{"id":296271,"date":"2022-12-17T06:41:33","date_gmt":"2022-12-17T09:41:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=296271"},"modified":"2022-12-17T06:43:29","modified_gmt":"2022-12-17T09:43:29","slug":"por-que-torcer-pela-argentina-la-no-catar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/por-que-torcer-pela-argentina-la-no-catar\/","title":{"rendered":"Por que torcer pela Argentina l\u00e1 no Catar?"},"content":{"rendered":"<p>Quando iniciei a escrever este artigo, logo ap\u00f3s a elimina\u00e7\u00e3o &#8211; mais imatura, menos prematura &#8211; da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol para a Cro\u00e1cia, e do jogo monumental entre Argentina e Holanda nas quartas-de-final, no qual os argentinos superaram o desastre de tomar dois gols no final, com grande controle emocional, e avan\u00e7aram nos p\u00eanaltis, o Marrocos ainda n\u00e3o havia superado a poderosa Espanha, lan\u00e7ando-se heroicamente \u00e0s semifinais e efetuado a maior fa\u00e7anha de um selecionado \u00e1rabe e do continente africano. Com este novo elemento no cen\u00e1rio, titubeei em redirecionar o texto para acrescentar a torcida pelo Marrocos no t\u00edtulo e no objetivo central do escrito.<\/p>\n<p>Entretanto, mesmo hoje, admitindo que dividi minha torcida entre Marrocos e Argentina, seja por raz\u00f5es pessoais, em fun\u00e7\u00e3o de minha fam\u00edlia ter uma liga\u00e7\u00e3o estreita com os marroquinos, seja por raz\u00f5es sentimentais de buscar sempre torcer para os pa\u00edses perif\u00e9ricos, a raz\u00e3o de ser do texto continua intacta a partir de um dos argumentos da constru\u00e7\u00e3o da hip\u00f3tese: a rivalidade entre Brasil e Argentina deve se restringir ao duelo entre as equipes no jogo, nos gramados, no campeonato. Depois disso, h\u00e1 uma import\u00e2ncia em se tornarem aliados. Explico.<\/p>\n<p>Primeiramente, h\u00e1 uma dificuldade fundamental no desenvolvimento do racioc\u00ednio, especificamente sobre a tentativa do estabelecimento da raz\u00e3o em \u00e1rea predominantemente afeita aos sentimentos e emo\u00e7\u00f5es. Segundo o racioc\u00ednio de um grande amigo, o brilhante psiquiatra Roberto Pierobom Lima, n\u00e3o escolhemos para quem torcemos; a simpatia nasce ao natural ou, mais costumeiramente, \u00e9 introjetada na inf\u00e2ncia pelos pais ou outro ente querido aficionado por futebol. Eu n\u00e3o lembro direito quando e como comecei a torcer pelo Gr\u00eamio, mas sei da influ\u00eancia do meu av\u00f4 materno e do meu pai na tarefa.<\/p>\n<p>Outro fator influente tem a ver com um termo muito na moda: pertencimento. Quem torce por um time de futebol, ou de outro esporte, busca fazer parte de um grupo social. Assim, como um dos maiores \u2013 sen\u00e3o o maior &#8211; de todos os grupos sociais \u00e9 o Estado-na\u00e7\u00e3o, \u00e9 natural a torcida pela sele\u00e7\u00e3o representante do pa\u00eds onde nascemos. Por isso n\u00e3o vemos brasileiros torcendo pelo Uruguai ou pela a Argentina, nossos pa\u00edses vizinhos mais tradicionais no esporte, nossos rivais regionais.<\/p>\n<p>Pertencer a um grupo social a partir de uma imposi\u00e7\u00e3o ou heran\u00e7a cultural familiar ou, posteriormente, por uma escolha onde a racionalidade n\u00e3o \u00e9 a diretriz determinante, parece ser a t\u00f4nica inici\u00e1tica do ato de torcer e h\u00e1 algo mais interessante ainda: a fidelidade canina do torcedor. Mudar de time no meio da jornada da vida \u00e9 algo muit\u00edssimo incomum. \u00c9 mais f\u00e1cil naturalizar-se ou adquirir uma outra cidadania, trocar de religi\u00e3o, de partido pol\u00edtico, e eu arriscaria a brincadeira de que at\u00e9 de sexo se tem mais not\u00edcia de mudan\u00e7a do que trocar de time. \u00c9 a trai\u00e7\u00e3o imperdo\u00e1vel ao cl\u00e3, um gesto de ingratid\u00e3o. Mudar de time, virar a casaca, \u00e9 um pecado grave.