{"id":302552,"date":"2023-04-07T08:16:09","date_gmt":"2023-04-07T11:16:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=302552"},"modified":"2023-04-07T11:39:06","modified_gmt":"2023-04-07T14:39:06","slug":"ze-di-cazuza-de-cambono-a-empreendedor-so-nao-fez-chover","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ze-di-cazuza-de-cambono-a-empreendedor-so-nao-fez-chover\/","title":{"rendered":"Z\u00e9 Di Cazuza, de cambono a empreendedor, s\u00f3 n\u00e3o fez chover"},"content":{"rendered":"<p>Toda cidade brasileira que se preza tem um b\u00eabado com algum recorde no Guiness Book ou prestes a ser inscrito na Wikip\u00e9dia. Ber\u00e7o dos amigos Z\u00e9 e Isa Gomes, os grandes Di Cazuza, Caetit\u00e9, no interior baiano, endeusava Nen\u00e9m Caif\u00e1s. Azumbrado do raiar ao por do sol, o mancebo era reconhecidamente o maior mamador daquela maravilhosa cidade visitada periodicamente pelo famoso pai de santo Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es, tamb\u00e9m alcunhado na regi\u00e3o por Pai Tom\u00e1s. Conheci Caetit\u00e9 por engano. Pensei em chegar em Guanambi, terra de Nilo Coelho, com quem tinha uma entrevista marcada. Por uma dessas obras divinas, aportei onde Z\u00e9 Gomes e seu pai, o velho Di Cazuza, catalogavam os feitos de Caif\u00e1s. E foram muitos. Um deles foi com o v\u00e9io Cazuza, homem s\u00e9rio, abst\u00eamio e, nas horas vagas, cambono de Pai Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s alguns trabalhos em parceria e em louvor de dona Can\u00f4, ambos conseguiram o imposs\u00edvel: jorrar petr\u00f3leo no ch\u00e3o em que s\u00f3 dava cacau. Conto mais adiante a apronta\u00e7\u00e3o de Caif\u00e1s, tamb\u00e9m conterr\u00e2neo do ex-deputado e ex-ministro Prisco Viana e do cantante Waldick Soriano, pioneiro das m\u00fasicas sobre chifre. N\u00e3o entrevistei Nilo, mas me fiz amigo de Z\u00e9, o filho do v\u00e9io s\u00e9rio, respeitado e abst\u00eamio Di Cazuza, e acabei conhecendo as hist\u00f3rias de Prisco sobre Sarney (n\u00e3o conto nem sob porrete) e ouvindo as cachorradas e os numerosos verbetes relativos a cornos apresentados por Waldick. Aventureiro, Z\u00e9 jamais sentou em um banco de faculdade. Na verdade, nunca sentou em coisa alguma. No entanto, era bem letrado, culto nos conhecimentos gerais, falador, fazedor de l\u00ednguas e companheiro de \u00faltima hora do comandante irland\u00eas do transatl\u00e2ntico Island Escape, carinhosamente apelidado pelo nosso protagonista de Ilha do Peido. S\u00f3 para ilustrar, seu menor feito foi uma viagem de escuna de Macei\u00f3 at\u00e9 Lisboa. Era o Z\u00e9 de todos, o Z\u00e9 imortal, o Z\u00e9 Di Cazuza que s\u00f3 n\u00e3o fez chover.<\/p>\n<p>\u00c9 o Z\u00e9 que, na pior das hip\u00f3teses, est\u00e1 hoje contando alguns equ\u00edvocos de Pedro \u00c1lvares Cabral ao filho do dono do mundo. Voltando ao tema, perdi Nilo Coelho de vista, mas consegui hist\u00f3rias inimagin\u00e1veis. Coroado coroinha da velha matriz da cidade, Z\u00e9 Gomes n\u00e3o esquecia o dia da prociss\u00e3o do Senhor Morto. E n\u00e3o s\u00f3 a seguia. Acompanhava de perto o mestre musical Rob\u00e9rio Ariovaldo, formado no interior sergipano e regente da bandinha local. Carregado por quatro fornidos rapazes da Grande Caetit\u00e9, o andor era seguido por uma multid\u00e3o contrita, pelo prefeito Cl\u00e1udio C\u00e9sar Ladeia, venerando das causas populares, pelo padre Jackson Ubiratan e pelo monsenhor Robson Etiene, vindo da capital especialmente para o divertimento s\u00f3cio-religioso. Entre um e outro acorde, Z\u00e9 observava eventuais eventos paralelos. Pelo andar do andor, pensei em caminhada de, no m\u00ednimo, dois dias, mas terminou bem antes e de maneira tr\u00e1gica.