{"id":301809,"date":"2023-03-28T04:44:46","date_gmt":"2023-03-28T07:44:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=301809"},"modified":"2023-03-28T04:45:21","modified_gmt":"2023-03-28T07:45:21","slug":"vizinhos-dos-yanomami-ja-discutem-vida-pos-garimpo-ilegal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/vizinhos-dos-yanomami-ja-discutem-vida-pos-garimpo-ilegal\/","title":{"rendered":"Vizinhos dos Yanomami j\u00e1 discutem vida p\u00f3s-garimpo"},"content":{"rendered":"<p>No \u00faltimo dia 13, porta-vozes de garimpeiros em Roraima convocaram um protesto para uma rua de Boa Vista (RR) a fim de coincidir com a visita que o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva faria naquele dia \u00e0 terra ind\u00edgena Raposa Serra do Sol. Segundo a mensagem distribu\u00edda por telefone entre os garimpeiros, era \u201ca hora de mostrar o caos que est\u00e1 ficando Roraima\u201d. Foram convocados \u201cos garimpeiros de verdade desempregados e j\u00e1 passando dificuldades para mostrar ao Brasil que n\u00e3o est\u00e1 tudo bem\u201d.<\/p>\n<p>A manifesta\u00e7\u00e3o foi um completo fiasco. V\u00eddeos que registraram o evento mostraram n\u00e3o mais que uma d\u00fazia de pessoas com alguns cartazes escritos \u00e0 m\u00e3o. Semanas antes, os garimpeiros haviam convocado um outro ato na pra\u00e7a central de Boa Vista (RR). Apareceram n\u00e3o mais do que 200 pessoas. Passados quase dois meses do in\u00edcio da opera\u00e7\u00e3o de retirada dos garimpeiros da Terra Ind\u00edgena Yanomami determinada em decreto pelo presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, o suposto \u201ccaos\u201d que existe em Boa Vista \u00e9 aquele que atinge os Yanomami, as pr\u00f3prias v\u00edtimas do garimpo desenfreado, e os venezuelanos empobrecidos, \u00eaxodo que vem se agravando em Roraima desde 2018. Inexiste acampamento de \u201cgarimpeiros desempregados\u201d.<\/p>\n<p>A alega\u00e7\u00e3o do governador pr\u00f3-garimpo Antonio Denarium (PP-RR), apresentada de forma espalhafatosa \u00e0 imprensa de Bras\u00edlia no in\u00edcio de fevereiro por ocasi\u00e3o de uma visita ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, de que \u201c50 mil\u201d pessoas viviam do garimpo em Roraima, o que projetava uma grave emerg\u00eancia social, logo caiu no esquecimento.<\/p>\n<p>Nas principais localidades do entorno do territ\u00f3rio ind\u00edgena, reina a paz. Aos poucos esses lugares, que ajudavam os garimpos principalmente com a venda de alimenta\u00e7\u00e3o e de combust\u00edveis, voltam \u00e0 normalidade pr\u00e9-garimpo.<\/p>\n<p>A Ag\u00eancia P\u00fablica visitou de carro tr\u00eas dessas pequenas localidades que ficam a poucos quil\u00f4metros dos limites da terra demarcada (Campos Novos, Sama\u00fama e \u201cPared\u00e3o\u201d), onde encontrou um clima j\u00e1 de conformismo sobre o futuro sem garimpo e conversas sobre a necessidade de se encontrar alternativas econ\u00f4micas para a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Em Sama\u00fama, pequeno distrito do munic\u00edpio de Mucaja\u00ed (RR) com popula\u00e7\u00e3o estimada de 500 fam\u00edlias, localizado a cerca de 2 horas de carro a oeste da capital, Boa Vista, moradores j\u00e1 falam em voltar \u00e0 agricultura e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do gado, atividades hist\u00f3ricas da regi\u00e3o. Sama\u00fama era considerada uma das \u201cportas de entrada\u201d dos garimpeiros na terra Yanomami. At\u00e9 poucos meses atr\u00e1s, dezenas de garimpeiros paravam ali todos os dias para comprar alimentos e combust\u00edvel, que eram levados para os garimpos dentro da terra ind\u00edgena por avi\u00f5es, que partiam de v\u00e1rias pistas de pouso clandestinas, ou por terra em uma estradinha de terra quase intransit\u00e1vel que sai da localidade vizinha do \u201cPared\u00e3o\u201d at\u00e9 a beira do rio Uraricoera.