{"id":296328,"date":"2022-12-18T07:42:27","date_gmt":"2022-12-18T10:42:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=296328"},"modified":"2022-12-18T07:48:23","modified_gmt":"2022-12-18T10:48:23","slug":"bolsonaro-ainda-pode-adotar-taticas-golpistas-de-trump","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/bolsonaro-ainda-pode-adotar-taticas-golpistas-de-trump\/","title":{"rendered":"Bolsonaro ainda pode adotar t\u00e1ticas golpistas de Trump"},"content":{"rendered":"<p>A tens\u00e3o p\u00f3s-eleitoral no Brasil n\u00e3o tem nada de espont\u00e2nea. E nem de original. Ela apenas completa uma estrat\u00e9gia empregada desde a vit\u00f3ria eleitoral de Bolsonaro em 2018 \u2013 que, por sua vez, imita a estrat\u00e9gia adotada pelo ex-presidente Donald Trump nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Nesta reportagem s\u00e3o analisadas algumas das principais a\u00e7\u00f5es adotadas pelo presidente americano acerca da sua derrota eleitoral em 2020 e as comparou com as a\u00e7\u00f5es de Jair Bolsonaro e seu entorno mais pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Desde a produ\u00e7\u00e3o de dossi\u00eas falsos at\u00e9 a\u00e7\u00f5es judiciais e a cria\u00e7\u00e3o de memes com Fake News sobre a vota\u00e7\u00e3o, as semelhan\u00e7as entre as a\u00e7\u00f5es dos dois presidentes antes e depois das elei\u00e7\u00f5es permitem afirmar que se trata de um Playbook \u2013 um manual que segue um roteiro para erodir a confian\u00e7a no resultado eleitoral, manter o eleitorado engajado e semear o terreno para a\u00e7\u00f5es de desestabiliza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Esse \u201cmanual\u201d n\u00e3o \u00e9 replicado no Brasil por acaso. A fam\u00edlia Bolsonaro gastou imenso tempo e esfor\u00e7o para construir alian\u00e7as nos Estados Unidos. Eduardo Bolsonaro conheceu o ide\u00f3logo da ultradireita americana Steve Bannon em agosto de 2018 e, meses depois, foi nomeado representante sul-americano do The Movement, uma plataforma de partidos pol\u00edticos de direita. Desde ent\u00e3o, se reuniu com os principais apoiadores de Trump 77 vezes, conforme a P\u00fablica revelou.<\/p>\n<p>Entre os pol\u00edticos com quem ele mant\u00e9m relacionamento est\u00e3o figuras-chave para a falsa narrativa de que teria havido fraudes nas elei\u00e7\u00f5es de 2020 nos EUA, como o empres\u00e1rio Mike Lindell, o ativista Ali Alexander, que coordenou as passeatas do movimento \u201cStop The Steal\u201d (pare o roubo) e o pr\u00f3prio Bannon. Todos eles passaram a espalhar para o p\u00fablico americano a vers\u00e3o fantasiosa de que as nossas elei\u00e7\u00f5es presidenciais teriam sido roubadas.<\/p>\n<p>Em 10 de novembro, logo ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Lu\u00eds In\u00e1cio Lula da Silva, Eduardo Bolsonaro viajou para os Estados Unidos onde se encontrou com Donald Trump no seu resort em Mar-a-Lago, na Fl\u00f3rida. Depois, ele foi para o sul da Fl\u00f3rida, onde almo\u00e7ou com Jason Miller, CEO da rede social Gettr e que esteve duas vezes no Brasil apenas esse ano em eventos de apoio \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro. Al\u00e9m disso, ele conversou por telefone com Steve Bannon, como admitiu ao jornal Washington Post. Foi Bannon quem inventou o termo Brazilian Spring para tentar dar um car\u00e1ter de \u201camplo movimento democr\u00e1tico\u201d \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es golpistas no Brasil, associando-as \u00e0 primavera \u00e1rabe. A hashtag alcan\u00e7ou os Trending Topics do Twitter diversas vezes desde a elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A seguir, um resumo e compara\u00e7\u00e3o das principais t\u00e1ticas de ambos os movimentos.<\/p>\n<p><strong>1. Plantando a Semente da D\u00favida<\/strong><br \/>\nPouco depois de eleitos, ambos os presidentes come\u00e7aram a dizer que houve fraude eleitoral que os prejudicou, plantando uma d\u00favida no sistema eleitoral j\u00e1 no come\u00e7o do mandato.<\/p>\n<p>Desde 2016, quando foi eleito presidente dos Estados Unidos, Donald Trump fomenta a ideia de que as elei\u00e7\u00f5es americanas s\u00e3o marcadas pela fraude. J\u00e1 no final de novembro daquele ano, apenas dias depois da sua vit\u00f3ria, ele come\u00e7ou a dizer que teria vencido tamb\u00e9m por maioria de votos populares \u201cse voc\u00ea descontar as milh\u00f5es de pessoas que votaram ilegalmente\u201d. Ele repetiu essa mentira diversas vezes. A narrativa dizia que os democratas haviam empregado votos de imigrantes ilegais para chegar \u00e0 vota\u00e7\u00e3o de Hillary Clinton, que foi superior \u00e0 dele no voto popular.