{"id":301054,"date":"2023-03-14T08:44:20","date_gmt":"2023-03-14T11:44:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=301054"},"modified":"2023-03-14T09:56:27","modified_gmt":"2023-03-14T12:56:27","slug":"rio-dos-anos-dourados-vira-uma-vaga-lembranca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/rio-dos-anos-dourados-vira-uma-vaga-lembranca\/","title":{"rendered":"Rio dos anos dourados vira uma vaga lembran\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>De passagem pela outrora Cidade Maravilhosa, me senti um peixe respirando por aparelho. S\u00e3o 458 anos de uma longa exist\u00eancia glamorosa e desastrosa h\u00e1 algumas d\u00e9cadas, mais precisamente desde os anos 80, ap\u00f3s uma sequ\u00eancia de aventureiros transformados em governadores. Destes, pelo menos seis viraram h\u00f3spedes de pres\u00eddios que ricamente mandaram construir ou ampliar. Usaram e n\u00e3o aprenderam. Tivemos outros menos ruins, mas tamb\u00e9m destruidores da imagem da antiga capital. Enfim, faz tempo que o Rio de Janeiro n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo. Ainda tem Copacabana, Ipanema, Leblon e o Maracan\u00e3. Todavia, tantos foram os descasos que, visitando bairros que me foram caros, fiquei com a impress\u00e3o de que o carioca raiz perdeu a vontade de ser identificado como tal.<\/p>\n<p>Abandonado, pichado por dentro e por fora, a Cidade de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, ber\u00e7o de tantas est\u00f3rias e hist\u00f3rias, hoje n\u00e3o passa de uma saudosa e vaga lembran\u00e7a. De frente para o mar, nas ruas de ch\u00e3o do sub\u00farbio, no p\u00e9 do morro ou nas entradas das favelas (hoje eufemisticamente rebatizadas de comunidades), vivi um Rio de Janeiro que n\u00e3o existe mais. Cariocas da gema ou n\u00e3o, como esquecer Chacrinha, Edson Bolinha Cury, Chico An\u00edsio, Silvio Santos, J\u00f4 Soares, Agildo Ribeiro, Costinha, Big Boy, Monsieur Lim\u00e1, Carlos Imperial, Ademir do Le Bateau, Ricardo Amaral, Ronaldo B\u00f4scoli, H\u00e9lio Jaguaribe, Mill\u00f4r Fernandes, Mi\u00e9le, Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, Stanislaw Ponte Preta, Jos\u00e9 de S\u00e3o Janu\u00e1rio, Super XX, Carlos Z\u00e9firo e P\u00e9ricles de Andrade, o criador do Amigo da On\u00e7a.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos a melhor m\u00fasica, o melhor futebol, carnaval de rua, de clubes e sambas de enredo com gra\u00e7a e musicalidade. E o Edif\u00edcio Balan\u00e7a Mais N\u00e3o Cai, na ex-famosa Pra\u00e7a 11? O pr\u00e9dio continua de p\u00e9, mas a pra\u00e7a sumiu, virou um fantasmag\u00f3rico Terreir\u00e3o do Samba. Tamb\u00e9m sumiram as marchinhas carnavalescas e viraram p\u00f3 a Boate Le Bateau, a Rua Montenegro (Ipanema), o Hippopotamus, o Circo Voador, o Garota de Ipanema, o Canec\u00e3o, o Noites Cariocas, a Ilha dos Pescadores, o Menino do Rio e os restaurantes Lamas e Fiorentina. Como suburbano de origem, s\u00f3 comecei a frequentar alguns desses locais depois de assumir os dotes jornal\u00edsticos, isto \u00e9, bem depois de ter nascido. Antes disso, todos lembravam o caviar: s\u00f3 conhecia de ouvir falar.