{"id":296275,"date":"2022-12-17T06:03:23","date_gmt":"2022-12-17T09:03:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=296275"},"modified":"2022-12-17T07:18:25","modified_gmt":"2022-12-17T10:18:25","slug":"barulhenta-extrema-direita-respira-e-pode-fazer-estragos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/barulhenta-extrema-direita-respira-e-pode-fazer-estragos\/","title":{"rendered":"Barulhenta, extrema-direita respira e pode fazer estragos"},"content":{"rendered":"<p>As reflex\u00f5es sobre o processo hist\u00f3rico republicano e a hora presente convencem-me de que o fato novo a ser considerado (para que a ele respondam o pensamento e a a\u00e7\u00e3o da esquerda) \u00e9 a emerg\u00eancia de forte movimento de extrema-direita, que se afasta, na sua contund\u00eancia e periculosidade, das experi\u00eancias que dominaram o cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Em recente debate, expostas estas ideias, foi-me objetado que o Brasil &#8220;sempre foi conservador e de direita&#8221;. Como certificado desta afirma\u00e7\u00e3o foram lembrados o integralismo, incidente na primeira metade do s\u00e9culo passado, e o udeno-lacerdismo, j\u00e1 depois da reconstitucionaliza\u00e7\u00e3o de 1946. A contesta\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, desconsidera as distin\u00e7\u00f5es entre direita e extrema-direita, ademais de conter, em si, um elemento conservador: quando naturaliza o processo reacion\u00e1rio, est\u00e1 admitindo sua perman\u00eancia. O &#8220;sempre foi assim&#8221; (de direita) pode insinuar um &#8220;ser\u00e1 sempre assim&#8221;, e se, desgra\u00e7adamente, ser\u00e1 sempre assim, nada mais, ou muito pouco, resta ao agente social.<\/p>\n<p>O integralismo, cujas bases doutrin\u00e1rias Pl\u00ednio Salgado colhera no discurso de Mussolini &#8211; nos anos 1930 o fascismo ascendia em todo o mundo, principalmente na Europa (It\u00e1lia, Alemanha, Espanha e Portugal) e no Jap\u00e3o -, n\u00e3o logrou constituir-se em expectativa de poder entre n\u00f3s, bloqueado que foi pela consolida\u00e7\u00e3o do Estado Novo (1937-1945) e, na sequ\u00eancia, pelo ingresso do Brasil na guerra contra o Eixo (ao lado dos EUA e da URSS), precedido e seguido de amplas mobiliza\u00e7\u00f5es populares que assegurariam, como pe\u00e7as siamesas, o rep\u00fadio popular ao nazifascismo e a afirma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica da democracia liberal, objetivada nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 1945.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, o integralismo se transforma em for\u00e7a pol\u00edtica irrelevante. Durante o Estado Novo, frustradas as aspira\u00e7\u00f5es de Pl\u00ednio de fazer-se ministro da Educa\u00e7\u00e3o de Vargas, os integralistas intentam o putsch de 1938 (assalto ao Pal\u00e1cio da Guanabara, onde residia o presidente), sendo aniquilados rapidamente, um indicativo de sua baixa penetra\u00e7\u00e3o nas for\u00e7as armadas, n\u00e3o obstante as simpatias de comandantes como Eurico Gaspar Dutra e G\u00f3es Monteiro, o general a quem se atribui a frase &#8220;quando a pol\u00edtica entra no quartel por uma porta, a disciplina sai por outra&#8221;. Organizados como partido pol\u00edtico (PRP), os integralistas lan\u00e7am a candidatura de Pl\u00ednio Salgado nas elei\u00e7\u00f5es de 1955, obtendo desempenho inexpressivo. No per\u00edodo constitucional-democr\u00e1tico que se segue a 1946 surge, na esteira do anti-varguismo, a UDN, que, inventada como nega\u00e7\u00e3o do legado getulista e da ditadura do Estado Novo, elaborava o discurso da defesa da democracia ao tempo em que traficava o golpe de Estado nos quart\u00e9is. Perdeu todas as elei\u00e7\u00f5es presidenciais que disputou, at\u00e9 encangar-se na candidatura de J\u00e2nio Quadros, cujo governo se frustraria na tentativa de golpe de 1961. Seguem-se a vilegiatura do presidente renunciante em Londres e, derrotada nas ruas, a tentativa dos ministros militares de impedir a posse do vice-presidente Jo\u00e3o Goulart.