{"id":303459,"date":"2023-04-22T18:43:14","date_gmt":"2023-04-22T21:43:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=303459"},"modified":"2023-04-22T18:44:49","modified_gmt":"2023-04-22T21:44:49","slug":"eleitor-sera-o-fiel-da-balanca-de-lula-na-guerra-russo-ucraniana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/eleitor-sera-o-fiel-da-balanca-de-lula-na-guerra-russo-ucraniana\/","title":{"rendered":"Eleitor ser\u00e1 o fiel da balan\u00e7a de Lula na guerra russo-ucraniana"},"content":{"rendered":"<p>O ponto de partida de qualquer an\u00e1lise da chamada &#8220;guerra da Ucr\u00e2nia&#8221; \u00e9 a irrecus\u00e1vel evid\u00eancia de que a antiga rep\u00fablica sovi\u00e9tica foi invadida pela pot\u00eancia vizinha e quase irm\u00e3 e permanece h\u00e1 mais de um ano sob cerco militar. Sua integridade, de pa\u00eds reconhecido como soberano pela comunidade internacional, \u00e9 amea\u00e7ada por anexa\u00e7\u00f5es anunciadas ou efetivadas pelas tropas do Kremlin, que n\u00e3o pode ser apresentado como herdeiro da utopia socialista frustrada no solo russo, embora devam ser reconhecidos seus esfor\u00e7os na resist\u00eancia ao imperialismo. N\u00e3o se conhecem dados confi\u00e1veis sobre o n\u00famero de v\u00edtimas de ambos os lados da fronteira, e ainda \u00e9 cedo para o invent\u00e1rio da destrui\u00e7\u00e3o no territ\u00f3rio ucraniano.<\/p>\n<p>Como em todo conflito, a grande dificuldade \u00e9 encontrar o caminho de volta para casa. O que se se anunciou como uma Blitzkrieg n\u00e3o tem, hoje, prazo para acabar, e todas as possibilidades de desfecho devem estar abertas. No plano estritamente militar, dizem os observadores que o conflito caminha para um beco sem sa\u00edda, enquanto fracassa a busca de alternativa pela via da negocia\u00e7\u00e3o, para a qual a diplomacia brasileira intenta colaborar, para o inc\u00f4modo da imprensa nativa. Ao velho complexo de vira-lata, de que falava Nelson Rodrigues, soma-se a depend\u00eancia ideol\u00f3gica que fez de nossas chamadas elites canais reprodutores dos interesses da grande pot\u00eancia do Norte e adjac\u00eancias.<\/p>\n<p>Esta guerra \u00e9 tudo isso, mas n\u00e3o \u00e9 apenas isso, pois \u00e9 principalmente o vestibular de um tr\u00e2nsito de eras (e eis a quest\u00e3o central), o que \u00e9 percebido pela diplomacia brasileira restaurada. Vivemos o perigoso desdobramento da disputa da hegemonia planet\u00e1ria exercida pelos EUA, em franco embate com a emerg\u00eancia chinesa como pot\u00eancia econ\u00f4mica e militar em pleno desenvolvimento capitalista, pondo em quest\u00e3o o sonho americano da unipolaridade que lhe ca\u00edra no colo com o suic\u00eddio da URSS anunciado no apagar das luzes de 1991.<\/p>\n<p>A guerra comercial e tecnol\u00f3gica contra Pequim, aprofundada a partir de Trump, teve sua natureza alterada ao se expressar em conflito armado, ainda quando, como \u00e9 o caso presente, os principais contendores estejam aparentemente fora da arena, pois ainda lutam por interm\u00e9dio de terceiros. Uma vez mais, lembrando Clausewitz, a guerra (cl\u00e1ssica) \u00e9 mera continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, no caso concreto uma tr\u00e1gica necessidade determinada pelo fracasso pol\u00edtico da guerra diplom\u00e1tica, comercial e tecnol\u00f3gica liderada pelos EUA na at\u00e9 aqui frustrada expectativa de conter o novo &#8220;eixo