{"id":296325,"date":"2022-12-18T07:08:42","date_gmt":"2022-12-18T10:08:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=296325"},"modified":"2022-12-18T15:21:24","modified_gmt":"2022-12-18T18:21:24","slug":"agrotoxicos-intoxicam-14-mil-brasileiros-em-quatro-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/agrotoxicos-intoxicam-14-mil-brasileiros-em-quatro-anos\/","title":{"rendered":"Agrot\u00f3xicos intoxicam 14 mil brasileiros em 4 anos"},"content":{"rendered":"<p>Durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), 14.549 pessoas foram intoxicadas por agrot\u00f3xicos no Brasil. Levantamento in\u00e9dito feito pela Ag\u00eancia P\u00fablica e Rep\u00f3rter Brasil, com dados de 2019 a mar\u00e7o de 2022 do sistema de notifica\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, mostra que essas intoxica\u00e7\u00f5es levaram a 439 mortes \u2014 o que equivale a um \u00f3bito a cada tr\u00eas dias. Nesse per\u00edodo, o Brasil bateu o recorde de aprova\u00e7\u00f5es de pesticidas, com mais de 1.800 novos registros, metade deles j\u00e1 proibidos na Europa. O governo de Bolsonaro tamb\u00e9m foi marcado pelo avan\u00e7o na tramita\u00e7\u00e3o do Projeto de Lei 1459\/2022, apelidado de \u201cPacote do Veneno\u201d, que pode facilitar ainda mais a aprova\u00e7\u00e3o dessas subst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Segundo o levantamento, homens negros s\u00e3o as principais v\u00edtimas de agrot\u00f3xicos. As circunst\u00e2ncias que mais levaram \u00e0s intoxica\u00e7\u00f5es foram tentativas de suic\u00eddio, com cerca de 5 mil casos, seguidas por acidentes, uso habitual dos pesticidas e contamina\u00e7\u00f5es ambientais, por exemplo, quando o qu\u00edmico \u00e9 dispersado pelo ar. As intoxica\u00e7\u00f5es aconteceram principalmente nas lavouras de soja, fumo e milho.<\/p>\n<p>Os dados tamb\u00e9m mostram que os estados da regi\u00e3o Sul concentraram a maioria das notifica\u00e7\u00f5es, considerando o n\u00famero de habitantes. Paran\u00e1, Santa Catarina e Rio Grande do Sul registraram 4,2 mil intoxica\u00e7\u00f5es. Nove entre os dez munic\u00edpios com mais casos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o est\u00e3o na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Os munic\u00edpios com mais intoxica\u00e7\u00f5es notificadas considerando o tamanho da popula\u00e7\u00e3o est\u00e3o na regi\u00e3o Sul. Em Santa Catarina, o munic\u00edpio de Rio do Campo registrou 61 casos para uma popula\u00e7\u00e3o de apenas 5,8 mil habitantes.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise do engenheiro-agr\u00f4nomo e integrante da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Agroecologia (ABA) e da Campanha Permanente contra os Agrot\u00f3xicos e Pela Vida, Leonardo Melgarejo, os n\u00fameros altos da regi\u00e3o podem indicar que os servi\u00e7os de sa\u00fade est\u00e3o fazendo um melhor trabalho de identifica\u00e7\u00e3o destes casos do que em outros estados. \u201cAcredito que o dado n\u00e3o seja porque aqui no Sul os agricultores sejam mais descuidados, mas sim ao fato de que profissionais da sa\u00fade t\u00eam mais zelo com rela\u00e7\u00e3o aos casos de intoxica\u00e7\u00f5es\u201d, diz.<\/p>\n<p>J\u00e1 em n\u00fameros absolutos, o munic\u00edpio que mais registrou intoxica\u00e7\u00f5es por agrot\u00f3xicos foi Recife, com 938 notifica\u00e7\u00f5es no per\u00edodo. A pesquisadora da Fiocruz Pernambuco e vice-coordenadora do GT de Agrot\u00f3xicos da institui\u00e7\u00e3o, Aline Gurgel, refor\u00e7a que o n\u00famero maior de registros de casos em um territ\u00f3rio n\u00e3o significa necessariamente uma maior ocorr\u00eancia de casos. Ela cita a cria\u00e7\u00e3o do programa de Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade de Popula\u00e7\u00f5es Expostas a Agrot\u00f3xicos (VSPEA), que instituiu a\u00e7\u00f5es como o cadastro na aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria dos aplicadores de agrot\u00f3xicos e a vigil\u00e2ncia participativa dos trabalhadores expostos a agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das diferen\u00e7as regionais, os dados obtidos pela Ag\u00eancia P\u00fablica e Rep\u00f3rter Brasil revelam que homens negros foram o perfil mais comum entre os intoxicados.