{"id":303451,"date":"2023-04-22T00:00:45","date_gmt":"2023-04-22T03:00:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=303451"},"modified":"2023-04-22T09:10:33","modified_gmt":"2023-04-22T12:10:33","slug":"obras-do-museu-de-arte-naif-vivem-ao-deus-dara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/obras-do-museu-de-arte-naif-vivem-ao-deus-dara\/","title":{"rendered":"Obras do Museu de Arte Na\u00eff vivem ao Deus dar\u00e1"},"content":{"rendered":"<p>Um apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, abriga hoje a maior cole\u00e7\u00e3o de arte na\u00eff do mundo. S\u00e3o milhares de obras de artistas brasileiros e estrangeiros em local improvisado, sem acesso do p\u00fablico. Essa foi a solu\u00e7\u00e3o encontrada pela muse\u00f3loga Jacqueline Finkelstein para armazenar temporariamente o acervo do Museu Internacional de Arte Na\u00eff (Mian), fechado desde 2016. A antiga sede, um casar\u00e3o do s\u00e9culo XIX, foi vendida no ano passado.<\/p>\n<p>Jacqueline \u00e9 filha de Lucien Finkelstein (1993-2008), joalheiro franc\u00eas que construiu a cole\u00e7\u00e3o durante d\u00e9cadas no Rio. Sem contar com investimentos p\u00fablicos ou privados para manter o museu em funcionamento, ela decidiu vender um conjunto das melhores obras.<\/p>\n<p>Enquanto espera pelas ofertas, est\u00e1 catalogando cerca de tr\u00eas mil quadros, feitos por 300 artistas entre eles, Joaquim Leandro, Cardosinho, Miriam, Maria Auxiliadora, Silvia, Chico da Silva, Heitor dos Prazeres, Elza, Gerson, Bebete, Ozias, Mabel, Gerson e Lia Mittarakis.<\/p>\n<p>A cole\u00e7\u00e3o atraiu o interesse de compradores estrangeiros. Jacqueline n\u00e3o descarta o neg\u00f3cio, mas garante que uma proposta nacional ter\u00e1 prioridade.<\/p>\n<p>\u201cEstou na esperan\u00e7a de conseguir encontrar um destino para as obras. \u00c9 algo que eu gostaria muito que acontecesse para eu poder ficar tranquila com a minha consci\u00eancia. Primeiro, em homenagem ao meu pai. A arte na\u00eff era a paix\u00e3o dele. Depois, porque eu acho important\u00edssimo divulgar e valorizar o que a gente tem de precioso nessa terra. Arte na\u00eff \u00e9 uma das express\u00f5es mais brasileiras, mais verdadeiras do nosso povo. Eu acho fundamental guardar os quadros aqui. Acho que \u00e9 isso que mais me motiva a manter essa cole\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje e ela estar assim intacta\u201d, declara Jacqueline.<\/p>\n<p><strong>Potenciais investidores<\/strong><br \/>\nQuem assumiu a tarefa de negociar o acervo no Brasil foi Fabio Szwarcwald, gestor cultural, colecionador, ex-diretor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV) e do Museu de Arte Moderna do Rio (MAM).<\/p>\n<p>\u201cEstou ajudando a procurar potenciais investidores que possam comprar esse acervo e doar para um museu. O meu receio \u00e9 que venha algu\u00e9m de fora interessado e compre a cole\u00e7\u00e3o. A minha ideia \u00e9 tentar mant\u00ea-la no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro, que hoje tem o maior museu de arte popular, que \u00e9 o Museu do Pontal. Estou conversando com eles [investidores], j\u00e1 demonstraram interesse, mas querem analisar agora a cole\u00e7\u00e3o\u201d, salienta.