{"id":300764,"date":"2023-03-09T00:01:36","date_gmt":"2023-03-09T03:01:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=300764"},"modified":"2023-03-09T06:44:51","modified_gmt":"2023-03-09T09:44:51","slug":"salles-entao-ministro-deu-as-costas-a-area-ambiental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/salles-entao-ministro-deu-as-costas-a-area-ambiental\/","title":{"rendered":"Salles, ent\u00e3o ministro, deu as costas \u00e0 \u00e1rea ambiental"},"content":{"rendered":"<p>Em reuni\u00e3o do Conselho Nacional da Amaz\u00f4nia Legal (CNAL), o ent\u00e3o ministro do Meio Ambiente e hoje deputado federal Ricardo Salles (PL-SP) atacou, sem provas, a teoria do tipping point, ou ponto de n\u00e3o retorno, da Amaz\u00f4nia, considerada refer\u00eancia no mundo todo e trabalhada h\u00e1 mais de 30 anos sobretudo pelo climatologista brasileiro Carlos Nobre. As falas de Salles constam nas atas dos encontros do colegiado, obtidas via Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o (LAI).<\/p>\n<p>\u201cA teoria do Tipping Point do Carlos Nobre, a savaniza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, [\u00e9] balela\u201d, disse o ex-ministro na reuni\u00e3o do dia 10 de fevereiro de 2021, a primeira daquele ano. Mais adiante em sua fala, no entanto, ele assumiu n\u00e3o ter como apontar que os estudos de Nobre est\u00e3o equivocados. \u201cQuando o Carlos Nobre e n\u00e3o sei mais quem levantar a teoria do \u2018Tipping point\u2019, voc\u00ea fala: \u2018negativo, sa\u00edram 16% de vegeta\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, mas teve 8, teve 9, teve 4, teve alguma coisa de recobrimento\u2019. Mas n\u00e3o temos dados, ent\u00e3o n\u00e3o podemos dizer\u201d, admitiu.<\/p>\n<p>As pesquisas de Nobre, refer\u00eancia internacional nos estudos sobre a Amaz\u00f4nia, indicam que, quando o desmatamento e a degrada\u00e7\u00e3o da floresta atingirem um patamar entre 20% e 25%, ela deve chegar ao seu ponto de n\u00e3o retorno, ou seja, perder irreversivelmente suas caracter\u00edsticas de floresta tropical \u00famida \u2013 o chamado processo de \u201csavaniza\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 e a capacidade de prestar servi\u00e7os ecossist\u00eamicos cruciais, como a regula\u00e7\u00e3o do regime de chuvas. N\u00e3o h\u00e1 um consenso sobre em que est\u00e1gio a Amaz\u00f4nia se encontra agora, mas a comunidade cient\u00edfica entende que estamos caminhando a passos largos na dire\u00e7\u00e3o do ponto de n\u00e3o retorno e que algumas \u00e1reas do bioma j\u00e1 podem t\u00ea-lo atingido. O falecido bi\u00f3logo norte-americano Thomas Lovejoy, criador do conceito de \u201cbiodiversidade\u201d, foi companheiro de Nobre nas pesquisas sobre o tema.<\/p>\n<p>O trabalho de Nobre \u00e9 respeitado em todo o mundo. Ele \u00e9 pesquisador s\u00eanior do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados (IEA) da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), autor de relat\u00f3rios do Painel Intergovernamental de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC, na sigla em ingl\u00eas) e, em 2022, foi eleito membro da Royal Society, a mais antiga academia de ci\u00eancias em atividade no mundo, que seleciona estudiosos por suas \u201cexcelentes contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 ci\u00eancia\u201d. O \u00fanico brasileiro a alcan\u00e7ar o feito antes dele havia sido o imperador Dom Pedro II, em 1871.