{"id":298281,"date":"2023-01-26T05:25:56","date_gmt":"2023-01-26T08:25:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=298281"},"modified":"2023-01-26T20:06:32","modified_gmt":"2023-01-26T23:06:32","slug":"abundancia-para-quem-nao-sabe-portugues-vira-termo-obsceno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/abundancia-para-quem-nao-sabe-portugues-vira-termo-obsceno\/","title":{"rendered":"Abund\u00e2ncia, para quem n\u00e3o sabe a l\u00edngua, \u00e9 termo obsceno"},"content":{"rendered":"<p>Em um mundo no qual at\u00e9 a natureza \u00e9 obscena, nada melhor do que viver a plenitude da obscenidade vigiada. Antes de prosseguir, vale registrar que nem sempre o que \u00e9 obsceno \u00e9 indecente. Messias dos fil\u00f3sofos, Jean Paul Sartre, o \u201cgnomo obsceno\u201d foi, para mim, um dos escritores mais brilhantes e mais indecentes que j\u00e1 li. E sabem por que? Porque ele adorava mentir e porque transformou a lady Simone de Beauvoir em sua serva, amante, esposa, substituta, cozinheira, enfermeira, administradora e at\u00e9 guarda-costas. Uma das mais afrodis\u00edacas das virtudes, o pudor n\u00e3o era seu forte. Deixa pra l\u00e1, pois lembrei de Sartre apenas para abrir o apetite da narrativa de hoje. Minha primeira afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 nelsonrodrigueana, cujo maior legado foi a afirma\u00e7\u00e3o de que o homem come\u00e7a a morrer na sua primeira experi\u00eancia sexual.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o meu caso, mas o do meu personagem, um homem simples, da labuta e que, certo dia, adentrou um cart\u00f3rio para registrar um de seus filhos. Para sorte dele, um dos zelosos funcion\u00e1rios da casa de fazer dinheiro com carimbos e canetadas era meu velho amigo Sebasti\u00e3o Evander Jorge. Companheiro em tr\u00eas tribunais superiores, Ti\u00e3o Jorge era daqueles que, como a batina dos padres, tinha mist\u00e9rios insond\u00e1veis. Amigo dos amigos, tinha um bord\u00e3o que era lembrado sempre no ref\u00fagio do cafezinho, onde ele dizia que s\u00f3 os diab\u00e9ticos e os plantadores de cana conhecem as amarguras do a\u00e7\u00facar. Valente e brigador que nem cobra de resguardo, mantinha em uma de suas gavetas aquele livrinho de pensamentos b\u00edblicos, cujos textos pareciam inventados por ele mesmo.<\/p>\n<p>Um deles era a prova de sua fraude liter\u00e1ria, pois dizia que a ordem de Oscarito, mestre da gargalhada, \u00e9 desopilar o \u201cfigo\u201d, chamado de f\u00edgado pelos burgueses soberbos. Conheci Ti\u00e3o Jorge em um desses cart\u00f3rios da Avenida W3 Sul, no Centro de Bras\u00edlia. Outrora principal via de acesso e de neg\u00f3cios da cidade, hoje, no extremo Norte, n\u00e3o passa de um frequentad\u00edssimo boulevard destinado a reuni\u00f5es suspeitas de mo\u00e7as adeptas da sali\u00eancia paga e craques no reconhecimento de senhores que acabaram de receber o d\u00e9cimo terceiro sal\u00e1rio. Ainda vive por ali o mais antigo alfaiate da capital, um portugu\u00eas que sofria de gases estomacais, mas, por indica\u00e7\u00e3o do Ti\u00e3o, comprou um ferro novo e h\u00e1 anos passa muito bem. Infelizmente Ti\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 mais entre n\u00f3s. Ficamos amigos quando decidi eu mesmo registrar meu neto 01, Arthur, o Grande. E grande na acep\u00e7\u00e3o da palavra.<\/p>\n<p>Afamado, o cart\u00f3rio em quest\u00e3o ficava quase ao lado da pizzaria em que, no fim dos anos 80, o ex-presidente Fernando Collor reunia a turma das Alagoas para encontros nada republicanos. Acho que ali come\u00e7ou a hist\u00f3ria de registrar pedidos estramb\u00f3licos de sigilo de 100 anos para tudo que possa incriminar figur\u00f5es. Tamb\u00e9m n\u00e3o quero falar deles. Minha hist\u00f3ria \u00e9 sobre as figuras que procuravam Ti\u00e3o para um registrozinho aqui e outro ali. De certa feita, l\u00e1 estava eu, quando adentrou o recinto um jovem senhor corro\u00eddo pelo tempo e perguntou quanto custava para registrar mais um menino. Com papel e carbono j\u00e1 na m\u00e1quina, Ti\u00e3o, antes de indagar sobre o nome escolhido, quis saber quantos filhos tinha o rapaz esqu\u00e1lido, ing\u00eanuo e com cara de trabalhador sofrido. Nove filhos, respondeu o indigitado. Entre assustado e perplexo, Ti\u00e3o, do alto de sua simplicidade, completou: \u201cCaramba, meu amigo, o senhor tem filhos com abund\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p>Parecendo indignar-se, o pai respondeu quase gritando: \u201cN\u00e3o senhor. Quem tem filhos \u00e9 minha mui\u00e9 e \u00e9 sempre com a piriquit\u00e2ncia\u201d. Agora com o sorriso aberto, meu amigo prosseguiu: \u201cMeu caro, o senhor entendeu tudo errado. O que quis dizer \u00e9 que o senhor tem uma prole bem grande\u201d. Rapidamente, e tamb\u00e9m sorrindo, o trabalhador lascou essa: \u201cDoutor, agora o senhor acertou. \u00c9 grande e grossa, viu\u201d. Enfim, n\u00e3o devemos dizer tudo que pensamos, mas \u00e9 importante pensar em tudo que iremos dizer. Guardei essa hist\u00f3ria para mostrar aos netos que informa\u00e7\u00e3o boa \u00e9 aquela que ningu\u00e9m tem. Al\u00e9m disso, curiosidade mata e obscenidade est\u00e1 na mente de quem a processa. O resumo de tudo \u00e9 que ningu\u00e9m faz nove filhos sem paix\u00e3o. E, sem paix\u00e3o, n\u00e3o d\u00e1 nem para chupar picol\u00e9. Quanto ao Ti\u00e3o Jorge, manteve a eleg\u00e2ncia at\u00e9 na hora de subir aos c\u00e9us: botou a cal\u00e7a e cal\u00e7ou a bota.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um mundo no qual at\u00e9 a natureza \u00e9 obscena, nada melhor do que viver a plenitude da obscenidade vigiada. Antes de prosseguir, vale registrar que nem sempre o que \u00e9 obsceno \u00e9 indecente. Messias dos fil\u00f3sofos, Jean Paul Sartre, o \u201cgnomo obsceno\u201d foi, para mim, um dos escritores mais brilhantes e mais indecentes que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":298282,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-298281","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasilia"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/298281","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=298281"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/298281\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":298286,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/298281\/revisions\/298286"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/298282"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=298281"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=298281"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=298281"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}