<\/p>\n<p>Mas seria uma trai\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s a elimina\u00e7\u00e3o do Brasil, torcer pela Argentina numa Copa do Mundo? Cometer\u00edamos a heresia de esquecer a Copa de 1978, quando fomos garfados pelos castelhanos? Ou a elimina\u00e7\u00e3o em 1990, quando Maradona, do meio-campo, partiu endiabrado em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 grande \u00e1rea brasileira, deixando para tr\u00e1s quatro jogadores, atraiu toda a marca\u00e7\u00e3o e meteu Caniggia na cara do gol de Taffarel para marcar? N\u00e3o creio, entendo super\u00e1veis os fatos, em raz\u00e3o de valores maiores.<\/p>\n<p>Zuenir Ventura, no \u00f3timo \u201cMal Secreto: Inveja\u201d sintetiza a diferen\u00e7a entre cobi\u00e7a, ci\u00fame e inveja. A cobi\u00e7a, segundo o autor, seria a vontade incontrol\u00e1vel de ter algo do, ou algum afeto ligado ao, outro. O segundo, o ci\u00fame, o medo de perder algo ou algu\u00e9m, e a terceira, um p\u00e9rfido e ordin\u00e1rio sentimento, quase sempre inadmitido, seria a vontade de que o outro n\u00e3o tenha algo. Este \u00faltimo, o mais delet\u00e9rio, a busca pelo fracasso do outro, de sua derrota, a vontade da derrota alheia.<\/p>\n<p>Depois da elimina\u00e7\u00e3o neste campeonato mundial, foram muitas as piadas, os memes sobre uma suposta dupla derrota brasileira: a elimina\u00e7\u00e3o e a passagem dos hermanos para as semifinais, mas esquecem os secadores, baseado no sentimento negativo da inveja, de n\u00e3o querer o sucesso do outro, para que ele n\u00e3o tenha aquilo n\u00e3o tido por n\u00f3s por absoluta incompet\u00eancia nossa, que enquanto jogam sua negatividade no ar, os europeus empilham t\u00edtulos e mais t\u00edtulos. Em 2026, completaremos 24 anos sem uma ta\u00e7a e, caso a Argentina n\u00e3o consiga vencer, ser\u00e3o 40 anos. O Uruguai, pior ainda, desde 1950, far\u00e1 76 anos de jejum.<\/p>\n<p>Enquanto isso, times considerados m\u00e9dios nas d\u00e9cadas de 1970, 1980 e 1990 cresceram e se igualaram. A Fran\u00e7a, sempre de futebol t\u00e9cnico e bonito, mas sem \u00eaxitos at\u00e9 ent\u00e3o, foi bicampe\u00e3 e tem tudo para ir ao tricampeonato no Catar. A Espanha foi campe\u00e3 em 2010, depois de superar a fama de um futebol considerado in\u00f3cuo. Al\u00e9m disso, Alemanha e It\u00e1lia tornaram-se tetracampe\u00e3s, a um passo de igualar a nossa fr\u00e1gil lideran\u00e7a, tisnada com o maior fiasco da hist\u00f3ria das copas, o 7 x 1 de Belo Horizonte.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nesse per\u00edodo, desde o final da d\u00e9cada de 1990, ou de 2002 mais precisamente, quando ganhamos o penta, o futebol tornou-se um dos maiores neg\u00f3cios do planeta, e os clubes europeus, para usar um verbo do gosto de Tite, galgaram v\u00e1rios degraus acima das talentosas escolas sul-americanas, em especial a brasileira, a argentina e a uruguaia. Nos mundiais de Clubes, desde 2000, em 21 disputas, os europeus venceram 16 vezes e n\u00f3s, sul-americanos, apenas 5. E o pior, desde o \u00faltimo \u00eaxito em 2012, ano do t\u00edtulo do Corinthians, o abismo t\u00e9cnico aumentou consideravelmente. Em 4 edi\u00e7\u00f5es, nem da final participamos e os jogos entre sul-americanos e europeus s\u00e3o desiguais, com, no mais das vezes, os nossos atletas jogando atr\u00e1s, fechados, por uma bola, ou sendo colocados na roda, como o Santos de 2011 frente ao Barcelona, quando tomou 4 x 0.<\/p>\n<p>Quem gosta de futebol e assistiu ao melhor jogo desta Copa do Mundo, as quartas-de-final entre Fran\u00e7a e Inglaterra, percebeu a enorme dist\u00e2ncia t\u00e9cnica daquele espet\u00e1culo para as partidas disputadas entre os demais pa\u00edses n\u00e3o europeus. O fino da bola \u00e9 jogado nos gramados da Champions League e n\u00f3s, sudacas, nos contentamos com o rebotalho, exportando nossos talentos na tenra idade. Nem sequer temos intimidade com os nomes dos jogadores do selecionado, pois v\u00e3o para a Europa jovens demais, meninos de tudo.<\/p>\n<p>Quando ficamos outros 24 anos sem ganhar t\u00edtulos, entre 1970 e 1994, o fosso entre europeus e sul-americanos n\u00e3o era t\u00e3o grande. A profissionaliza\u00e7\u00e3o total dos clubes europeus ainda se operava e, mesmo com muito mais dinheiro, a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica ainda n\u00e3o havia se refletido totalmente nos gramados. Al\u00e9m disso, n\u00e3o se pode deixar de lado o fator pol\u00edtico decisivo de Jo\u00e3o Havelange na presid\u00eancia da FIFA entre 1974 e 1998, considerando que futebol n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 futebol. \u00c9 pol\u00edtica, geopol\u00edtica, neg\u00f3cio, poder e corrup\u00e7\u00e3o, por supuesto.