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro da mem\u00f3ria, a juventude transviada se reunia no Pier de Ipanema ou nos cinemas Bruni, Roxy, Veneza, Pal\u00e1cio e Reg\u00eancia de Copacabana, Cascadura, Bangu, Campo Grande e M\u00e9ier para, depois de um mergulho, um sandu\u00edche Gordon ou um dog da Geneal, assistir o Canal 100, um cinejornal fundado em 1957 por Carlos Niemeyer. Rever gols do santista Pel\u00e9 e dos rubro-negros Dida ou Doval era o m\u00e1ximo. A turma vibrava como se estivesse na geral do Maracan\u00e3. \u00c0s vezes, o broto ao lado sequer permitia que entend\u00eassemos as mensagens subliminares de Nelson Pereira dos Santos, Nelson Rodrigues, Cac\u00e1 Diegues e Glauber Rocha. Por isso, vi, mas, infelizmente, nada posso contar sobre Macuna\u00edma, Pra Frente Brasil, Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere, \u00daltimo tango em Paris e Eles n\u00e3o usam black tie.<\/p>\n<p>No entanto, sei tudo \u2013 e mais um pouco \u2013 de Blecaute, Wilson Simonal, Elis Regina, Chico Buarque, Geraldo Vandr\u00e9, Taiguara, F\u00e1bio, Renato Barros, Serguei, Jorge Ben (Jorge Benjor n\u00e3o \u00e9 do meu tempo) e dos tijucanos Erasmo Carlos e Tim Maia. Roberto Carlos virou rei, mas sempre foi s\u00fadito de Sebasti\u00e3o Rodrigues Maia, com quem aprendeu os primeiros acordes no antigo e insuper\u00e1vel viol\u00e3o Giannini. Aben\u00e7oado por S\u00e3o Jorge, S\u00e3o Judas Tadeu e S\u00e3o Cosme Dami\u00e3o e Dom Um, o Rio de Janeiro s\u00f3 n\u00e3o perdeu ainda a fama de cidade alegria e de todos os brasileiros. Uma pena, mas, passados 458 anos, lembro com muita saudade da Praia de Maria Angu (hoje Piscin\u00e3o de Ramos), do Castelinho, da Feira da Provid\u00eancia, da New York City Discotheque, do Drive In da Lagoa e do Tivoli Park.<\/p>\n<p>Apesar de, \u00e0 \u00e9poca, jamais imaginar que um dia poderia acessar um desses bens, a maior tristeza \u00e9 circular pelas ruas cariocas e n\u00e3o vislumbrar um \u201cdesfile\u201d automotivo de Bras\u00edlias, Belinas, Passats, Pumas GT ou GTB, DKW-Vemags, Karmanguias, Miuras, Mobiletes, Garelis, Calois 10 ou MPs Lafer. E os All Star, Congas e Kichutes? Sonhos de uma gera\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m sumiram nos embalos de uma noite qualquer. Como o Topo Gigio, o Arma\u00e7\u00e3o Ilimitada e o irm\u00e3o do Henfil, tiveram o mesmo fim os shows no Maracan\u00e3zinho, os teatros Scala, Arena e Tereza Rachel, os bolach\u00f5es do Renato e Seus Blue Caps, as fitas K7, os filmes em VHS, os CDs e at\u00e9 os DVDs. Saudosismo \u00e0 parte, o que sobrou do meu Rio de Janeiro dos anos dourados? Al\u00e9m do tr\u00e1fico, da mil\u00edcia, de muitas balas perdidas e da repugnante divis\u00e3o social e pol\u00edtica, muita coragem e for\u00e7a para chegar vivo aos domingos. Sou um carioca sem ch\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De passagem pela outrora Cidade Maravilhosa, me senti um peixe respirando por aparelho. S\u00e3o 458 anos de uma longa exist\u00eancia glamorosa e desastrosa h\u00e1 algumas d\u00e9cadas, mais precisamente desde os anos 80, ap\u00f3s uma sequ\u00eancia de aventureiros transformados em governadores. 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