{"id":300408,"date":"2023-03-02T11:40:28","date_gmt":"2023-03-02T14:40:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=300408"},"modified":"2023-03-03T09:31:23","modified_gmt":"2023-03-03T12:31:23","slug":"madeireiras-com-selo-de-sustentabilidade-multadas-em-100-milhoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/madeireiras-com-selo-de-sustentabilidade-multadas-em-100-milhoes\/","title":{"rendered":"Madeireiras com selo especial multadas em 100 milh\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>O paranaense Idacir Peracchi chegou ao Sul do Par\u00e1 em 1980 para trabalhar na extra\u00e7\u00e3o de madeira. Investiu dinheiro na empreitada e n\u00e3o tardou a colher os frutos. Em poucos anos, se tornou o \u201crei do mogno\u201d da cidade de Tucum\u00e3, comandando batalh\u00f5es de mateiros e operadores de motosserra que ficavam no mato por at\u00e9 dois meses para extrair a madeira que, na \u00e9poca, era a mais valorizada da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Junto com seu irm\u00e3o, Idemar, fundou em 1983 a Exportadora Peracchi. A empresa cresceu rapidamente, \u00e0s custas de crimes ambientais: ainda no final dos anos 1980, a Funai flagrou funcion\u00e1rios da madeireira extraindo mogno em \u00e1reas p\u00fablicas griladas no meio da Terra Ind\u00edgena Apyretewa, onde vivem ind\u00edgenas da etnia Parakan\u00e3. Segundo o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, a Juru\u00e1 devastou cerca de 5 mil hectares de floresta e construiu mais de 100 km de estradas para escoar a madeira ilegal at\u00e9 Tucum\u00e3.<\/p>\n<p>Os irm\u00e3os Peracchi reconheceram a irregularidade e se comprometeram a recuperar a mata destru\u00edda na terra ind\u00edgena \u2014 o que nunca aconteceu. Enquanto isso, fizeram uma repagina\u00e7\u00e3o nos neg\u00f3cios. No come\u00e7o dos anos 1990, abriram uma nova empresa, dessa vez com roupagem ecol\u00f3gica: a Juru\u00e1 Florestal. A madeireira virou refer\u00eancia no ramo. Em 2000, tornou-se uma das primeiras companhias desse tipo no Brasil a ser certificada pela FSC, a Forest Stewardship Council, ou Conselho de Manejo Florestal, ONG mundialmente conhecida que atesta a explora\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel de produtos florestais. O certificado funciona como uma garantia de que a madeira da empresa n\u00e3o foi desmatada ilegalmente nem extra\u00edda por trabalhadores em condi\u00e7\u00f5es degradantes. Ou assim deveria funcionar.<\/p>\n<p>Ocorre que a nova empresa, mesmo certificada pela FSC, manteve o antigo padr\u00e3o de infra\u00e7\u00f5es. Entre 2000 e 2017, a Juru\u00e1 foi multada doze vezes pelo Ibama por destruir floresta sem autoriza\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico e transportar madeira sem documenta\u00e7\u00e3o. Ao todo, as multas aplicadas nesse per\u00edodo somaram R$ 1,6 milh\u00e3o em valores nominais.<\/p>\n<p>O certificado da FSC acabou servindo como um salvo-conduto para as fraudes. Enquanto cometia infra\u00e7\u00f5es em s\u00e9rie, a Juru\u00e1 se valia da grife FSC para informar aos seus clientes dentro e fora do Brasil que explorava madeira de forma legal e sustent\u00e1vel. Em 2004, Idacir Peracchi chegou a aparecer em um an\u00fancio do ABN, banco holand\u00eas que operou no Brasil no come\u00e7o dos anos 2000. Na pe\u00e7a, ele foi apresentado como exemplo de um empres\u00e1rio comprometido com o meio ambiente. \u00c9 um caso t\u00edpico do que os ambientalistas chamam de greenwashing (lavagem verde): a pr\u00e1tica de algumas empresas e governos de se mostrarem empenhados com a causa ambiental quando, na verdade, agem no sentido oposto.