{"id":303513,"date":"2023-04-23T09:19:48","date_gmt":"2023-04-23T12:19:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=303513"},"modified":"2023-04-23T09:19:48","modified_gmt":"2023-04-23T12:19:48","slug":"jorge-o-santo-amado-por-catolicos-e-religioes-afro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/jorge-o-santo-amado-por-catolicos-e-religioes-afro\/","title":{"rendered":"Jorge, o santo amado por cat\u00f3licos e religi\u00f5es afro"},"content":{"rendered":"<p>A devo\u00e7\u00e3o a S\u00e3o Jorge sempre fez parte da vida de Soneli Gomes. Sua rela\u00e7\u00e3o com o santo crist\u00e3o vem, segundo sua mem\u00f3ria, desde crian\u00e7a. \u201cMinha m\u00e3e vai fazer 93 anos e ela sempre foi muito devota. E eu sempre acompanhei minha m\u00e3e nessa trajet\u00f3ria. Eu tenho S\u00e3o Jorge na minha casa, tenho camisa de S\u00e3o Jorge. Ele \u00e9 o santo da minha prote\u00e7\u00e3o. Pelo menos uma vez por m\u00eas tenho que vir na igreja [de S\u00e3o Jorge, no centro da cidade do Rio de Janeiro]\u201d, disse a aposentada de 66 anos de idade.<\/p>\n<p>O santo, que teria sido um soldado romano nascido na Capad\u00f3cia, atual Turquia, e martirizado por sua f\u00e9 crist\u00e3, \u00e9 uma figura religiosa popular. Mesmo que as hist\u00f3rias sobre ele estejam envoltas em lendas.<\/p>\n<p>No Brasil, e em especial no Rio de Janeiro, \u00e9 alvo n\u00e3o s\u00f3 de venera\u00e7\u00e3o por muitas pessoas, como tamb\u00e9m se tornou um fen\u00f4meno pop, estampando camisetas, tatuagens e sendo tema de diversas m\u00fasicas, livros e at\u00e9 de uma telenovela, a Salve Jorge.<\/p>\n<p>Mundialmente, \u00e9 considerado protetor de escoteiros mirins, soldados e cavaleiros. \u00c9 padroeiro de pa\u00edses como Inglaterra, Ge\u00f3rgia e Eti\u00f3pia. Aqui no Brasil, um dos times de futebol mais populares do pa\u00eds, o Corinthians, escolheu o Santo Guerreiro como seu padroeiro. A sede do clube \u00e9 chamada Parque S\u00e3o Jorge.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, onde \u00e9 venerado por sambistas, e pela cultura do samba em geral, a devo\u00e7\u00e3o a ele atingiu outro patamar. O dia do santo, 23 de abril, \u00e9 feriado estadual. E, em maio de 2019, ele se tornou oficialmente padroeiro do estado.<\/p>\n<p>O Corpo de Bombeiros do estado tem na figura dele seu protetor, assim como policiais militares.<\/p>\n<p>O mestre em Educa\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Victor Gon\u00e7alves Ferreira, que estudou as festividades de S\u00e3o Jorge na cidade do Rio, diz que o santo crist\u00e3o \u00e9, na verdade, uma figura m\u00faltipla. \u201cAqui no Brasil, ele ganhou muitos sentidos, em especial quando ele \u00e9 associado aos orix\u00e1s. Aqui no Sudeste, S\u00e3o Jorge \u00e9 Ogum, o orix\u00e1 da tecnologia, do ferro, das batalhas, o orix\u00e1 guerreiro\u201d.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca da escravid\u00e3o, os africanos aprisionados e trazidos \u00e0 for\u00e7a para o Brasil passaram a associar seus orix\u00e1s a figuras cat\u00f3licas a fim de poder manter sua devo\u00e7\u00e3o sem serem importunados pelos escravistas crist\u00e3os, dando origem assim ao sincretismo religioso brasileiro.<\/p>\n<p>Ogum, deus do ferro e da guerra na mitologia iorub\u00e1, foi logo associado ao soldado romano martirizado. \u201cS\u00e3o Jorge ganha um outro contorno quando a ele s\u00e3o associadas, pelo processo sincr\u00e9tico, algumas caracter\u00edsticas t\u00edpicas de Ogum. Ent\u00e3o \u00e9 muito comum voc\u00ea, por exemplo, ver cerveja sendo oferecida a S\u00e3o Jorge. No Rio de Janeiro, quem entrou num boteco, j\u00e1 viu um S\u00e3o Jorge, com um copo de cerveja. Isso \u00e9 t\u00edpico de S\u00e3o Jorge, porque tamb\u00e9m \u00e9 t\u00edpico de Ogum. O sincretismo trouxe para S\u00e3o Jorge um valor ainda maior. Agregou a ele, valores, cultos e pr\u00e1ticas muito simb\u00f3licas. E criou-se uma m\u00edtica em torno desse santo\u201d, explica Ferreira.