{"id":301151,"date":"2023-03-15T08:20:52","date_gmt":"2023-03-15T11:20:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=301151"},"modified":"2023-03-15T08:20:52","modified_gmt":"2023-03-15T11:20:52","slug":"sancoes-contra-caracas-afetam-mais-as-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/sancoes-contra-caracas-afetam-mais-as-mulheres\/","title":{"rendered":"San\u00e7\u00f5es contra Caracas afetam mais as mulheres"},"content":{"rendered":"<p>As san\u00e7\u00f5es impostas pelos EUA contra a Venezuela, que come\u00e7aram a ser aplicadas em 2014, agravaram a crise econ\u00f4mica no pa\u00eds e contribu\u00edram para piorar as condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o. Os impactos do bloqueio, no entanto, foram sentidos de maneira mais grave pelas mulheres, segundo pesquisadoras.<\/p>\n<p>Entre 2016 e 2019, Washington ampliou significativamente seu pacote de san\u00e7\u00f5es contra Caracas e atacou diretamente a ind\u00fastria energ\u00e9tica venezuelana, principal fonte de recursos do pa\u00eds. O bloqueio contra a PDVSA, que praticamente impediu qualquer transa\u00e7\u00e3o internacional da estatal petroleira, gerou um efeito cascata em quase todos os outros setores da economia.<\/p>\n<p>Embora o governo tenha priorizado a \u00e1rea social nos or\u00e7amentos ao longo dos \u00faltimos anos e conseguido manter, com dificuldades, os mecanismos de aux\u00edlios financeiros, a queda dos ingressos reduziu drasticamente a capacidade de novos investimentos em programas sociais e servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>\u201cAs receitas da PDVSA ou do Estado, produtos da venda do petr\u00f3leo, diminu\u00edram em cerca de 95%\u201d, explica a soci\u00f3loga venezuelana Ana Gabriela Salazar da ONG de direitos humanos Sures, que conduz estudos sobre os impactos do bloqueio nas condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pesquisadora destaca que o impacto das san\u00e7\u00f5es nas pol\u00edticas p\u00fablicas tiveram maior incid\u00eancia entre as mulheres, pois \u201cfazemos parte de grupo em maior condi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, n\u00e3o somente por sermos mulher, mas tamb\u00e9m porque o sistema mundo e a sociedade global assim est\u00e3o conformados\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a crise agravada pelas san\u00e7\u00f5es deu origem a uma espiral inflacion\u00e1ria que resultou em baixa produtividade interna, perda de capacidade de importa\u00e7\u00e3o e, consequentemente, um quadro de escassez de produtos b\u00e1sicos que impactou diretamente a vida das mulheres.<\/p>\n<p>Apesar dos casos de escassez j\u00e1 n\u00e3o serem mais registrados no pa\u00eds, os anos de infla\u00e7\u00e3o elevada e o processo de dolariza\u00e7\u00e3o informal geraram distor\u00e7\u00f5es cambiais que impactam diariamente os trabalhadores venezuelanos que t\u00eam seus sal\u00e1rios constantemente desvalorizados.<\/p>\n<p>Segundo a \u00faltima Pesquisa Nacional sobre Condi\u00e7\u00f5es de Vida, publicada pela Universidade Cat\u00f3lica Andr\u00e9s Bello (UCAB) em novembro do ano passado, 50,5% da popula\u00e7\u00e3o da Venezuela vive em condi\u00e7\u00e3o de pobreza multidimensional. O indicador n\u00e3o mede apenas a pobreza relacionada \u00e0 renda, mas tamb\u00e9m outros fatores como acesso \u00e0 moradia, educa\u00e7\u00e3o, emprego e servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Suzany Gonz\u00e1lez, coordenadora do Centro de Estudos de Direitos Sexuais e Reprodutivos (CEDESEX) da Venezuela, explica que os impactos negativos das san\u00e7\u00f5es na economia aumentaram a vulnerabilidade da mulher venezuelana, fen\u00f4meno classificado pela pesquisadora como \u201cfeminiza\u00e7\u00e3o da pobreza\u201d.<\/p>\n<p>\u201cComo ocorre em outras partes do mundo, resultado da feminiza\u00e7\u00e3o da pobreza que o patriarcado gera, as medidas coercitivas empobreceram a popula\u00e7\u00e3o e, dentro da popula\u00e7\u00e3o empobrecida, as mulheres sofrem mais\u201d, diz .<\/p>\n<p>Segundo Gonz\u00e1lez, o fato de as mulheres serem predominantemente cuidadoras de crian\u00e7as, adolescentes ou de pessoas idosas, tamb\u00e9m acarretou em uma deteriora\u00e7\u00e3o nas condi\u00e7\u00f5es laborais das venezuelanas.<\/p>\n<p>\u201cOcorrem fen\u00f4menos como a dupla ou tripla jornada, porque as mulheres tiveram que buscar dois, tr\u00eas ou quatro trabalhos, em sua maioria prec\u00e1rios e informais, para poder custear algumas de suas necessidades mais b\u00e1sicas, o que, claro, recrudesce as desigualdades por raz\u00f5es de g\u00eanero\u201d, explica.<\/p>\n<p>O setor da sa\u00fade foi um dos que mais sofreram as consequ\u00eancias do bloqueio, o que afetou diretamente a vida das mulheres. As dificuldades de acesso a m\u00e9todos anticoncepcionais, assim como a outros medicamentos e exames ginecol\u00f3gicos, comp\u00f5em o quadro da vulnerabilidade feminina na Venezuela.