\u00a0 Em uma entrevista em 2019, ele disse que o estado da Calif\u00f3rnia admitiu que havia contado um milh\u00e3o de votos ilegais. Isso tamb\u00e9m \u00e9 uma mentira.<\/p>\n<p>Mas, a cada nova declara\u00e7\u00e3o, a imprensa repercutia \u2013 e as redes trumpistas reverberavam a mentira, sedimentando a narrativa.<\/p>\n<p>Jair Bolsonaro fez exatamente a mesma coisa. Um ano depois de tomar posse, afirmou pela primeira vez \u201cter provas\u201d de que ele teria ganhado no primeiro turno em 2018 se n\u00e3o tivesse havido fraude. \u201cEu acredito que, pelas provas que tenho em minhas m\u00e3os, que vou mostrar brevemente, eu fui eleito em primeiro turno, mas no meu entender houve fraude. E n\u00f3s temos n\u00e3o apenas a palavra, temos comprovado, brevemente eu quero mostrar. N\u00f3s precisamos aprovar no Brasil um sistema seguro de apura\u00e7\u00e3o de votos\u201d, disse em Miami, no dia 9 de mar\u00e7o de 2020.<\/p>\n<p>Ele repetiria essa mesma mentira diversas vezes em suas lives semanais. As provas, claro, nunca existiram. Mas passaram a rodar em sites bolsonaristas.<\/p>\n<p>Em outubro de 2018 uma den\u00fancia sobre diverg\u00eancia de dados nos votos foi protocolada pelo advogado Ricardo Freire Vasconcellos e pelo engenheiro Vicente Paulo de Lima. O TSE abriu procedimento na \u00e9poca e emitiu um parecer em 15 de fevereiro de 2019, julgando a den\u00fancia improcedente. Mesmo assim, a mentira seguiu alimentando as redes bolsonaristas nos anos seguintes. Em agosto de 2020, passou a circular um v\u00eddeo afirmando que a PF teria descoberto que Bolsonaro vencera no primeiro turno com 78% dos votos. O v\u00eddeo foi desmentido pelo Aos Fatos quase imediatamente, mas continuou a rodar.<\/p>\n<p>Bolsonaro voltou a dizer que teria ganho no primeiro turno nas elei\u00e7\u00f5es de 2018\u00a0 em janeiro de 2022, em Macap\u00e1. Em 12 de julho, repetiu a mentira, acrescida de uma suposta fraude nas elei\u00e7\u00f5es de 2014. \u201cVamos mostrar 2014, elei\u00e7\u00e3o de 2018, onde eu ganhei no primeiro turno. Eu falo isso n\u00e3o da boca pra fora, tenho como provar\u201d, disse a apoiadores em frente ao Pal\u00e1cio da Alvorada. Nos dias seguintes, ele causou furor nas redes sociais afirmando que apresentaria provas de fraude na live semanal do dia 29 de julho. Mas, durante a live, s\u00f3 apresentou Fake News j\u00e1 desmentidas, como um v\u00eddeo com uma montagem mostrando que uma urna eletr\u00f4nica teria completado o voto no n\u00famero do PT nas elei\u00e7\u00f5es de 2018.<\/p>\n<p><strong>2. Disseminando mentiras com uso de respaldos institucionais\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><br \/>\nAmbos os presidentes usaram as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas para dar respaldo \u00e0 teoria furada de fraudes nas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em maio de 2017, Donald Trump usou sua acusa\u00e7\u00e3o infundada sobre votos ilegais fraudados pelos democratas para instituir uma comiss\u00e3o presidencial sobre integridade eleitoral. A Comiss\u00e3o foi liderada pelo Vice-Presidente, Mike Pence, e o Secret\u00e1rio do Estado do Kansas Kris Kolbach. Sem encontrar nenhuma prova, a comiss\u00e3o foi extinta em agosto do ano seguinte. Mas a pr\u00f3pria exist\u00eancia da iniciativa institucional ajudou a respaldar a narrativa de fraude e alimentou as teorias da conspira\u00e7\u00e3o correndo soltas nas redes.<\/p>\n<p>Bolsonaro fez o mesmo, em diferentes frentes, e de maneira at\u00e9 mais bem-sucedida que Trump. A primeira empreitada come\u00e7ou em 2019 dentro do GSI, tendo os generais Heleno e Luiz Eduardo Ramos como cabe\u00e7as.<\/p>\n<p>Segundo a\u00a0Folha de S. Paulo, o t\u00e9cnico Marcelo Abrileri, que afirmara crer em ind\u00edcios de fraude nas elei\u00e7\u00f5es de 2014, foi procurado em 2019 pelo general Luiz Eduardo Ramos e convidado para uma reuni\u00e3o com Bolsonaro no Pal\u00e1cio do Planalto. Novamente procurado por Ramos, em julho de 2021, o t\u00e9cnico falou por telefone com Bolsonaro. \u201cDurante essa conversa foi avisado que estavam reunindo v\u00e1rias informa\u00e7\u00f5es sobre poss\u00edvel fraude nas urnas eletr\u00f4nicas. O general Ramos pediu para o declarante falar um pouco sobre as informa\u00e7\u00f5es que descobriu\u201d, disse Abrileri \u00e0 Pol\u00edcia Federal.