<\/p>\n<p>E, apesar de hoje nem todos devotos terem essa no\u00e7\u00e3o muito clara, as duas figuras s\u00e3o associadas, por\u00e9m distintas. \u201cA proximidade com as mitologias [de S\u00e3o Jorge e Ogum] faz com que as pessoas associem [as duas figuras]\u201d, disse a pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Ana Paula Alves Ribeiro.<\/p>\n<p>Segundo Ana Paula, a concentra\u00e7\u00e3o de terreiros no Rio de Janeiro pode tamb\u00e9m explicar a dimens\u00e3o do culto a S\u00e3o Jorge no estado. A pesquisadora acompanha as festas dedicadas ao santo, que costumam reunir milhares de pessoas em 23 de abril, h\u00e1 mais de 20 anos. Ela coordena o Museu Afrodigital da Uerj, que re\u00fane registros fotogr\u00e1ficos de festividades populares cariocas, como as dedicadas ao Santo Guerreiro, feitos desde 2012.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o Jorge tem uma penetra\u00e7\u00e3o na cultura popular, e na cultura afro-brasileira, que poucos santos t\u00eam. A gente vai encontrar pessoas com camiseta, com medalha, com anel. Voc\u00ea vai encontrar S\u00e3o Jorge na porta das casas, nos azulejos, em imagens. H\u00e1 um repert\u00f3rio sobre S\u00e3o Jorge que \u00e9 cantado pela m\u00fasica popular brasileira\u201d.<\/p>\n<p>O cantor e compositor Zeca Pagodinho, que tem uma imensa est\u00e1tua de S\u00e3o Jorge em sua casa, em Xer\u00e9m (RJ), \u00e9 um dos artistas que transformaram sua devo\u00e7\u00e3o em m\u00fasica. Ele comp\u00f4s, com Ratinho, a can\u00e7\u00e3o Lua de Ogum, e tamb\u00e9m gravou Pra S\u00e3o Jorge, de Pec\u00ea Ribeiro, e Ogum, de Marquinhos PQD e Claudemir.<\/p>\n<p>\u201cMinha devo\u00e7\u00e3o por S\u00e3o Jorge vem desde rapazinho. Eu via os malandros, os sambistas, com cord\u00e3o de S\u00e3o Jorge. Todo botequim tinha uma est\u00e1tua de S\u00e3o Jorge. \u00c9 um guerreiro, cavaleiro do c\u00e9u\u201d, disse Zeca Pagodinho.<\/p>\n<p>A pesquisadora Ana Paula acredita que haja uma identifica\u00e7\u00e3o dos brasileiros com a simbologia guerreira do santo. \u201cA quest\u00e3o de ser um santo guerreiro, mas tamb\u00e9m de vencer as demandas [atrai os devotos]. As demandas podem n\u00e3o ser grandes ou vis\u00edveis. Podem ser sentimentais, amorosas, espirituais, religiosas. As demandas s\u00e3o desde enfrentamentos cotidianos at\u00e9 aqueles grandes momentos de encruzilhadas em que a gente precisa tomar uma decis\u00e3o. Isso tem um grande apelo\u201d.<\/p>\n<p>O mestre em Educa\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Ferreira lembra que, na cidade do Rio de Janeiro, S\u00e3o Jorge \u00e9 uma esp\u00e9cie de padroeiro n\u00e3o oficial, j\u00e1 que a fun\u00e7\u00e3o oficial pertence a S\u00e3o Sebasti\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cDiferente do nosso padroeiro, S\u00e3o Jorge n\u00e3o \u00e9 representado na sua morte como S\u00e3o Sebasti\u00e3o e as flechas. S\u00e3o Jorge \u00e9 simbolizado como um grande guerreiro, aquele que vence os desafios e as batalhas, que matou o drag\u00e3o. E essa constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica \u00e9 muito significativa pro brasileiro, que \u00e9 um povo que sempre associa o cotidiano a essa quest\u00e3o da batalha. Pro fiel de S\u00e3o Jorge, as batalhas cotidianas s\u00e3o o drag\u00e3o que a gente mata todo dia. Se ele pode matar o drag\u00e3o, ele pode ajudar a vencer quest\u00f5es pessoais, de trabalho, de sa\u00fade. Por isso tanta gente se apega e faz promessas ao santo\u201d.<\/p>\n<p>Marcelo Lopes encontrou em S\u00e3o Jorge um alvo de sua f\u00e9 h\u00e1 cerca de 15 anos. \u201cEu precisei me apegar a alguma cren\u00e7a. Precisei acreditar em alguma coisa, porque eu n\u00e3o acreditava em nada, e isso me fez muito bem. S\u00e3o Jorge \u00e9 guerreiro e eu sou um cara guerreiro, trabalho desde pequeno, sempre gostei de ter o meu pr\u00f3prio dinheiro e \u00e9 nele que eu confio\u201d, disse o t\u00e9cnico de eletr\u00f4nica de 52 anos de idade, que todos os anos visita a igreja do centro da cidade.