{"id":304812,"date":"2023-05-13T18:40:11","date_gmt":"2023-05-13T21:40:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=304812"},"modified":"2023-05-13T18:41:46","modified_gmt":"2023-05-13T21:41:46","slug":"brasil-reflete-imagem-do-atraso-da-miseria-fome-e-desemprego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-reflete-imagem-do-atraso-da-miseria-fome-e-desemprego\/","title":{"rendered":"Brasil reflete imagem do atraso, da mis\u00e9ria, fome e desemprego"},"content":{"rendered":"<p>Produto sociopol\u00edtico, a historiografia \u00e9, sempre, uma leitura ideol\u00f3gica do fato, narrado, comentado ou tentativamente interpretado. E, sabidamente, toda leitura ideol\u00f3gica se caracteriza pelo descomprometimento com a realidade f\u00e1tica, pois seu elemento essencial (a lente mediante a qual o narrador ou int\u00e9rprete l\u00ea o mundo) \u00e9 uma t\u00e1bua de valores. N\u00e3o h\u00e1, portanto, nem escrita, nem cr\u00f4nica, nem leitura pura: a narrativa hist\u00f3rica \u00e9 uma vers\u00e3o da realidade matizada pela vis\u00e3o de mundo do observador, vis\u00e3o que igualmente n\u00e3o \u00e9 uma d\u00e1diva dos c\u00e9us como o orvalho: reflete o papel do indiv\u00edduo na sociedade e desvela sua posi\u00e7\u00e3o de classe.<\/p>\n<p>Da\u00ed resulta a inutiliza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria narrada? N\u00e3o, mas a advert\u00eancia de que, ao lado da vers\u00e3o da classe dominante, a quem cabe a saga dos vencedores, h\u00e1 a vers\u00e3o dos subsumidos pelo capital, escrita pelos seus intelectuais org\u00e2nicos, ou revista pelos intelectuais que se apartaram dos interesses de sua classe de origem, como bem ilustra a vers\u00e3o euclidiana do massacre dos camponeses de Canudos, contraposta com a narrativa do ex\u00e9rcito, reproduzida pelos historiadores do sistema. O historiador \u00e9 seu meio e seu tempo; sua obra reproduz sua sua maneira de ser no mundo.<\/p>\n<p>O processo social, ao definir o papel do cientista e do fil\u00f3sofo, como o do historiador, define o destino da ci\u00eancia, tanto quanto da filosofia, da pol\u00edtica e da hist\u00f3ria, que \u00e9, t\u00e3o s\u00f3, uma vers\u00e3o da realidade, isto \u00e9, uma produ\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. Trata-se, portanto, de um processo de evas\u00e3o da realidade, fundamental para a reprodu\u00e7\u00e3o do modo de produ\u00e7\u00e3o vigente, a matriz do poder, que, por seu turno, depende da ditadura da ordem, que aprisiona o movimento. Ou, lembrando o cinismo de Tancredi (O Leopardo, de Lampedusa), toda mudan\u00e7a \u00e9 vetada, a n\u00e3o ser aquelas que garantem que nada mudar\u00e1. Assim, no contrapelo da revolu\u00e7\u00e3o, o statu quo se transforma em futuro. O mando \u00e9 intoc\u00e1vel.<\/p>\n<p>Essas reflex\u00f5es me s\u00e3o sugeridas pela leitura de Brasil, cr\u00edtica impura \u2013 viajando pelo tempo presente (LetraCapital. Rio, 2023), do cientista pol\u00edtico Lincoln de Abreu Penna, para quem &#8220;O estudo da historiografia \u00e9 o estudo das condi\u00e7\u00f5es [materiais, segundo Marx] de produ\u00e7\u00e3o das ideias&#8221;. Lincoln, na boa trilha tra\u00e7ada por Astrojildo Pereira, p\u00f5e em relevo o papel dos interesses de classe na conforma\u00e7\u00e3o do sentido hist\u00f3rico, e afirma: &#8220;O passado \u00e9 usado para legitimar o presente&#8221;, advert\u00eancia que nos chega em momento crucial do esfor\u00e7o coletivo de pensadores de diversos matizes visando a interpretar (para alter\u00e1-la) a hist\u00f3ria brasileira presente: 500 anos de impasse, ou seja, de vit\u00f3ria da concilia\u00e7\u00e3o de classe sobre a ruptura social.