{"id":303186,"date":"2023-04-17T07:07:21","date_gmt":"2023-04-17T10:07:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=303186"},"modified":"2023-04-17T07:09:27","modified_gmt":"2023-04-17T10:09:27","slug":"velorio-no-rio-tem-cenario-funebre-da-seducao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/velorio-no-rio-tem-cenario-funebre-da-seducao\/","title":{"rendered":"Vel\u00f3rio no Rio tem cen\u00e1rio f\u00fanebre da sedu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Acompanhado \u00e0 fal\u00eancia da cidade e do Estado do Rio de Janeiro, um dos maiores eventos das classes C e D est\u00e1 reduzido a uma limitada e tristonha reuni\u00e3o de fam\u00edlia. Mesmo assim quando esta consegue ser avisada e n\u00e3o \u00e9 assaltada antes do destino. Embora possa parecer macabra e nauseabunda, a refer\u00eancia aos antigos vel\u00f3rios da tamb\u00e9m antiga Guanabara \u00e9 das mais festivas, considerando que o carioca \u00e9 o povo que melhor encarna o conceito da espiritualidade sobre a morte. Em vez da tristeza recorrente e natural, um funeral deveria ser um evento, algo como o lan\u00e7amento de uma candidatura capaz de mudar os rumos de uma na\u00e7\u00e3o sofrida e abandonada. Qualquer semelhan\u00e7a com o Brasil ser\u00e1 mera coincid\u00eancia.<\/p>\n<p>Sei que, doutrinariamente, essa recomenda\u00e7\u00e3o beira uma heresia para pais, filhos, irm\u00e3os, vi\u00favas, vi\u00favos e afins. Respeitando meus pais j\u00e1 falecidos e minha santa fam\u00edlia, podem me xingar do que quiserem. S\u00f3 n\u00e3o aceito a alcunha de paneleiro, refer\u00eancia nada positiva dos portugueses do Sul aos patr\u00edcios do Norte. O resto pode. Apenas para ilustrar, desde menino convivo festivamente com alguns dos principais acontecimentos brasileiros. Nascidos no sub\u00farbio do Rio de Janeiro, carnaval, futebol, rodas de samba, macumba, vel\u00f3rio e virada de laje com angu \u00e0 baiana eram, historicamente, espet\u00e1culos com p\u00fablico garantido na Zona Sul e nos sub\u00farbios do Rio de Janeiro. Talvez a ordem seja inversa. Pouco importa. Importante era a \u201cfesta\u201d.<\/p>\n<p>Pe\u00e7a mais importante da celebra\u00e7\u00e3o, no meu tempo defunto era um misto de anfitri\u00e3o e convidado de honra. O dito cujo n\u00e3o se pronunciava, mas, de vez em quando, era lembrado, principalmente quando a vi\u00fava ainda garantia boas salivadas. Refiro-me \u00e0 oscula\u00e7\u00e3o nas bochechas. Eita povo que s\u00f3 pensa naquilo! Sab\u00edamos de cor a ordem do dia no ouvido da santa agora sem marido: Partiu dessa para melhor, mas, precisando, sabe onde me encontrar. Normalmente funcionava. Mas s\u00f3 para alguns. O fato \u00e9 que, menino, adolescente, jovem e adulto, n\u00e3o perdia um vel\u00f3rio, conhecido naqueles \u00e1ureos tempo por \u201cgurufinho\u201d. Era um \u201cprazer\u201d, uma presen\u00e7a quase humanit\u00e1ria, prestar solidariedade aos familiares do morto. \u00c9 claro que abra\u00e7ar e consolar vi\u00favas chorosas era o forte da minha rapaziada. O meu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Lembro como se fosse hoje, as boas vi\u00favas do bairro, ter\u00e7o nas m\u00e3os e debru\u00e7adas sobre o esquife do amado esposo, choravam com um dos olhos abertos. Normalmente era o direito. O esquerdo demarcava terreno, tentava descobrir sirigaitas, procurava algum prov\u00e1vel futuro pretendente e, naturalmente, monitorava eventuais golpistas defuntistas. Os mais velhos jogavam buraco e porrinha (palitinho), tomavam muita cacha\u00e7a e caf\u00e9. S\u00f3 faltava o forrozinho para completar o cen\u00e1rio f\u00fanebre da sedu\u00e7\u00e3o. Enfim, qualquer vel\u00f3rio era uma festa, como deveria ser at\u00e9 hoje n\u00e3o fosse a extremada viol\u00eancia das grandes cidades, particularmente da outrora Cidade Maravilhosa. Hist\u00f3ria de b\u00eabados pululavam no recinto. Real, uma delas revela o estado de esp\u00edrito e a rapidez de racioc\u00ednio de um bebum.<\/p>\n<p>Agarrado \u00e0 cabeceira do caix\u00e3o do amigo, foi informado que chegara a hora da partida para a morada final. Obrigado a sair, deu a solu\u00e7ada final, momento em que as dentaduras superior e inferior ca\u00edram sob a cabe\u00e7a do defunto. Sem ter como peg\u00e1-las, foi r\u00e1pido e rasteiro: \u201cV\u00e1 em paz, meu irm\u00e3o. E leve com voc\u00ea o meu \u00faltimo sorriso\u201d. Ficou banguela, mas feliz. Vale registrar que as boas casas do ramo n\u00e3o enriqueciam tanto quanto hoje, quando pagamos taxas sobre as taxas das taxas que justificam as tachas da urna mortu\u00e1ria. Lembro de uma famosa, cujo slogan era fant\u00e1stico: \u201cQuem \u00e9 vivo sempre aparece\u201d. E apareciam aos borbot\u00f5es. Ainda saudoso da adolesc\u00eancia quase f\u00fanebre, dia desses, j\u00e1 em Bras\u00edlia, vi um an\u00fancio de falecimento e l\u00e1 fui ver como eram os gurufinhos na cidade.<\/p>\n<p>Chegando \u00e0 capela, chequei o nome do indigitado: Luiz Bayer. Era o mesmo de um antigo reclame (comercial). De cara, dei de cara com a cara do defunto e com meia d\u00fazia de sorridentes acompanhantes, a maioria homens. N\u00e3o sei se eram parentes, amigos ou agregados, mas, pelo tipo da conversa, o morto parecia abonado e certamente havia deixado alguns precat\u00f3rios a receber. Aproximei-me e disse aos presentes que estava ali em nome da confraria do bem. Sozinho, chorei quase meia hora sobre o caix\u00e3o do desconhecido cidad\u00e3o. Ao perceber que ningu\u00e9m estava entendendo nada, confessei meu gesto de compaix\u00e3o e solidariedade. Meus companheiros de infort\u00fanio, a verdade \u00e9 que n\u00e3o conhecia o Luiz, mas ao saber de sua passagem corri para c\u00e1, pois aprendi com minha av\u00f3 que se o cabra \u00e9 Bayer \u00e9 bom.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acompanhado \u00e0 fal\u00eancia da cidade e do Estado do Rio de Janeiro, um dos maiores eventos das classes C e D est\u00e1 reduzido a uma limitada e tristonha reuni\u00e3o de fam\u00edlia. Mesmo assim quando esta consegue ser avisada e n\u00e3o \u00e9 assaltada antes do destino. 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