<\/p>\n<p>O levantamento <em>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/em>, da revista <em>piau\u00ed<\/em> e do<em> Poder 360<\/em>, em parceria com o Cons\u00f3rcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) e com os projetos Data Fixers e Fiquem Sabendo, mostra que ao menos 60 empresas certificadas pelo FSC e com unidades industriais na Amaz\u00f4nia Legal j\u00e1 foram autuadas pelo Ibama. Juntas, somam mais de R$ 100 milh\u00f5es em multas por todo tipo de infra\u00e7\u00e3o: desmatamento ilegal, transporte de madeira sem documenta\u00e7\u00e3o, fraudes em guias florestais, grilagem de terras, entre outros.<\/p>\n<p>A reportagem, resultado de tr\u00eas meses de investiga\u00e7\u00e3o, integra a s\u00e9rie Deforestation Inc, do ICIJ, que re\u00fane 39 ve\u00edculos de m\u00eddia ao redor do mundo. A apura\u00e7\u00e3o global revelou que, desde 2004, mais de 300 empresas de produtos florestais certificadas foram acusadas de crimes ambientais e outras infra\u00e7\u00f5es. No caso do Brasil, os dados usados na an\u00e1lise consideram todas as multas registradas no sistema do Ibama at\u00e9 dezembro de 2022, independentemente do status atual de cobran\u00e7a. O registro da multa n\u00e3o significa necessariamente que a empresa \u00e9 culpada. Ela pode recorrer da decis\u00e3o e, eventualmente, a multa pode ser anulada.<\/p>\n<p>Em casos como o da Juru\u00e1, no entanto, n\u00e3o se trata de uma multa eventual. H\u00e1 um padr\u00e3o de repetidas infra\u00e7\u00f5es ambientais. Al\u00e9m de ter sido autuada por explorar madeira ilegalmente, a empresa j\u00e1 foi multada por fraudar o sistema de cr\u00e9ditos do Sisflora, que monitora a comercializa\u00e7\u00e3o de madeira em cada estado do Brasil. O sistema funciona assim: quando uma empresa obt\u00e9m autoriza\u00e7\u00e3o do governo estadual para extrair determinada quantidade de madeira, a Secretaria de Meio Ambiente daquele estado insere no Sisflora o nome das esp\u00e9cies e a quantidade de madeira que a empresa est\u00e1 autorizada a extrair.<\/p>\n<p>No momento em que a madeira \u00e9 vendida, o comprador recebe uma confirma\u00e7\u00e3o do Sisflora atestando a legalidade do produto. No entanto, h\u00e1 casos em que, com a coniv\u00eancia do poder p\u00fablico, madeireiras aprovam planos de manejo fict\u00edcios ou com quantidades de madeira superfaturadas. Essa sobra no saldo do Sisflora permite \u00e0s empresas \u201cesquentar\u201d madeira retirada de \u00e1reas proibidas, como unidades de conserva\u00e7\u00e3o e terras ind\u00edgenas. Segundo o Ibama, a Juru\u00e1 recorreu a esse estratagema irregular ao menos duas vezes em 2016.<\/p>\n<p>Em 2011, o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal cobrou da Juru\u00e1 uma indeniza\u00e7\u00e3o por ter extra\u00eddo 737 metros c\u00fabicos de madeira ilegalmente \u2014 o suficiente para encher quinze caminh\u00f5es com capacidade para quinze toneladas cada um. A empresa foi condenada na Justi\u00e7a a pagar R$ 307 mil pelo crime. Em outro imbr\u00f3glio judicial, na hora de se defender, os advogados da madeireira se agarraram ao selo da FSC, \u201cesp\u00e9cie de honraria e\/ou certificado conferido \u00e0s empresas, dando conta da seriedade de seu trabalho na esfera florestal\u201d, escreveram.