<\/p>\n<p>Salles defendeu que o projeto do governo federal TerraClass, executado por uma parceria da Embrapa com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) \u2013 n\u00e3o vinculado, portanto, ao Minist\u00e9rio do Meio Ambiente \u2013, poderia fornecer dados condizentes \u00e0 sua narrativa. O projeto mapeia os diferentes tipos de uso da terra na Amaz\u00f4nia, investiga as raz\u00f5es do desmatamento no bioma e rastreia a regenera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas desflorestadas. O TerraClass come\u00e7ou a funcionar em 2010, foi descontinuado por falta de recursos em 2016 e retomado no fim de 2020 a partir de um acordo com o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Prote\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia (Censipam) para atualiza\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie hist\u00f3rica. O ex-ministro j\u00e1 havia falado em reativar a iniciativa em novembro de 2019, quando foi divulgada a taxa de desmatamento na Amaz\u00f4nia medida pelo Inpe para aquele ano, que revelou um aumento de 29,5% em compara\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo anterior, a terceira maior alta at\u00e9 ent\u00e3o \u2013 a situa\u00e7\u00e3o ainda se agravaria em 2020 e 2021.<\/p>\n<p>Na reuni\u00e3o do CNAL, o agora deputado federal explicou que o TerraClass seria importante para calcular dados de recupera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas degradadas na Amaz\u00f4nia e \u201cdeduzir da conta do desmatamento aquilo que regenerou\u201d, provavelmente com a inten\u00e7\u00e3o de fazer frente \u00e0 teoria do ponto de n\u00e3o retorno, que ele insistia, sem provas, estar incorreta. \u201cIsso \u00e9 nosso, \u00e9 para nosso favor. \u00c9 nosso benef\u00edcio fazer o \u2018TerraClass\u2019 funcionar\u201d, apontou. O TerraClass ainda n\u00e3o publicou novos dados sobre a Amaz\u00f4nia Legal: os mais recentes se referem a 2014, mas, segundo a Embrapa, o mapeamento relativo a 2020 deve ser apresentado ainda neste ano, seguido pelos de 2022, 2018 e 2016. Para o Cerrado, j\u00e1 est\u00e3o dispon\u00edveis n\u00fameros sobre 2018 e 2020.<\/p>\n<p>Enquanto esteve \u00e0 frente do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, de janeiro de 2019 a junho de 2021, Salles participou de quatro encontros do Conselho. Em junho de 2021, renunciou ao cargo e foi exonerado depois que dois inqu\u00e9ritos da Pol\u00edcia Federal foram instaurados contra ele, um por suspeita de liga\u00e7\u00f5es com um esquema de exporta\u00e7\u00e3o ilegal de madeira e outra por atrapalhar a\u00e7\u00e3o de fiscaliza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria PF em um caso que envolvia atua\u00e7\u00e3o ilegal de madeireiros. Ele foi substitu\u00eddo pelo ruralista Joaquim Leite, ent\u00e3o secret\u00e1rio da Amaz\u00f4nia e Servi\u00e7os Ambientais da pasta, que ocupou o posto at\u00e9 o fim do governo de Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>O CNAL foi retirado da estrutura do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e colocado por Bolsonaro sob a al\u00e7ada da Vice-Presid\u00eancia da Rep\u00fablica em 11 de fevereiro de 2020. O general da reserva Hamilton Mour\u00e3o (Republicanos-RS), ex-vice-presidente e atual senador, assumiu o comando do colegiado com a tarefa de \u201ccoordenar e integrar os esfor\u00e7os federais pela preserva\u00e7\u00e3o, prote\u00e7\u00e3o, desenvolvimento da Amaz\u00f4nia brasileira e coopera\u00e7\u00e3o Amaz\u00f4nica\u201d. Tamb\u00e9m com base nos registros acessados por LAI, a P\u00fablica revelou que, em reuni\u00e3o do CNAL de 30 de agosto de 2022, Mour\u00e3o admitiu que garimpeiros seguiam \u201cinvadindo a \u00e1rea Yanomami\u201d e que, por esse motivo, havia a \u201cnecessidade de ser deflagrada uma opera\u00e7\u00e3o de grande envergadura\u201d no territ\u00f3rio, algo que s\u00f3 ocorreu ap\u00f3s Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT) assumir a presid\u00eancia.