{"id":296631,"date":"2022-12-22T13:35:14","date_gmt":"2022-12-22T16:35:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=296631"},"modified":"2022-12-23T06:00:29","modified_gmt":"2022-12-23T09:00:29","slug":"pi-letra-grega-chama-themis-para-pacificar-os-comunicadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pi-letra-grega-chama-themis-para-pacificar-os-comunicadores\/","title":{"rendered":"Pi, letra grega, chama Themis para pacificar os comunicadores"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Escarlate, vermelho no nome, mas verde, amarelo, azul e branco no sangue, mago com os dedos no teclado de uma velha Remington, escreveu para <strong>Notibras<\/strong> em seus \u00faltimos anos de vida. Dono de pseud\u00f4nimos de sotaque russo e lusitano, hoje ele escreve para os anjos o Terceiro Testamento, baseado no que viu, leu e ouviu (com a permiss\u00e3o de Ari Cunha) nas festas da alta sociedade brasiliense. Este texto \u00e9 uma tentativa de homenagear a sua mem\u00f3ria, escrita em <em>P\u00e1ginas Viradas<\/em>, livro que, do sonho de editar, virou pesadelo.<\/p>\n<p>Vamos l\u00e1. Pau que nasce torto, n\u00e3o tem jeito, morre torto. Baiano burro garanto que nasce morto. Palavras de Dorival Caymmi. Testemunhei isso. N\u00e3o foi em um domingo no parque, enquanto caminhava contra o vento, sem len\u00e7o ou documento, saboreando o mel de uma abelha-rainha. Foi na W-2 Sul, na curta escadaria que dava acesso ao antigo <em>Di\u00e1rio de Bras\u00edlia<\/em>.<\/p>\n<p>Dirno Pires costumava atrasar os sal\u00e1rios dos funcion\u00e1rios, mas mesmo assim havia gente que ficava perambulando pela reda\u00e7\u00e3o, pela fotografia, pela pagina\u00e7\u00e3o, oferecendo gratuitamente uma ajuda em troca da garantia de emprego numa eventual vaga que surgisse. Valia de tudo. At\u00e9 de ilustrador, pois o tra\u00e7o dele \u00e9 quase t\u00e3o perfeito quanto o de um futuro presidente do Sindicato dos Jornalistas, que desenha aves em preto e branco mas que transbordam, aos olhos de quem v\u00ea, os mais diferentes matizes.<\/p>\n<p>O emprego n\u00e3o veio na curta vida do jornal de Dirno. Mas criou-se uma tr\u00edade. Magro e de estatura mediana, cabelos da moda quase nos ombros, o conterr\u00e2neo de Caymmi estava descendo a escadaria, cabisbaixo, quando um at\u00e9 hoje admirador dele, disse, olho no olho, para que levantasse a cabe\u00e7a porque o mart\u00edrio estava com os dias contados. Bastaria que ele, o ca\u00e7ador de emprego, aceitasse a condi\u00e7\u00e3o de faz tudo na Assessoria de Imprensa de uma secretaria do Governo do Distrito Federal. A resposta foi positiva. &#8220;Estou pronto&#8221;, disse ele ao seu garantidor do ganha p\u00e3o. E completou: &#8220;Come\u00e7o hoje?&#8221;. Ouviu de volta um &#8216;sem pressa&#8217; dos a\u00e7odados &#8220;Amanh\u00e3 te levo l\u00e1&#8221;.<\/p>\n<p>Foram. Apresentadas as partes, o samaritano que nunca negou apoio, despediu-se. A caminho do Setor de Autarquias Sul, parou na rodovi\u00e1ria, comeu um pastel e bebeu um caldo de cana com a consci\u00eancia do dever cumprido. Mas ao longo do tempo criou-se uma tr\u00edade como o pau que nasce torto. Foi o que lhe contaram numa das v\u00e9speras dos festejos natalinos seguintes. E com aquele que serve, todos se serviram. E assim o fazem at\u00e9 hoje.<br \/>\n.<br \/>\nResgatar o nome de Escarlate n\u00e3o \u00e9 apenas lembrar de um craque nas pretinhas, mas enaltecer os amigos de sempre, particularmente a amizade, conceito que deveria transcender a vida f\u00edsica. Z\u00e9 era um desses que n\u00e3o ficava amarrado \u00e0 mat\u00e9ria, ao ter, ao possuir, como uma erva parasit\u00e1ria. Sempre usou a intelig\u00eancia para perceber que, maior do que os lucros e os interesses, h\u00e1 a gratid\u00e3o. E esta \u00e9 irrecuper\u00e1vel quando nos tocamos que velhos amigos hoje nos olham por cima.<\/p>\n<p>\u00c9 triste abrir a janela do quarto e notar que o livro que j\u00e1 foi dividido com leitores do cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 esquecido num canto de um gabinete refrigerado \u00e0 sombra das palmas de um buriti, mas sombrio pela falta de amizades sinceras, despretensiosas e sem parceria. N\u00e3o se cobra aqui retorno de amigo algum. No entanto, sou compelido a lembrar que, em outros tempos, a outra tr\u00edade &#8211; a que manteve a linha reta -, foi mais do que amiga. Foi companheira e, sem mod\u00e9stia, interveio em uma situa\u00e7\u00e3o pessoal para l\u00e1 de desesperadora. Fez-se por merecimento. Ou seja, jamais imaginou-se cobrar nada. Todavia, tamb\u00e9m pode-se ponderar pedir o que poderia ser um tratamento menos belicoso.<\/p>\n<p>A certeza corrente \u00e9 a de que nunca trocaria meus amigos, minha vida, meus cabelos brancos, minha barriga saliente e minha relativa e, \u00e0s vezes, \u00e1cida eloqu\u00eancia, por nada. Coisas da idade. \u00c9 mais f\u00e1cil ser positivo conforme a gente envelhece. De baianos, piauienses e paraibanos, a mineiros, goianos, paulistas e cariocas, as amizades jamais se dissipar\u00e3o. Como pregou &#8211; e prega &#8211; Milton Nascimento, elas s\u00e3o guardadas e eternizadas do lado esquerdo do peito.<\/p>\n<p>Com o tempo, a gente aprende que a vida d\u00e1 voltas e que nada \u00e9 permanente. Os Maias, gente heroica, ensinaram que, enquanto o mundo gira, mudam-se as oportunidades, os sentimentos, as opini\u00f5es e os desejos. Por defini\u00e7\u00e3o, a amizade \u00e9 carinhosa, nunca repressora. Devemos pensar nisso antes que comecemos a esquecer os nomes, os rostos e os pedidos dos amigos. Que se fa\u00e7a isso agora, enquanto conseguimos levantar o copo para brindar. Em breve, talvez n\u00e3o tenhamos mais for\u00e7a para baix\u00e1-lo. Nem que sejamos uma Pi, aquela letra grega t\u00e3o imensur\u00e1vel quanto os poderes de Themis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Escarlate, vermelho no nome, mas verde, amarelo, azul e branco no sangue, mago com os dedos no teclado de uma velha Remington, escreveu para Notibras em seus \u00faltimos anos de vida. 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