<\/p>\n<p>De repente, o filho de Cazuza percebe, descendo das ruas \u00edngremes da cidade, o \u00f4nibus do tipo jardineira que ligava diariamente Caetit\u00e9 \u00e0 vizinha Guanambi. A lota\u00e7\u00e3o descia sem freio e justamente na dire\u00e7\u00e3o do povo de olhos fechados da prociss\u00e3o. Correndo no meio do povo, Z\u00e9 chegou aos ouvidos do padre Jackson e anunciou a iminente cat\u00e1strofe. Microfone \u00e0 m\u00e3o, o sacerdote lascou a lasca de torresmo no canto da boca e come\u00e7ou a gritar: \u201cA jardineira, a jardineira, a jardineira\u201d. Obediente e longe do fato, o maestro Rob\u00e9rio Ariovaldo ajeitou a sanfona, estalou os dedos e a bandinha sapecou: \u201cOh, jardineira, por que est\u00e1s t\u00e3o triste? Mas o que foi que te aconteceu?\u201d No dia seguinte, os jornais de Salvador e do pa\u00eds ainda n\u00e3o tinham not\u00edcias do n\u00famero total de mortos. Perdido e tamb\u00e9m dan\u00e7ando no meio do frisson popular, fiquei sem a mat\u00e9ria. Fui demitido, mas at\u00e9 hoje n\u00e3o esque\u00e7o que, diante de um absurdo jornal\u00edstico, primeiro a devo\u00e7\u00e3o. A divers\u00e3o fica para depois. E ficou.<\/p>\n<p>Aposentado, o velho Di Cazuza resolveu empreender. Testemunhei a montagem de uma farm\u00e1cia, erguida para mode nosso benem\u00e9rito passar o tempo mais r\u00e1pido. Comum nas cidades interioranas, toda inaugura\u00e7\u00e3o tem de ser precedida de algumas besteirinhas para forrar o bucho, tamb\u00e9m conhecido na regi\u00e3o por estombro. Reportando mais essa hist\u00f3ria, atesto que a bandeja estava lotada de croquetes variados, quibes, past\u00e9is e uns canap\u00e9s de carne de bode. Tudo regado a Ki Suco de framboesa importado de Salvador. Encerrada a festan\u00e7a, Di Cazuza fechou o estabelecimento e recolheu-se a seus aposentos, no andar de cima. Na prateleira do empreendimento, uma fartura de cibalena, melhoral, merthiolate, pomada Min\u00e2ncora, alka seltzer, camisas de v\u00eanus somente at\u00e9 o P (tamanho m\u00e1ximo dos caetiteenses) e a \u00faltima novidade da ind\u00fastria farmac\u00eautica da \u00e9poca: suposit\u00f3rios bicolores e lubrificados, de modo a facilitar o escorregamento esfinct\u00f3rio.<\/p>\n<p>A\u00ed ressurge Nen\u00e9m Caif\u00e1s. Madrugada correndo solta, muito frio e uma chuva torrencial. Do nada, come\u00e7a uma longa bate\u00e7\u00e3o na porta de a\u00e7o da farm\u00e1cia. Preocupada, dona Cazuza acorda o velho e pede para ele atender. \u201cEnchi o bucho do povo e qual foi minha paga? N\u00e3o me compraram sequer um rem\u00e9dio para lombriga. N\u00e3o vou!\u201d Tamanha a insist\u00eancia da patroa, Di Cazuza, imaginando uma crian\u00e7a febril, uma gr\u00e1vida pr\u00f3xima da hora ou um idoso em estado terminal, resolveu conferir. Ao levantar, de roup\u00e3o estrelado, deu de cara com Nen\u00e9m Caif\u00e1s. Enfurecido o rec\u00e9m-empossado empres\u00e1rio perguntou ao bebum: \u201cO que voc\u00ea quer a essa hora?\u201d \u201cEu quero me pesar\u201d, respondeu Caif\u00e1s, que, segundo a lenda caetiteana, foi internado com m\u00faltiplas fraturas. Felizmente, o mo\u00e7o morreu recentemente e de Covid. Me parece que esta foi uma das hist\u00f3rias contadas por Prisco Viana a Jos\u00e9 Sarney. E sabem o que Prisco recebeu de troco? Um monte de Marimbondos de Fogo. Melhor morrer na prociss\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda cidade brasileira que se preza tem um b\u00eabado com algum recorde no Guiness Book ou prestes a ser inscrito na Wikip\u00e9dia. 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