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a principal a\u00e7\u00e3o do Conselho foi a viabiliza\u00e7\u00e3o de tr\u00eas Opera\u00e7\u00f5es de Garantia da Lei e da Ordem (GOLs) na Amaz\u00f4nia \u2013 Verde Brasil I e II e Sama\u00fama \u2013, criticadas pela inser\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas no combate a crimes ambientais e pela incapacidade de frear a alta do desmatamento na floresta, apesar de terem consumido R$550 milh\u00f5es dos cofres p\u00fablicos. A 16 dias do fim da gest\u00e3o Bolsonaro, em sua \u00faltima reuni\u00e3o, o CNAL apresentou o Plano Nossa Amaz\u00f4nia, com medidas para o bioma que o pr\u00f3prio governo descumpriu e atacou durante seus quatro anos de dura\u00e7\u00e3o, como \u201cfortalecer \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o e de combate aos il\u00edcitos ambientais e fundi\u00e1rios\u201d e \u201crestabelecimento da governan\u00e7a Fundo Amaz\u00f4nia\u201d, paralisado logo no in\u00edcio da presid\u00eancia de Bolsonaro.<\/p>\n<p><strong>Volta do Fundo Amaz\u00f4nia<\/strong><br \/>\nNas duas primeiras reuni\u00f5es do CNAL, em 25 de mar\u00e7o e 15 de julho de 2020, foi discutida a possibilidade de retomada do Fundo Amaz\u00f4nia, um mecanismo de financiamento criado em 2008 para a\u00e7\u00f5es de combate ao desmatamento da floresta cujos recursos eram empregados tamb\u00e9m na manuten\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os ambientais, como o Ibama.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o, o ent\u00e3o ministro da Casa Civil, general da reserva Walter Braga Netto, trouxe o assunto \u00e0 tona lembrando que o Comit\u00ea Orientador do Fundo Amaz\u00f4nia (COFA) teria de ser recriado at\u00e9 27 de mar\u00e7o (dali a dois dias, portanto) para que fosse poss\u00edvel a reativa\u00e7\u00e3o do mecanismo.<\/p>\n<p>O COFA foi extinto pelo governo Bolsonaro em 28 de junho de 2019. Respons\u00e1vel por definir crit\u00e9rios para a utiliza\u00e7\u00e3o das verbas do fundo, era composto por representantes da sociedade civil, de \u00f3rg\u00e3os do governo federal e de governos dos estados da Amaz\u00f4nia Legal \u2013 sem ele, o Fundo Amaz\u00f4nia foi paralisado. No m\u00eas anterior, em uma coletiva de imprensa, Ricardo Salles anunciou, sem apresentar provas, que seu minist\u00e9rio havia analisado 103 projetos de ONGs apoiados pelo fundo e encontrado por volta de 30 contratos com algum grau de \u201cinconsist\u00eancia\u201d. Diante da situa\u00e7\u00e3o, em agosto daquele ano, Noruega e Alemanha, os principais doadores, suspenderam repasses milion\u00e1rios \u00e0 iniciativa. Desde sua inativa\u00e7\u00e3o, permaneceram \u201cencalhadas\u201d no fundo R$ 3,4 bilh\u00f5es em doa\u00e7\u00f5es feitas anteriormente pelos dois pa\u00edses.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Braga Netto, o \u00e0 \u00e9poca ministro da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica e hoje senador Sergio Moro (Uni\u00e3o-PR) tamb\u00e9m abordou o assunto: disse que as a\u00e7\u00f5es sugeridas naquela reuni\u00e3o \u201cdemandavam recursos n\u00e3o previstos e consultou sobre a possibilidade de utiliza\u00e7\u00e3o de financiamento do Fundo Amaz\u00f4nia\u201d. Mour\u00e3o respondeu que \u201cno campo da \u2018preserva\u00e7\u00e3o\u2019, o governo poderia lan\u00e7ar m\u00e3o dos recursos do Fundo\u201d. Quando assumiu a palavra, Salles declarou que havia um \u201cimperativo de reestrutura\u00e7\u00e3o do formato\u201d do COFA, j\u00e1 que \u201cem sua configura\u00e7\u00e3o original, o processo decis\u00f3rio n\u00e3o atendia ao avan\u00e7o de projetos de interesse do governo federal\u201d.