<\/p>\n<p>A alta nos pre\u00e7os, a degrada\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios e a recusa de v\u00e1rias empresas estrangeiras em fazer neg\u00f3cios com a Venezuela dificultou o acesso da popula\u00e7\u00e3o a itens e servi\u00e7os b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>Segundo a ONG venezuelana G\u00eanero com Classe, a dificuldade em obter esses produtos resultou em aumentos de casos de gravidez indesejada e infec\u00e7\u00f5es por doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis.<\/p>\n<p>\u201cO acesso aos medicamentos antes do bloqueio acontecia em grande escala\u201d, explica Ana Gabriela Salazar. \u201cQualquer mulher que n\u00e3o precisasse que os medicamentos anticoncepcionais fossem providos pelo Estado poderia consegui-lo por sua conta, sem que isso representasse um custo muito elevado\u201d, diz.<\/p>\n<p>De acordo com a G\u00eanero com Classe, em 2012 a Venezuela havia alcan\u00e7ado acesso universal a m\u00e9todos anticoncepcionais, j\u00e1 que o Estado cobria cerca de 23% da popula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de programas de planejamento familiar e quem n\u00e3o era beneficiado tinha condi\u00e7\u00f5es financeiras de comprar os itens em farm\u00e1cias subsidiadas ou, at\u00e9 mesmo, por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>\u201cIsso mudou totalmente a partir de 2014. A crise dos medicamentos anticoncepcionais foi muito sentida e \u00e9 algo muito grave\u201d, explica a pesquisadora da Sures.<\/p>\n<p>Casos de mortalidade materna tamb\u00e9m aumentaram no pa\u00eds durante os anos de bloqueio. Segundo dados do Fundo de Popula\u00e7\u00e3o da ONU, a taxa no pa\u00eds \u00e9 de 120 mortes a cada 100 mil nascidos vivos, uma das mais altas da regi\u00e3o. A Argentina, por exemplo, possui uma taxa de 74 a cada 100 mil nascidos vivos, e a Col\u00f4mbia, 66,7 mortes a cada 100 mil nascidos vivos.<\/p>\n<p>Todo o cen\u00e1rio de risco \u00e0s mulheres gestantes e \u00e0 popula\u00e7\u00e3o feminina em idade f\u00e9rtil deveria impulsionar o debate sobre a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, diz Suzany Gonz\u00e1lez. O atual C\u00f3digo Penal venezuelano prev\u00ea uma pena de seis meses a dois anos de pris\u00e3o para a mulher que realizar um aborto. A pr\u00e1tica s\u00f3 \u00e9 permitida em caso de risco para a vida da gestante.<\/p>\n<p>O CEDESEX e outros movimentos populares feministas elaboraram um projeto de lei sobre direitos sexuais e reprodutivos que pretende garantir o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o sexual e o acesso ao aborto seguro, legal e gratuito. Al\u00e9m disso, os coletivos est\u00e3o em contato com grupos de parlamentares da Assembleia Nacional para levar o projeto \u00e0 discuss\u00e3o, mas, segundo Gonz\u00e1lez, falta \u201cvontade pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>\u201cImaginemos um contexto onde existem as medidas coercitivas dos EUA e outras limita\u00e7\u00f5es que o Estado venezuelano possui, al\u00e9m da crise educativa fruto da pandemia que torna mais dif\u00edcil uma educa\u00e7\u00e3o sexual; h\u00e1 tamb\u00e9m a crise no sistema de sa\u00fade e, al\u00e9m disso, temos o aborto completamente penalizado e, por isso, ocorre o que estamos vendo: altos \u00edndices de mortalidade materna e de gravidez n\u00e3o desejada entre crian\u00e7as e adolescentes\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Segundo o CEDESEX, hemorragias, infec\u00e7\u00f5es e abortos inseguros s\u00e3o as principais causas de mortalidade materna na Venezuela. Suzany Gonz\u00e1lez, no entanto, destaca que, \u201ccomo o aborto est\u00e1 penalizado, muitos casos est\u00e3o registrados como hemorragias ou infec\u00e7\u00f5es, porque assim os m\u00e9dicos evitam problemas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cImaginemos, ent\u00e3o, quantas mortalidades maternas os abortos clandestinos causam, sem contar aquelas mulheres que ficam com problemas graves de sa\u00fade\u201d, diz.<\/p>\n<p>A pesquisadora ainda garante que os movimentos e coletivos feministas do pa\u00eds est\u00e3o empenhados em seguir pedindo o fim das san\u00e7\u00f5es e, ao mesmo tempo, cobrando do Legislativo, de maioria governista, uma mudan\u00e7a na legisla\u00e7\u00e3o que garanta o respeito aos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.<\/p>\n<p>\u201cExiste um contexto muito cr\u00edtico sobre o tema dos direitos sexuais e reprodutivos que n\u00f3s sentimos nos feminismos aut\u00f4nomos e entre as companheiras nos feminismos populares, atentas \u00e0 realidade das mulheres nas comunidades. Esse feminismo aut\u00f4nomo tem um enfoque pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m entende que deve exigir do Estado, pois nos preocupa muito que o aborto n\u00e3o esteja no debate pol\u00edtico do pa\u00eds no mais alto n\u00edvel\u201d, afirma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As san\u00e7\u00f5es impostas pelos EUA contra a Venezuela, que come\u00e7aram a ser aplicadas em 2014, agravaram a crise econ\u00f4mica no pa\u00eds e contribu\u00edram para piorar as condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o. Os impactos do bloqueio, no entanto, foram sentidos de maneira mais grave pelas mulheres, segundo pesquisadoras. 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