<\/p>\n<p>A ofensiva contra o sistema de vota\u00e7\u00e3o foi assumida pelo Minist\u00e9rio da Defesa ap\u00f3s a demiss\u00e3o do general Fernando Azevedo por Bolsonaro, quando os comandantes das For\u00e7as Armadas tamb\u00e9m deixaram os cargos em protesto. O novo ministro da Defesa, Paulo S\u00e9rgio Nogueira, aproveitou um convite feito pelo TSE para participar da Comiss\u00e3o de Transpar\u00eancia das Elei\u00e7\u00f5es para criar fatos pol\u00edticos, repetindo questionamentos sobre a seguran\u00e7a das urnas. Recha\u00e7ados pelo TSE com dados e fatos, teve algumas sugest\u00f5es acatadas \u2013 como fazer um teste de biometria no dia das elei\u00e7\u00f5es \u2013 mas nada disso impediu o MD a seguir criando fatos golpistas. Al\u00e9m de um relat\u00f3rio que ao mesmo tempo que alega que n\u00e3o foi poss\u00edvel comprovar que houve fraude, \u201cn\u00e3o exclui a possibilidade de fraudes ou inconsist\u00eancias\u201d, uma aberra\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, o MD colocou soldados para fazerem uma \u201cauditoria paralela\u201d das urnas em algumas zonas eleitorais.<\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es do MD pretendiam dar a ilus\u00e3o que os militares teriam poder de questionar o resultado eleitoral \u2013 o que n\u00e3o t\u00eam. E contribu\u00edram definitivamente para os atos golpistas que bloquearam estradas e se instalaram diante de quart\u00e9is logo depois da derrota de Bolsonaro.<\/p>\n<p>Finalmente, em 18 de julho, o governo tamb\u00e9m acionou a estrutura do Itamaraty e da Secretaria Geral da Presid\u00eancia para realizar uma reuni\u00e3o com embaixadores de pa\u00edses estrangeiros em que as mesmas alega\u00e7\u00f5es que j\u00e1 haviam sido desbancadas por fact-checkers foram apresentadas. O encontro foi transmitido pela TV Brasil. Mas o tiro saiu pela culatra, com a embaixada do governo americano reiterando que o sistema de vota\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica brasileiro \u00e9 \u201cmodelo para todo o mundo\u201d e uma mobiliza\u00e7\u00e3o da Escola de Direito da Universidade de S\u00e3o Paulo, conseguindo apoio de quase 1 milh\u00e3o de pessoas para recha\u00e7ar os ataques \u00e0s urnas eletr\u00f4nicas em 11 de agosto.<\/p>\n<p><strong>3. Congressistas aliados<\/strong><br \/>\nAntes mesmo das elei\u00e7\u00f5es, Trump e Bolsonaro usaram congressistas aliados para impulsionar d\u00favidas sobre o sistema eleitoral.<\/p>\n<p>Em 2018, os l\u00edderes republicanos da C\u00e2mara, Paul Ryan e Kevin McCarthy, apontaram quatro disputas na Calif\u00f3rnia nas quais os republicanos lideraram na contagem antecipada de votos, mas perderam quando as c\u00e9dulas atrasadas chegaram. Usaram a tribuna para sugerir que teria havido fraude eleitoral.<\/p>\n<p>No Brasil, Bolsonaro valeu-se de sua escudeira na C\u00e2mara dos Deputados, Bia Kicis, autora de um Projeto de Emenda Constitucional (PEC) que obrigaria a impress\u00e3o de votos para permitir recontagem. \u201cTodo sistema eleitoral \u00e9 pass\u00edvel de fraude, no papel, digital e at\u00e9 c\/ voto impresso. A diferen\u00e7a \u00e9 que sem voto impresso a fraude n\u00e3o deixa rastro, enquanto nos demais m\u00e9todos, crime deixa rastro e pode haver recontagem\/auditagem. Nosso sistema \u00e9 como um homic\u00eddio sem corpo de delito\u201d, tuitou a deputada em novembro de 2020.\u00a0A PEC foi rejeitada no Congresso em agosto do ano seguinte.<\/p>\n<p><strong>4. Fake News e Memes sobre a seguran\u00e7a nas elei\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>\nPouco antes das elei\u00e7\u00f5es, tanto trumpistas quanto bolsonaristas criaram conte\u00fados para redes sociais alegando que havia suspeitas de fraudes. Nos EUA, um m\u00eas antes das elei\u00e7\u00f5es, Trump saiu dizendo que houve c\u00e9dulas de papel jogadas em um rio em Winsconsin. Em setembro de 2020, um funcion\u00e1rio da sua campanha j\u00e1 havia tuitado sobre um punhado de c\u00e9dulas que haviam sido erroneamente descartadas.<\/p>\n<p>No Brasil, o engajamento de posts sobre fraude deu um salto \u00e0s v\u00e9speras do primeiro turno, segundo o N\u00facleo Jornalismo. Fakes que j\u00e1 haviam sido desbancadas, como o preenchimento autom\u00e1tico de urnas com o n\u00famero do PT, voltaram a circular. Quatro das cinco principais correntes de baixa qualidade monitoradas pelo Radar Aos Fatos que circularam em grupos p\u00fablicos de pol\u00edtica no WhatsApp no final de semana do primeiro turno mencionavam suposta fraude nas urnas.<\/p>\n<p><strong>5. Impedir vota\u00e7\u00e3o em \u00e1reas da oposi\u00e7\u00e3o\u00a0<\/strong><br \/>\nOs aliados de Trump usaram v\u00e1rios estratagemas para impedir que eleitores com maior propens\u00e3o de votar nos democratas chegassem \u00e0s urnas.