<\/p>\n<p>\u201cO dinheiro do garimpo n\u00e3o trouxe benef\u00edcio para a popula\u00e7\u00e3o daqui, como posto de sa\u00fade, escola, asfalto, rede de esgoto. N\u00e3o aconteceu nada na vila. Quando o garimpo veio para c\u00e1, gerou para algumas pessoas alguma renda, n\u00e3o fixa. As pessoas estavam trabalhando, tirando o recurso da\u00ed de dentro, o min\u00e9rio, essas coisas, e indo pra fora. N\u00e3o fica nada aqui no nosso Estado\u201d, disse o servidor p\u00fablico da prefeitura de Mucaja\u00ed Laur\u00edcio Oliveira Chaves, o \u201cirm\u00e3o Lauro\u201d, que atua como uma esp\u00e9cie de \u201cadministrador\u201d de Sama\u00fama e \u00e9 fiel da igreja Assembleia de Deus.<\/p>\n<p>Para Chaves, a tend\u00eancia \u00e9 que seus moradores retomem as atividades econ\u00f4micas que foram deixadas de lado com a chegada do dinheiro gerado pelo garimpo ilegal, \u201cque todo mundo sabia que ia acabar, era uma temporada\u201d.<\/p>\n<p>\u201c[Com o garimpo] muitas pessoas deixaram de plantar, deixaram de fazer coisas. Aqui sempre se plantou mandioca, banana, hortali\u00e7as e tomate. E a carne aumentou na regi\u00e3o, e isso n\u00e3o foi o garimpo. Quando surge um projeto de assentamento, todo mundo mexe com planta\u00e7\u00e3o. Quando vai ficando mais antigo, come\u00e7a a mexer com a pecu\u00e1ria. Ela aumentou aqui bastante\u201d, disse Chaves.<\/p>\n<p>A atividade garimpeira persiste dentro do territ\u00f3rio ind\u00edgena, com diversos pontos ainda tomados pelos invasores, o que impede a\u00e7\u00f5es emergenciais de socorro aos ind\u00edgenas doentes de mal\u00e1ria e desnutri\u00e7\u00e3o, conforme v\u00eam denunciando as principais lideran\u00e7as ind\u00edgenas da terra Yanomami, informa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m confirmada por Sonia Guajajara, a ministra dos Povos Ind\u00edgenas, no programa Roda Viva da \u00faltima segunda-feira.<\/p>\n<p>A atividade garimpeira ainda \u00e9 uma amea\u00e7a \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 exist\u00eancia dos Yanomami. O combate ao garimpo, agora realizado principalmente pelo Ibama, pela Funai e pela For\u00e7a Nacional, ainda n\u00e3o tem prazo para acabar.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, no entorno da terra ind\u00edgena \u00e9 un\u00e2nime a opini\u00e3o de que as medidas tomadas pelo governo federal at\u00e9 aqui geraram impacto negativo para os garimpos, levaram \u00e0 redu\u00e7\u00e3o dos v\u00f4os clandestinos para dentro do territ\u00f3rio, o que repercutiu na cadeia econ\u00f4mica vinculada \u00e0 extra\u00e7\u00e3o ilegal do min\u00e9rio, e pressionaram pela sa\u00edda dos garimpeiros por barcos ou em caminhadas dentro da mata, as chamadas \u201cvara\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Para Chaves, \u201cadministrador\u201d de Sama\u00fama, \u201c50% ou mais\u201d dos garimpeiros j\u00e1 haviam deixado a terra Yanomami at\u00e9 o final de fevereiro. O maior impacto, disse ele, tem sido na venda de alimentos e na hospedagem em pousadas. Ele calcula que, no auge do garimpo, no ano passado, cerca de 500 pessoas a mais do que a popula\u00e7\u00e3o normal circulavam por Sama\u00fama. Essa popula\u00e7\u00e3o flutuante, segundo Chaves, foi embora ap\u00f3s o in\u00edcio, em fevereiro, da opera\u00e7\u00e3o de desintrus\u00e3o. N\u00e3o houve nenhuma ocorr\u00eancia policial de relevo ou dist\u00farbios na localidade ap\u00f3s o in\u00edcio da sa\u00edda dos garimpeiros.<\/p>\n<p>O \u201cirm\u00e3o Lauro\u201d espera que os governos federal e estadual apresentem projetos de infraestrutura a fim de amenizar o impacto social que a regi\u00e3o deve sofrer. \u201c\u00c9 [por exemplo] melhorar a sa\u00fade, o que n\u00f3s temos aqui \u00e9 o munic\u00edpio que providencia, \u00e9 um posto de sa\u00fade. O m\u00e9dico vem uma vez por semana. Muita gente vai buscar atendimento em Alto Alegre [cerca de 30 km de Sama\u00fama], onde tem um hospital do Estado. A demanda de imigrantes venezuelanos tamb\u00e9m cresceu bastante.\u201d<\/p>\n<p>Na principal rua de Sama\u00fama, o comerciante Josimar Pinheiro calcula que o movimento no seu mercadinho, segundo ele o mais frequentado da localidade, caiu \u201cmais de 80%\u201d ap\u00f3s o in\u00edcio da opera\u00e7\u00e3o anti-garimpo. Os clientes compravam \u201cde tudo\u201d que fosse enlatado e tamb\u00e9m carnes de boi e de galinha, animais que o mercado tamb\u00e9m abate e comercializa. \u201cEu matava cinco bois por semana [antes da opera\u00e7\u00e3o]. Hoje estou matando um. De cinco pra um. Eles colocavam [a carne] no avi\u00e3o, quando dava duas horas estava l\u00e1 [no garimpo].