<\/p>\n<p>No cen\u00e1rio republicano nada que antecipasse o quadro pol\u00edtico de mobiliza\u00e7\u00e3o popular reacion\u00e1ria que come\u00e7a a se consolidar em 2013 para conhecer seu \u00e1pice na elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro (2018) e em seu governo, cujas caracter\u00edsticas ideol\u00f3gicas e a\u00e7\u00e3o objetiva definem seu car\u00e1ter protofascista que, a esta altura, dispensa demonstra\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, o hist\u00f3rico recente, desde a campanha das diretas-j\u00e1, sugeria o avan\u00e7o das for\u00e7as progressistas.<\/p>\n<p>Se a ditadura do Estado Novo se instala no bojo de um golpe de Estado, articulado por Vargas e operado pelos militares, tanto quanto a ditadura resulta do golpe militar que dep\u00f4s Jo\u00e3o Goulart, o bolsonarismo chega ao pal\u00e1cio do planalto chancelado pela soberania popular, em pleito ao qual n\u00e3o se podem invocar restri\u00e7\u00f5es. Este diferencial deve ser considerado. Seguindo a linha populista, procura o di\u00e1logo direto com as massas e governa como representante de uma alian\u00e7a que re\u00fane militares (respons\u00e1veis pelas decis\u00f5es estrat\u00e9gicas), setores majorit\u00e1rios do grande capital e o atraso pol\u00edtico, que lhe assegura tranquilidade no Congresso. Os militares j\u00e1 n\u00e3o precisam das medidas de for\u00e7a dos atos institucionais da ditadura, pois contam com a associa\u00e7\u00e3o do poder legislativo, liderado pelo &#8220;centr\u00e3o&#8221; e pelo baixo-clero.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s quatro anos de governo marcado pelo descalabro administrativo (a gest\u00e3o da pandemia \u00e9 t\u00e3o-s\u00f3 um caso, ainda que paradigm\u00e1tico), inumer\u00e1veis e grosseiras tentativas de fraturar o processo democr\u00e1tico e uma derrota eleitoral em nada acachapante, a base popular do bolsonarismo d\u00e1 preocupantes sinais de resili\u00eancia e crescimento. N\u00e3o foram triviais as condi\u00e7\u00f5es segundo as quais se desenvolveu o pleito deste ano, e a an\u00e1lise de seus n\u00fameros mostra que o candidato derrotado n\u00e3o \u00e9 um inimigo abatido. As turbas a\u00e7uladas pelo capit\u00e3o e por oficiais superiores em postos de chefia, como o general comandante da 10\u00aa Regi\u00e3o Militar, indicam insubordina\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia \u00e0s regras da conviv\u00eancia democr\u00e1tica. \u00c0s tentativas de bloqueio das estradas, os acampamentos sediciosos e os piqueniques nas portas dos quart\u00e9is, se somam os desmandos recentemente levados a cabo por desordeiros em Bras\u00edlia, como eco dos desesperados \u00e0 diploma\u00e7\u00e3o de Lula. Esses fatos s\u00e3o graves em si mesmos e pelo que revelam acerca das t\u00e1ticas que a extrema-direita se disp\u00f5e a p\u00f4r em pr\u00e1tica para inviabilizar ou ao menos conturbar a mudan\u00e7a de governo.<\/p>\n<p>Enquanto as hordas bolsonaristas tentam, at\u00e9 aqui em v\u00e3o, incendiar as ruas, o presidente da C\u00e2mara dos Deputados mobiliza os recursos dispon\u00edveis, inclusive a chantagem, visando a atrasar a aprova\u00e7\u00e3o da PEC 32\/22, sabidamente fundamental pelo menos para os dois primeiros anos do pr\u00f3ximo mandato. A objetiva tentativa da extrema-direita de acuar o futuro governo indica o car\u00e1ter da oposi\u00e7\u00e3o com a qual deve contar o presidente Lula, qualitativamente muito diversa daquela que conheceu em seus dois mandatos anteriores, quando ainda havia o confronto com a socialdemocracia paulista.