<\/p>\n<p>Na Carolina do Norte, seus partid\u00e1rios foram \u00e0 Justi\u00e7a para pedir que as regras para identifica\u00e7\u00e3o para votar fossem mais r\u00edgidas, o que afetaria muito mais o voto dos negros, majoritariamente democratas. Segundo um levantamento do Brennan Center for Justice, 70,9% dos eleitores brancos eleg\u00edveis votaram nas elei\u00e7\u00f5es de 2020, em compara\u00e7\u00e3o com apenas 58,4% dos eleitores n\u00e3o brancos.<\/p>\n<p>A coisa foi descarada. Ao defender leis restritivas de voto do Arizona perante a Suprema Corte em mar\u00e7o de 2021, o advogado do Comit\u00ea Nacional Republicano admitiu que o interesse do partido nas leis era evitar \u201cuma desvantagem competitiva em rela\u00e7\u00e3o aos democratas\u201d. E ao discutir propostas para expandir o acesso \u00e0 vota\u00e7\u00e3o por correspond\u00eancia, o presidente Trump afirmou que uma expans\u00e3o da vota\u00e7\u00e3o por correio levaria a \u201cn\u00edveis de vota\u00e7\u00e3o que, se voc\u00ea concordasse, nunca mais teria um republicano eleito neste pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p>Por aqui, a campanha eleitoral de Bolsonaro chegou a pedir ao TSE que limitasse a disponibiliza\u00e7\u00e3o de transporte regular pelas prefeituras do Brasil \u2013 a\u00e7\u00e3o que afetaria os mais pobres, que precisam de transporte p\u00fablico para votar. O ministro Benedito Gon\u00e7alves, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), considerou \u201cabsurdo\u201d o pedido. Segundo pesquisas, a vantagem do petista sobre Bolsonaro era maior nas classes mais baixas.<\/p>\n<p>No dia da elei\u00e7\u00e3o, a Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal (PRF) realizou opera\u00e7\u00f5es parando \u00f4nibus para verificar se estavam em conformidade com a legisla\u00e7\u00e3o de tr\u00e2nsito. Causou atrasos na vota\u00e7\u00e3o e inc\u00f4modo a milhares de eleitores. Levantamento da P\u00fablica revelou que houve 5 vezes mais opera\u00e7\u00f5es no Nordeste, local que deu ampla vit\u00f3ria a Lula, se comparado com a Regi\u00e3o Sul, onde a maioria \u00e9 eleitora de Bolsonaro.<\/p>\n<p><strong>6. Apoiadores como \u201cfiscais\u201d das urnas<\/strong><br \/>\nNo primeiro debate com Joe Biden, em 30 de setembro de 2020, Trump foi perguntado sobre se pediria que apoiadores \u201cn\u00e3o se envolvessem em nenhuma agita\u00e7\u00e3o civil\u201d durante a contagem das c\u00e9dulas.<\/p>\n<p>\u201cEstou pedindo aos meus apoiadores que compare\u00e7am aos locais de vota\u00e7\u00e3o, observem com muita aten\u00e7\u00e3o\u201d, respondeu Trump. \u201cSe for uma elei\u00e7\u00e3o justa, estou 100% a favor. Mas se vejo dezenas de milhares de c\u00e9dulas sendo manipuladas, n\u00e3o posso concordar.\u201d<\/p>\n<p>Bolsonaro repetiu a frase de maneira quase id\u00eantica v\u00e1rias vezes. Na sabatina do Jornal Nacional, em 23 de agosto, colocou condi\u00e7\u00f5es para aceitar o resultado eleitoral. \u201cSeja qual for [o resultado], as elei\u00e7\u00f5es limpas devem ser respeitadas. Ser\u00e3o respeitados os resultados das urnas, desde que sejam elei\u00e7\u00f5es limpas e transparentes\u201d, disse.<\/p>\n<p>Em maio, ele j\u00e1 havia tergiversado. Questionado se pode se comprometer a aceitar o resultado das urnas eletr\u00f4nicas independentemente do resultado, mesmo que n\u00e3o seja reeleito, Bolsonaro n\u00e3o respondeu. Disse apenas: \u201cDemocraticamente, eu espero elei\u00e7\u00f5es limpas\u201d.<\/p>\n<p>Mais de um ano antes,\u00a0em uma live em\u00a015 de abril de 2021, ele havia dito que s\u00f3 aceitaria uma derrota para Lula \u201cSe o Lula voltar, pelo voto direto, pelo voto audit\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, assim como Trump, a campanha de Bolsonaro chamou seus eleitores a irem para os col\u00e9gios eleitorais para \u201cfiscalizar\u201d a vota\u00e7\u00e3o, usando falsas alega\u00e7\u00f5es de fraudes como mote.<\/p>\n<p>A campanha publicou um site chamado \u201cFiscais do Bolsonaro\u201d atrav\u00e9s do qual qualquer cidad\u00e3o poderia se inscrever para ir fiscalizar as urnas. A pr\u00e1tica \u00e9 irregular, uma vez que a lei eleitoral garante a exist\u00eancia de fiscais sob determinadas regras, como ter crach\u00e1s assinados pelos partidos, e ter somente dois fiscais acompanhando o trabalho da mesa receptora por vez.