{"id":300987,"date":"2023-03-13T00:01:00","date_gmt":"2023-03-13T03:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=300987"},"modified":"2023-03-13T07:52:16","modified_gmt":"2023-03-13T10:52:16","slug":"profissionais-de-saude-ainda-sentem-peso-da-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/profissionais-de-saude-ainda-sentem-peso-da-pandemia\/","title":{"rendered":"Profissionais de sa\u00fade ainda sentem peso da pandemia"},"content":{"rendered":"<p>Em 26 de fevereiro de 2020, o Brasil registrava o primeiro caso de infec\u00e7\u00e3o por covid-19. O paciente, um homem de 61 anos, deu entrada no Hospital Israelita Albert Einstein, em S\u00e3o Paulo, com hist\u00f3rico de viagem pela It\u00e1lia.<\/p>\n<p>De l\u00e1 para c\u00e1, quase 700 mil brasileiros morreram com diagn\u00f3stico da doen\u00e7a. Dentre os \u00f3bitos, 1,3 mil eram profissionais de medicina e enfermagem. As primeiras ondas da doen\u00e7a impactaram fortemente a sa\u00fade f\u00edsica, mental e emocional dos que atendiam na linha de frente das emerg\u00eancias hospitalares.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, a cardiologista Ana Karyn Ehrenfried trabalhava na Santa Casa de Curitiba e na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro Fazendinha, tamb\u00e9m na capital do Paran\u00e1. A chegada do v\u00edrus ao pa\u00eds suspendeu os planos de um doutorado em S\u00e3o Paulo e fez com que a m\u00e9dica assumisse uma carga de trabalho de at\u00e9 120 horas semanais em diversas urg\u00eancias e emerg\u00eancias, incluindo unidades de terapia intensiva (UTI) exclusivas para pacientes infectados pelo v\u00edrus.<\/p>\n<p>Em meio aos picos de casos, interna\u00e7\u00f5es hospitalares e \u00f3bitos, Ana Karyn chegou a enfrentar filas em uma empresa de material industrial da cidade para conseguir equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual (EPI), que estavam em falta nas unidades de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Amigos da igreja se reuniam para levar m\u00e1scaras \u00e0 m\u00e9dica, que passava apenas duas noites em casa e emendava um plant\u00e3o ao outro. A cardiologista chegou a cogitar deixar uma mala com roupas no carro por medo de passar a doen\u00e7a para a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u201cTenho duas filhas, mas, na \u00e9poca, tinha s\u00f3 uma, a Manuela. Ela era novinha, mas j\u00e1 entendia. Minha sogra mandava mensagem dizendo \u2018Ana, por favor, pense na sua fam\u00edlia, no seu marido, na sua filha. O que vai ser se voc\u00ea morrer? Saia da\u00ed\u2019. Quando escolhi a medicina, foi porque queria fazer a diferen\u00e7a na vida das pessoas. Sabia que estava l\u00e1 e podia salvar vidas. Falava pra minha filha que, se acontecesse alguma coisa, queria que ela se orgulhasse de mim por estar ali e n\u00e3o ter me acovardado.\u201d<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos ap\u00f3s a identifica\u00e7\u00e3o do primeiro caso, o acolhimento de pessoas infectadas pela covid-19 no Brasil ocorre em meio a um cen\u00e1rio de menos incertezas e muitas li\u00e7\u00f5es para os sistemas de sa\u00fade p\u00fablico e privado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da tend\u00eancia de queda na transmiss\u00e3o do v\u00edrus, a vacina\u00e7\u00e3o de praticamente todas as faixas et\u00e1rias abriu caminho para menos casos graves, interna\u00e7\u00f5es e mortes. Mas o esgotamento f\u00edsico e mental de m\u00e9dicos e enfermeiros deixou sequelas.<\/p>\n<p>\u201cQuem esteve l\u00e1 dentro do hospital nunca mais vai ser a mesma pessoa. \u00c9 imposs\u00edvel. As pessoas que entravam na UTI muitas vezes n\u00e3o sairiam mais. Voc\u00ea, como m\u00e9dico, era a \u00faltima pessoa que elas veriam. Lembro de alguns pacientes que eu precisaria entubar e de falar pra lembrarem das pessoas que amavam. Se acontecesse alguma coisa e eles n\u00e3o voltassem, a \u00faltima frase que tinham ouvido era que algu\u00e9m os amava. At\u00e9 hoje enche meus olhos de l\u00e1grima s\u00f3 de pensar que isso aconteceu tantas vezes.