<\/p>\n<p>Para o m\u00e9dico e professor aposentado que coordenou o Observat\u00f3rio do Uso de Agrot\u00f3xicos e Consequ\u00eancias para a Sa\u00fade Humana e Ambiental da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), Guilherme Cavalcanti de Albuquerque, a intoxica\u00e7\u00e3o recorde desse recorte da popula\u00e7\u00e3o pode estar relacionada ao racismo estrutural, que faz com que homens negros executem trabalhos mais precarizados, como o de aplicador de agrot\u00f3xicos. \u201cA popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 uma popula\u00e7\u00e3o a quem foi negado por s\u00e9culos o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e, mesmo quando h\u00e1 educa\u00e7\u00e3o qualificada, o racismo estrutural imp\u00f5e maior dificuldade para acesso a trabalhos menos agressivos. Resta mais aos negros esse tipo de trabalho prejudicial \u00e0 sa\u00fade\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Na mesma linha, Gurgel lembra que a baixa escolaridade dificulta a compreens\u00e3o das instru\u00e7\u00f5es e dos riscos e perigos associados \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o aos agrot\u00f3xicos. \u201cMais grave ainda \u00e9 que as recentes modifica\u00e7\u00f5es nas normativas brasileiras vulnerabiliza ainda mais a popula\u00e7\u00e3o, porque retiraram informa\u00e7\u00f5es de alerta dos r\u00f3tulos e bulas de agrot\u00f3xicos, assim como o pictograma da caveira com duas t\u00edbias cruzadas, de v\u00e1rios agrot\u00f3xicos comercializados no Brasil. Para trabalhadores com baixa escolaridade, essa mudan\u00e7a na comunica\u00e7\u00e3o de risco pode levar a um maior n\u00famero de casos de intoxica\u00e7\u00e3o, pois dificulta a identifica\u00e7\u00e3o do perigo\u201d, comenta a pesquisadora, se referindo \u00e0s mudan\u00e7as no crit\u00e9rio de classifica\u00e7\u00e3o e nas embalagens de agrot\u00f3xicos feita pela Anvisa em 2019.<\/p>\n<p>Os casos de intoxica\u00e7\u00e3o registrados entre 2019 e 2022 aconteceram principalmente em lavouras de soja, fumo e milho. A soja correspondeu a 802 registros e o milho, 523. Os n\u00fameros altos nesse tipo de lavoura, de acordo com os pesquisadores, podem estar relacionados ao tamanho das planta\u00e7\u00f5es desses cultivos, onde os pesticidas costumam ser pulverizados em larga escala, normalmente por avi\u00f5es, o que aumenta as chances do agrot\u00f3xico se espalhar para fora da planta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pesquisadora da USP Larissa Bombardi indicou que as planta\u00e7\u00f5es de soja, milho, cana-de-a\u00e7\u00facar e algod\u00e3o s\u00e3o o destino de 79% das vendas de agrot\u00f3xicos no Brasil. O Atlas Geografia do uso de agrot\u00f3xicos no Brasil e conex\u00f5es com a Uni\u00e3o Europeia, publicado em 2017, mostra que 52% do veneno vai para planta\u00e7\u00f5es de soja e 10% para o milho.<\/p>\n<p>J\u00e1 os produtos usados em planta\u00e7\u00f5es de fumo registraram 734 intoxica\u00e7\u00f5es nos dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. O professor Albuquerque aponta que, apesar de n\u00e3o estar entre as principais lavouras em extens\u00e3o no pa\u00eds, o cultivo de fumo \u00e9 um dos que mais usa agrot\u00f3xicos. \u201cAl\u00e9m disso, o cultivo exige contato muito pr\u00f3ximo do trabalhador com o fumo contaminado pelo agrot\u00f3xico. Isso faz com que a incid\u00eancia de intoxica\u00e7\u00e3o nesse plantio seja proporcionalmente maior\u201d, comenta, lembrando que a aplica\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos nas lavouras de fumo muitas vezes \u00e9 feita via costal.