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do seleto conjunto de obras \u00e0 venda, h\u00e1 outros milhares de quadros do Mian guardados no apartamento em Copacabana. Jacqueline se comprometeu a do\u00e1-los para outras institui\u00e7\u00f5es culturais, entre elas, a Pinacoteca de S\u00e3o Paulo, o Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro, o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, e o Museu do Sol, em Pen\u00e1polis (SP). No ano passado, o painel \u201cBrasil, cinco s\u00e9culos de luta\u201d, de Aparecida Azedo, foi doado para o Museu Hist\u00f3rico Nacional, no Rio.<\/p>\n<p><strong>Saga do museu<\/strong><br \/>\nO Museu Internacional de Arte Na\u00eff do Brasil (Mian) foi fundado e aberto ao p\u00fablico em outubro de 1995 por Lucien Finkelstein. A sede escolhida foi um im\u00f3vel do s\u00e9culo XIX, comprado em 1994. Tombado como Patrim\u00f4nio Cultural em 2001, o casar\u00e3o fica no Cosme Velho, zona sul do Rio, a poucos metros da esta\u00e7\u00e3o de trem do Corcovado.<\/p>\n<p>O Mian recebeu o primeiro aporte financeiro em 2000, por meio do Fundo Nacional da Cultura, do Minist\u00e9rio da Cultura. O valor de pouco mais de R$ 30 mil era destinado ao projeto de cataloga\u00e7\u00e3o e informatiza\u00e7\u00e3o do acervo. E foi renovado por mais um ano.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, foi liberada at\u00e9 2004 verba da prefeitura do Rio. Sem novos investimentos, Lucien encerrou as atividades do museu por tempo indeterminado em 2007. Apenas grupos escolares e pesquisadores passaram a ter acesso ao acervo em atividades agendadas.<\/p>\n<p>Lucien Finkelstein morreu em 2008 aos 76 anos de idade e a filha, a muse\u00f3loga Jacqueline Finkelstein, assumiu a presid\u00eancia da institui\u00e7\u00e3o. Em 2010, uma inunda\u00e7\u00e3o danificou cerca de 300 obras da cole\u00e7\u00e3o. Essa sequ\u00eancia de eventos levou Jacqueline a encerrar as atividades do museu em 2011. Oficialmente fechado para o grande p\u00fablico de 2007 a 2012, o Mian reabriu depois de ser contemplado em um edital da Secretaria de Estado de Cultura, no qual recebeu R$ 500 mil durante dois anos.<\/p>\n<p>Entre 2012 e 2016, o museu se manteve com leis de incentivo, bilheteria, organiza\u00e7\u00e3o de eventos e arrendamento de um espa\u00e7o para um caf\u00e9. At\u00e9 que em 23 de dezembro de 2016, fechou novamente as portas. Sem patroc\u00ednios e incentivos externos, n\u00e3o conseguiu pagar os custos com a estrutura.<\/p>\n<p><strong>Exposi\u00e7\u00f5es itinerantes<\/strong><br \/>\nNos principais momentos de crise, uma estrat\u00e9gia recorrente foi a realiza\u00e7\u00e3o de exposi\u00e7\u00f5es itinerantes com parte do acervo. A ideia era divulgar a arte na\u00eff e procurar solu\u00e7\u00f5es de investimento. Isso aconteceu em 2007, em parcerias realizadas com o Servi\u00e7o Social do Com\u00e9rcio (Sesc) do Rio e de S\u00e3o Paulo. Em 2011, com pelo menos 20 mostras na Grande S\u00e3o Paulo e no interior do estado. Em 2019, o destaque foi um evento na Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage, no Rio, com 325 obras.<\/p>\n<p>Agora, em 2023, \u00e9 a vez do projeto Arte nas Esta\u00e7\u00f5es, que inclui itiner\u00e1rio pelo interior de Minas Gerais. S\u00e3o 270 obras do Mian expostas em Congonhas, Ouro Preto e Conselheiro Lafaiete. Uma primeira rodada ocorreu no in\u00edcio de fevereiro e uma nova \u00e9 realizada este m\u00eas.