do mal&#8221;: a frente eurasiana levada \u00e0 China, \u00e0 R\u00fassia e ao Ir\u00e3 pelas conting\u00eancias hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>O conflito em curso, em sua modalidade militar, consiste numa guerra terceirizada, que pode ser apenas um &#8220;freio de arruma\u00e7\u00e3o&#8221;, um teste de for\u00e7as antes da perspectiva de um embate maior, que o andar da carruagem pode fazer inevit\u00e1vel. Mas igualmente pode ser seu prel\u00fadio, e neste caso a imagina\u00e7\u00e3o do ep\u00edlogo fica f\u00e1cil.<\/p>\n<p>O jogo, como sempre, ali\u00e1s, \u00e9 muito mais profundo do que sugere sua apar\u00eancia, e n\u00e3o pode ser compreendido pela an\u00e1lise manique\u00edsta, bin\u00e1ria, ditada pela grande imprensa brasileira, sem autonomia intelectual ou pol\u00edtica. O conflito, que nada tem de ideol\u00f3gico, \u00e9 mais que uma disputa de mercado, por significar a disputa pela hegemonia planet\u00e1ria (econ\u00f4mica, militar e ideol\u00f3gica) em que se engalfinham os imp\u00e9rios, como quem caminha por caminhos tortuosos que, por for\u00e7a do processo hist\u00f3rico, n\u00e3o podem ser evitados.<\/p>\n<p>A substitui\u00e7\u00e3o da guerra tout court pela via negociada (que no momento parece s\u00f3 interessar \u00e0 R\u00fassia e \u00e0 Ucr\u00e2nia) enfrenta obst\u00e1culos, a come\u00e7ar pelos poderosos interesses da ind\u00fastria b\u00e9lica, o complexo militar-industrial ao qual se referiu Dwight Eisenhower no famoso discurso de transmiss\u00e3o da presid\u00eancia dos EUA, em 1961. O expansionismo da OTAN (bra\u00e7o armado dos EUA na Europa) a caminho das fronteiras russas e a resposta russa, ensejam o armamentismo mundial, de especial na Europa e no Jap\u00e3o, e vem fortalecer a ind\u00fastria b\u00e9lica estadunidense, a grande benefici\u00e1ria. \u00c9 momento de grandes neg\u00f3cios. Quando o emprego de armas nucleares passa a integrar o discurso das pot\u00eancias, a guerra convencional surge como um al\u00edvio.<\/p>\n<p>O leitmotiv da continuidade da guerra (e o cimento das alian\u00e7as que se v\u00eam estabelecendo \u00e0 sua margem), portanto, n\u00e3o \u00e9 a defesa da integridade ucraniana, dificilmente recuper\u00e1vel.<\/p>\n<p>Que pretendem os EUA fazendo a guerra por interm\u00e9dio de prepostos? A estrat\u00e9gia ostensiva do Pent\u00e1gono parece ser sustentar nos n\u00edveis atuais (guerra comercial e conflito armado convencional por interm\u00e9dio da Otan e aliados). Essa estrat\u00e9gia, que fala ao curto prazo, resguardaria os EUA de novos desastres militares (Vietn\u00e3 e Afeganist\u00e3o), ademais de reduzir os riscos de uma guerra nuclear, indesejada, mas jamais de todo descartada, e para a qual todos se preparam. Na opera\u00e7\u00e3o presente um dos frutos j\u00e1 colhidos \u00e9 a fragiliza\u00e7\u00e3o do aliado at\u00f4mico de seu contendor.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do efetivo comando da OTAN, a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia ensejou o fortalecimento da lideran\u00e7a dos EUA sobre uma Europa que j\u00e1 acalentou sonhos autonomistas. Hoje, continente- protetorado, n\u00e3o pode mais alimentar a expectativa de projeto estrat\u00e9gico pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>De outra parte, a estrat\u00e9gia chinesa claramente persegue o adiamento do conflito direto entre as pot\u00eancias, confiada