{"id":301826,"date":"2023-03-28T06:41:43","date_gmt":"2023-03-28T09:41:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=301826"},"modified":"2023-03-28T06:41:55","modified_gmt":"2023-03-28T09:41:55","slug":"brasil-precisa-refletir-sobre-caos-que-assola-a-franca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-precisa-refletir-sobre-caos-que-assola-a-franca\/","title":{"rendered":"Brasil precisa refletir sobre caos que assola a Fran\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>A Fran\u00e7a, com o povo nas ruas, homens e mulheres, jovens e velhos, trabalhadores de todos os of\u00edcios, em Paris e em todas as vilas, enfrentando a repress\u00e3o, resistindo, brigando, defendendo seus direitos, celebra os 152 anos da frustrada Comuna de Paris (1851-1871), quando os herdeiros dos sans culottes se levantaram contra a fome, a opress\u00e3o e o autoritarismo exacerbados no Imp\u00e9rio, pouco mais de sessenta anos passados dos eventos da Revolu\u00e7\u00e3o (aquela da tr\u00edade libert\u00e9 &#8211; \u00e9galit\u00e9 &#8211; fraternit\u00e9) para uma vez mais defender a liberdade de express\u00e3o, de imprensa, de reuni\u00e3o e de organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o povo da Comuna inova, e intenta a autogest\u00e3o, quer o governo perdido para a burguesia. \u00c9 inexoravelmente esmagado, como s\u00e3o todas as insurrei\u00e7\u00f5es populares, como foram esmagados todos os levantes populares que marcam a cruenta hist\u00f3ria brasileira, desde o genoc\u00eddio das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas resistentes ao bacamarte dos bandeirantes e o exterm\u00ednio dos quilombos, ao massacre de Canudos, pelo ex\u00e9rcito brasileiro, j\u00e1 no alvorecer da rep\u00fablica seren\u00edssima.<\/p>\n<p>Nesse evento, na terceira ou quarta investida contra o aldeamento de Ant\u00f4nio Conselheiro, a tropa militar dizima alguns milhares de sertanejos alquebrados que simplesmente lutavam contra a fome de forma organizada. Euclides da Cunha, em Os sert\u00f5es, regista a cena final que rendeu medalhas a muitos generais, e conta os sobreviventes: &#8220;Canudos n\u00e3o se rendeu. Exemplo \u00fanico em toda a hist\u00f3ria, resistiu at\u00e9 ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precis\u00e3o integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando ca\u00edram os seus \u00faltimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma crian\u00e7a, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.&#8221;<\/p>\n<p>A \u00fanica &#8220;revolu\u00e7\u00e3o&#8221; brasileira que &#8220;deu certo&#8221;, relembro, foi a de 1930, um movimento da classe dominante liderado por tr\u00eas governadores de prov\u00edncia (Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Para\u00edba) e meia d\u00fazia de oficiais superiores preocupados com a &#8220;moraliza\u00e7\u00e3o dos costumes&#8221;. Levada a cabo de cima para baixo, implantou sem resist\u00eancia o governo civil-militar e distribuiu as cartas do baralho pol\u00edtico durante 15 anos. No mais, no Imp\u00e9rio e na Rep\u00fablica, a saga das emerg\u00eancias populares frustradas e dos golpes de Estado impostos com a m\u00e3o de ferro da interven\u00e7\u00e3o militar substituindo a voz da sociedade.<\/p>\n<p>O que se assiste hoje na Fran\u00e7a est\u00e1 longe de um levante, e em nada lembra os idos de maio de 1968 (que ainda agora assustam sua classe m\u00e9dia), quando a insurrei\u00e7\u00e3o estudantil, ao contaminar as f\u00e1bricas, amea\u00e7ou o establishment. Mas \u00e9 significativo sinal da possibilidade da mobiliza\u00e7\u00e3o de massas \u2013 acicatada por um interesse leg\u00edtimo e imediato, no caso concreto a defesa da aposentadoria \u2013, mesmo quando as organiza\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas do movimento popular d\u00e3o sinais de esgotamento ou fal\u00eancia.<\/p>\n<p>Contrastando com o ambiente internacional que se sucede ao final da Segunda Guerra Mundial \u2013caracterizado pelas grandes mobiliza\u00e7\u00f5es sociais e sindicais, o avan\u00e7o das for\u00e7as progressistas e de esquerda, as conquistas do campo socialista e as concess\u00f5es a que foi obrigada a socialdemocracia europeia \u2013, o quadro de nossos dias, mormente a partir da debacle do &#8220;socialismo real&#8221;, se distingue pelo recuo das organiza\u00e7\u00f5es e dos movimentos de esquerda, de par com a consolida\u00e7\u00e3o, de especial na Europa ocidental, das teses e dos governos neoliberais, o que se traduz nas crescentes restri\u00e7\u00f5es aos direitos das grandes massas, nomeadamente os trabalhistas e previdenci\u00e1rios. Nada que n\u00e3o conhe\u00e7amos no resto do mundo, sob o reino da vit\u00f3ria do capitalismo. Nada que n\u00e3o tenhamos vivido no Brasil principalmente a partir dos governos FHC, e, em termos de exacerba\u00e7\u00e3o, na sequ\u00eancia do golpe de 2016 e do projeto protofascista de 2018 interrompido na 25\u00aa hora em 2022.