{"id":299512,"date":"2023-02-14T15:42:44","date_gmt":"2023-02-14T18:42:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=299512"},"modified":"2023-02-14T16:02:22","modified_gmt":"2023-02-14T19:02:22","slug":"brasil-quer-a-venezuela-de-volta-ao-mercosul-mas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-quer-a-venezuela-de-volta-ao-mercosul-mas\/","title":{"rendered":"Brasil quer a Venezuela de volta ao Mercosul, mas&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>O retorno de Lula \u00e0 Presid\u00eancia alterou a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas na Am\u00e9rica do Sul e abriu novas possibilidade de aproxima\u00e7\u00e3o com parceiros comerciais estrat\u00e9gicos dos quais o pa\u00eds havia se afastado nos \u00faltimos anos, como a Venezuela. Extremamente dependente da renda petroleira, o pa\u00eds andino \u00e9 tradicionalmente um comprador de bens de consumo brasileiros, o que nos \u00faltimos 20 anos rendeu ao Brasil uma balan\u00e7a comercial superavit\u00e1ria.<\/p>\n<p>No entanto, a partir de 2017, os neg\u00f3cios entre Brasil e Venezuela ca\u00edram a n\u00edveis comparados aos do come\u00e7o do s\u00e9culo, muito por conta da crise econ\u00f4mica venezuelana e, em seguida, do rompimento diplom\u00e1tico levado a cabo pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Os la\u00e7os, agora, podem ser retomados e aprofundados, principalmente se a Venezuela retornar ao Mercosul.<\/p>\n<p>O diretor do Mercosul no Itamaraty, Francisco Cannabrava, chegou a afirmar que o Brasil pretende retomar as conversas com Caracas e anular a suspens\u00e3o do pa\u00eds do bloco comercial.<\/p>\n<p>Para o professor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da UFABC Igor Fuser, a reintegra\u00e7\u00e3o do pa\u00eds vizinho a essas esferas de com\u00e9rcio seria economicamente positiva n\u00e3o s\u00f3 para o Brasil, mas tamb\u00e9m para os outros pa\u00edses-membros.<\/p>\n<p>\u201cA Venezuela \u00e9 um pa\u00eds que, por suas caracter\u00edsticas, importa muitos produtos, especialmente alimentos, que s\u00e3o produzidos de uma forma muito intensa pelos pa\u00edses do Mercosul, e o Brasil \u00e9 tamb\u00e9m um produtor de certo peso de produtos manufaturados. Ent\u00e3o o retorno da Venezuela ao Mercosul facilita a conquista desses mercados por empresas do Brasil, da Argentina, tamb\u00e9m do Uruguai e do Paraguai\u201d, explica.<\/p>\n<p>O professor ainda argumenta que, para al\u00e9m dos motivos econ\u00f4micos, a presen\u00e7a do pa\u00eds no bloco \u00e9 estrat\u00e9gica para manter uma unidade sul-americana em torno de pautas comuns em negocia\u00e7\u00f5es com outras pot\u00eancias.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o existe o menor motivo para manter a Venezuela exclu\u00edda de nenhum foro ou espa\u00e7o de articula\u00e7\u00e3o regional na Am\u00e9rica do Sul, ao menos que a Venezuela n\u00e3o queira, o que n\u00e3o \u00e9 o caso. O pa\u00eds quer se reintegrar\u201d, diz.<\/p>\n<p>A Venezuela foi suspensa do Mercosul em 2017. \u00c0 \u00e9poca, a justificativa utilizada pelos demais pa\u00edses-membros foi a de que Caracas n\u00e3o teria cumprido algumas exig\u00eancias t\u00e9cnicas do bloco, como a interioriza\u00e7\u00e3o de regula\u00e7\u00f5es tarif\u00e1rias e outras normas.<\/p>\n<p>Mais tarde, naquele mesmo ano, uma resolu\u00e7\u00e3o chegou a alegar que haveria ocorrido uma \u201cruptura da ordem democr\u00e1tica\u201d na Venezuela e que, portanto, o pa\u00eds estaria violando um dos protocolos que obriga que os membros tenham governos comprometidos com a democracia, o chamado Protocolo de Ushuaia.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a decis\u00e3o estava ligada a quest\u00f5es pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas. Naquele momento, Brasil, Argentina e Paraguai eram governados por for\u00e7as de direita que j\u00e1 come\u00e7avam a articular alian\u00e7as para pressionar o governo do presidente venezuelano Nicol\u00e1s Maduro.<\/p>\n<p>O professor Roberto Goulart Menezes, vice-diretor do Instituto de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), explica ao Brasil de Fato que a predomin\u00e2ncia de governos de direita em tr\u00eas dos quatro pa\u00edses-membros facilitou a decis\u00e3o de afastar a Venezuela. O Uruguai, governado ent\u00e3o pelo ex-presidente de esquerda Tabar\u00e9 V\u00e1squez, tentou se opor \u00e0 decis\u00e3o e chegou a ser pressionado pelo governo brasileiro de Michel Temer.