{"id":298470,"date":"2023-01-30T02:54:11","date_gmt":"2023-01-30T05:54:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=298470"},"modified":"2023-01-30T02:57:06","modified_gmt":"2023-01-30T05:57:06","slug":"tempo-passa-e-deixa-pra-tras-a-vida-nos-suburbios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tempo-passa-e-deixa-pra-tras-a-vida-nos-suburbios\/","title":{"rendered":"Tempo passa e deixa pra tr\u00e1s a vida nos sub\u00farbios"},"content":{"rendered":"<p>Sem funk, rap, m\u00fasica sertaneja e pagodes sem gra\u00e7a para atazanar meus ouvidos, o rockabilly e um forr\u00f3 a la Luiz Gonzaga eram as melhores serenatas dos companheiros de juventude dos apinhados sub\u00farbios do Rio de Janeiro. Entre um cuba libre e um rabo de galo, o que tinha de melhor naqueles tempos sisudos de ditadura era a criatividade. Apesar de viver assustado com o tal alem\u00e3o, o cabuloso Alzheimer, at\u00e9 hoje me mantenho criativo e suspirando. Gra\u00e7as a Deus. Mesmo sem Google, Facebook, Instagram e Telegram, desde aquela \u00e9poca conseguia entender que a sombra do branco \u00e9 igual \u00e0 do negro. Como dizia o jornalista Apar\u00edcio Torelly, o nosso Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, saiba com quem andas e te direi se vou contigo.<\/p>\n<p>Fui com os bons e com eles estou at\u00e9 hoje. Morei em casa com telhado comum, pois, como pacifista convicto, sempre me recusei a viver formalmente em um edif\u00edcio de cimento armado. Mais velho, fui obrigado a rever alguns valores, entre eles o de literalmente defecar na cabe\u00e7a do vizinho de baixo. Obviamente que, para os de cima, a rec\u00edproca \u00e9 verdadeira. Frios, calculistas e banalizados pelos empreendedores modernos, os apartamentos s\u00e3o as melhores e as piores inven\u00e7\u00f5es do ser humano. Moro em um, mas adorava minha casa no sub\u00farbio do Rio Janeiro. Eram somente dois dormit\u00f3rios e um banheiro para cinco pessoas. A gente se virava como podia. Eu sofria quando queria partir para o cinco-contra-um.<\/p>\n<p>Nada de anormal, considerando os cafofos da Copacabana dos meus tempos de cont\u00ednuo (oficce boy) no Centro da cidade. Em kits de 20 ou 30 metros quadrados, nunca mais do que isso, chegavam a morar de dez a 15 pessoas. A divis\u00e3o era por turnos: manh\u00e3 e tarde, tarde e noite e madrugada. Tristes, inc\u00f4modos, terrivelmente calorentos e muito mal cheirosos. No entanto, a turma dos chamados corti\u00e7os era feliz. S\u00f3 o prazer de morar defronte \u00e0 Princesinha do Mar j\u00e1 era prazeroso. Dali para Ipanema, Leblon, G\u00e1vea, S\u00e3o Conrado e Barra eram dois pulos: uma para saltar o Morro do Cantagalo e outro para sair vivo do Pav\u00e3o\/Pav\u00e3ozinho. Foi em um desses cafofos que pereceu o famoso cartunista P\u00e9ricles Maranh\u00e3o, criador do n\u00e3o menos famoso Amigo da On\u00e7a, personagem publicado na revista <em>O Cruzeiro<\/em>.<\/p>\n<p>Caricato at\u00e9 na morte, P\u00e9ricles morreu asfixiado em 31 de dezembro de 1961, um domingo \u00e0 noite. Ele abriu o g\u00e1s do ap\u00ea, mas, antes, fixou na porta um cartaz onde se lia: \u201cPor favor, n\u00e3o risquem f\u00f3sforos\u201d. Um dia falarei mais sobre P\u00e9ricles. Viv\u00edamos como pod\u00edamos, mas Deus nos ajudava. Era um olho no padre que servia os meninos dadivosos com p\u00e3o e mortadela e outro na missa celebrada ecumenicamente no terreiro do Candinho, em Campo Grande, onde s\u00f3 entravam entendidos, liberados, pacifistas, garotos egressos de internatos, auxiliares de pedreiro com luvas coloridas e passistas de escolas de samba ainda em est\u00e1gio probat\u00f3rio. Tardiamente, confesso que, sob os ausp\u00edcios da m\u00e3o santa e da prece forte do mestre Candinho, foi no terreiro, defumado com incenso de alfazema e benjoim, a primeira e \u00faltima vez que quase comunguey.<\/p>\n<p>Fui \u201csalvo\u201d do batizado comungueyt\u00f3rio pela gritaria dos disc\u00edpulos da vizinha igreja presbiteriana. Da\u00ed, j\u00e1 saindo da adolesc\u00eancia para a juventude, parti para acasalamentos mais ortodoxos e menos heterodoxos. Antes, por\u00e9m, n\u00e3o conseguia esquecer o flagrante de dona Guigui, minha disciplinadora e retil\u00ednea m\u00e3e. Na humilde resid\u00eancia de dois dormit\u00f3rios, apenas um banheiro, poucas posses e alguma alegria, faltava conforto, mas sobravam buracos nas portas sem tramelas. A cama com colch\u00e3o de crina de cavalo manco e cego servia de esconderijo para minhas tr\u00eas revistas masculinas usadas para o descabelamento do palha\u00e7o, o popular ato masturbat\u00f3rio. As virgens eram sempre as mesmas. A vontade \u00e9 que n\u00e3o passava nunca. Obviamente que o pequeno banheiro era o cen\u00e1rio ideal para o exerc\u00edcio de minhas pouco republicanas artes manuais.<\/p>\n<p>O flagrante ocorreu em um desses dias de leitura profana. Depois das vis\u00f5es pra l\u00e1 de estimulantes, adentrei o banheiro sem trinco e estacionei a m\u00e3o direita dormente sobre o ma\u00e7arico em chamas. Entretido no frenesi bocagiano, n\u00e3o percebi a entrada de minha m\u00e3e que, aos gritos, perguntou o que eu estava fazendo. Com cara de pastel de pera, respondi na bucha: M\u00e3e, eu lavo as partes pudendas na velocidade que eu quero. Acho que sequer consegui completar a frase. Em dias de chuva forte, \u00e9 comum sentir o zumbido decorrente do safan\u00e3o no p\u00e9 da orelha. Doeu, mas at\u00e9 hoje lembro da alegria de ser feliz com as ent\u00e3o mulheres dos meus sonhos. Era um sonho lascivo, mas muito mais rom\u00e2ntico do que as atuais novelas das sete. Eita \u00e9poca boa. Estou recuperado e preocupad\u00edssimo com um dos \u00faltimos avisos da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade sobre a perman\u00eancia do v\u00edrus da Covid 19 nos mortos. Morro de medo. Por isso, nunca esque\u00e7o de lavar as m\u00e3os ap\u00f3s urinar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem funk, rap, m\u00fasica sertaneja e pagodes sem gra\u00e7a para atazanar meus ouvidos, o rockabilly e um forr\u00f3 a la Luiz Gonzaga eram as melhores serenatas dos companheiros de juventude dos apinhados sub\u00farbios do Rio de Janeiro. 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