\u201d<\/p>\n<p>Pinheiro disse que a queda no movimento o levou a demitir tr\u00eas dos seus quatro funcion\u00e1rios. \u201cEu n\u00e3o posso fazer nada, n\u00e3o vou sair daqui, moro aqui h\u00e1 20 anos. Eu j\u00e1 tenho minha fazendinha, tenho minha esposa\u201d, disse o comerciante, nascido em Bacabal (MA). Contou que ele pr\u00f3prio j\u00e1 foi garimpeiro na Venezuela. \u201cEu j\u00e1 passei dois meses perdido na mata, em 1975. O garimpeiro \u00e9 muito resistente aqui, ele \u00e9 acostumado naquele sistema. Ele n\u00e3o morre f\u00e1cil n\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Na vizinha localidade do \u201cPared\u00e3o\u201d, um lugarejo de cerca de 100 fam\u00edlias a cerca de 40 minutos de carro de Sama\u00fama, uma estrada incrivelmente esburacada leva os garimpeiros at\u00e9 a beira do rio Uraricoera, onde os garimpeiros pegam os barcos para ingressar na terra Yanomami. O trecho de terra \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil que os garimpeiros usam carros especialmente adaptados ao terreno, como picapes altas e de pneus refor\u00e7ados. No sentido contr\u00e1rio desse caminho, carros de aplicativos do tipo Uber ficam estacionados em um posto de gasolina perto da divisa da terra ind\u00edgena esperando para levar os garimpeiros que saem da terra Yanomami.<\/p>\n<p>Em um domingo no final de fevereiro, reinava a tranquilidade e nenhuma corrida para os motoristas na outrora fe\u00e9rica \u201cPared\u00e3o\u201d. O \u00fanico borracheiro do lugar lamentou o fim do movimento, mas disse que est\u00e1 conformado com a situa\u00e7\u00e3o. Ele calculou que no auge do garimpo costumava arrumar de cinco a seis carros por dia, n\u00famero que caiu quase a zero desde o in\u00edcio de fevereiro. Mas ele n\u00e3o pensa em ir embora porque mora ali \u201ch\u00e1 30 anos\u201d. Acredita tamb\u00e9m que a comunidade vai voltar \u00e0 agricultura e \u00e0 pecu\u00e1ria para n\u00e3o deixar o \u201cPared\u00e3o\u201d morrer.<\/p>\n<p>A localidade de Campos Novos, um distrito de Iracema (RR), vive cen\u00e1rio id\u00eantico ao de Sama\u00fama, com pouco movimento nos mercados e casas de carne. Um morador, que pediu para n\u00e3o ser identificado, disse que seu irm\u00e3o abatia \u201cde oito a dez bois\u201d por semana para vender aos garimpeiros e agora n\u00e3o passa de um por semana. Disse que as pistas de pouso clandestinas, abertas em diversas fazendas nas cercanias de Campos Novos, pararam de funcionar. At\u00e9 janeiro era grande o movimento de caminh\u00f5es com combust\u00edvel nas v\u00e1rias estradinhas de terra que ligam o povoado \u00e0s fazendas.<\/p>\n<p>Dona de uma das duas pousadas de Campos Novos, a \u201cNova Op\u00e7\u00e3o\u201d, Sandra Rodrigues disse que no \u00faltimo ano e meio investiu \u201cmais de R$ 500 mil\u201d na compra do terreno e na constru\u00e7\u00e3o. Em um dia de fevereiro, conforme a P\u00fablica p\u00f4de comprovar, n\u00e3o havia nenhum h\u00f3spede nos 12 quartos da pousada. Seus principais clientes eram pilotos dos avi\u00f5es e os garimpeiros passageiros. Ela estimou que \u201cmais de 50%\u201d dos garimpeiros deixaram a terra ind\u00edgena. Com a redu\u00e7\u00e3o do movimento, disse que ainda estava pensando \u201cno que ia fazer da vida\u201d. Na semana passada, por telefone, lamentou \u201cque continua tudo igual, tudo parado\u201d. Mas manteve a pousada aberta, com esperan\u00e7a de dias melhores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00faltimo dia 13, porta-vozes de garimpeiros em Roraima convocaram um protesto para uma rua de Boa Vista (RR) a fim de coincidir com a visita que o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva faria naquele dia \u00e0 terra ind\u00edgena Raposa Serra do Sol. 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