<\/p>\n<p>A FSC afirma que, quando uma empresa certificada \u00e9 acusada de irregularidades, o certificado de boas pr\u00e1ticas ambientais \u00e9 suspenso ou cancelado. Mas n\u00e3o foi o que aconteceu com a Juru\u00e1. Ao longo de dezessete anos, a empresa renovou periodicamente seu certificado, mesmo acumulando multas do Ibama e ao menos uma condena\u00e7\u00e3o por crime ambiental nesse per\u00edodo. A Juru\u00e1 s\u00f3 perdeu o certificado em 2017, por motivos n\u00e3o informados nem pela empresa nem pela FSC. Em 2022, retomou o selo. Procurada pela reportagem, a Juru\u00e1 afirmou, por meio de nota, que n\u00e3o recebeu multas ambientais desde a \u00faltima certifica\u00e7\u00e3o da FSC, ano passado. Ressaltou, al\u00e9m disso, que \u201cnenhuma empresa deve sofrer discrimina\u00e7\u00e3o por ter sido autuada por \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o antes do t\u00e9rmino do processo recursal\u201d.<\/p>\n<p>A FSC \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o multinacional sem fins lucrativos fundada em 1993 e sediada em Bonn, na Alemanha. Os selos emitidos por ela atestam que a madeira e outros produtos florestais comercializados por uma determinada empresa t\u00eam origem sustent\u00e1vel e s\u00e3o produzidos de forma a minimizar impactos socioambientais. \u00c9 um selo de bom comportamento ambiental, uma chancela ecol\u00f3gica. Essa certifica\u00e7\u00e3o \u00e9 muito visada por empresas em todo o mundo porque lhes permite cobrar mais por seus produtos e abre as portas para mercados exigentes \u2013 como os da Europa \u2013 que, cada vez mais, querem se ver livres de produtos associados ao desmatamento e outros crimes ambientais. Al\u00e9m disso, o selo facilita a capta\u00e7\u00e3o de investimentos externos e melhora a imagem das companhias junto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Existem seis tipos de certificado FSC, mas os mais relevantes s\u00e3o dois: o de manejo florestal, fornecido para determinada \u00e1rea explorada comercialmente por uma empresa, e o de cadeia de cust\u00f3dia, que analisa e valida todas as etapas da manufatura da madeira, do corte at\u00e9 a venda final, de uma determinada empresa. No Brasil, os selos FSC s\u00e3o emitidos por onze empresas certificadoras, a um custo que varia conforme o tamanho da ind\u00fastria e das \u00e1reas exploradas.<\/p>\n<p>A partir da \u00faltima d\u00e9cada, a FSC, formada por centenas de ONGs ambientais, madeireiras e sindicatos pelo mundo, passou a sofrer fortes cr\u00edticas, sobretudo por parte de entidades ligadas \u00e0 defesa do meio ambiente, que a acusam de leni\u00eancia na concess\u00e3o dos certificados a infratores ambientais contumazes. \u201cIdentificamos falta de consist\u00eancia em v\u00e1rios certificados deles, inclusive no Brasil\u201d, diz Daniel Brindis, porta-voz para o tema de florestas do Greenpeace. \u201cInfelizmente a FSC faz vista grossa para muitas empresas, porque depende do setor privado e \u00e9 muito pressionada pelas madeireiras.\u201d Em 2018, o Greenpeace encerrou sua parceria de longa data com a FSC acusando a entidade de falta de transpar\u00eancia e rigor na certifica\u00e7\u00e3o de empresas.<\/p>\n<p>As informa\u00e7\u00f5es sobre as empresas certificadas usadas nesta reportagem foram coletadas em uma plataforma online da FSC. O site, contudo, permite apenas a visualiza\u00e7\u00e3o dos dados, n\u00e3o a extra\u00e7\u00e3o, o que, na pr\u00e1tica, impede que seja analisado todo o universo de empresas certificadas (estima-se que, no mundo, sejam dezenas de milhares). A reportagem solicitou acesso aos dados repetidas vezes, mas a FSC se recusou a fornec\u00ea-los. Na \u00faltima resposta, alegou que \u201cleis de privacidade\u201d dificultariam o compartilhamento das informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Entre as madeireiras certificadas pela FSC que acumulam multas, a Alecrim Ind\u00fastria de Madeiras \u00e9 um caso peculiar: a empresa n\u00e3o apenas foi autuada dezenas de vezes, como seus donos, os ga\u00fachos Aldir Schmitt e Milton Schnorr, cumpriram pena em regime semiaberto em Santar\u00e9m (PA), condenados por crimes ambientais. Ser preso no Brasil por esse tipo de delito \u00e9 extremamente raro, j\u00e1 que as penas costumam ser pequenas. Al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1rio que o r\u00e9u seja reincidente \u2014 caso de ambos \u2014 para que um juiz possa mand\u00e1-lo \u00e0 pris\u00e3o. Os dois s\u00f3cios foram presos em 2019. Mas, mesmo assim, a empresa n\u00e3o perdeu o selo da FSC, emitido em 2015.<\/p>\n<p>Fundada por Schnorr em 1994, a Alecrim foi autuada 31 vezes entre 1997 e 2021. As multas somam 3,1 milh\u00f5es de reais em valores nominais. Ao menos seis delas foram emitidas depois de a empresa obter o selo FSC. As infra\u00e7\u00f5es s\u00e3o diversas: venda de madeira sem licen\u00e7a adequada, explora\u00e7\u00e3o de madeira em terra ind\u00edgena sem autoriza\u00e7\u00e3o e armazenamento irregular de madeira. Quase todas foram registradas no Par\u00e1. Muitas j\u00e1 foram pagas, mas algumas ainda se encontram em processo de julgamento no Ibama. H\u00e1 dezenas de registros de exporta\u00e7\u00e3o de madeira feitos pela Alecrim desde 2020. A lista de compradores inclui pa\u00edses como Estados Unidos, Panam\u00e1, Col\u00f4mbia, Espanha, Fran\u00e7a e Reino Unido.<\/p>\n<p>Os donos da Alecrim aparecem no quadro societ\u00e1rio de duas outras empresas do mesmo ramo. Uma delas \u2014 a Algimi Florestal \u2014 acumula oito multas e j\u00e1 foi condenada na Justi\u00e7a por poluir um igarap\u00e9. A despeito das condena\u00e7\u00f5es, Aldir Schmitt constava, at\u00e9 abril de 2022, como vice-presidente da Associa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias Madeireiras de Santar\u00e9m (Asimas). Recentemente, a Asimas anunciou uma parceria com o Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio) \u201cem busca de estrat\u00e9gias sustent\u00e1veis para a colheita florestal\u201d.<\/p>\n<p>Procurada pela reportagem, a Alecrim enviou uma nota alegando que \u201cos autos de infra\u00e7\u00e3o [do Ibama] s\u00e3o controversos e pass\u00edveis de nulidades, emitidos, ao nosso ver, por equ\u00edvoco ou interpreta\u00e7\u00e3o equivocada do agente autuador\u201d. Quanto \u00e0 pris\u00e3o dos dois s\u00f3cios da empresa, a nota diz que \u201cfoi injusta e arbitr\u00e1ria, ainda assim j\u00e1 cumprida, n\u00e3o devendo os pretendidos autores nada \u00e0 Justi\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Assim como a Juru\u00e1 Florestal e a Alecrim, a Pampa se vende como uma empresa sustent\u00e1vel. Fundada em 1987 pelo empres\u00e1rio ga\u00facho Demorvan Tomedi, a madeireira \u00e9 um caso de sucesso. Prosperou com a exporta\u00e7\u00e3o de madeiras e acumula hoje um capital social de R$ 34 milh\u00f5es, um parque industrial de 100 mil m2 e um porto privado no Par\u00e1. Mas, assim como as outras empresas, acumula infra\u00e7\u00f5es ambientais. Foi multada doze vezes pelo Ibama, sendo quatro delas depois de ter obtido seu certificado FSC, em 2012.