{"id":300474,"date":"2023-03-04T05:50:07","date_gmt":"2023-03-04T08:50:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=300474"},"modified":"2023-03-04T13:45:25","modified_gmt":"2023-03-04T16:45:25","slug":"brasil-de-lula-precisa-lutar-pela-paz-e-rejeitar-falacia-eua-otan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-de-lula-precisa-lutar-pela-paz-e-rejeitar-falacia-eua-otan\/","title":{"rendered":"Brasil de Lula precisa lutar pela paz e rejeitar fal\u00e1cia EUA-Otan"},"content":{"rendered":"<p>Como \u00e9 sabido, a Assembleia Geral da ONU aprovou, recentemente (por 141 votos a favor, 7 contr\u00e1rios e 32 absten\u00e7\u00f5es), uma resolu\u00e7\u00e3o condenat\u00f3ria do ataque russo \u00e0 Ucr\u00e2nia, resolu\u00e7\u00e3o essa que contou com o voto favor\u00e1vel do Brasil. Destaco duas quest\u00f5es que devem ser vistas de per si: a repreens\u00e3o \u00e0 R\u00fassia, a que o Brasil n\u00e3o poderia furtar-se, e o texto manique\u00edsta e guerreiro aprovado, que o Brasil n\u00e3o deveria subscrever, porque o governo do presidente Lula est\u00e1 comprometido com a tarefa de retomar os bons tempos de ator internacional, exercendo a pol\u00edtica que o ex-chanceler Celso Amorim muito bem cunhou como &#8220;ativa e altiva&#8221;, dando a\u00e7\u00e3o e consequ\u00eancia, com o concurso de Marco Aur\u00e9lio Garcia e Samuel Pinheiro Guimar\u00e3es, \u00e0s formula\u00e7\u00f5es de Afonso Arinos de Mello Franco e, principalmente, de San Tiago Dantas.<\/p>\n<p>Muito do que se consagrou como &#8220;pol\u00edtica externa independente&#8221; a partir dos anos 1960, e que se tornou o principal marco de refer\u00eancia da atua\u00e7\u00e3o brasileira no cen\u00e1rio global, se deve \u00e0 sua vis\u00e3o de raro estadista. Infelizmente, os governos progressistas n\u00e3o lograram a ades\u00e3o da caserna, que permanece hipnotizada pela finada Guerra Fria, tornada dinossauro insepulto ap\u00f3s a debacle da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, e devota do alinhamento autom\u00e1tico ao Pent\u00e1gono, reacionarismo perigoso se considerarmos a conjuntura em constru\u00e7\u00e3o e os desafios que implica.<\/p>\n<p>De outra parte, governos e partidos fugiram do debate pedag\u00f3gico com a sociedade, assim contribuindo para sua despolitiza\u00e7\u00e3o, de que o quadro presente \u2013 por exemplo, a emerg\u00eancia da extrema-direita \u2013 \u00e9 uma das implica\u00e7\u00f5es. Novamente \u00e9 entregue a Lula a miss\u00e3o de retomar uma pol\u00edtica externa condicionada pelo interesse nacional, uma vez mais ignorada ou combatida pelas fileiras (imperme\u00e1veis ao di\u00e1logo inteligente) e pelos herdeiros da casa-grande, cujos interesses est\u00e3o mais pr\u00f3ximos de Wall Street do que de Bras\u00edlia. Pela segunda vez, o processo hist\u00f3rico chama o PT para o debate ideol\u00f3gico. Que n\u00e3o seja mais uma oportunidade perdida.<\/p>\n<p>N\u00e3o cabe discutir a censura que a comunidade internacional deve \u00e0 agress\u00e3o russa, sem d\u00favida grave viola\u00e7\u00e3o do direito internacional, mas sim o apoio que o Brasil emprestou a texto que, por simplesmente atender \u00e0 estrat\u00e9gia de guerra dos EUA e, por consequ\u00eancia, da Otan, trabalha na contram\u00e3o do armist\u00edcio pelo qual nossa diplomacia claramente se bate, como devedora de uma tradi\u00e7\u00e3o de luta pela paz e pela solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica dos conflitos que, com conhecidos e lament\u00e1veis lapsos, se confunde com a hist\u00f3ria do Itamaraty.