{"id":302177,"date":"2023-04-03T00:00:26","date_gmt":"2023-04-03T03:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=302177"},"modified":"2023-04-03T09:37:38","modified_gmt":"2023-04-03T12:37:38","slug":"variante-genetica-protege-indigena-doenca-de-chagas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/variante-genetica-protege-indigena-doenca-de-chagas\/","title":{"rendered":"Variante gen\u00e9tica protege ind\u00edgena doen\u00e7a de Chagas"},"content":{"rendered":"<p>-A baixa ocorr\u00eancia de doen\u00e7a de Chagas entre povos ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia pode ter uma explica\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, aponta estudo publicado na revista Science Advances. Segundo o trabalho cient\u00edfico, uma variante gen\u00e9tica, presente na maioria dos indiv\u00edduos analisados na regi\u00e3o, tem importante papel na resist\u00eancia \u00e0 infec\u00e7\u00e3o pelo parasita causador da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a de Chagas \u00e9 transmitida por um inseto &#8211; um percevejo popularmente conhecido como barbeiro ou chup\u00e3o. Assim que o barbeiro termina de se alimentar, ele defeca, eliminando os protozo\u00e1rios e colocando-os em contato com a ferida e a pele da v\u00edtima, transmitindo o Trypanosoma cruzi, causador da doen\u00e7a de Chagas. A doen\u00e7a pode ocasionar problemas card\u00edacos, digestivos ou neurol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>O estudo analisou mais de 600 mil marcadores do genoma de 118 pessoas de 19 popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, que representam a maior parte do territ\u00f3rio da Amaz\u00f4nia, tanto no Brasil como nos outros pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul que abrigam a floresta.<\/p>\n<p>A pesquisadora do Instituto de Bioci\u00eancias da Universidade de S\u00e3o Paulo (IB-USP) Kelly Nunes explica como ocorreu a adapta\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas. \u201cO continente americano foi o \u00faltimo ocupado pelos humanos modernos e tem uma grande variedade de ambientes. Isso certamente causou uma press\u00e3o seletiva sobre esses povos e induziu adapta\u00e7\u00f5es, como essa que estamos vendo agora\u201d, destaca Kelly Nunes, que divide a primeira autoria do estudo com Cain\u00e3 Couto Silva, doutorando na \u00e1rea de gen\u00e9tica e biologia evolutiva pelo Instituto de Bioci\u00eancias da USP.<\/p>\n<p>Com variadas t\u00e9cnicas, os pesquisadores encontraram diferen\u00e7as em genes envolvidos no metabolismo, no sistema imune e na resist\u00eancia \u00e0 infec\u00e7\u00e3o por parasitas como o Trypanosoma cruzi, causador da doen\u00e7a de Chagas. Uma das variantes mais frequentes, presente no gene conhecido pela sigla PPP3CA, ocorre em 80% dos indiv\u00edduos analisados.<\/p>\n<p>A variante tamb\u00e9m est\u00e1 presente em outras popula\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, numa frequ\u00eancia bem menor: 10% na Europa e 59% na \u00c1frica.<\/p>\n<p>\u201cAo analisarmos as regi\u00f5es end\u00eamicas da doen\u00e7a na Am\u00e9rica do Sul, a \u00e1rea das popula\u00e7\u00f5es analisadas \u00e9 justamente onde a doen\u00e7a menos ocorre. Isso poderia se dar por uma baixa frequ\u00eancia do barbeiro, mas n\u00e3o \u00e9 o caso, pois \u00e9 onde ele tem a maior diversidade\u201d, conta T\u00e1bita H\u00fcnemeier, professora do IB-USP que coordenou o estudo.<\/p>\n<p>Segundo T\u00e1bita, ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar que existe adapta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica dos ind\u00edgenas a outras doen\u00e7as end\u00eamicas da Floresta Amaz\u00f4nica. \u201cEspecificamente para a rea\u00e7\u00e3o ao protozo\u00e1rio e o que foi testado, tamb\u00e9m em n\u00edvel celular, foi a infec\u00e7\u00e3o por tripanossomo, ent\u00e3o a gente n\u00e3o consegue extrapolar para outras doen\u00e7as, n\u00e3o da maneira que esse estudo foi desenhado\u201d, esclarece.<\/p>\n<p>O trabalho integra o projeto Diversidade Gen\u00f4mica dos Nativos Americanos, apoiado pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp).<\/p>\n<p><strong>Prote\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nPara compreender o papel do gene PPP3CA na intera\u00e7\u00e3o com o Trypanosoma cruzi, os pesquisadores converteram c\u00e9lulas-tronco pluripotentes, que podem ser transformadas em qualquer outra c\u00e9lula humana, em c\u00e9lulas card\u00edacas. Uma parte teve a express\u00e3o do gene PPP3CA reduzida em cerca de 65%. Outra parte realizava a express\u00e3o normal.<\/p>\n<p>Nas c\u00e9lulas com a express\u00e3o reduzida do gene, a capacidade de infec\u00e7\u00e3o dos protozo\u00e1rios foi aproximadamente 25% menor do que naquelas que tinham a express\u00e3o normal do PPP3CA.<\/p>\n<p>\u201cIsso mostra que o gene, em sua condi\u00e7\u00e3o mais comum em outras popula\u00e7\u00f5es, favorece a replica\u00e7\u00e3o do protozo\u00e1rio. Esse fator provavelmente levou os ancestrais dos ind\u00edgenas amaz\u00f4nicos que tinham a variante protetora a serem menos infectados e sobreviverem mais \u00e0 doen\u00e7a, passando esse tra\u00e7o para seus descendentes\u201d, disse a pesquisadora Kelly Nunes.<\/p>\n<p>Cerca de 30% dos pacientes com doen\u00e7a de Chagas desenvolvem a forma cr\u00f4nica da doen\u00e7a, que leva \u00e0 insufici\u00eancia card\u00edaca e at\u00e9 mesmo \u00e0 morte.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o quer dizer que os povos nativos amaz\u00f4nicos nunca tenham doen\u00e7a de Chagas, mas os que s\u00e3o infectados poderiam n\u00e3o desenvolver com tanta frequ\u00eancia essa fase cr\u00f4nica e at\u00e9 mortal\u201d, esclarece a autora principal do estudo.<\/p>\n<p>A professora T\u00e1bita H\u00fcnemeier destaca que a pesquisa traz conhecimentos que podem ajudar ao desenvolvimento de novos tratamentos. \u201cO estudo pelo menos estabelece que existe o fator gen\u00e9tico respons\u00e1vel pela infec\u00e7\u00e3o, ou seja, que existem variabilidades na popula\u00e7\u00e3o e que alguns indiv\u00edduos tem mais suscetibilidade do que outros. A partir do momento em que se come\u00e7a a ver um perfil gen\u00e9tico, j\u00e1 est\u00e1 saindo do que se pensou ser uma quest\u00e3o ambiental, o que abre novas perspectivas.\u201d<\/p>\n<p><strong>Outras doen\u00e7as<\/strong><br \/>\nPor\u00e9m, nem todas as variantes encontradas s\u00e3o necessariamente vantajosas para os ind\u00edgenas atuais. As an\u00e1lises tamb\u00e9m encontraram tra\u00e7os gen\u00e9ticos que favorecem o surgimento de doen\u00e7as metab\u00f3licas e card\u00edacas.<\/p>\n<p>Estudos de popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas brasileiras mostram altos \u00edndices de pessoas obesas e de cardiopatas. Entre os xavante, por exemplo, 66% sofrem de obesidade, diabetes e doen\u00e7a arterial coronariana.<\/p>\n<p>Doen\u00e7a negligenciada<br \/>\nA doen\u00e7a de Chagas \u00e9 listada entre as 20 mol\u00e9stias tropicais que a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) considera negligenciadas. Esse conjunto de doen\u00e7as afeta sobretudo pessoas pobres e n\u00e3o disp\u00f5e de tratamentos espec\u00edficos sem efeitos colaterais fortes.<\/p>\n<p>Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana da Sa\u00fade (Opas), atualmente, na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, 59 milh\u00f5es de crian\u00e7as vivem em \u00e1reas de risco de infec\u00e7\u00e3o ou reinfec\u00e7\u00e3o por geo-helmintos, ou parasitas intestinais, e aproximadamente 5,7 milh\u00f5es de pessoas est\u00e3o infectadas com a doen\u00e7a de Chagas, com cerca de 70 milh\u00f5es em risco de contra\u00ed-la.<\/p>\n<p>Para a coordenadora do estudo, T\u00e1bita H\u00fcnemeier, o levantamento \u00e9 importante principalmente por mostrar a doen\u00e7a em uma popula\u00e7\u00e3o que \u00e9 negligenciada. \u201c\u00c9 importante porque \u00e9 um estudo com uma popula\u00e7\u00e3o que \u00e9 negligenciada, tanto do ponto de vista gen\u00e9tico, quanto de estudo m\u00e9dico e tamb\u00e9m de uma doen\u00e7a que \u00e9 neglicenciada, do ponto de vista internacional, s\u00e3o fatores importantes que levam este estudo a ter um impacto t\u00e3o grande\u201d, finalizou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>-A baixa ocorr\u00eancia de doen\u00e7a de Chagas entre povos ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia pode ter uma explica\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, aponta estudo publicado na revista Science Advances. 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