<\/p>\n<p><strong>7. Parem a contagem de votos<\/strong><br \/>\nNa madrugada seguinte \u00e0s elei\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos, Trump exigiu que a contagem dos votos fosse interrompida. Segundo ele, era preciso tempo para apurar as den\u00fancias de fraudes \u2013 inventadas e ampliadas por seus pr\u00f3prios partid\u00e1rios. \u00c0s v\u00e9speras da elei\u00e7\u00e3o, a campanha bolsonarista tentou um golpe muito semelhante. O ministro das Comunica\u00e7\u00f5es, F\u00e1bio Faria, e o ex-chefe da Secom (Secretaria Especial de Comunica\u00e7\u00e3o) F\u00e1bio Wajngarten chamaram uma entrevista coletiva para dizer que a campanha de Bolsonaro havia sido prejudicada porque inser\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio n\u00e3o teriam sido veiculadas conforme a lei.<\/p>\n<p>F\u00e1bio Faria pediu, em seguida, adiamento das elei\u00e7\u00f5es at\u00e9 que a den\u00fancia fosse apurada \u2013 mais tarde ele diria que se arrependeu do pedido.\u00a0 Mas ele n\u00e3o foi o \u00fanico. Eduardo Bolsonaro pediu o mesmo em uma entrevista, e as redes sociais bolsonaristas rapidamente viralizaram a demanda.<\/p>\n<p>\u201cTem um candidato que est\u00e1 sendo depreciado e um que est\u00e1 sendo favorecido. Isso est\u00e1 ferindo a democracia. Se fosse dado todo o direito de resposta a Jair Bolsonaro \u00e9 tanto tempo que seria necess\u00e1rio adiar essa elei\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou Eduardo, durante entrevista ao site baiano BNews. Ao mesmo tempo, o Instituto Nacional de Advocacia (Inad), uma institui\u00e7\u00e3o pouco conhecida, enviou um of\u00edcio \u00e0 PGR requerendo o adiamento do segundo turno.<\/p>\n<p>O PL pediu a investiga\u00e7\u00e3o do caso ao TSE. Por\u00e9m, o TSE prontamente rejeitou a a\u00e7\u00e3o, e as r\u00e1dios mencionadas vieram a p\u00fablico contar que a pr\u00f3pria campanha havia deixado de enviar os programas. Al\u00e9m disso, o relat\u00f3rio enviado pelo partido ao TSE contabilizou ao menos 9.764 inser\u00e7\u00f5es a mais do que as r\u00e1dios citadas veicularam na realidade, segundo o Aos Fatos.<\/p>\n<p><strong>8. Sem aceitar o resultado<\/strong><br \/>\nNo seu discurso na madrugada seguinte \u00e0 elei\u00e7\u00e3o, Trump disse com todas as letras que havia vencido a elei\u00e7\u00e3o e que houve fraude.<\/p>\n<p>\u201cIsso \u00e9 uma fraude para o p\u00fablico americano. Isso \u00e9 uma vergonha para o nosso pa\u00eds. Est\u00e1vamos nos preparando para vencer esta elei\u00e7\u00e3o. Francamente, n\u00f3s ganhamos esta elei\u00e7\u00e3o. N\u00f3s ganhamos essa elei\u00e7\u00e3o. Portanto, nosso objetivo agora \u00e9 garantir a integridade para o bem desta na\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 um momento muito grande. Esta \u00e9 uma grande fraude em nossa na\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>J\u00e1 Bolsonaro demorou 44 horas para se pronunciar mas, assim como o americano, n\u00e3o reconheceu a derrota. Em vez disso, afirmou que o processo foi injusto e aplaudiu os manifestantes que j\u00e1 bloqueavam estradas para rejeitar a vota\u00e7\u00e3o popular. \u201cOs atuais movimentos populares s\u00e3o fruto de indigna\u00e7\u00e3o e sentimento de injusti\u00e7a de como se deu o processo eleitoral. As movimenta\u00e7\u00f5es pac\u00edficas sempre ser\u00e3o bem-vindas, mas os nossos m\u00e9todos n\u00e3o podem ser o da esquerda, que sempre prejudicaram a popula\u00e7\u00e3o, como invas\u00e3o de propriedades, destrui\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nios e cerceamento do direito de ir e vir.\u201c, disse.<\/p>\n<p>O mentor do populismo de direita global, Steve Bannon, foi al\u00e9m. \u201cBolsonaro n\u00e3o pode conceder a derrota\u201d, disse ele, minutos depois do resultado, ainda no dia 30 de outubro, ao site de direita Rumble. \u201cEsta elei\u00e7\u00e3o foi roubada em plena luz do dia\u2026 ultrajante\u201d, escreveu ele em sua conta no Gettr no dia seguinte.<\/p>\n<p><strong>9. Uso do partido contra resultado eleitoral\u00a0<\/strong><br \/>\nPouco depois das elei\u00e7\u00f5es, Trump ligou para correligion\u00e1rios do partido Republicano para exigir que pedissem novas contagens de votos em determinadas regi\u00f5es. S\u00e3o os secret\u00e1rios dos governos estaduais os respons\u00e1veis pela supervis\u00e3o da contagem de votos.<\/p>\n<p>Uma dessas conversas, em que Trump pressionava o secret\u00e1rio de estado da Ge\u00f3rgia, ordenando que ele \u201cencontrasse\u201d votos para reverter a elei\u00e7\u00e3o, foi vazada para o jornal Washington Post. \u201cTudo que eu quero \u00e9 isso. S\u00f3 quero encontrar 11.780 votos, que \u00e9 um a mais do que temos. Porque ganhamos o estado\u201d, disse. \u201cN\u00e3o tem como eu perder a Ge\u00f3rgia. N\u00e3o tem jeito. Ganhamos por centenas de milhares de votos.