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da reuni\u00e3o seguinte, em julho, Mour\u00e3o elencou as iniciativas estrat\u00e9gicas priorit\u00e1rias para o semestre que viria, entre as quais estavam a \u201cutiliza\u00e7\u00e3o do Fundo Amaz\u00f4nia e novas fontes de financiamento\u201d. De acordo com o registro, o \u201cMinist\u00e9rio da Economia foi chamado a apresentar solu\u00e7\u00f5es de maneira a permitir os recursos do FA [Fundo Amaz\u00f4nia] e outras fontes, tendo em vista seu car\u00e1ter de doa\u00e7\u00f5es, para al\u00e9m dos limites impostos pelo \u2018teto de gastos&#8217;\u201d. Segundo o texto, na sequ\u00eancia, o ent\u00e3o ministro da Economia, Paulo Guedes, apenas reafirmou \u201co empenho de sua pasta na obten\u00e7\u00e3o dos recursos necess\u00e1rios para atender as atividades previstas no planejamento estrat\u00e9gico do CNAL\u201d.<\/p>\n<p>A falta de dinheiro para as a\u00e7\u00f5es na Amaz\u00f4nia foi tema dos encontros seguintes do colegiado em outras ocasi\u00f5es, mas o Fundo Amaz\u00f4nia n\u00e3o foi retomado por Bolsonaro. Em novembro de 2022, o Supremo Tribunal Federal determinou que o governo reativasse o mecanismo em 60 dias, o que s\u00f3 ocorreu em 1\u00ba de janeiro deste ano, no dia da posse de Lula.<\/p>\n<p><strong>Legisla\u00e7\u00e3o\u201d ambiental<\/strong><br \/>\nNa reuni\u00e3o de 10 de fevereiro de 2021, a ent\u00e3o ministra da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento Tereza Cristina (PP-MS), eleita senadora no ano passado, defendeu, como outras autoridades, que o governo precisava desmistificar a \u201cpropaganda contra o que de fato fazemos, o que l\u00e1 fora \u00e9 colocado e aqui dentro\u201d. De acordo com ela, a comunidade internacional seria municiada \u201ccom informa\u00e7\u00f5es incorretas e inverdades sobre o que n\u00f3s fazemos\u201d.<\/p>\n<p>Pouco depois, a ex-ministra disse que um \u201cponto fundamental\u201d para o governo seria n\u00e3o se curvar ao que chamou de \u201cimposi\u00e7\u00f5es\u201d de empresas que \u201cassinaram aquela carta contra o que o Brasil tem feito no meio ambiente\u201d. Provavelmente, ela se referiu a um documento com seis propostas \u201cpara a queda r\u00e1pida do desmatamento na Amaz\u00f4nia\u201d elaborado pela Coaliz\u00e3o Brasil Clima, Florestas e Agricultura \u2013 grupo que re\u00fane o setor empresarial e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil \u2013 e enviado ao alto escal\u00e3o do governo federal em setembro de 2020, quando ocorria a crise dos inc\u00eandios no Pantanal e na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Segundo a Coaliz\u00e3o, a carta chegou a Bolsonaro, Mour\u00e3o, lideran\u00e7as da C\u00e2mara e Senado, embaixadas de pa\u00edses europeus do Brasil e Parlamento Europeu. A Uni\u00e3o Europeia tem adotado medidas para evitar a importa\u00e7\u00e3o de produtos ligados \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o ambiental, como a lei antidesmatamento aprovada em dezembro, que abrange commodities cruciais para o agroneg\u00f3cio brasileiro, como soja e carne bovina.