<\/p>\n<p>As multas recebidas pela Pampa somam R$ 5,1 milh\u00f5es, em valores nominais. A maioria dos casos \u00e9 por fraudes no Sisflora: segundo os agentes do Ibama, a empresa \u201cesquentou\u201d madeira retirada ilegalmente de \u00e1reas pr\u00f3ximas \u00e0 Rodovia Transamaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>As reiteradas multas renderam \u00e0 Pampa processos na Justi\u00e7a Federal. Em uma delas, a empresa foi condenada em duas inst\u00e2ncias a pagar R$ 962 mil por danos morais e ambientais e recuperar 195 hectares de mata nativa. Em outra a\u00e7\u00e3o, Tomedi, dono da Pampa, foi condenado por falsidade ideol\u00f3gica por inserir cr\u00e9ditos de madeira fict\u00edcios no Sisflora. Tempos depois, o empres\u00e1rio deixou o comando da empresa. As condena\u00e7\u00f5es ocorreram quando a madeireira j\u00e1 era certificada pela FSC. Por meio de nota, a Pampa afirmou que todas as autua\u00e7\u00f5es do Ibama, bem como as condena\u00e7\u00f5es judiciais, est\u00e3o em fase de recurso, e que a empresa \u201cfoi certificada e se mant\u00e9m certificada porque cumpre o padr\u00e3o\u201d da FSC.<\/p>\n<p>Outro caso semelhante \u00e9 o da Madeireira Rancho da Cabocla. Sediada em Santar\u00e9m, a empresa acumula 49 multas do Ibama. Ao menos catorze delas foram registradas depois que a madeireira obteve o selo da FSC, em 2018. Um dos s\u00f3cios da empresa, Moacir Ciesca, foi preso numa opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal, em 2004, acusado de corromper funcion\u00e1rios do Incra (Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria) para invadir terras p\u00fablicas no sudoeste do Par\u00e1. Ciesca responde, ainda hoje, a um processo por contrabando de madeira.<\/p>\n<p>Por meio de nota, a Rancho da Cabocla alegou que todas as multas que recebeu quando j\u00e1 tinha o certificado FSC tratam de quest\u00f5es puramente administrativas \u2014 ou seja, infra\u00e7\u00f5es menos graves, que n\u00e3o prejudicam o meio ambiente. \u00c9 verdade: desde 2018, a empresa foi multada por transportar madeira de forma irregular e preencher informa\u00e7\u00f5es falsas no Sisflora. Segundo o Ibama, por\u00e9m, o transporte irregular de madeira e o uso de dados falsos frequentemente s\u00e3o adotados por madeireiras para disfar\u00e7ar madeira de origem ilegal.<\/p>\n<p>Na nota, a Rancho da Cabocla insinuou que est\u00e1 em curso uma tentativa de criminaliza\u00e7\u00e3o da atividade madeireira. Sem citar nomes, a empresa afirmou que \u201cinteresses internacionais n\u00e3o confess\u00e1veis e escusos tentam marginalizar a atividade madeireira no sentido de auferirem vantagens pessoais e de grupos que n\u00e3o vivem aqui, n\u00e3o temos outra explica\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Uma das primeiras empresas brasileiras a conquistar a certifica\u00e7\u00e3o FSC para o manejo florestal sustent\u00e1vel foi a Mil Madeiras Preciosas. Fundada em 1994 em Itacoatiara (AM), a empresa \u00e9 uma filial da Precious Woods, multinacional do setor madeireiro com sede na Su\u00ed\u00e7a, e est\u00e1 entre as maiores exportadoras de madeira do Brasil. A empresa obteve o certificado da FSC em 1997 e, desde ent\u00e3o, renovou a credencial v\u00e1rias vezes, apesar das dezenas de multas ambientais que recebeu desde ent\u00e3o. Juntas, as autua\u00e7\u00f5es passam dos R$ 7 milh\u00f5es. A Mil Madeiras foi acusada pelo Ibama de destruir \u00e1reas de floresta sem autoriza\u00e7\u00e3o, apresentar informa\u00e7\u00f5es enganosas referentes ao seu plano de manejo e abrir uma estrada no meio da floresta sem a anu\u00eancia das autoridades.<\/p>\n<p>Uma das multas mais onerosas foi aplicada em 2002, quando fiscais do Ibama flagraram o transporte irregular de 24 mil m3 de toras de abiurana, castanharana e outras esp\u00e9cies de \u00e1rvores \u2014 uma quantidade enorme, capaz de encher 480 caminh\u00f5es. A Mil Madeiras Preciosas recorreu da decis\u00e3o, e o caso segue em aberto at\u00e9 hoje. Atualizado com juros e corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, o valor da multa passava de R$ 26 milh\u00f5es em setembro de 2021. (Na mesma ocasi\u00e3o, a empresa tamb\u00e9m foi multada por transportar uma leva de toras sem autoriza\u00e7\u00e3o \u2013 mas, nesse caso, a multa foi anistiada por decis\u00e3o do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, em 2006.)