{"id":299896,"date":"2023-02-21T14:30:16","date_gmt":"2023-02-21T17:30:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=299896"},"modified":"2023-02-21T13:05:02","modified_gmt":"2023-02-21T16:05:02","slug":"lula-precisa-bater-no-minotauro-para-sair-do-labirinto-neoliberal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lula-precisa-bater-no-minotauro-para-sair-do-labirinto-neoliberal\/","title":{"rendered":"Lula precisa bater no Minotauro para sair do labirinto neoliberal"},"content":{"rendered":"<p>O labirinto em que se encontra o presidente Lula \u2013 no esfor\u00e7o por dar car\u00e1ter ao seu governo, que se espera desenvolvimentista \u2013 \u00e9 formado por uma sequ\u00eancia incont\u00e1vel de desvios, t\u00faneis, al\u00e7ap\u00f5es e armadilhas arquitetados pela casa-grande, para quem a trag\u00e9dia social \u00e9 uma irrelev\u00e2ncia. Guarda-o um Minotauro feroc\u00edssimo e insaci\u00e1vel.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo da classe dominante, que \u00e0s vezes se vale do codinome de \u201cmercado\u201d, \u00e9 asfixiar o novo governo, imobiliz\u00e1-lo, impedi-lo de promover as reformas prometidas ao eleitorado e reclamadas pela Hist\u00f3ria. A alternativa que sobra ao mandat\u00e1rio \u00e9 tamb\u00e9m seu suic\u00eddio: adotar como sua a pol\u00edtica do establisment. Permanecer no governo renunciando \u00e0 governan\u00e7a.<\/p>\n<p>A Lula foi concedida, em 2022, a disputa eleitoral, negada em 2018 pela alian\u00e7a de um STF covardemente genuflexo com um general exacerbadamente golpista; honrando sua biografia, o petista em campanha prometeu um governo voltado \u00e0 defesa dos mais pobres, ao combate ao desemprego e \u00e0 fome, cuja necessidade, por si s\u00f3, \u00e9 o atestado de nosso fracasso como na\u00e7\u00e3o. Nas ruas conquistou o direito \u00e0 posse presidencial, ainda que aos trancos e barrancos, e a um custo que a hist\u00f3ria contabilizar\u00e1.<\/p>\n<p>Com o apoio do pa\u00eds indignado venceu um putsch fascista animado pela solidariedade nem sempre silenciosa dos fardados. Mas, n\u00e3o obstante tantos feitos, a governan\u00e7a \u00e9 hoje seu desafio maior. N\u00e3o se trata, t\u00e3o-s\u00f3, da incolumidade do mandato conferido em elei\u00e7\u00e3o plebiscit\u00e1ria, mas da realiza\u00e7\u00e3o de um projeto que tanto mira o aqui e o agora \u2013 o refazimento do Estado social \u2013 quanto o futuro imediato, com a cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de enfrentamento da amea\u00e7a fascista, abalada, mas n\u00e3o sepultada pela derrota eleitoral (ao cabo de vota\u00e7\u00e3o mais do que expressiva) do ex-capit\u00e3o de extrema-direita. O necess\u00e1rio bom \u00eaxito do governo Lula, por \u00f3bvio, n\u00e3o interessa ao sistema empresarial-militar (intocado) que vem regendo o pa\u00eds desde o golpe de 2016, e que constitui a retaguarda financeira e log\u00edstica do conservadorismo hegem\u00f4nico.<\/p>\n<p>A arte de governar, sob a cartilha da domina\u00e7\u00e3o de classe, ensina proceder exclusivamente \u00e0s mudan\u00e7as que nada mudam, ou ent\u00e3o governar em condom\u00ednio. Os trilhos pelos quais transitaria o governo s\u00e3o demarcados pelo grande capital e, por consequ\u00eancia, pela grande imprensa, pelo congresso reacion\u00e1rio, pelos rentistas e especuladores.<br \/>\nLula resiste e engendra o salto para fora do labirinto.<\/p>\n<p>Para disputar as elei\u00e7\u00f5es, o presidente montou a mais ampla coliga\u00e7\u00e3o de partidos e interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos jamais conhecida na hist\u00f3ria republicana. Para governar estendeu-a ainda mais, caminhando o quanto p\u00f4de \u00e0 direita, at\u00e9 ao Centr\u00e3o, onde, salvo engano, fincou o \u00faltimo marco. Mesmo assim depara-se com dificuldades para levar a cabo seu programa de governo, um projeto de car\u00e1ter simplesmente socialdemocrata, despido de qualquer insinua\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria; dele poder-se-\u00e1 dizer que, atento \u00e0s circunst\u00e2ncias herdadas, persegue um reformismo moderado e o fortalecimento das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas tais quais s\u00e3o, ou seja, nada que altere ou mesmo de leve ameace o atrasado capitalismo que nos molesta.