\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s, m\u00e9dicos, temos uma facilidade, entre aspas, de encarar a morte porque \u00e9 uma coisa com a qual a gente convive de maneira mais pr\u00f3xima. Mas n\u00e3o \u00e9 pra isso que a gente \u00e9 m\u00e9dico. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 pra trazer vida, pra trazer cura. Durante a covid, a gente fazia tudo que estava ao nosso alcance e, mesmo assim, os pacientes morriam. Era uma carga emocional que n\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o. Chegamos ao final dos picos de transmiss\u00e3o esgotados emocionalmente. A gente queria ver vida e n\u00e3o morte. Quem viveu nunca mais vai ser o mesmo.\u201d<\/p>\n<p><strong>Exaust\u00e3o<\/strong><br \/>\nUm estudo da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos apontou a presen\u00e7a intensa de quadros de exaust\u00e3o e estresse entre profissionais de sa\u00fade de todo o pa\u00eds, al\u00e9m de m\u00e1 qualidade de sono, sintomas depressivos e dores pelo corpo. Foram ouvidos 125 profissionais da rede p\u00fablica, que responderam a question\u00e1rios online ao longo de 2021 e 2022. Os resultados mostram que 86% deles sofrem de burnout, um dist\u00farbio emocional com sintomas de exaust\u00e3o extrema, estresse e esgotamento f\u00edsico resultante de situa\u00e7\u00f5es de trabalho desgastantes.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisa, 75% dos entrevistados avaliaram negativamente as demandas emocionais ligadas ao trabalho, 61% criticaram o ritmo do servi\u00e7o e 47% reprovaram a sua imprevisibilidade. Dados relacionados a comportamentos ofensivos tamb\u00e9m chamaram a aten\u00e7\u00e3o dos coordenadores do estudo: 15% dos profissionais relatara terem sido afetados por aten\u00e7\u00e3o sexual indesejada, 26% foram amea\u00e7ados, 9% sofreram viol\u00eancia f\u00edsica de fato e 17% reportaram bullying.<\/p>\n<p>Aos 40 anos e com duas filhas, Ana comemora a mudan\u00e7a de rumos proporcionada pela chegada da vacina. \u201cA hist\u00f3ria da covid mudou totalmente depois da vacina. Mas, como m\u00e9dica e profissional de sa\u00fade, vejo que as consequ\u00eancias, as sequelas emocionais e f\u00edsicas ainda s\u00e3o longas e vai levar muito tempo pra gente se recuperar. S\u00e3o tr\u00eas anos que passaram, mas parece muito mais. Foram vidas marcadas tanto na \u00e1rea profissional quanto no atendimento a pacientes. Gra\u00e7as a Deus, a gente est\u00e1 aqui pra escrever uma nova hist\u00f3ria depois da covid.\u201d<\/p>\n<p><strong>M\u00e9dicos<\/strong><br \/>\nO pa\u00eds contabiliza, atualmente, 546 mil m\u00e9dicos ativos, uma propor\u00e7\u00e3o de 2,56 profissionais por mil habitantes. Dados da plataforma Demografia M\u00e9dica no Brasil 2023 mostram que os homens representam 51% desse contingente.<\/p>\n<p>A m\u00e9dia geral de idade desses profissionais \u00e9 44,9 anos e a maioria permanece concentrada no Sul e no Sudeste, nas capitais e em grandes munic\u00edpios.<\/p>\n<p>Nas 49 cidades brasileiras com mais de 500 mil habitantes e que juntas concentram 32% da popula\u00e7\u00e3o brasileira est\u00e3o pouco mais de 8% dos m\u00e9dicos ativos.<\/p>\n<p><strong>Enfermeiros<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 o Conselho Federal de Enfermagem contabiliza 1,8 milh\u00e3o de profissionais, entre enfermeiros (23%), t\u00e9cnicos e auxiliares de enfermagem (77%). Desse contingente, 1,5 milh\u00e3o s\u00e3o mulheres, o que representa 85% do total.<\/p>\n<p>A maioria desses profissionais tem entre 26 e 50 anos e vive na Regi\u00e3o Sudeste (49%). Ainda de acordo com o Perfil da Enfermagem no Brasil, 42% desses profissionais s\u00e3o brancos, 41% pardos e quase 37,7% t\u00eam outros profissionais de sa\u00fade na fam\u00edlia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 26 de fevereiro de 2020, o Brasil registrava o primeiro caso de infec\u00e7\u00e3o por covid-19. O paciente, um homem de 61 anos, deu entrada no Hospital Israelita Albert Einstein, em S\u00e3o Paulo, com hist\u00f3rico de viagem pela It\u00e1lia. De l\u00e1 para c\u00e1, quase 700 mil brasileiros morreram com diagn\u00f3stico da doen\u00e7a. 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