<\/p>\n<p>\u00c9 instrutivo comparar entre si as formas como franceses e brasileiros t\u00eam enfrentado o assalto aos direitos sociais.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s mais de uma quinzena de confrontos de rua, dizem os notici\u00e1rios de hoje (sexta-feira,24) que as manifesta\u00e7\u00f5es de massa em toda a Fran\u00e7a reuniram 3,5 milh\u00f5es de pessoas, segundo a CGT, e &#8220;um pouco mais de um milh\u00e3o&#8221; segundo o Minist\u00e9rio do Interior.<\/p>\n<p>Salta aos olhos, no contraste, a passividade brasileira diante da razzia promovida contra os direitos dos trabalhadores e a soberania nacional. Direitos fundamentais foram cassados ou restringidos, pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o social eliminadas, a escola p\u00fablica gratuita e laica perseguida, o meio ambiente de um modo geral e a Amaz\u00f4nia especialmente entregues \u00e0 sanha sem limites da grilagem associada ao garimpo ilegal.<\/p>\n<p>Empresas fundamentais para nosso desenvolvimento, como a Eletrobras, foram vendidas na bacia das almas, e a Petrobras se desfez de seu patrim\u00f4nio para aumentar o lucro de acionistas minorit\u00e1rios, ao tempo que deixava de investir no pa\u00eds; a ind\u00fastria foi desestimulada e o Banco Central, tornado &#8220;independente&#8221; em face da sociedade e ainda mais dependente do sistema financeiro imp\u00f5e uma pol\u00edtica de juros altos que, segundo Joseph Stiglitz (pr\u00eamio Nobel de economia de 2001), &#8220;equivale a uma pena de morte&#8221;. E podemos dizer que se trata de um crime, imposto e sustentado por uma classe dominante alien\u00edgena.<\/p>\n<p>Em face desse conjunto de medidas anti-povo e anti-na\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tivemos condi\u00e7\u00f5es de opor resist\u00eancia digna. J\u00e1 n\u00e3o falo de greves pol\u00edticas, que d\u00e3o a medida da politiza\u00e7\u00e3o sindical. Mesmo greves reivindicativas e outras mobiliza\u00e7\u00f5es visando \u00e0 defesa de direitos amea\u00e7ados ou surrupiados, n\u00e3o logramos promover. E sabemos que a presidente Dilma Rousseff foi cassada e Lula foi processado, teve sua inelegibilidade decretada e afinal foi preso porque lhes faltou o grande apoio das massas, que n\u00e3o foram \u00e0s ruas. Dizem-me que se trata de mero desdobramento da crise das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda brasileira, que se reflete na recess\u00e3o dos movimentos populares. Fator agravante, mas n\u00e3o isolado, seria a crise espec\u00edfica da vida sindical, fermentada pela revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, impondo o decl\u00ednio do poder pol\u00edtico do trabalho subsumido pelo capital financeiro, monopolista e internacionalizado.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso acrescentar, por\u00e9m, que nossos pr\u00f3prios governos de centro-esquerda dormiam com o inimigo: no primeiro governo Lula implementamos uma &#8220;reforma&#8221; da previd\u00eancia restritiva de direitos; Dilma contribuiria com uma question\u00e1vel lei antiterrorismo, al\u00e9m de uma confusa e autorit\u00e1ria prepara\u00e7\u00e3o para a Copa e as Olimp\u00edadas. E ao seu governo devemos o ajuste monetarista do ministro Joaquim Levy, hoje fazendo carreira no grupo Safra, depois de presidir o BNDES sob as ordens de Bolsonaro. A defesa do mandato leg\u00edtimo da presidente assim se imp\u00f4s no momento em que era mais ativa e necess\u00e1ria a rea\u00e7\u00e3o contra a pol\u00edtica econ\u00f4mica de seu governo, imobilizando consider\u00e1veis setores populares, inclusive \u00e1reas sindicais ligadas ao PT.<\/p>\n<p>Muitos desses elementos, todavia, se encontram no cotidiano franc\u00eas, quando tamb\u00e9m nos deparamos com a dissolu\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es como os partidos Comunista e Socialista, este at\u00e9 h\u00e1 pouco governante, dando passagem \u00e0 hegemonia da direita tout court, aparentemente inabal\u00e1vel.