<\/p>\n<p>O sistema, por\u00e9m, no meio do qual manobra o Banco Central, diz ao presidente que lhe falta legitimidade para gerir sua pr\u00f3pria pol\u00edtica econ\u00f4mica, nada obstante o respaldo de 52% do eleitorado \u00e0s teses expostas na campanha eleitoral. Diariamente, fa\u00e7a chuva ou fa\u00e7a sol, os editoriais dos grandes jornais, os comentaristas de televis\u00e3o transformados em cientistas pol\u00edticos e multiespecialistas, todos dizem ao governo o que lhe compete fazer e o que n\u00e3o pode fazer: fundamentalmente cumpre-lhe pagar os juros escorchantes estabelecidos e cobrados pela banca, e deixar de investir (ou \u201cgastar\u201d, segundo o vocabul\u00e1rio monetarista neoliberal).<\/p>\n<p>Os banqueiros e seus agentes, nas dezenas de \u201cconsultorias\u201d, corretoras, casas de cr\u00e9dito e quejandas (umas formadas por ex-diretores do Banco Central, outras por futuros diretores do Banco Central), liderados pelo presidente da autoridade monet\u00e1ria, enfant g\u00e2t\u00e9 da grande m\u00eddia, conduzem o debate econ\u00f4mico em torno da balela de que juro alto combate a infla\u00e7\u00e3o e \u201cgera confian\u00e7a nos investidores\u201d. O presidente da rep\u00fablica, afrontado em suas compet\u00eancias, vendo amea\u00e7ada a realiza\u00e7\u00e3o de seu programa de governo, \u00e9 criticado por protestar contra uma taxa Selic de 13,5% contra uma infla\u00e7\u00e3o de 3,5%. Voltamos a ser campe\u00f5es, desta feita de juros altos, os mais altos do mundo, ao tempo em que somos a segunda mais injusta sociedade do planeta.<\/p>\n<p>Que nos dizem esses juros?<\/p>\n<p>O encarecimento da d\u00edvida p\u00fablica onera o governo (o or\u00e7amento da Uni\u00e3o legado pelo bolsonarismo prev\u00ea 247 bilh\u00f5es de reais para o pagamento de juros e encargos da d\u00edvida) ao tempo em que beneficia os rentistas, cujos interesses se materializam na pol\u00edtica do BC que intensifica o desaquecimento de uma economia j\u00e1 estagnada, quando precisamos investir algo equivalente a 22% do PIB, e presentemente s\u00f3 investimos 18%. A pol\u00edtica contracionista \u2013 aumento dos juros e cortes de gastos \u2013 \u00e9 receitada no momento em que os bancos privados, amea\u00e7ados em seus lucros pela crise do grande varejo, optam pela retra\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito. Juntem-se juros altos e crise de cr\u00e9dito com corte expressivo de gastos e temos as portas abertas para um ataque recessivo, ap\u00f3s anos de estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica denunciada por um PIB que h\u00e1 seis anos n\u00e3o ultrapassa os 2%!<\/p>\n<p>Este, o projeto pol\u00edtico vocalizado pelo BC e tonitruado pelos \u201cespecialistas\u201d da grande m\u00eddia.<\/p>\n<p>O desafio presente, para as for\u00e7as progressistas, \u00e9 assegurar ao presidente Lula condi\u00e7\u00f5es de levar a cabo seu projeto de recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica do pa\u00eds. Esse desafio, urgente e ingente, ressente-se, por\u00e9m, da fragilidade dos partidos de sustenta\u00e7\u00e3o do governo \u2013 j\u00e1 agravada pelo descenso do movimento popular e das organiza\u00e7\u00f5es sindicais \u2013, de que resulta a necessidade de composi\u00e7\u00e3o com os donos do poder, o chamado establishment: um cons\u00f3rcio de for\u00e7as poderosas que compreende o grande capital e seus inumer\u00e1veis segmentos e agentes, como a corpora\u00e7\u00e3o militar e suas ramifica\u00e7\u00f5es, fardadas ou n\u00e3o, o poder legislativo (onde somos minoria), o poder judici\u00e1rio, empoderado, e os setores religiosos, de um modo geral conservadores.