<\/p>\n<p>Ora, o Brasil, al\u00e9m de defender uma &#8220;paz imediata e duradoura&#8221;, se propunha, pelo discurso de nosso presidente, a dar um passo \u00e0 frente e apresentar-se como o negociador confi\u00e1vel que pode ser em face de nossas reconhecidas boas rela\u00e7\u00f5es com as partes, ou seja, com a R\u00fassia e a Ucr\u00e2nia, neste caso evidentemente conversando com os EUA. Ademais dessa capacidade de di\u00e1logo, a que chega credenciado pela sua lideran\u00e7a na Am\u00e9rica do Sul, o Brasil tem manifesto interesse, econ\u00f4mico e pol\u00edtico-estrat\u00e9gico, em estreitar coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica com seu principal parceiro comercial, a China, a outra margem no duop\u00f3lio de pot\u00eancias entre as quais navegamos \u2013 e de quem, em boa medida, depende a R\u00fassia, na guerra e no seu ap\u00f3s, que n\u00e3o se pode afirmar qual seja, pois todas as hip\u00f3teses est\u00e3o na mesa, inclusive o armagedon que aos falc\u00f5es do Pent\u00e1gono parece inevit\u00e1vel, como \u00faltima tentativa de salvar a hegemonia estadunidense.<\/p>\n<p>Eis por que o conflito europeu fez-se etapa necess\u00e1ria, que ainda n\u00e3o se completou, e est\u00e1 atrelado a uma disputa de imp\u00e9rios. Nele o Brasil n\u00e3o tem interesses diretos envolvidos, sen\u00e3o a ci\u00eancia de suas graves consequ\u00eancias para a humanidade, com o alastramento de um conflito que, pensado como uma blitzkrieg, apaga hoje a primeira vela de seu amargo bolo de anivers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na contram\u00e3o da paz, que o Brasil persegue, a declara\u00e7\u00e3o da ONU, que o Brasil apoia, faz o jogo da guerra. J\u00e1 agora, EUA e Otan, que alimentam o conflito com inje\u00e7\u00e3o de recursos financeiros, apoio log\u00edstico e o fornecimento em ritmo avassalador de armamentos cada vez mais sofisticados e letais \u2013tanques, sistemas de defesa, drones e armas de longo alcance \u2013 admitem o envio \u00e0 Ucr\u00e2nia de avi\u00f5es-ca\u00e7as de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, com capacidade de atacar o territ\u00f3rio russo. O objetivo \u00e9 claro: aprofundar e prorrogar a guerra; portanto \u00e9 c\u00ednica a declara\u00e7\u00e3o da ONU quando fala em armist\u00edcio com a retirada de campo de um dos litigantes, fazendo t\u00e1bula rasa da presen\u00e7a da Otan. Os EUA, agora, politicamente amparados em resolu\u00e7\u00e3o da AGNU, caminham a passos largos para ultrapassar a fronteira da guerra convencional, pre\u00e7o que se disp\u00f5em a pagar se essa for a condi\u00e7\u00e3o para anular o arsenal nuclear russo e concertar a &#8220;santa alian\u00e7a&#8221; do ocidente contra a China, seu inimigo de vida e morte.<\/p>\n<p>Os riscos s\u00e3o j\u00e1 agora percebidos at\u00e9 mesmo pela engajada imprensa brasileira. O jornalista Roberto Godoy, especialista do Estad\u00e3o (1\u00ba\/03\/2023), adverte: &#8220;Se passarem os ca\u00e7as, a pr\u00f3xima etapa seria uma guerra total, de EUA e Otan contra R\u00fassia, ou o uso de uma arma t\u00e1tica nuclear, o que seria arriscado, porque n\u00e3o sabemos o tamanho da resposta.&#8221;<\/p>\n<p>Parece contradit\u00f3rio, pois, defendermos a paz e ao mesmo tempo nos associarmos \u00e0 estrat\u00e9gia belicosa do militarismo estadunidense que, consabidamente, depende do conflito (de que foi agente) para salvar a hegemonia que a emerg\u00eancia econ\u00f4mica, militar e pol\u00edtica da China p\u00f5e em quest\u00e3o. \u00c9 evidente contrassenso nos oferecermos como condutores do &#8220;cachimbo da paz&#8221; e ao mesmo tempo nos associarmos \u00e0 geopol\u00edtica daquele que de fato \u00e9 o mais poderoso dos beligerantes, e que da continuidade do conflito depende para, em opera\u00e7\u00e3o conjugada, consolidar sua preemin\u00eancia sobre a fragilizada Uni\u00e3o Europeia e aprofundar o cerco \u00e0 tr\u00edade China, R\u00fassia e Ir\u00e3.