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 o maior projeto de itiner\u00e2ncia de uma cole\u00e7\u00e3o este ano. O objetivo \u00e9 sair do eixo Rio-S\u00e3o Paulo e levar arte na\u00eff para novos p\u00fablicos, onde realmente a gente percebe que existe uma car\u00eancia de exposi\u00e7\u00f5es desse alto n\u00edvel. A cole\u00e7\u00e3o \u00e9 fant\u00e1stica e fala com o interior do Brasil, porque v\u00e1rios artistas vieram do interior. Por isso, eu escolhi Minas Gerais. Ent\u00e3o, \u00e9 um projeto que resgata artistas que foram invisibilizados\u201d, diz Fabio Szwarcwald, que tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel pela mostra.<\/p>\n<p><strong>Valoriza\u00e7\u00e3o da arte na\u00eff<\/strong><br \/>\nDe origem francesa, a palavra naif pode ser interpretada como algo ing\u00eanuo, mas tamb\u00e9m natural e espont\u00e2neo. O primeiro uso dela no campo art\u00edstico foi para caracterizar, de forma pejorativa, o trabalho do artista franc\u00eas Henri Rousseau (1844-1910) no s\u00e9culo XIX. Autodidata, Rousseau nunca estudou em um centro acad\u00eamico.<\/p>\n<p>O tempo passou e o na\u00eff come\u00e7ou a ser visto com mais respeito por cr\u00edticos de arte. A simplicidade, antes considerada negativa, agora \u00e9 o maior atrativo. Virou s\u00edmbolo da subjetividade e originalidade criativa.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea chega na frente de um quadro e v\u00ea exatamente o que o artista quer passar. N\u00e3o precisa entender de arte, n\u00e3o precisa ser um conhecedor. Simplesmente gosta ou n\u00e3o. \u00c9 uma arte que voc\u00ea n\u00e3o aprende, ela vem de dentro para fora. Ela \u00e9 espont\u00e2nea. N\u00e3o precisa seguir nenhuma tend\u00eancia, nenhum modismo. Voc\u00ea tem que buscar a inspira\u00e7\u00e3o l\u00e1 dentro de voc\u00ea mesmo, na imagina\u00e7\u00e3o, para ser um bom na\u00eff\u201d, afirma Jacqueline Finkelstein.<\/p>\n<p>H\u00e1 cada vez mais espa\u00e7o em centros culturais e museus para o g\u00eanero. \u00c9 o que atesta o especialista Jacques Ardies, autor do livro \u201cA arte na\u00eff no Brasil\u201d, de 1998. Ele possui uma galeria em S\u00e3o Paulo com centenas de quadros e conta que houve um novo despertar de interesse pelas obras, principalmente dos cr\u00edticos estrangeiros.<\/p>\n<p>\u201cNo final do ano passado, consegui realizar a venda de uma obra do Chico da Silva, artista que hoje est\u00e1 sendo muito procurado. E eu tinha uma obra excepcional dele, grande, que estava comigo h\u00e1 uns 30 anos e foi comprada pela Tate Gallery, de Londres. Isso prova que at\u00e9 os museus l\u00e1 de fora est\u00e3o interessados e d\u00e3o import\u00e2ncia para a arte brasileira\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>Jacques endossa a torcida para que o na\u00eff tenha maior reconhecimento no Brasil, o que inclui a perman\u00eancia da cole\u00e7\u00e3o do Mian.<\/p>\n<p>\u201cEu acho essa arte essencial para o pa\u00eds, porque ela \u00e9 extremamente brasileira. \u00c9 muito original. Estamos falando de uma arte que expressa bem as nossas ra\u00edzes. Por isso, deveria ser incentivada, apoiada e patrocinada\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, abriga hoje a maior cole\u00e7\u00e3o de arte na\u00eff do mundo. S\u00e3o milhares de obras de artistas brasileiros e estrangeiros em local improvisado, sem acesso do p\u00fablico. 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