<\/p>\n<p>Hoje, os valores recebidos com os direitos de imagem formam or\u00e7amentos gigantescos, os profissionais da bola viraram pop stars e houve a espetaculariza\u00e7\u00e3o do esporte. Os jovens jogadores est\u00e3o em todos os lugares do mercado, na internet, nas redes sociais, nos videogames, nas pe\u00e7as de roupa e, obviamente, na televis\u00e3o. Os jogos mais importantes s\u00e3o megaeventos, algo parecido com a transforma\u00e7\u00e3o acontecida na m\u00fasica, com os concertos de rock no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p>Atualmente, uma transmiss\u00e3o de uma partida de grande import\u00e2ncia, como os jogos da Copa do Mundo do Catar, s\u00e3o espet\u00e1culos nos quais o capitalismo global se mostra com todas as suas facetas, de modo sofisticado, em busca de dinheiro. Torcedores tornaram-se consumidores e eles s\u00e3o muitos e movidos pela paix\u00e3o. Irracionalmente, em seus desvarios, podem fazer d\u00edvidas enormes apenas para ver o clube de seu cora\u00e7\u00e3o numa final em outro pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em artigo recente publicado no importante site esportivo brit\u00e2nico The Athletic, o t\u00e9cnico espanhol Juanma Lillo, 57 anos, considerado o mentor de Pep Guardiola afirmou categoricamente: O futebol acabou. Seja l\u00e1 o que tenha surgido, n\u00e3o ouso nome\u00e1-lo. O prop\u00f3sito do jogo foi subvertido &#8211; agora visam mais os consumidores do que os torcedores, a ind\u00fastria precisa do dinheiro da TV. N\u00f3s nem percebemos a bagun\u00e7a que fizemos. Globalizamos uma metodologia que alcan\u00e7ou a Copa do Mundo.<\/p>\n<p>A partir da an\u00e1lise da mercantiliza\u00e7\u00e3o do esporte mais popular de todos, da dist\u00e2ncia progressiva e rapidamente aumentando entre n\u00f3s e os mais ricos, o sentimento de pertencimento deveria nos fazer olhar para a Argentina, perdoar as faltas passadas, sua decantada soberba, n\u00e3o olhando os seus pecados, mas a f\u00e9 que anima a nossa escola de futebol, seus craques do passado, Maradona, Kempes, e do presente, Lionel Messi, capazes de encantar o mundo, como os nossos encantaram e ainda voltar\u00e3o a encantar.<\/p>\n<p>E assim, como hermanos que somos, irmos em frente e nela depositar nossa torcida quase como uma consci\u00eancia de classe. Nossos vizinhos representam o mundo perif\u00e9rico, mas, especificamente, ao lado do Brasil eliminado, a hist\u00f3ria do glorioso, mas combalido futebol sul-americano. Fa\u00e7o votos de que passe pela Fran\u00e7a conquiste seu tricampeonato.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando iniciei a escrever este artigo, logo ap\u00f3s a elimina\u00e7\u00e3o &#8211; mais imatura, menos prematura &#8211; da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol para a Cro\u00e1cia, e do jogo monumental entre Argentina e Holanda nas quartas-de-final, no qual os argentinos superaram o desastre de tomar dois gols no final, com grande controle emocional, e avan\u00e7aram nos p\u00eanaltis, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":210382,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-296271","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/296271","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=296271"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/296271\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":296274,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/296271\/revisions\/296274"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/210382"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=296271"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=296271"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=296271"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}