\u201d<\/p>\n<p>J\u00e1 Bolsonaro, antes mesmo da elei\u00e7\u00e3o, pressionou seu partido, o PL, a contratar uma empresa para fazer auditoria das urnas e encontrar brechas no sistema que desse base para questionamentos posteriores ao resultado eleitoral. A empresa Instituto Voto Legal foi contratada pelo valor de R$ 1,3 milh\u00e3o, e apresentou um relat\u00f3rio dizendo que 279 mil das urnas eletr\u00f4nicas, ou 60% do total, n\u00e3o tinham identifica\u00e7\u00e3o e que alguns equipamentos travaram e precisaram ser desligados.<\/p>\n<p>Mais uma vez, n\u00e3o havia nenhuma evid\u00eancia de que esses fatos teriam interferido de qualquer maneira na contagem. Mas o relat\u00f3rio foi usado pelo PL depois para uma empreitada judicial na tentativa de anular centenas de milhares de votos.<\/p>\n<p><strong>10. Falas amb\u00edguas\u00a0\u00a0<\/strong><br \/>\nDesde o segundo turno, conte\u00fados elaborados nas redes bolsonaristas apontam para datas que funcionam como \u201cdeadlines\u201d para manter a mobiliza\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que Bolsonaro, ou as For\u00e7as Armadas, ajam para reverter o resultado da elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Logo no dia 31 de outubro, memes diziam que haveria uma previs\u00e3o na Constitui\u00e7\u00e3o que as For\u00e7as Armadas poderiam realizar um golpe militar se o povo se mantivesse nas ruas por 72 horas. Depois dessa data, o dia 5 de novembro, quando o Minist\u00e9rio da Defesa apresentou seu relat\u00f3rio, e o dia 15 de novembro, data da proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, foram aventados como o pr\u00f3ximo \u201cDia D\u201d. O dia 19 de dezembro, dia da diploma\u00e7\u00e3o de Lula, tamb\u00e9m foi apontado como um prazo que era necess\u00e1rio esperar para que Bolsonaro finalmente agisse.<\/p>\n<p>Quando a diploma\u00e7\u00e3o foi adiantada para o dia 12, come\u00e7aram a pipocar mensagens pedindo calma aos manifestantes, dizendo que, depois da diploma\u00e7\u00e3o, come\u00e7aria um prazo de 15 dias para se questionar o resultado das urnas, o que seria feito. \u201cA calma antes da tempestade\u201d, diz um usu\u00e1rio do Tweet.<\/p>\n<p>Essa estrat\u00e9gia \u00e9 t\u00edpica do marketing digital, que procura buscar um sentido de \u201curg\u00eancia\u201d para levar as pessoas \u00e0 a\u00e7\u00e3o. No populismo digital, essas datas imagin\u00e1rias levam os apoiadores a se manterem comprometidos e mobilizados, esperando um deadline que nunca vem.<\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 uma c\u00f3pia exata do que aconteceu nos Estados Unidos ap\u00f3s a derrota de Trump. No caso americano, os \u201cdeadlines\u201d seguiam datas importantes do complicado calend\u00e1rio de certifica\u00e7\u00e3o eleitoral americano: o dia 8 de dezembro era o prazo para as autoridades eleitorais se pronunciarem sobre den\u00fancias de fraude; no dia 14 de dezembro, os eleitores do Col\u00e9gio Eleitoral se reuniram para votar, oficialmente, nos candidatos escolhidos em cada estado (a elei\u00e7\u00e3o nos EUA \u00e9 indireta). O dia 23 de dezembro era o prazo para a certifica\u00e7\u00e3o ser recebida pelo Congresso.<\/p>\n<p>Depois disso, a principal data era 6 de janeiro, quando os deputados federais se reuniriam para confirmar os votos recebidos pelos Col\u00e9gios Eleitorais. Um ritual tradicional que foi transformado por Trump em um \u201cdeadline\u201d para colocar press\u00e3o nos congressistas republicanos para apenas contar os votos a seu favor.<\/p>\n<p>Assim, o ex-presidente americano conseguiu manter seus apoiadores mobilizados at\u00e9 o gigantesco protesto, organizado e financiado por sua campanha, que levou \u00e0 invas\u00e3o do Capit\u00f3lio. Naquele dia, diante de milhares de pessoas e a pequena dist\u00e2ncia do Congresso, Trump disse \u00e0 multid\u00e3o: \u201cvamos caminhar at\u00e9 o Capit\u00f3lio e vamos torcer por nossos bravos senadores, congressistas e mulheres, e provavelmente n\u00e3o vamos torcer tanto por alguns deles. Nunca vamos recuperar nosso pa\u00eds se formos fracos. Temos que mostrar for\u00e7a, e voc\u00eas t\u00eam que ser fortes. Viemos exigir que o Congresso fa\u00e7a a coisa certa e conte apenas os eleitores que foram legalmente indicados\u201d.