{"id":300440,"date":"2023-03-03T09:16:59","date_gmt":"2023-03-03T12:16:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=300440"},"modified":"2023-03-03T09:16:59","modified_gmt":"2023-03-03T12:16:59","slug":"genivaldo-de-limpador-de-carburador-ao-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/genivaldo-de-limpador-de-carburador-ao-futuro\/","title":{"rendered":"Genivaldo, de limpador de carburador ao futuro"},"content":{"rendered":"<p>Genivaldo desde sempre viveu com a cabe\u00e7a enfurnada entre as nuvens mais altas, como se buscasse algo que n\u00e3o tivesse aqui embaixo ou, ent\u00e3o, fosse simples devaneio decorrente do t\u00e9dio da vida que levava. N\u00e3o que quisesse ser astronauta, mesmo porque jamais suportou uma vida eterna em vestes t\u00e3o inc\u00f4modas. Gostava de mobilidade e conforto e, se aquele homem n\u00e3o andava pelado o tempo todo, era por mera quest\u00e3o de conven\u00e7\u00e3o social. Tamb\u00e9m, \u00e9 \u00f3bvio, n\u00e3o queria ser preso por atentado violento ao pudor.<\/p>\n<p>Mec\u00e2nico de profiss\u00e3o, desde os tempos em que os autom\u00f3veis possu\u00edam carburadores, Genivaldo, entre um aperto de parafuso aqui, uma troca de \u00f3leo ali, sonhava com uma viagem para o futuro ou mesmo para o passado. Esse pensamento, ali\u00e1s, era recorrente, como se houvesse uma engrenagem que fizesse com que seu c\u00e9rebro trabalhasse diariamente nesse intuito. Todavia, bastava entrar na oficina do Genivaldo, bem ali na Asa Norte, para perceber o motivo de tal fixa\u00e7\u00e3o. \u00c9 que havia um enorme cartaz do filme &amp;quot;De Volta para o Futuro&amp;quot; numa das paredes encardidas daquele lugar.<\/p>\n<p>O futuro era um mist\u00e9rio para aquele mec\u00e2nico. Mas n\u00e3o o futuro de ali a poucas horas, dias ou meses. Queria saber como \u00e9 que a humanidade iria viver daqui a cem, duzentos, mil anos. Seria poss\u00edvel construir uma m\u00e1quina capaz de viajar no tempo? Ali\u00e1s, seria o pr\u00f3prio tempo dividido em camadas, que se sobrep\u00f5e, como se fosse um mil-folhas que ele adorava saborear na padaria da esquina? Ou, ent\u00e3o, n\u00e3o passava de uma simples ideia para um roteiro de Hollywood?<\/p>\n<p>De t\u00e3o envolvido com aquele pensamento, eis que num domingo, sua folga, resolveu acordar bem cedinho e se embrenhar no meio de tantas ferramentas da sua oficina. Fechou bem a loja para que ningu\u00e9m pudesse ir perturb\u00e1-lo. Olhou o velho Fusca 1972 e, decidido, come\u00e7ou a futucar naquele motor que n\u00e3o dava sinal de vida h\u00e1 pelo menos uma d\u00e9cada. N\u00e3o era um DeLorean, \u00e9 verdade! Mas era o que Genival tinha \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trabalhou o dia inteiro, perdeu at\u00e9 a no\u00e7\u00e3o do tempo. N\u00e3o voltou para casa naquele dia nem nos seguintes. A esposa, acostumada com as manias do marido, nem se deu conta do seu sumi\u00e7o. At\u00e9 os clientes, depois de perceberem que as portas da oficina n\u00e3o estavam abertas, deixaram de procur\u00e1-lo. Melhor assim, pois ningu\u00e9m iria perturb\u00e1-lo naquela saga que mudaria a humanidade. N\u00e3o que ele ligasse para fama, isso n\u00e3o. Genivaldo era movido pela curiosidade! Sim, queria porque queria descobrir como os humanos viver\u00e3o no futuro muito al\u00e9m de simples horas, dias ou meses.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe exatamente quanto tempo ele levou para dar os pequenos passos para transformar a humanidade. Todavia, parece, conseguiu. Mesmo assim, ele queria provar que estava certo sem os olhos curiosos da vizinhan\u00e7a.<br \/>\nPor isso, esperou que todos j\u00e1 estivessem recolhidos em suas camas quentinhas. Genival, ent\u00e3o, abriu a oficina, depois se acomodou no banco do Fusca 1972, ligou o motor. Acelerou de leve, depois apertou bem fundo. Antes que engatasse a primeira, lembrou-se de colocar o cinto de seguran\u00e7a. Vai que no futuro tenha um guardinha na esquina pronto para lhe aplicar uma multa.<\/p>\n<p>Pisou na embreagem, engatou a marcha e acelerou firme. Passou logo para a segunda, depois para a terceira, mudou para a quarta quando, de repente, um clar\u00e3o surgiu diante dos seus olhos. Euf\u00f3rico, Genivaldo constatou que havia conseguido chegar ao futuro. N\u00e3o sabia exatamente em que ano, talvez algo por volta do s\u00e9culo XXX.<\/p>\n<p>Estacionou o Fusca 1972 em uma vaga pr\u00f3xima a uma sorveteria. No card\u00e1pio, sabores diversos, desde morango de Saturno at\u00e9 chocolate de Marte. N\u00e3o faltavam as novidades melancia de J\u00fapiter e cogumelos de Plut\u00e3o, que, Genivaldo descobriu, havia voltado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de planeta por conta de uma emenda constitucional aprovada quase por unanimidade pelos deputados e senadores. Esfomeado que estava por conta de tantos dias sem comer, ele se<br \/>\nesbaldou de tanto sorvete.<\/p>\n<p>Agora de barriga cheia, Genival se deu por satisfeito. Levantou-se e saiu da sorveteria. Foi em dire\u00e7\u00e3o ao seu Fusca 1972, quando, de repente, o dono do estabelecimento lhe toca os ombros. Genivaldo havia sa\u00eddo sem pagar. Ele, ent\u00e3o, percebe que estava sem a carteira e tenta argumentar com o comerciante, que, n\u00e3o satisfeito, lhe desfere um safan\u00e3o no pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>Genivaldo reage com um xingamento, quando, ent\u00e3o, ouve uma voz muito familiar.<\/p>\n<p>&#8211; Acorda, amor! T\u00e1 atrasado pro trabalho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Genivaldo desde sempre viveu com a cabe\u00e7a enfurnada entre as nuvens mais altas, como se buscasse algo que n\u00e3o tivesse aqui embaixo ou, ent\u00e3o, fosse simples devaneio decorrente do t\u00e9dio da vida que levava. 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