<\/p>\n<p>A Mil Madeiras Preciosas afirmou, por meio de nota, que nunca teve seu certificado FSC suspenso ou cancelado, medida prevista em casos de irregularidades. Para a empresa, n\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o entre as multas e o certificado de boas pr\u00e1ticas, uma vez que o auto de infra\u00e7\u00e3o \u201cn\u00e3o representa, por si s\u00f3, a condena\u00e7\u00e3o\u201d. Al\u00e9m disso, diz a nota, as multas s\u00e3o controversas, j\u00e1 que \u201cmuitos \u00f3rg\u00e3os ambientais interpretam a legisla\u00e7\u00e3o brasileira para aplicar penalidades para meras irregularidades administrativas, como, por exemplo, o equ\u00edvoco no preenchimento da guia de transporte de produto florestal\u201d.<\/p>\n<p>Quando as multas foram aplicadas contra a Mil Madeiras Preciosas em 2002, o Imaflora \u2014 certificadora vinculada \u00e0 FSC \u2014 saiu em defesa da madeireira. Divulgou uma nota afirmando que as autua\u00e7\u00f5es eram \u201cquestion\u00e1veis\u201d, e que as infra\u00e7\u00f5es apontadas pelo Ibama \u201cn\u00e3o colocaram em risco o manejo florestal e\/ou o controle de origem da mat\u00e9ria prima\u201d. As multas \u201cn\u00e3o faziam o menor sentido\u201d, disse o engenheiro florestal Tasso Azevedo, que \u00e9 membro da c\u00e2mara econ\u00f4mica do FSC e na \u00e9poca coordenava o n\u00facleo amaz\u00f4nico do Imaflora. \u201cN\u00e3o \u00e9 que a empresa explorou madeira onde n\u00e3o devia\u201d, afirmou. \u201cN\u00e3o houve problema ambiental algum, \u00e9 um problema de documenta\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Para Azevedo, as autua\u00e7\u00f5es recebidas pela Mil Madeiras Preciosas e por outras empresas certificadas n\u00e3o p\u00f5em em xeque a validade do selo FSC. Ele argumentou que, para manter a certifica\u00e7\u00e3o, elas passam por monitoramentos anuais nos quais s\u00e3o obrigadas a informar as multas que receberam. \u201cToda vez que se faz uma auditoria, a empresa tem que declarar tudo o que tem de passivos e quais procedimentos est\u00e1 tomando para resolv\u00ea-los. Ela deve se justificar e informar o que vai fazer para que isso n\u00e3o se repita\u201d, explica o engenheiro. Na avalia\u00e7\u00e3o de Azevedo, o fato de que eventuais infra\u00e7\u00f5es sejam tratadas nessas auditorias \u00e9 um sinal de que o sistema funciona. \u201cQualquer empresa tem infra\u00e7\u00f5es, e tem que evitar que elas se repitam, mas a ideia de que isso seja um problema sist\u00eamico das empresas certificadas \u00e9 uma fal\u00e1cia\u201d, disse Azevedo.<\/p>\n<p>O engenheiro florestal lembrou que as regras para a obten\u00e7\u00e3o do selo FSC s\u00e3o r\u00edgidas. \u201cAs empresas certificadas t\u00eam o acampamento certinho e funcion\u00e1rios registrados, com equipamentos de seguran\u00e7a, que v\u00e3o a campo com o plano de manejo para extrair o m\u00ednimo de cada \u00e1rvore \u2014 e cada uma delas tem uma etiqueta com o n\u00famero rastreado. \u00c9 outro universo.\u201d Na avalia\u00e7\u00e3o de Azevedo, as maiores amea\u00e7as ao meio ambiente v\u00eam das madeireiras que n\u00e3o oferecem qualquer garantia de boas pr\u00e1ticas. \u201cN\u00e3o tem como comparar isso com as atividades baseadas na ilegalidade.