<\/p>\n<p>\u201cO Congresso Nacional aprovou o C\u00f3digo Florestal Brasileiro; querer desmatamento zero a partir do ano que vem, morat\u00f3ria da soja, da Amaz\u00f4nia, acho que isso n\u00e3o podemos permitir\u201d, pontuou Tereza Cristina. \u201cAcho que o cumprimento da lei brasileira \u00e9 o que estamos fazendo, temos que exigir e \u00e9 o que temos que mostrar. Essa imposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o podemos aceitar de jeito nenhum.\u201d<\/p>\n<p><strong>\u201cPerdendo a narrativa\u201d sobre Amaz\u00f4nia<\/strong><br \/>\nAssim como Tereza Cristina, outros integrantes do governo expressaram preocupa\u00e7\u00e3o com o fato de o governo estar perdendo a disputa de narrativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Amaz\u00f4nia, meio ambiente e combate \u00e0 crise clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Mour\u00e3o abriu a reuni\u00e3o de 10 de fevereiro de 2021 exatamente com essa quest\u00e3o. Disse que \u201co tema sustentabilidade virou alvo da linha de frente do S\u00e9culo XXI\u201d e que \u201ctodos olham para o Brasil, com uma posi\u00e7\u00e3o de buscar se opor a forma como trabalhamos aqui no nosso pa\u00eds\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Amaz\u00f4nia. A ideia de que essa pauta representa um flanco para interfer\u00eancia externa na soberania nacional, difundida nos meios militares, fica evidente em outras falas de Mour\u00e3o: mais adiante em 2021, no dia 24 de agosto, durante o sexto encontro do CNAL, ele afirmou que \u201cneste s\u00e9culo 21, a quest\u00e3o da sustentabilidade \u00e9 um dos fatores que influencia a soberania\u201d. \u201cDesta forma, a quest\u00e3o do desenvolvimento da Amaz\u00f4nia, onde diversos atores n\u00e3o estatais limitam a nossa soberania, \u00e9 algo que tem que ser abra\u00e7ado pela Na\u00e7\u00e3o como um todo, tornando-se uma pol\u00edtica permanente de Estado, sob pena de em curto prazo o Pa\u00eds sofrer severas consequ\u00eancias\u201d, salientou.<\/p>\n<p>Voltando a 10 de fevereiro, ele destacou que o Itamaraty, ent\u00e3o comandado por Ernesto Ara\u00fajo, um not\u00f3rio negacionista da ci\u00eancia em v\u00e1rias \u00e1reas, teria papel fundamental em recha\u00e7ar a imagem imputada ao Brasil. \u201cA\u00ed [\u00e9] uma quest\u00e3o pol\u00edtica que vem sendo muito bem rebatida pelo nosso Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores \u2013 MRE, e a gente n\u00e3o pode se calar, em nenhum momento, a esse respeito. Temos que ter este discurso comum\u201d, apontou.<\/p>\n<p>O agora senador tamb\u00e9m declarou que \u201cbarreiras n\u00e3o tarif\u00e1rias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa agricultura\u201d \u2013 provavelmente, referia-se\u00a0\u00e0s regula\u00e7\u00f5es para evitar importa\u00e7\u00f5es de produtos ligados ao desmatamento que estavam sendo debatidas pela Uni\u00e3o Europeia \u2013 seriam resultado de \u201cinveja\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao agroneg\u00f3cio brasileiro. \u201cExiste tamb\u00e9m um preconceito, que se aproveita para barreiras n\u00e3o tarif\u00e1rias em rela\u00e7\u00e3o a nossa agricultura, porque, realmente, um pa\u00eds que tem a extens\u00e3o de terras que temos, sol, \u00e1gua, com tecnologia e gente capacitada, e det\u00e9m uma enorme produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, que hoje alimenta 1\/7 da popula\u00e7\u00e3o da terra. \u00c9 muita gente. Mas isso suscita a cobi\u00e7a, a inveja ou a contraposi\u00e7\u00e3o a essa nossa pujan\u00e7a\u201d, destacou. A vers\u00e3o de que o agroneg\u00f3cio brasileiro alimenta 1 bilh\u00e3o de pessoas no mundo todo \u2013 ou cerca de 1\/7 da popula\u00e7\u00e3o global \u2013, citada tamb\u00e9m por Jair Bolsonaro, \u00e9 questionada por especialistas, de acordo com reportagem do site O Joio e O Trigo: eles apontam que o c\u00e1lculo do n\u00famero n\u00e3o leva em conta \u201ca destina\u00e7\u00e3o dos gr\u00e3os, os desperd\u00edcios na cadeia produtiva, desigualdades de consumo e dados sobre inseguran\u00e7a alimentar\u201d.