<\/p>\n<p>Os termos do discurso, cuidadosamente preparado para ser amb\u00edguo, \u00e9 uma t\u00e1tica para manter os f\u00e3s ocupados, tentando \u201cdescobrir\u201d em discuss\u00f5es infinitas nas redes sociais, quais seria a mensagem subliminar do l\u00edder. Ao mesmo tempo, a aus\u00eancia de uma ordem clara \u00e9 elaborada meticulosamente para evitar a responsabiliza\u00e7\u00e3o criminal por insuflar atos golpistas \u2013 tanto nos EUA, quanto aqui.<\/p>\n<p>Bolsonaro repete a mesm\u00edssima t\u00e1tica. Dois dias depois da diploma\u00e7\u00e3o de Lula, Bolsonaro discursou a apoiadores dizendo que \u201cnada est\u00e1 perdido\u201d e que \u201cquem decide para onde v\u00e3o as For\u00e7as Armadas s\u00e3o voc\u00eas\u201d \u2013 fala que foi lida como uma \u201csenha\u201d de que, se os manifestantes manterem o acampamento nos quart\u00e9is, os militares iriam finalmente intervir.<\/p>\n<p><strong>11. Desinfografia \u2013 derrota seria \u201cestatisticamente imposs\u00edvel\u201d<\/strong><br \/>\nNo dia 20 de dezembro de 2020, depois de meses em que memes mostrando falsas proje\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas \u201cdemonstrando\u201d na verdade que o republicano teria ganhado as elei\u00e7\u00f5es, Trump\u00a0tuitou: \u201cestatisticamente imposs\u00edvel ter perdido as elei\u00e7\u00f5es de 2020\u2026. Grande protesto em DC em 6 de janeiro. Esteja l\u00e1, ser\u00e1 selvagem!\u201d. Foi o primeiro chamado direto do ex-presidente \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o que acabaria com a invas\u00e3o do Capit\u00f3lio.<\/p>\n<p>As redes bolsonaristas tamb\u00e9m apostaram em v\u00eddeos malfeitos explicando como \u201cmatematicamente\u201d a contagem n\u00e3o faria sentido \u2013 um exemplo de desinfografia, de acordo com a classifica\u00e7\u00e3o do Media Manipulation Casebook.<\/p>\n<p>O caso mais not\u00f3rio foi o do site argentino Derecha Di\u00e1rio \u2013 cujo dono \u00e9 amigo de Eduardo Bolsonaro e diz ter vindo ao Brasil pouco antes do segundo turno \u2013 que divulgou falsas alega\u00e7\u00f5es sobre uma diferen\u00e7a no novo modelo de urnas. O argentino Fernando Cerimedo usou essa mentira para descontar os votos e dizer que, na verdade, Bolsonaro teria ganhado a vota\u00e7\u00e3o. Foi suspenso de redes sociais por espalhar fake news.<\/p>\n<p><strong>12. Batalha na Justi\u00e7a\u00a0<\/strong><br \/>\nLogo no dia 4 de novembro de 2020, os advogados de Trump come\u00e7aram uma batalha judicial sem precedentes questionando a vota\u00e7\u00e3o em diversos tribunais. Nada menos que 62 processos foram iniciados com base em hist\u00f3rias j\u00e1 desmentidas. Desses, 61 foram negados por ju\u00edzes federais e estaduais prontamente. Ent\u00e3o os advogados foram \u00e0 Suprema Corte para tentar questionar o resultado eleitoral em alguns estados, como a Pensilv\u00e2nia. O STF americano tamb\u00e9m se negou a aceitar a empreitada judicial de Trump, levando o ex-presidente a chamar a corte de \u201ccovarde\u201d no Twitter.<\/p>\n<p>J\u00e1 Bolsonaro pressionou seu partido, o PL, a entrar com a\u00e7\u00e3o no TSE para pedir o anulamento de votos em 60% das urnas, com base no relat\u00f3rio do Instituto Voto Legal, contratado pelo partido.\u00a0Por\u00e9m, a a\u00e7\u00e3o ignorava que as mesmas urnas apontadas pelo Instituto como problem\u00e1ticas haviam sido usadas no primeiro turno, elegendo a maior bancada do Congresso. A a\u00e7\u00e3o foi prontamente rejeitada por Alexandre de Moraes, presidente do TSE, e o partido foi multado em\u00a0R$ 22,9 milh\u00f5es por litig\u00e2ncia de m\u00e1 f\u00e9.<\/p>\n<p>Mesmo assim, Bolsonaro n\u00e3o desistiu e h\u00e1 not\u00edcias de que agora ele pressiona o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, para iniciar outra a\u00e7\u00e3o pedindo a anula\u00e7\u00e3o da diploma\u00e7\u00e3o de Lula.<\/p>\n<p><strong>13. Tentativa de envolver os militares\u00a0<\/strong><br \/>\nAfora a intromiss\u00e3o na contagem dos votos, Bolsonaro chegou a se reunir com os comandantes militares no dia em que quebrou o sil\u00eancio e fez um pronunciamento no Pal\u00e1cio da Alvorada. Ele perguntou aos militares o que achavam da possibilidade de judicializar o resultado das urnas sob a justificativa de que o presidente eleito deveria ser ineleg\u00edvel por causa das condena\u00e7\u00f5es na Lava Jato.<\/p>\n<p>Fontes militares ouvidas pela CNN afirmaram que os integrantes das For\u00e7as Armadas, entretanto, n\u00e3o deram apoio ao presidente.<\/p>\n<p>Dois anos antes, Trump j\u00e1 havia cogitado enfiar os militares no seu plano antidemocr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Fontes da Casa Branca supostamente disseram que Trump discutiu a imposi\u00e7\u00e3o da lei marcial em uma medida destinada a anular o resultado da elei\u00e7\u00e3o de 2020.