{"id":298164,"date":"2023-01-24T00:10:25","date_gmt":"2023-01-24T03:10:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=298164"},"modified":"2023-01-23T23:59:24","modified_gmt":"2023-01-24T02:59:24","slug":"noite-de-orgia-no-qg-marcou-invasao-da-praca-dos-3-poderes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/noite-de-orgia-no-qg-marcou-invasao-da-praca-dos-3-poderes\/","title":{"rendered":"Noite de orgia no QG marcou invas\u00e3o da Pra\u00e7a dos 3 Poderes"},"content":{"rendered":"<p>Desde muito jovem, tenho por princ\u00edpio n\u00e3o ter medo. Foi na juventude que aprendi com os mais velhos que o medo adora roubar sonhos. Na minha vida, os sonhos nunca couberam em gavetas. Por isso, normalmente escolho meus sonhos e fa\u00e7o deles a raz\u00e3o dos meus dias. Ou das minhas noites. Dependo sempre da imagina\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, por conta do \u00f3cio (mal) remunerado, a inventividade \u00e9 o que me faz ser feliz e, \u00e0s vezes, fazer feliz quem me d\u00e1 a honra de participar dos meus escritos. Baseado na m\u00e1xima de que momentos bons e ruins fazem parte da vida, percebi em uma \u00fanica e hipot\u00e9tica noite que a diferen\u00e7a entre eles \u00e9 que um marca e o outro ensina. A linha t\u00eanue que separa ambos chama-se imagina\u00e7\u00e3o, o que, repito, ainda tenho de sobra.<\/p>\n<p>Dia desses, quase noite, resolvi sair por a\u00ed. Passando em frente ao ex-acampamento dos integrantes da seita conhecida por &#8220;patriotas sem p\u00e1tria&#8221;, perguntaram-me se eu procurava por a\u00e7\u00e3o. Respondi que em outros tempos at\u00e9 poderia ser, mas que na oportunidade procurava apenas por mim. Sentei e, com a clareza de um dia de sol carioca, imaginei uma noite acampado junto dos companheiros de pesadelo. Vi de tudo, menos patriotismo ou brasilidade. Em verdade, s\u00f3 sabia que estava em terras brasileiras pela profus\u00e3o da sarnenta e cornuc\u00f3pica m\u00fasica sertaneja. De vez em quando, surgia algu\u00e9m com teses mais anarquistas e metia no som um funk abestado e devasso, daqueles pr\u00f3prios para relacionamentos fugazes entre a barata e o barato.<\/p>\n<p>Nada demais para um ambiente criado por fariseus para folguedos, golpismos e fornica\u00e7\u00e3o daqui pra l\u00e1 e, principalmente, de l\u00e1 pra c\u00e1. Sem margem alguma de erro, fornica\u00e7\u00e3o era a palavra de ordem na selva bolsonarista. Como nas melhores orgias golpistas, a inten\u00e7\u00e3o era fornicar do Brasil a quem estivesse de frente, de costas ou de lado. O dec\u00fabito dorsal era um facilitador. Entre as farisaicas e hip\u00f3critas normas, eram comuns os pedidos de refei\u00e7\u00f5es de restaurantes da moda. Marmitas deliverys tamb\u00e9m chegavam aos borbot\u00f5es. Normais naquele outro acampamento, o p\u00e3o com mortadela era uma indec\u00eancia, algo somente servido para os agentes de seguran\u00e7a que eventualmente passavam por ali para desejar \u00e0 turma do \u00f3dio uma noite de sono profundo, sonhos impudicos, muitos prazeres e, se desse, de escrivinhar minutas golpistas.<\/p>\n<p>Enquanto pensava o que seria da madrugada, adaptei para os dias de hoje uma antiga frase de Walt Disney. Longe do original, escrevi entre o primeiro e o segundo neur\u00f4nio, que, mesmo sem libidinagem expl\u00edcita, o gozo \u00e9 atemporal, a imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem idade e os sonhos s\u00e3o para sempre. Foi a\u00ed que libertei meu diabinho para circular no breu do tenebroso acampamento. Logo de cara, ouvi algu\u00e9m pedir, aos gritos, por uma m\u00e3ozada de lubrificante. De imediato, imaginei um cidad\u00e3o (ou cidad\u00e3) sofrendo de dores nas partes pudendas, as consideradas ocas e normalmente as que mais sofrem quando o cora\u00e7\u00e3o se perde de amores. No gritante sil\u00eancio not\u00farnico das coberturas de lona, a resposta de que s\u00f3 havia maionese e ketchup foi r\u00e1pida.<\/p>\n<p>Ufa! Relaxei, porque tive certeza de que n\u00e3o havia entre os acampados dores f\u00edsicas decorrentes da ofegante e obscena movimenta\u00e7\u00e3o do baixo ventre. A oferta dos dois componentes fastfoodianos, indicou que, melhor do que o sussurrante bota e tira do amor horizontal, tratava-se apenas da comilan\u00e7a de um suculento e afrodis\u00edaco cachorro quente, quase pelando. Eita mente emporcalhada e pornogr\u00e1fica a minha! O pior dos mundos ainda estava por vir. De repente, come\u00e7aram a surgir as variantes religiosas. Do meu cercadinho anuviado, ouvia as ora\u00e7\u00f5es nervosas dos evang\u00e9licos, os atabaques dos umbandistas e a prega\u00e7\u00e3o dos cat\u00f3licos progressistas. Todos gritando em nome de Deus, do d\u00edzimo e do conservadorismo megaloman\u00edaco, louco e odioso. Tive vontade de aparecer no meio das lonas e gritar que n\u00e3o dispunha de lubrificantes, maioneses ou ketchups.<\/p>\n<p>N\u00e3o gritei, mas pensei informar que tinha um estoque das acalentadoras e suculentas revistinhas do Carlos Z\u00e9firo e v\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es da coluna F\u00f3rum, publicada pela falecida revista <em>Ele&amp;Ela<\/em>, cujo autor era L\u00e9o Borges Ramos, um velho conhecido das reda\u00e7\u00f5es do Rio de Janeiro. Preferi ficar calado. A \u00faltima cena de minha fict\u00edcia noite com a patriotada foi vislumbrar um banho grupal e de cuia no alambrado montado no fim do acampamento. Imaginei o sabonete caindo no ch\u00e3o, algu\u00e9m apanhando com os baixos meretr\u00edcios \u00e0 mostra e outro algu\u00e9m berrando: \u00c9 cr\u00e9u! Corri para os banheiros qu\u00edmicos, os quais, por causa da grande movimenta\u00e7\u00e3o, permitiam at\u00e9 tr\u00eas xixis simult\u00e2neos. Na escurid\u00e3o, senti o toque e perguntei ao vizinho da mija\u00e7\u00e3o qual era a dele. Seco, ele respondeu que estava fazendo o mesmo que eu, isto \u00e9, mijando. De forma carinhosa e com a simplicidade dos cag\u00f5es, me limitei a dizer ao companheiro que estava tudo certo. Antes, por\u00e9m, sussurrei no ouvido do mancebo, cujo rosto n\u00e3o vi: Por favor, urine com o seu e largue o meu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde muito jovem, tenho por princ\u00edpio n\u00e3o ter medo. Foi na juventude que aprendi com os mais velhos que o medo adora roubar sonhos. Na minha vida, os sonhos nunca couberam em gavetas. 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