como diz a embalagem, \u00e9 da marca Terra Justa, que j\u00e1 tem tradi\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o de chocolate, desde o plantio do cacau.<\/p>\n<p>Enquanto isso, no Sul e Sudeste vivem 5,5 mil fam\u00edlias assentadas do MST produtoras de leite. Os latic\u00ednios \u2013 somando produtos como queijo, iogurte, manteiga e requeij\u00e3o \u2013 beneficiam 37 milh\u00f5es de litros de leite por m\u00eas, alimentando, neste per\u00edodo, cerca de tr\u00eas milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Uma das muitas marcas dedicadas a produzir latic\u00ednios, mas tamb\u00e9m arroz, feij\u00e3o, hortali\u00e7as, verduras, tub\u00e9rculos, frutas, entre outros, \u00e9 a Produtos da Terra, criada em 2016 e gerida pela Cooperativa Central da Reforma Agr\u00e1ria do Paran\u00e1 (CCA).<\/p>\n<p>\u201cCompletamos seis anos agora. Foi crescendo, crescendo, agora a gente est\u00e1 com um espa\u00e7o maior, com dois caminh\u00f5es e mais ou menos 200 produtos\u201d, sorri Vit\u00f3ria Gon\u00e7alves, comunicadora da Produtos da Terra. \u201cLogo, se Deus quiser, a gente vai abrir o primeiro Armaz\u00e9m do Campo do MST em Curitiba\u201d, conta.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m presente no Festival da Reforma Agr\u00e1ria em S\u00e3o Paulo, Vit\u00f3ria Gon\u00e7alves ficou respons\u00e1vel por comercializar itens que comp\u00f5em outra das principais linhas de produ\u00e7\u00e3o do movimento: os derivados da cana. S\u00f3 na CCA, a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 de 40 toneladas de a\u00e7\u00facar mascavo e oito toneladas de melado de cana a cada m\u00eas, al\u00e9m de uma produ\u00e7\u00e3o anual de 15 mil litros de cacha\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Hortali\u00e7as e verduras<\/strong><br \/>\nNascida em uma fam\u00edlia de ativistas do MST, Vit\u00f3ria, aos 21 anos, j\u00e1 viveu em diferentes acampamentos no Paran\u00e1. Atualmente mora em Curitiba para trabalhar na cooperativa e sua m\u00e3e vive no Acampamento Padre Roque, no munic\u00edpio de Castro (PR).<\/p>\n<p>Daniela Ferreira tem trajet\u00f3ria diferente. Entrou no movimento j\u00e1 adulta, m\u00e3e de cinco crian\u00e7as. Antes, morava na regi\u00e3o perif\u00e9rica da cidade de Pindamonhangaba (SP). \u201cO nosso acesso \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o org\u00e2nica era nenhum. Tudo o que a gente consumia era com veneno \u2013 e quando dava. Porque o pre\u00e7o, at\u00e9 com veneno, era muito caro para uma fam\u00edlia do tamanho da nossa\u201d, conta.<\/p>\n<p>Preocupada com a alimenta\u00e7\u00e3o de seus filhos, em 2015 ela se muda com a fam\u00edlia para o Assentamento Eg\u00eddio Brunetto, refer\u00eancia da produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica do MST, localizado na cidade de Lagoinha (SP), no Vale do Para\u00edba.<\/p>\n<p>\u201cQuando a gente foi para o campo, a gente teve a oportunidade de plantar, produzir alimentos saud\u00e1veis a baixo custo, n\u00e3o s\u00f3 para os meus filhos, como para os filhos dos outros tamb\u00e9m. Agora a gente tem uma variedade para comer, beneficiar, vender, doar\u201d, afirma Daniela, ao lado de ma\u00e7os de salsinha, alface, r\u00facula e berinjela.<\/p>\n<p>\u201cFazemos nossas safras e as primeiras culturas s\u00e3o as hortali\u00e7as. Depois vai ficando assombreado e a gente vai abrindo novas \u00e1reas, rotacionando os canteiros e aproveitando ao m\u00e1ximo, consorciando dois, tr\u00eas tipos de hortali\u00e7as diferentes no mesmo canteiro\u201d, exp\u00f5e Daniela. \u201cA gente posta quinzenalmente tudo o que produzimos, os clientes fazem as compras e a gente vai entregar em Ubatuba (SP), Ilhabela (SP), Pindamonhangaba (SP) e Taubat\u00e9 (SP)\u201d, conta.<\/p>\n<p>Assim como o assentamento de Daniela, muitos outros pelo pa\u00eds, al\u00e9m de acampamentos, cooperativas e armaz\u00e9ns do MST organizam os chamados Grupos de Consumo, entregando cestas agroecol\u00f3gicas para quem se interessar em se alimentar da (ainda minorit\u00e1ria) comida sem veneno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arroz, feij\u00e3o, farinha, batata, mandioca, tomate, cenoura, salada, caf\u00e9, leite, a\u00e7\u00facar, queijo. 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