<\/p>\n<p>Os casos de tentativa de suic\u00eddio s\u00e3o a circunst\u00e2ncia mais comum das intoxica\u00e7\u00f5es, com 5.210 registros. Segundo os pesquisadores, dois fatores ajudam a interpretar o dado.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 a baixa notifica\u00e7\u00e3o de outras causas de intoxica\u00e7\u00e3o, que faz com que os registros por tentativas de suic\u00eddio tenham destaque. O segundo \u00e9 que o uso de alguns agrot\u00f3xicos pode levar \u00e0 depress\u00e3o e a altera\u00e7\u00f5es do sistema nervoso, o que seria um fator a mais que pode levar \u00e0s tentativas.<\/p>\n<p>\u201cComo h\u00e1 muita subnotifica\u00e7\u00e3o, os casos de suic\u00eddio e de \u00f3bitos em geral s\u00e3o mais dif\u00edceis de ocultar\u201d, avalia Albuquerque. \u201cMas h\u00e1 grande v\u00ednculo entre a intoxica\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos e o suic\u00eddio, porque h\u00e1 agrot\u00f3xicos que induzem fortemente a doen\u00e7as depressivas e ao suic\u00eddio\u201d, complementa.<\/p>\n<p>Aline Gurgel comenta que os agrot\u00f3xicos do grupo qu\u00edmico dos carbamatos e organofosforados t\u00eam como um de seus principais mecanismos de a\u00e7\u00e3o a depress\u00e3o do sistema nervoso. O propamocarbe \u00e9 um exemplo do grupo dos carbamatos e \u00e9 usado em mais de 40 culturas no Brasil, incluindo na abobrinha, alface e tomate. Os organofosforados compreendem uma ampla gama de agrot\u00f3xicos, entre eles o acefato, o quinto agrot\u00f3xico mais vendido no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Redu\u00e7\u00e3o na pandemia<\/strong><br \/>\nA quantidade de casos de intoxica\u00e7\u00f5es por agrot\u00f3xicos caiu durante os anos de pandemia do coronav\u00edrus: em 2019 foram 5.875 casos para 4.073 em 2020, e 3.816 em 2021.<\/p>\n<p>Segundo Leonardo Melgarejo, a queda era esperada e pode n\u00e3o significar uma diminui\u00e7\u00e3o real de intoxica\u00e7\u00f5es. \u201cDurante a pandemia, as pessoas evitaram aglomera\u00e7\u00f5es, especialmente em locais de risco [como hospitais e postos de sa\u00fade]\u201d, afirma, mencionando dados da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) de que apenas uma a cada 50 intoxica\u00e7\u00f5es por agrot\u00f3xicos \u00e9 registrada.<\/p>\n<p>A pesquisadora da Fiocruz concorda com os impactos da pandemia nas notifica\u00e7\u00f5es. \u201cOs servi\u00e7os de sa\u00fade foram sobrecarregados em decorr\u00eancia da pandemia, a identifica\u00e7\u00e3o de casos suspeitos de intoxica\u00e7\u00e3o, bem como a notifica\u00e7\u00e3o de agravos como intoxica\u00e7\u00f5es, muito provavelmente foram prejudicadas\u201d, pontua Gurgel. Ela tamb\u00e9m refor\u00e7a que as intoxica\u00e7\u00f5es por agrot\u00f3xicos s\u00e3o subnotificadas por diferentes motivos al\u00e9m da Covid, como a falta de treinamento dos profissionais e a baixa cobertura laboratorial para confirma\u00e7\u00e3o de casos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 dificuldade dos intoxicados chegarem aos postos de atendimento pela dist\u00e2ncia dos servi\u00e7os de sa\u00fade e a dificuldade de locomo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cOs agricultores nem sempre procuram atendimento e quando procuram \u00e9 porque houve uma intoxica\u00e7\u00e3o aguda e sentiram medo de morrer. Ent\u00e3o as outras intoxica\u00e7\u00f5es, de impacto mais baixo, mas que acontecem de forma cr\u00f4nica, sequer s\u00e3o registradas\u201d, comenta Melgarejo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), 14.549 pessoas foram intoxicadas por agrot\u00f3xicos no Brasil. 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