<\/p>\n<p>\u201cA decis\u00e3o foi pol\u00edtica. Naquele momento, o chanceler do Brasil, que era o Jos\u00e9 Serra, conseguiu o apoio do Paraguai, da Argentina e tentou persuadir o governo da Frente Ampla [de esquerda] do Uruguai. Inclusive o Serra viajou ao Uruguai, acompanhado do [ex-presidente] Fernando Henrique Cardoso para tentar chantagear o Uruguai para que o pa\u00eds n\u00e3o passasse a presid\u00eancia pr\u00f3-tempore do bloco \u00e0 Venezuela\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Agora, com um novo cen\u00e1rio pol\u00edtico na regi\u00e3o, os esfor\u00e7os para reintegrar a Venezuela ao bloco n\u00e3o depender\u00e3o somente do governo brasileiro, j\u00e1 que o reingresso precisa do sinal verde dos demais membros: Argentina, Uruguai e Paraguai. Segundo Menezes, o governo do presidente argentino Alberto Fern\u00e1ndez n\u00e3o deve impor obje\u00e7\u00f5es, mas Paraguai e Uruguai, ambos governados pela direita, podem colocar obst\u00e1culos.<\/p>\n<p>\u201cPara a Venezuela retornar, ela teria que cumprir os protocolos ou ter agora um novo consenso dos outros quatro membros do Mercosul para que o pa\u00eds possa receber uma extens\u00e3o de prazo para cumprir esses protocolos, dado que a sa\u00edda dela foi abrupta. O caso \u00e9 que ela vinha cumprindo rigorosamente com os protocolos e que isso foi um \u00e1libi pol\u00edtico que n\u00e3o faz sentido. Eu acho que isso est\u00e1 no caminho, mas certamente os governos do Uruguai e do Paraguai devem colocar algum tipo de retic\u00eancia justamente pela cl\u00e1usula democr\u00e1tica\u201d, afirma.<\/p>\n<p><strong>Resolver a crise com pragmatismo<\/strong><br \/>\nDo lado venezuelano, h\u00e1 interesse em se reintegrar n\u00e3o somente aos espa\u00e7os de di\u00e1logos multilaterais da regi\u00e3o, como tamb\u00e9m expandir suas rela\u00e7\u00f5es comerciais com parceiros sul-americanos, retomando os la\u00e7os com potenciais fornecedores de bens de consumo. O isolamento recente ao qual o pa\u00eds foi empurrado obrigou que Caracas buscasse em pot\u00eancias emergentes, como China, Ir\u00e3, R\u00fassia e Turquia, novas rotas comerciais n\u00e3o s\u00f3 para vender seu principal produto, o petr\u00f3leo, mas tamb\u00e9m para abastecer seu mercado interno com itens b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>No entanto, um tra\u00e7o que segue presente na diplomacia do atual presidente venezuelano, Nicol\u00e1s Maduro, herdado de seu antecessor, Hugo Ch\u00e1vez, s\u00e3o as aproxima\u00e7\u00f5es pol\u00edticas com pa\u00edses estrat\u00e9gicos para tentar escapar da hegemonia estadunidense. Ao Brasil de Fato, Cairo Junqueira, professor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade Federal do Sergipe e coordenador do Observat\u00f3rio de Regionalismo, comenta o balan\u00e7o que deve ser feito pela Venezuela entre os aspectos comerciais e pol\u00edticos nas suas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cA grande problem\u00e1tica \u00e9 tentar estabelecer um m\u00ednimo denominador comum com uma parte que \u00e9 importante que \u00e9 a parte comercial, e disso a Venezuela obviamente n\u00e3o pode abrir m\u00e3o e nem deve. Mas a Venezuela tamb\u00e9m enxerga, e aqui eu falo principalmente do Maduro como uma continuidade de certos pontos do Ch\u00e1vez, ela enxerga os processos de integra\u00e7\u00e3o regional tamb\u00e9m do ponto de vista pol\u00edtico\u201d, diz.<\/p>\n<p>O professor tamb\u00e9m destaca que o governo brasileiro tamb\u00e9m ter\u00e1 que rever algumas posi\u00e7\u00f5es para n\u00e3o repetir as mesmas abordagens de 20 anos atr\u00e1s, quando Lula e Ch\u00e1vez viveram o per\u00edodo mais pr\u00f3spero de coopera\u00e7\u00e3o entre Brasil e Venezuela.<\/p>\n<p>\u201cA rela\u00e7\u00e3o de Lula com Maduro agora ser\u00e1 muito diferente da rela\u00e7\u00e3o que ele teve com Ch\u00e1vez na d\u00e9cada de 2000. Por exemplo, o Maduro n\u00e3o compareceu \u00e0 reuni\u00e3o da CELAC e \u00e0 posse de Lula, esses processos podem parecer pouca coisa, mas eu fico pensando em quais n\u00edveis essas rela\u00e7\u00f5es se mant\u00eam. O Lula adotou uma perspectiva multilateral e vai continuar com ela, mas a grande chave para esse governo \u00e9 verificar que o contexto de agora n\u00e3o \u00e9 o mesmo contexto dos primeiros governos\u201d, afirmou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O retorno de Lula \u00e0 Presid\u00eancia alterou a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas na Am\u00e9rica do Sul e abriu novas possibilidade de aproxima\u00e7\u00e3o com parceiros comerciais estrat\u00e9gicos dos quais o pa\u00eds havia se afastado nos \u00faltimos anos, como a Venezuela. 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