<\/p>\n<p>Michael Flynn, conselheiro de seguran\u00e7a nacional do presidente, lan\u00e7ou a ideia em uma entrevista ao canal de not\u00edcias de direita Newsmax. Pouco depois, em reuni\u00e3o na Casa Branca, na qual Flynn estava presente, Trump perguntou a seus assessores como seria o uso da lei marcial, disseram fontes ao New York Times.\u00a0 A ideia era decretar estado de exce\u00e7\u00e3o para que os militares fizessem a recontagem de votos. Felizmente, a sugest\u00e3o tresloucada n\u00e3o foi para frente e o Comandante do Estado Maior das For\u00e7as Armadas dos EUA atuou nos bastidores para conter o \u00e2nimo golpista de Trump.<\/p>\n<p><strong>14. Invas\u00e3o do Capit\u00f3lio\u00a0<\/strong><br \/>\nDurante a invas\u00e3o do Capit\u00f3lio, considerado um ato criminoso que est\u00e1 sob uma investiga\u00e7\u00e3o do Departamento de Justi\u00e7a e por uma CPI no Congresso americano, os partid\u00e1rios de Donald Trump alegaram que o quebra-quebra teria na verdade dito promovido por manifestantes \u201canti fascistas\u201d infiltrados entre os trumpistas, que seriam \u201cpac\u00edficos\u201d e \u201ccidad\u00e3os de bem\u201d. A fake news viralizou nos c\u00edrculos de direita em poucos minutos e foi desmentida por checadores de fatos.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, depois da manifesta\u00e7\u00e3o violenta em que bolsonaristas tentaram invadir a sede da PF em Bras\u00edlia e colocaram fogo em \u00f4nibus, no dia 12 de dezembro, dia em que Lula foi diplomado, a mesma desinforma\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a rodar nas redes sociais.\u00a0Um comentarista da Jovem Pan chegou a dizer que o quebra-quebra era uma arma\u00e7\u00e3o \u201cda esquerda\u201d\u00a0enquanto influenciadores como o perfil Te Atualizei, com quase 2 milh\u00f5es de seguidores no Twitter, trazia fotos que supostamente mostrava que os manifestantes violentos n\u00e3o seriam de direita.<\/p>\n<p><strong>15. N\u00e3o passar a faixa<\/strong><br \/>\nDonald Trump foi o primeiro presidente norte-americano em 150 anos que se recusou a estar presente na cerim\u00f4nia de posse do seu sucessor. Bolsonaro j\u00e1 avisou que ser\u00e1 o primeiro presidente brasileiro ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o a n\u00e3o passar a faixa presidencial.<\/p>\n<p>Em ambos os casos, a estrat\u00e9gia rompe com um gesto simb\u00f3lico importante para a transi\u00e7\u00e3o pac\u00edfica e democr\u00e1tica do poder. Ambos procuram demarcar um \u201cprotesto\u201d contra a \u201cfraude\u201d, deslegitimando o sucessor desde o come\u00e7o do novo mandato.<\/p>\n<p><strong>E depois?\u00a0<\/strong><br \/>\nMesmo ap\u00f3s a posse de Joe Biden em 20 de janeiro de 2021, Donald Trump manteve a vers\u00e3o de que foi v\u00edtima de uma fraude, usando a hist\u00f3ria para manter seu capital pol\u00edtico e seu controle sobre o partido republicano. E tamb\u00e9m para ganhar muito dinheiro. Uma campanha de financiamento para \u201cseguir lutando\u201d e provar fraude eleitoral conseguiu levantar mais de 1,3 bilh\u00e3o de reais. Boa parte do fundo acabou indo parar nos hot\u00e9is de Trump, segundo o jornal The Guardian.<\/p>\n<p>Com mais de 50% dos eleitores republicanos convencidos de que houve fraude, a recusa da elei\u00e7\u00e3o de Joe Biden acabou se tornando um ativo eleitoral. Mais de 100 candidatos nas elei\u00e7\u00f5es de meio termo deste ano nos Estados Unidos afirmavam que as elei\u00e7\u00f5es foram roubadas. Embora muitos n\u00e3o tenham se elegido, a influ\u00eancia de Trump segue grande dentro do mundo da direita americana.<\/p>\n<p>Bolsonaro pode usar esse \u201ccapital\u201d para se manter na lideran\u00e7a na direita brasileira, ou para utiliz\u00e1-lo em benef\u00edcio de seu filho mais ligado aos mentores americanos, Eduardo Bolsonaro. Afinal, ele j\u00e1 criou um instituto que realiza congressos conservadores importados dos EUA, e que vende \u201ccursos\u201d para \u201ceducar criticamente\u201d os adeptos da direita brasileira \u2013 outra grande fonte de receita dos trumpistas que dobraram a aposta nas mentiras sobre fraude eleitoral.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tens\u00e3o p\u00f3s-eleitoral no Brasil n\u00e3o tem nada de espont\u00e2nea. E nem de original. Ela apenas completa uma estrat\u00e9gia empregada desde a vit\u00f3ria eleitoral de Bolsonaro em 2018 \u2013 que, por sua vez, imita a estrat\u00e9gia adotada pelo ex-presidente Donald Trump nos Estados Unidos. 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