\u201d<\/p>\n<p>De acordo com o gerente de certifica\u00e7\u00e3o do Imaflora, Ricardo Cardoso, as certificadoras fazem monitoramentos anuais para verificar se as empresas continuam em conformidade com seus princ\u00edpios. Casos de suspens\u00e3o tempor\u00e1ria acontecem com alguma frequ\u00eancia, mas a perda definitiva da certifica\u00e7\u00e3o \u00e9 rara, explicou.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Imaflora, no entanto, reconhece que o sistema de certifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 perfeito. \u201cAtores locais ou partes interessadas n\u00e3o devem ter a expectativa de que uma empresa certificada FSC n\u00e3o tem \u2014 ou nunca teve \u2014 problemas socioambientais\u201d, afirmou a certificadora, por meio de nota. \u201cA certifica\u00e7\u00e3o FSC e as empresas florestais certificadas n\u00e3o substituem o papel de governos locais e estaduais na regula\u00e7\u00e3o das atividades privadas ou na promo\u00e7\u00e3o de desenvolvimento socioecon\u00f4mico.\u201d<\/p>\n<p>O ICIJ perguntou \u00e0 FSC se o certificado de boas pr\u00e1ticas ambientais ainda tem algum prop\u00f3sito, j\u00e1 que v\u00e1rias empresas cometeram infra\u00e7\u00f5es e n\u00e3o perderam o selo. Na resposta, a entidade alegou que, s\u00f3 nos \u00faltimos cinco anos, 88 empresas tiveram seus certificados suspensos devido a infra\u00e7\u00f5es ambientais. (A FSC n\u00e3o informa o total de empresas certificadas no mundo, mas \u00e9 poss\u00edvel afirmar que s\u00e3o milhares: a ONG diz ter emitido 53 mil certificados de cadeia de cust\u00f3dia, que validam as etapas da manufatura da madeira.)<\/p>\n<p>Os mecanismos de controle, segundo a entidade, v\u00eam se tornando mais r\u00edgidos nos \u00faltimos anos. \u201cA FSC est\u00e1 guiando novas tecnologias para a identifica\u00e7\u00e3o de madeira, de forma que sua proveni\u00eancia possa ser cientificamente atestada\u201d, diz a nota. \u201cA FSC tamb\u00e9m est\u00e1 desenvolvendo uma ferramenta baseada no blockchain para monitorar dados em tempo real sobre transa\u00e7\u00f5es que acontecem entre diferentes detentoras de certificados.\u201d<\/p>\n<p>Questionada sobre o uso do certificado para a pr\u00e1tica de greenwashing, a entidade afirmou apenas que o selo de boas pr\u00e1ticas ajuda no combate ao desmatamento e \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o ambiental. \u201cNossas exig\u00eancias garantem que as empresas de manejo florestal certificadas mantenham ou aumentem a estrutura, fun\u00e7\u00e3o, biodiversidade e produtividade de suas florestas.\u201d A FSC afirmou que suas pol\u00edticas tamb\u00e9m garantem que os direitos de trabalhadores e comunidades ind\u00edgenas sejam respeitados. Mas ressaltou: \u201cA FSC n\u00e3o alega que pode resolver sozinha problemas de m\u00faltiplas camadas como o desmatamento e reconhece a necessidade de que muitos atores e stakeholders se envolvam com essa empreitada.\u201d<\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico do Brasil, o ICIJ perguntou \u00e0 FSC como \u00e9 poss\u00edvel que empresas certificadas acumulem tantas multas, mas a entidade disse que n\u00e3o estava informada sobre o assunto: \u201cN\u00e3o estamos cientes dessas investiga\u00e7\u00f5es pelo Ibama que podem ou n\u00e3o ser relevantes para as atividades cobertas por nossos padr\u00f5es\u201d, afirmou a entidade. A FSC alegou ainda que suas normas e procedimentos poder\u00e3o ser atualizados para que se adequem melhor \u00e0 realidade brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O paranaense Idacir Peracchi chegou ao Sul do Par\u00e1 em 1980 para trabalhar na extra\u00e7\u00e3o de madeira. 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