<\/p>\n<p>A esquerda francesa chega ao poder com Fran\u00e7ois Mitterrand em 1981, mas logo em 1986 perderia as elei\u00e7\u00f5es legislativas e Jacques Chirac, direita, seria eleito primeiro-ministro, inaugurando a &#8220;coabita\u00e7\u00e3o&#8221;. Em 2012, a esquerda (isto \u00e9, o Partido Socialista), retornaria ao poder, com Fran\u00e7ois Hollande, para, em 2017, entregar o Pal\u00e1cio do Eliseu de volta \u00e0 direita, agora liderada por Emmanuel Macron, o 12\u00b0 presidente da V\u00aa Rep\u00fablica, vencendo a esquerda e a extrema-direita do cl\u00e3 Le Pen. O fato novo \u00e9 o movimento Fran\u00e7a Insubmissa de Jean-Luc M\u00e9lenchon, prometendo o reencontro da esquerda. O que se identifica como socialismo na Fran\u00e7a, por\u00e9m, cabe relembrar, n\u00e3o se confunde com o conceito brasileiro de esquerda, pois n\u00e3o ultrapassa os limites ideol\u00f3gicos de uma socialdemocracia convencida da inexorabilidade da hegemonia norte-americana. J\u00e1 a direita, renunciando \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es autonomistas europeias, transita para a extrema-direita e o fascismo na mesma linha do que ocorre na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>No contraste com o quadro franc\u00eas de hoje, se conhecemos os 21 anos da ditadura militar instalada em 1964, e a experi\u00eancia protofascista do governo do capit\u00e3o e seus \u00e1ulicos fardados, conhecemos igualmente as experi\u00eancias petistas sinalizadoras de franca emerg\u00eancia das massas, e vivemos a presente experi\u00eancia da reconstru\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica nacional, pela m\u00e3o do terceiro governo Lula. Se, a rigor, todas as grandes organiza\u00e7\u00f5es de esquerda francesas, como o PS e o PCF, se dissolveram, por diversas raz\u00f5es, uma das quais necessariamente ter\u00e1 sido o fato de se confundirem com o discurso da socialdemocracia, no Brasil registramos a sobreviv\u00eancia do do PCdoB e a vitalidade do PT (que, ademais, controla a CUT, nossa maior central sindical) como partido hegem\u00f4nico da esquerda e a emerg\u00eancia do PSOL, o que, pelo menos aparentemente, sugeriria a exist\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es objetivas de resist\u00eancia e mobiliza\u00e7\u00e3o popular. Ademais das organiza\u00e7\u00f5es camponesas lideradas pelo MST, presentes em praticamente todo o pa\u00eds, e a mobiliza\u00e7\u00e3o urbana, mais paulista que nacional, comandada pelo MTST de que surgiu a lideran\u00e7a de Guilherme Boulos.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o que trago \u00e0 baila n\u00e3o \u00e9 simples, porque, se na Fran\u00e7a o desafio \u00e9 o enfrentamento, dentro da institucionalidade, do projeto neoliberal do governo Macron, o desafio brasileiro dos dias presentes, crucial, \u00e9 oferecer a Lula (e s\u00f3 o movimento popular pode faz\u00ea-lo) condi\u00e7\u00f5es de governabilidade diante de um &#8220;mercado&#8221; e de um sistema financeiro hostis, al\u00e9m de crise fiscal, for\u00e7as armadas reacion\u00e1rias e partidarizadas, um congresso majoritariamente fisiol\u00f3gico e retr\u00f3grado, o aparelho p\u00fablico destro\u00e7ado, uma crise financeira namorando o retorno \u00e0 depress\u00e3o, um pa\u00eds por refazer em um mundo em guerra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Fran\u00e7a, com o povo nas ruas, homens e mulheres, jovens e velhos, trabalhadores de todos os of\u00edcios, em Paris e em todas as vilas, enfrentando a repress\u00e3o, resistindo, brigando, defendendo seus direitos, celebra os 152 anos da frustrada Comuna de Paris (1851-1871), quando os herdeiros dos sans culottes se levantaram contra a fome, a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":301827,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-301826","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/301826","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=301826"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/301826\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":301828,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/301826\/revisions\/301828"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/301827"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=301826"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=301826"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=301826"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}