<\/p>\n<p>Para Jo\u00e3o Ferreira, o santo extrapola inclusive as religi\u00f5es que se associam a ele no Brasil (o catolicismo e os cultos de matriz africana). \u201cVoc\u00ea encontra uma s\u00e9rie de pessoas que dizem que n\u00e3o s\u00e3o de nenhuma religi\u00e3o espec\u00edfica, mas que s\u00e3o devotas de S\u00e3o Jorge, ou como elas dizem, \u2018amigos de Jorge\u2019 ou \u2018filhos de Jorge\u2019. \u00c9 interessante ver o quanto esse santo supera a pr\u00f3pria institucionaliza\u00e7\u00e3o religiosa, quando as pessoas se vinculam a ele como o patrono da f\u00e9. \u00c9 por isso que, no Rio de Janeiro, voc\u00ea sai a rua o tempo todo e encontra muitos carros com adesivos de S\u00e3o Jorge, muitas camisas de S\u00e3o Jorge. S\u00e3o Jorge virou quase um s\u00edmbolo pop\u201d.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, o dia do santo \u00e9 celebrado com cerim\u00f4nias em terreiros e com festas nas igrejas dedicadas a ele, como as igrejas de S\u00e3o Jorge, do centro, e de Quintino, na zona norte da cidade. Outra forma comum de celebrar o santo s\u00e3o as feijoadas promovidas por seus devotos.<\/p>\n<p>\u201cMuitas festas nessa data de 23 de abril v\u00e3o estar fazendo feijoadas nas ruas, seja comemorando com os amigos seja doando. A feijoada de S\u00e3o Jorge \u00e9 a comida de Ogum. O feij\u00e3o \u00e9 a comida que se oferece a Ogum\u201d, explica Jo\u00e3o Ferreira.<\/p>\n<p>As festas promovidas pelas igrejas costumam reunir dezenas de milhares de fi\u00e9is nos dias 23 de abril. O padre Dirceu Rigo, p\u00e1roco de Quintino, espera que at\u00e9 o fim deste domingo (23), cerca de um milh\u00e3o de pessoas tenham participado das missas, das comemora\u00e7\u00f5es e da prociss\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO povo carioca \u00e9 um povo muito sofrido e batalhador. E ele se identifica muito com S\u00e3o Jorge. Essa que \u00e9 a devo\u00e7\u00e3o bonita, de n\u00e3o desanimar, de n\u00e3o perder a esperan\u00e7a, mas lutar. E isso que \u00e9 bonito de ver nos devotos de S\u00e3o Jorge. Mesmo nas dificuldades, \u00e0s vezes na tristeza, na dor, no sofrimento, n\u00e3o desanima. V\u00e3o \u00e0 luta para vencer a \u2018batalha\u201d, disse o padre.<\/p>\n<p>De acordo com o pr\u00f3prio Vaticano, a hist\u00f3ria do santo \u00e9 considerada lend\u00e1ria, j\u00e1 que muitas narrativas que o envolvem s\u00e3o claramente fantasiosas. A mais famosa delas teria nascido no per\u00edodo das Cruzadas e relata que Jorge teria salvado uma princesa de um terr\u00edvel drag\u00e3o que vivia em um p\u00e2ntano na L\u00edbia.<\/p>\n<p>Essa lenda, ali\u00e1s, \u00e9 eternizada por muitas imagens do santo, que o retratam montado em um cavalo, espetando sua lan\u00e7a em um drag\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde 1969, as festas em sua homenagem s\u00e3o consideradas apenas facultativas pela Igreja Cat\u00f3lica, devido \u00e0 aus\u00eancia de algumas informa\u00e7\u00f5es sobre sua vida. \u201cComo no caso de outros santos envoltos em lendas, a hist\u00f3ria de S\u00e3o Jorge serve para lembrar ao mundo sobre uma ideia fundamental, de que, no fim, o bem triunfa sobre o mal\u201d, informa o site oficial do Vaticano.<\/p>\n<p>\u201cO drag\u00e3o que ele lutou n\u00e3o foi o bicho [retratado nas imagens]. O drag\u00e3o era a falta de f\u00e9 quando o imperador Diocleciano [sob cujo governo Jorge teria sido martirizado] convocou todos os governadores e prefeitos e disse que eles deveriam perseguir os crist\u00e3os e mat\u00e1-los\u201d, disse o padre Dirceu Rigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A devo\u00e7\u00e3o a S\u00e3o Jorge sempre fez parte da vida de Soneli Gomes. Sua rela\u00e7\u00e3o com o santo crist\u00e3o vem, segundo sua mem\u00f3ria, desde crian\u00e7a. \u201cMinha m\u00e3e vai fazer 93 anos e ela sempre foi muito devota. E eu sempre acompanhei minha m\u00e3e nessa trajet\u00f3ria. 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