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia ao projeto protofascista de instalar uma ditadura constitucional levou \u00e0 arquitetura daquela que certamente ter\u00e1 sido a mais larga frente ampla pol\u00edtico-eleitoral conhecida na Rep\u00fablica, similar \u00e0 alian\u00e7a que se constituiu no movimento das diretas (1983-1984) e levou \u00e0 implos\u00e3o (1985) do col\u00e9gio eleitoral montado pela ditadura agonizante para eleger seu delfim. A chamada &#8220;Alian\u00e7a democr\u00e1tica&#8221; derrotou Paulo Salim Maluf, candidato dos militares, elegeu Tancredo Neves, e os fados deram posse a Jos\u00e9 Sarney.<\/p>\n<p>A alian\u00e7a de 2022 articulou, em torno da inusitada dobradinha Lula-Alckmin, um arco pol\u00edtico que se estendeu da direita \u00e0 esquerda, passando por liberais e socialdemocratas; chegou mesmo a incorporar setores do grande capital, de que resultou a ades\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os da grande imprensa. Logramos vit\u00f3ria eleitoral assim partilhada, mas n\u00e3o podemos ignorar seus n\u00fameros, os das elei\u00e7\u00f5es presidenciais e os das elei\u00e7\u00f5es proporcionais e das majorit\u00e1rias para o Senado, de que resultou o dom\u00ednio, por quadros bolsonaristas, dentre outros, dos mais poderosos Estados da federa\u00e7\u00e3o, como S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, e o controle do Congresso pelas bancadas que transitam da licenciosidade pol\u00edtica (&#8220;Centr\u00e3o&#8221;) \u00e0 extrema-direita, sob o comando do atual presidente da C\u00e2mara, que se distingue do lament\u00e1vel Eduardo Cunha apenas pela maior trucul\u00eancia.<\/p>\n<p>Distanciando-se do integralismo e do udenismo, a extrema-direita de hoje, conservando e aprofundando sua perigosa intera\u00e7\u00e3o com a caserna, emerge como movimento pol\u00edtico organizado e de comprovada capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o derivada de sua base popular e religiosa, alimentada principalmente pelo neopentecostalismo, que ocupa, com o tr\u00e1fico e as mil\u00edcias, os espa\u00e7os deixados pelas comunidades eclesiais de base e pelas organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias de esquerda, que transferiram seus quadros para o dolce far niente da burocracia p\u00fablica e sindical. Seu discurso chega \u00e0s classes m\u00e9dias urbanas (sempre acossadas pelo espectro da proletariza\u00e7\u00e3o), \u00e9 ouvido pelas popula\u00e7\u00f5es marginalizadas das periferias e conquistou mesmo a ades\u00e3o de vastas camadas das massas trabalhadoras, nada obstante suas investidas contra os direitos previdenci\u00e1rios e trabalhistas, num quadro de acentuada precariza\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>Dispens\u00e1vel destacar que o bolsonarismo contou para sua emerg\u00eancia, e conta at\u00e9 aqui, com a ades\u00e3o que jamais faltou aos projetos autorit\u00e1rios da direita e da extrema-direita, seja ao integralismo, seja ao udenismo, como n\u00e3o faltara ao Estado Novo e n\u00e3o faltaria \u00e0 ditadura instalada em 1964. Refiro-me, evidentemente, ao apoio da classe dominante brasileira, reacion\u00e1ria, atrasada historicamente, herdeira da casa-grande, do latif\u00fandio e do escravismo, alienada e dependente, homof\u00f3bica e racista.