{"id":299637,"date":"2023-02-17T05:11:21","date_gmt":"2023-02-17T08:11:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=299637"},"modified":"2023-02-17T05:37:35","modified_gmt":"2023-02-17T08:37:35","slug":"pirata-da-perna-de-pau-foge-e-a-turma-do-funil-cai-na-folia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pirata-da-perna-de-pau-foge-e-a-turma-do-funil-cai-na-folia\/","title":{"rendered":"Pirata da Perna de Pau foge e a Turma do Funil cai na folia"},"content":{"rendered":"<p>Pouco letrado, mas muito vivido, meu av\u00f4 me disse certa vez que o tempo \u00e9 o melhor professor. Mesmo que n\u00e3o fa\u00e7amos boas perguntas, ele nos dar\u00e1 sempre as melhores respostas. Assimilei os ensinamentos do velho e, por muito tempo, fui tudo que pude. Hoje, sou tudo o que quero, inclusive politicamente incorreto quando \u00e9 desnecess\u00e1rio ser correto. E o que \u00e9 ser politicamente correto? Que me perdoem os discordantes, mas o termo nada mais \u00e9 do que uma ditadura disfar\u00e7ada. Didaticamente, \u00e9 a ren\u00fancia aos pr\u00f3prios conceitos, de modo a conseguir a falsa aceita\u00e7\u00e3o de uma minoria que fica mal consigo para ficar bem com todos. Como escreveu Pedro Bial, na pr\u00e1tica \u00e9 uma volta ao passado, quando se acreditava que o homem era essencialmente bom. Mas, no presente, o homem \u00e9 fundamentalmente mau.<\/p>\n<p>O que um dia foi brindado como sa\u00edda para a toler\u00e2ncia, a coexist\u00eancia e a sabedoria acabou virando ref\u00fagio para a canalhice. Na escola prim\u00e1ria, convivi com o Gordo, o Magrela (eu), o Branco Azedo, o Quatro Olhos, a Baixinha, a Ol\u00edvia Palito, o Narigudo, a Girafa e o Neg\u00e3o. Eu e todos os colegas \u00e9ramos zoados e ningu\u00e9m reclamava de bullying. R\u00e1pidas e sem armas de fogo ou brancas, as brigas eram seguidas de um abra\u00e7o e normalmente terminavam na hora da saborosa merenda caseira: p\u00e3o com ovo, p\u00e3o com manteiga e a\u00e7\u00facar, banana, um naco de goiabada casc\u00e3o com uma lasca de queijo ou gomos de laranja. Tudo isso regado a Ki-Suco, sem gelo, de abacaxi, framboesa ou groselha. Quente porque, na \u00e9poca, as lancheiras n\u00e3o eram t\u00e9rmicas. Magricela at\u00e9 na alma, minha bebida atendia pelo codinome Biot\u00f4nico Fontoura. Nossas brincadeiras eram o bafo-bafo, a bolinha de gude e as cole\u00e7\u00f5es de figurinhas, selos e pipas.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, os merecidos gritos e safan\u00f5es maternos objetivavam nos tirar das ruas e n\u00e3o do computador ou do celular. \u00c9ramos anal\u00f3gicos e, por isso, hoje somos antol\u00f3gicos. O an\u00fancio da televis\u00e3o informava o que estava escrito nos jornais e pregado no port\u00e3o: \u201c\u00c9 proibido proibir\u201d. Sou de um tempo em que nada era proibido. Ouvi Caetano Veloso dizer \u2013 e nunca esqueci \u2013 que a \u00fanica coisa proibida era proibir. Ent\u00e3o, pergunto a meus pares que insistem nessa balela do politicamente correto: No pa\u00eds em que a Banda Calypso j\u00e1 foi prefer\u00eancia nacional, Chimbinha era cultuado como s\u00edmbolo sexual e que o funk virou moda at\u00e9 na elite modorrenta e mal amada, por que minhas antigas marchinhas est\u00e3o canceladas? Amanh\u00e3 \u00e9 Carnaval e como irei para a Folia da Saudade se n\u00e3o posso mais cant\u00e1-las?<\/p>\n<p>Se falta criatividade a quem v\u00ea maledic\u00eancia nas letras dessas marchinhas, o problema \u00e9 psiqui\u00e1trico. Eu sou pragm\u00e1tico e, por essa raz\u00e3o, morro de rir quando me imagino acusado de desrespeitar o que sempre respeitei. Por exemplo, n\u00e3o associo a m\u00fasica Me d\u00e1 um dinheiro a\u00ed a assaltos. O teu cabelo n\u00e3o nega s\u00f3 \u00e9 racismo para quem \u00e9 racista. Brincadeira de mau gosto \u00e9 algu\u00e9m vincular homofobia \u00e0 marchinha Cabeleira do Zez\u00e9. Mais absurda \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o dos Alco\u00f3licos An\u00f4nimos a Voc\u00ea pensa que cacha\u00e7a \u00e9 \u00e1gua. N\u00e3o quero saber se os Black Blocs usavam M\u00e1scara Negra, tampouco se Chacrinha fazia apologia gay ao cantar Maria Sapat\u00e3o. Pior \u00e9 entender como cal\u00fania eu, carioca da gema, cantarolar Cidade Maravilhosa. Se \u00e9 ass\u00e9dio gritar no sal\u00e3o Vou beijar-te agora, imagina Voc\u00ea tem que me dar seu cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 crime passional. Em \u00e9poca de deboche com o genoc\u00eddio dos Yanomami, talvez seja extors\u00e3o sofejar \u00cdndio quer apito, se n\u00e3o der, pau vai comer.<\/p>\n<p>Na fase cr\u00edtica dos enta, n\u00e3o me incomodo quando um daqueles gaiatos chatos cantam ao meu lado que A pipa do vov\u00f4 n\u00e3o sobe mais. \u00c9 bullying? Claro que n\u00e3o. \u00c9 a mais pura verdade. Uma pena tudo isso. A vida, o Carnaval e os amigos dos amigos ficaram aporrinhantes com a demagogia gratuita do politicamente incorreto. Se a ideia \u00e9 facilitar a conviv\u00eancia em sociedade, pensemos diferente e n\u00e3o sejamos verdugos de n\u00f3s mesmos. Incorre\u00e7\u00e3o \u00e9 torcer ou nada fazer contra aqueles que vandalizam bens p\u00fablicos, \u00e9 apoiar os que buscam o poder a qualquer custo, \u00e9 substituir express\u00f5es apenas para agradar. Incorreto \u00e9 rotular de empreendedor quem vive de bico, denominar de trabalho informal o subemprego e trocar fim de direito por flexibiliza\u00e7\u00e3o. A\u00ed pode? Que esperneiem, pois eu quero \u00e9 me afogar. Sassaricando, vou carnavalizar com a Aurora e com minha Mulata bossa nova. Mam\u00e3e eu quero \u00e9 a Turma do Funil. Daqui n\u00e3o saio. \u00d4 abre alas que eu quero passar. O pirata da perna de pau fugiu. Yes, n\u00f3s temos bananas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pouco letrado, mas muito vivido, meu av\u00f4 me disse certa vez que o tempo \u00e9 o melhor professor. Mesmo que n\u00e3o fa\u00e7amos boas perguntas, ele nos dar\u00e1 sempre as melhores respostas. Assimilei os ensinamentos do velho e, por muito tempo, fui tudo que pude. 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