<\/p>\n<p>Se o advers\u00e1rio estrat\u00e9gico \u00e9 a China, o primeiro alvo \u00e9 a R\u00fassia, emergente da debacle da URSS como segunda pot\u00eancia nuclear do planeta. Esse arsenal, se a salvou do exterm\u00ednio, pode, por\u00e9m, decretar sua condena\u00e7\u00e3o. As raz\u00f5es da &#8220;guerra da Ucr\u00e2nia&#8221; est\u00e3o longe de suas apar\u00eancias presentes. Os fatos v\u00e3o tecendo as circunst\u00e2ncias: sob cerco, n\u00e3o resta ao Kremlin qualquer sa\u00edda fora de uma alian\u00e7a quase subordinada \u00e0 China, que, de sua parte, n\u00e3o disp\u00f5e de outra alternativa sen\u00e3o apoiar o aliado, porque precisa contar com seu arsenal nuclear, at\u00e9 para efeito de dissuas\u00e3o das amea\u00e7as dos EUA, que n\u00e3o se alteram, seja presidente Bush, Clinton, Obama, Trump ou Biden.<\/p>\n<p>Com esse voto a favor da declara\u00e7\u00e3o proposta pela Casa Branca, o Brasil optou por se isolar nos BRICS, aparentemente abdicando de uma desejada lideran\u00e7a logo quando anuncia a indica\u00e7\u00e3o da ex-presidente Dilma Rousseff para o comando da institui\u00e7\u00e3o financeira do bloco (Novo Banco do Desenvolvimento &#8211; NBD).<\/p>\n<p>Em s\u00edntese: o sufr\u00e1gio na ONU n\u00e3o foi uma boa jogada para quem reclama espa\u00e7o pr\u00f3prio, aut\u00f4nomo, na ribalta internacional.<\/p>\n<p>Evidentemente, o voto brasileiro n\u00e3o \u00e9 um raio em c\u00e9u azul: haver\u00e1 a justific\u00e1-lo uma estrat\u00e9gia, at\u00e9 aqui n\u00e3o revelada, constru\u00edda entre o aparentemente bem sucedido col\u00f3quio de Lula na Casa Branca e sua anunciada visita a Pequim\u2013 para a qual nossa diplomacia vem anunciando grandes expectativas, n\u00e3o s\u00f3 pol\u00edticas, mas, de especial, na atra\u00e7\u00e3o de vultosos investimentos, n\u00e3o ensejados seja pela Uni\u00e3o Europeia, seja pelos EUA. Lula e Xi Jinping tamb\u00e9m se encontram na comum defesa do acordo de livre-com\u00e9rcio China-Mercosul.<\/p>\n<p>Os fatos mostram que a execu\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica &#8220;ativa e altiva&#8221; mais depende de condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas objetivas do que da voli\u00e7\u00e3o de estadistas voluntariosos. O quadro sobre o qual nos debru\u00e7amos \u2013 em que os mais pessimistas enxergam sombras anunciadoras de uma terceira guerra mundial em formato ainda inimagin\u00e1vel \u2013 guarda dist\u00e2ncia qualitativa daquele encontrado por Lula na gest\u00e3o de seus dois primeiros mandatos. \u00c9 bem mais estreita sua liberdade de movimento, hoje, e certamente ainda mais estreita o \u00e9 em face daquela cujas circunst\u00e2ncias ensejaram a vitoriosa pol\u00edtica de Vargas no di\u00e1logo Berlim\u2013Washington, que, ao fim e ao cabo, levou o Brasil a tomar a \u00fanica decis\u00e3o que podia, a de entrar na guerra ao lado dos &#8220;Aliados&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como \u00e9 sabido, a Assembleia Geral da ONU aprovou, recentemente (por 141 votos a favor, 7 contr\u00e1rios e 32 absten\u00e7\u00f5es), uma resolu\u00e7\u00e3o condenat\u00f3ria do ataque russo \u00e0 Ucr\u00e2nia, resolu\u00e7\u00e3o essa que contou com o voto favor\u00e1vel do Brasil. 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