na continuidade de seu desenvolvimento acelerado (o PIB do primeiro trimestre de 2023 cresceu 4,5%). Qualquer que seja o sum\u00e1rio da guerra, a China ser\u00e1 vencedora, sem haver necessitado ter\u00e7ar armas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da paz, a hist\u00f3ria anuncia dois derrotados, a Ucr\u00e2nia por tudo o que \u00e9 \u00f3bvio, e a R\u00fassia, que at\u00e9 aqui n\u00e3o logrou realizar o objetivo que na ret\u00f3rica do Kremlin havia imposto a invas\u00e3o: assegurar sua defesa amea\u00e7ada pelo cerco das tropas da OTAN. Neste sentido, o que vemos \u00e9 a continuidade do expansionismo da alian\u00e7a militar, e portanto dos interesses geopol\u00edticos de Washington. A organiza\u00e7\u00e3o militar (com bases de lan\u00e7amento de artefatos nucleares na B\u00e9lgica, Alemanha, It\u00e1lia, Holanda e Turquia), sai fortalecida com a ades\u00e3o de pa\u00edses antes neutros, como Su\u00e9cia e Finl\u00e2ndia, enquanto v\u00e1rios de seus membros j\u00e1 anunciaram a decis\u00e3o de aumentar os or\u00e7amentos militares, como \u00e9 o caso da Alemanha. No Pac\u00edfico, em nome da confronta\u00e7\u00e3o com a China, o Jap\u00e3o anuncia sua ades\u00e3o ao armamentismo.<\/p>\n<p>Qualquer que seja o fim que a hist\u00f3ria tenha reservado para o conflito, a R\u00fassia emergir\u00e1 dele como devedora e tribut\u00e1ria de uma China extremamente poderosa, tanto na esfera econ\u00f4mica, quanto na esfera pol\u00edtica, quanto na esfera militar (fortalecida com o acervo nuclear da aliada), quanto, por todas essas raz\u00f5es, no plano da geopol\u00edtica mundial. Segunda pot\u00eancia do planeta, aguardar\u00e1 sem ansiedade o anunciado fim do largo ciclo de hegemonia dos EUA. Viveremos, ent\u00e3o, o intermezzo de um tempo multipolar. Ser\u00e3o os tempos da emerg\u00eancia da Eur\u00e1sia.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria presente abre espa\u00e7o para a retomada de nosso papel como sujeito ativo e altivo nas rela\u00e7\u00f5es internacionais, a um tempo consciente de seu peso e de suas limita\u00e7\u00f5es, livre de condicionamentos manique\u00edstas. Lula j\u00e1 deu inumer\u00e1veis demonstra\u00e7\u00f5es da consci\u00eancia de seu papel \u2013 uma indeclin\u00e1vel conting\u00eancia hist\u00f3rica \u2013 como presidente do Brasil e l\u00edder regional, acertadamente rejeitando o manique\u00edsmo no qual a grande imprensa e os setores mais atrasados da sociedade brasileira pretendem nos encarcerar.<\/p>\n<p>O caminho est\u00e1 aberto, mas o caminhar conhecer\u00e1 percal\u00e7os, em face da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as dominante, avessa a um projeto nacional de soberania e independ\u00eancia. Nossa pol\u00edtica de rela\u00e7\u00f5es com o mundo, para se manter de p\u00e9, precisa contar com o apoio da sociedade, o que requer debate amplo com todas as for\u00e7as sociais.<\/p>\n<p><strong>*Ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia no primeiro governo de Lula<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ponto de partida de qualquer an\u00e1lise da chamada &#8220;guerra da Ucr\u00e2nia&#8221; \u00e9 a irrecus\u00e1vel evid\u00eancia de que a antiga rep\u00fablica sovi\u00e9tica foi invadida pela pot\u00eancia vizinha e quase irm\u00e3 e permanece h\u00e1 mais de um ano sob cerco militar. 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