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio dos movimentos anteriores, o bolsonarismo, para al\u00e9m de simplesmente contar com apoios na caserna, como toda iniciativa reacion\u00e1ria, assumiu, a partir de 2018, o papel de bra\u00e7o pol\u00edtico do projeto de mando dos fardados, posto em resguardo desde 1985, com a transi\u00e7\u00e3o para a democracia. A elei\u00e7\u00e3o do capit\u00e3o foi decisiva para o retorno dos militares ao poder, e, assegurou, ainda, e como sua consequ\u00eancia, a hegemonia de uma pauta protofascista cujas consequ\u00eancias pol\u00edticas, ideol\u00f3gicas e econ\u00f4micas cobrar\u00e3o anos de muito engenho e arte, bem como firmeza, para serem superadas &#8211; supera\u00e7\u00e3o que teve no pleito de 30 de outubro seu ponto de partida.<\/p>\n<p>Fundamental, mas ainda apenas o ponto de partida, indicando um longo percurso a ser observado, e um rol de iniciativas ainda n\u00e3o conhecido de todo. S\u00e3o tarefas que incumbem ao futuro governo Lula, mas n\u00e3o s\u00f3 a ele, pois tanto a sustenta\u00e7\u00e3o do governo quanto o enfrentamento da extrema-direita carecem da organiza\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira &#8211; de que depende a revis\u00e3o estrutural dos partidos que se perfilam no chamado campo da esquerda.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise dos n\u00fameros do pleito nos diz que, para al\u00e9m dos mecanismos do processo eleitoral stricto sensu, como, por exemplo, abuso do poder econ\u00f4mico e do poder pol\u00edtico por parte do incumbente, e discuss\u00f5es em torno de t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias de marketing eleitoral, devemos estudar preferentemente o que n\u00e3o est\u00e1 na superf\u00edcie, a saber, o processo hist\u00f3rico que ensejou a emerg\u00eancia da extrema-direita quando a apar\u00eancia nos dizia que o pa\u00eds girava em torno da op\u00e7\u00e3o socialdemocrata, ora conservadora, ora progressista.<\/p>\n<p>A emerg\u00eancia dessa extrema-direita, sua resili\u00eancia mesmo ap\u00f3s a derrota eleitoral, associada \u00e0 resist\u00eancia militar, ora surda, ora ativa, s\u00e3o fen\u00f4meno grave que n\u00e3o pode ser negligenciado. Pois n\u00e3o basta registrar o fato em si, e simplesmente &#8220;naturaliz\u00e1-lo&#8221; como se o processo social fosse um determinismo ou uma fatalidade religiosa, impondo ao papel do indiv\u00edduo na hist\u00f3ria uma irrelev\u00e2ncia sem cura. A hist\u00f3ria \u00e9 movimento, e interpret\u00e1-la \u00e9 apenas o primeiro passo para saber como nela devemos intervir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As reflex\u00f5es sobre o processo hist\u00f3rico republicano e a hora presente convencem-me de que o fato novo a ser considerado (para que a ele respondam o pensamento e a a\u00e7\u00e3o da esquerda) \u00e9 a emerg\u00eancia de forte movimento de extrema-direita, que se afasta, na sua contund\u00eancia e periculosidade, das experi\u00eancias que dominaram o cen\u00e1rio pol\u00edtico [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":260373,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-296275","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/296275","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=296275"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/296275\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":296278,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/296275\/revisions\/296278"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/260373"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=296275"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=296275"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=296275"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}