<\/p>\n<p>O general da reserva criticou ainda a \u201ccren\u00e7a\u201d de que \u201co mundo vai acabar agora\u201d supostamente sustentada pelos ambientalistas, que chamou de \u201csinceros por\u00e9m radicais\u201d. \u201cE obviamente existe aquilo que chamo de bols\u00f5es sinceros, por\u00e9m radicais, que s\u00e3o os ambientalistas, que acreditam firmemente que o mundo vai acabar agora. \u00c9 obvio que temos a consci\u00eancia plena de que temos que preservar nosso planeta, de modo que as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es possam fazer uso dos bens aqui existentes, mas n\u00e3o \u00e9 na forma como vem sendo colocada muitas vezes\u201d, considerou.<\/p>\n<p>Ernesto Ara\u00fajo, tamb\u00e9m presente naquele encontro, fez coro a Mour\u00e3o e chamou de \u201calarmismo\u201d os alertas dos cientistas e sociedade civil sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. \u201cO Itamaraty participa tamb\u00e9m das negocia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas para justamente mostrar que queremos contribuir com o clima, mas o alarmismo em torno disso, que muitas vezes escapa do senso de realidade, \u00e9 usado para dizer, olha, o mundo vai acabar amanh\u00e3, se n\u00e3o se acabar com o desmatamento\u201d, disse. A ci\u00eancia, por\u00e9m, contradiz consistentemente as declara\u00e7\u00f5es de Mour\u00e3o e Ara\u00fajo. Um exemplo dessas evid\u00eancias \u00e9 o \u00faltimo relat\u00f3rio do IPCC, publicado em abril de 2022, que adverte que as emiss\u00f5es mundiais de gases de efeito estufa precisam atingir seu pico em 2025 e depois cair 43% at\u00e9 2030 para que n\u00e3o seja ultrapassado o limite de 1,5\u00b0C de aquecimento m\u00e9dio da temperatura global em rela\u00e7\u00e3o aos n\u00edveis pr\u00e9-industriais \u2013 uma das metas do Acordo de Paris, ratificado por quase 200 pa\u00edses, inclusive o Brasil.<\/p>\n<p>O ex-chanceler defendeu ainda que as pautas de meio ambiente e democracia seriam utilizadas para colocar o Brasil \u201cno campo dos maus\u201d. \u201cEu acho que essas correntes que s\u00e3o contra nossos projetos querem que o Brasil apare\u00e7a no campo dos maus nos dois eixos. Contra o meio ambiente e contra a democracia. \u00c9 um absurdo se dizer que esse momento que estamos vivendo \u00e9 um momento de amea\u00e7a de democracia no Brasil, como se existisse autoritarismo ou qualquer coisa assim\u201d, apontou. No m\u00eas seguinte \u00e0quela reuni\u00e3o, em mar\u00e7o de 2021, o Instituto Varia\u00e7\u00f5es da Democracia (V-Dem), da Universidade de Gotemburgo, na Su\u00e9cia, divulgou um relat\u00f3rio indicando que o Brasil foi o quarto pa\u00eds que mais se afastou da democracia em 2020 em um ranking de 202 pa\u00edses analisados. O estudo apontou que o Brasil vinha sofrendo um processo de \u201cautocratiza\u00e7\u00e3o\u201c, ou seja, pilares de sua democracia estavam sendo erodidos, como administra\u00e7\u00e3o imparcial, responsabiliza\u00e7\u00e3o e liberdade de imprensa.