<\/p>\n<p>Lula s\u00f3 far\u00e1 o que quer que seja pr\u00f3ximo de seus compromissos de vida e de campanha se em seu governo o pa\u00eds se reencontrar com o desenvolvimento, o que, com os dados de hoje \u2013 e se n\u00e3o for poss\u00edvel quebrar a hegemonia do BC \u201cindependente\u201d e seus sat\u00e9lites \u2013, trata-se de mero sonho de uma noite de ver\u00e3o, em face dos custos do dinheiro que inviabilizam a produ\u00e7\u00e3o, mas fazem a festa dos especuladores, a erva daninha que tomou o lugar dos empres\u00e1rios e hoje \u00e9 a fra\u00e7\u00e3o mais poderosa da classe dominante brasileira, herdeira da casa-grande, a comandar o pa\u00eds a partir da Faria Lima \u2013 a casamata dos rentistas que se financiam l\u00e1 fora a juros baixos para aplicar aqui, sem risco cambial, com a taxa de juros estratosf\u00e9rica que eles mesmo estabelecem para seu lucro parasit\u00e1rio, em preju\u00edzo da economia como um todo, impedindo investimentos e agravando o custo da d\u00edvida p\u00fablica (arcada pelo Estado), cujo peso termina recaindo sobre toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao controlar o BC e ditar a pol\u00edtica monet\u00e1ria, a banca se permite estabelecer que o Estado dever\u00e1 financi\u00e1-la por meio da emiss\u00e3o de d\u00edvida (assim eliminando o risco inerente a toda atividade produtiva), e ainda determinar o valor que aceita receber (hoje, uma taxa b\u00e1sica muito acima da infla\u00e7\u00e3o). E se o governo da vez ousa reclamar, em defesa dos compromissos assumidos com a popula\u00e7\u00e3o, o aparato comunicacional vocifera, em un\u00edssono, denunciando \u201cintervencionismo\u201d, \u201cpopulismo fiscal\u201d, \u201cgastan\u00e7a\u201d e assim por diante. \u00c9 uma completa invers\u00e3o: o mercado financeiro, que nasce com uma fun\u00e7\u00e3o suplementar, secund\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia real dos pa\u00edses, assenhorando-se da pol\u00edtica econ\u00f4mica\u2026<\/p>\n<p>Pesa sobre nosso destino uma classe dominante avessa \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e ao trabalho, inimiga da imagina\u00e7\u00e3o e do pioneirismo, que opta pela desindustrializa\u00e7\u00e3o e retorna ao arca\u00edsmo da economia prim\u00e1rio-exportadora e do rentismo. O atraso do pa\u00eds, absoluto e relativo, o descompasso face \u00e0s na\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas que realizaram suas respectivas revolu\u00e7\u00f5es industriais, \u00e9 fruto de op\u00e7\u00e3o consciente de nossas elites, desde sempre alienadas. Seu legado \u00e9 um projeto de depend\u00eancia pol\u00edtica, ideol\u00f3gica e econ\u00f4mica sustentado por um estado estruturalmente autorit\u00e1rio, um autoritarismo larvar, renitente em toda a hist\u00f3ria e dominante na ordem pol\u00edtica, nascido na col\u00f4nia, filho do escravismo e do genoc\u00eddio das popula\u00e7\u00f5es nativas, elevado aos extremos da viol\u00eancia no imp\u00e9rio e modernizado na rep\u00fablica seren\u00edssima, fundada na explora\u00e7\u00e3o de classe. Esse autoritarismo \u00e9 a camisa de for\u00e7a de uma sociedade de cerca de 220 milh\u00f5es de habitantes, dos quais apenas 1\u00ba de sua popula\u00e7\u00e3o det\u00e9m 27% de toda a renda nacional (The World Inequality Report, 2022).<\/p>\n<p>Essa classe dominante \u00e9 o Minotauro faminto que espreita Lula em seu labirinto, ansiosa por devor\u00e1-lo e assim p\u00f4r-se na seguran\u00e7a de que tudo continuar\u00e1 como est\u00e1, pois as mudan\u00e7as conced\u00edveis s\u00e3o apenas aquelas que n\u00e3o podem passar das apar\u00eancias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O labirinto em que se encontra o presidente Lula \u2013 no esfor\u00e7o por dar car\u00e1ter ao seu governo, que se espera desenvolvimentista \u2013 \u00e9 formado por uma sequ\u00eancia incont\u00e1vel de desvios, t\u00faneis, al\u00e7ap\u00f5es e armadilhas arquitetados pela casa-grande, para quem a trag\u00e9dia social \u00e9 uma irrelev\u00e2ncia. 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