<\/p>\n<p>Embora desconsiderasse que a imagem do governo Bolsonaro em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Amaz\u00f4nia fosse motivada pelas taxas crescentes de desmatamento no bioma e pelo desmonte dos \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental, que \u00e0quela altura ocorria a todo vapor, Ara\u00fajo confessou que isso \u201ctem prejudicado a nossa inser\u00e7\u00e3o internacional, tem prejudicado os nossos acordos comerciais e pode prejudicar a capacita\u00e7\u00e3o de investimentos\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, em um dos trechos do registro da reuni\u00e3o, Mour\u00e3o mostrou ter consci\u00eancia das principais a\u00e7\u00f5es a serem tomadas para reverter a \u201cperda de narrativa\u201d que era alvo da discuss\u00e3o. \u201cLembrar ent\u00e3o o que se espera do Brasil? Uma redu\u00e7\u00e3o imediata dos desmatamentos e das queimadas, que mostremos empenho e efetividade nas a\u00e7\u00f5es ambientais, o cumprimento das metas que colocamos no Acordo de Paris\u201d, elencou. Em outros momentos dos encontros do CNAL, o general da reserva apontou claramente o combate ao desmatamento e queimadas como prioridade. Mas o governo de Jair Bolsonaro n\u00e3o adotou efetivamente nenhuma dessas medidas, atingindo resultados contr\u00e1rios ao que o ent\u00e3o presidente do Conselho colocava genericamente como objetivos.<\/p>\n<p>Ainda em 10 de fevereiro de 2021, Tereza Cristina avaliou ainda que a \u201cguerra\u201d de narrativa j\u00e1 estava perdida e que, para tentar transformar o cen\u00e1rio, eram necess\u00e1rias a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas, principalmente porque elas seriam \u201cmuito importantes para a imagem do Brasil e dentro do Brasil, para sociedade brasileira, que tamb\u00e9m \u00e9 mal informada e acredita [sic] e demoniza o meio ambiente hoje\u201d. \u201cAcho que essa guerra n\u00e3o devemos nem mais discutir, devemos mostrar n\u00fameros e a\u00e7\u00e3o Ministro Ricardo [Salles], porque essa guerra j\u00e1 perdemos. Agora temos que reverter isso com a\u00e7\u00f5es e acho que temos condi\u00e7\u00f5es de fazer. Precisamos ter um pouco de recursos. Quando o Ministro Braga nos d\u00e1 esse recado na primeira fala aqui do Conselho \u00e9 preocupante, mas acho que temos que priorizar essas a\u00e7\u00f5es porque elas ser\u00e3o muito importantes para a imagem do Brasil e dentro do Brasil\u201d, assinalou.<\/p>\n<p>Com \u201crecado\u201d do \u201cministro Braga\u201d, Tereza Cristina se referiu \u00e0 fala do ent\u00e3o ministro da Casa Civil, o general da reserva Walter Braga Netto, no in\u00edcio da reuni\u00e3o, em que ele aconselhou que os minist\u00e9rios ali presentes se preparassem para um contingenciamento de recursos que viria. De acordo com ele, seria um ano \u201cmuito dif\u00edcil\u201d e todas as pastas deveriam criar planos de conting\u00eancia. De fato, o contingenciamento foi anunciado em abril, mas em julho o governo desbloqueou o or\u00e7amento e liberou os recursos. Ainda assim, naquele ano, menos da metade do or\u00e7amento autorizado para controle e fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental foi executado pela administra\u00e7\u00e3o federal, segundo estudo da ONG Inesc.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em reuni\u00e3o do Conselho Nacional da Amaz\u00f4nia Legal (CNAL), o ent\u00e3o ministro do Meio Ambiente e hoje deputado federal Ricardo Salles (PL-SP) atacou, sem provas, a teoria do tipping point, ou ponto de n\u00e3o retorno, da Amaz\u00f4nia, considerada refer\u00eancia no mundo todo e trabalhada h\u00e1 mais de 30 anos sobretudo pelo climatologista brasileiro Carlos Nobre. 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