<\/p>\n<p>Por sem d\u00favida que a leitura do passado ilumina o presente, mas n\u00e3o o determina como resultado de uma rela\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica, simplesmente porque o presente \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o do presente, de sua classe dominante presente, que optou, no caso brasileiro, pelo projeto da casa-grande, ou seja, optou pela proje\u00e7\u00e3o do passado. A continuidade se d\u00e1 mediante a concilia\u00e7\u00e3o, projeto ideol\u00f3gico mediante o qual a classe dominante (algo como 1% da popula\u00e7\u00e3o) controla 50% da riqueza nacional enquanto a realidade permanece congelada: o atraso, a mis\u00e9ria, a fome, o desemprego, a extrema concentra\u00e7\u00e3o de renda, fazendo de nosso pa\u00eds uma das mais perversas experi\u00eancias sociais na periferia do capitalismo.<\/p>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas das interpreta\u00e7\u00f5es dominantes da hist\u00f3ria presente \u00e9 a de que somos, como a imagem no espelho, a simples continua\u00e7\u00e3o do que que sempre fomos, e, produto de um passado presente, n\u00e3o poder\u00edamos ser sen\u00e3o o que somos, e com isso se naturaliza quase tudo, a come\u00e7ar pela ascens\u00e3o do protofascismo, ora explicado como produto inevit\u00e1vel de nossa forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica fundada escravismo, no genoc\u00eddio das popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias, no latif\u00fandio e na viol\u00eancia necess\u00e1ria para sustentar tudo isso; ora explicado como mero reflexo de uma tend\u00eancia mundial contra a qual n\u00e3o podemos ter\u00e7ar for\u00e7as. Uma sociedade conservadora \u2013 e por que somos, ser\u00edamos, uma sociedade conservadora? \u2013 s\u00f3 poderia produzir uma pol\u00edtica conservadora. Registre-se que nenhuma dessas interpreta\u00e7\u00f5es foi arguida nos momentos em que o pa\u00eds respirava ares de avan\u00e7os democr\u00e1ticos&#8230;<\/p>\n<p>O desafio, e Lincoln Penna trabalha com essa compreens\u00e3o, n\u00e3o est\u00e1 em colocar novas molduras no velho retrato de nossa hist\u00f3ria social, mas em resgat\u00e1-la para poder modific\u00e1-la. Remontamos a Marx, levado a abjurar a filosofia, para poder realiz\u00e1-la na pol\u00edtica. Na c\u00e9lebre 11\u00aa tese sobre Feuebarch, nos dir\u00e1 que os fil\u00f3sofos j\u00e1 haviam interpretado bastante o mundo, era chegada a hora de transform\u00e1-lo. O fil\u00f3sofo, o escritor, o historiador, o intelectual de um modo geral, antes de autor de livros ou de teorias, \u00e9 algu\u00e9m que est\u00e1 concretamente em um mundo concreto. Literatura e a\u00e7\u00e3o, como a ci\u00eancia e a hist\u00f3ria, pertencem a \u00fanico tempo.<\/p>\n<p>Lincoln nos fala de um passado ainda presente, mas n\u00e3o o destaca para justificar a persist\u00eancia do atraso social, e sim para denunci\u00e1-lo como ponto de partida para sua revoga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9, decerto, um saudosista da casa-grande. O historiador \u2013 e assim ele se insere como sujeito pol\u00edtico, comprometido com a revolu\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o \u00e9 um colecionador de fatos ou epis\u00f3dios, mas agente pol\u00edtico, um formulador; mais do que int\u00e9rprete, agente social, seja na mudan\u00e7a seja igualmente na preserva\u00e7\u00e3o da ordem imobilizadora, papel do intelectual tradicional, porque o pensamento n\u00e3o se desliga da a\u00e7\u00e3o, que lhe empresta valor: o pensador \u2013 seja o fil\u00f3sofo, seja o historiador, seja o formulador politico \u2013 \u00e9, necessariamente, um homem de seu tempo, cujas contradi\u00e7\u00f5es reflete e reproduz. A hist\u00f3ria, ensina a tradi\u00e7\u00e3o marxista, n\u00e3o \u00e9 a sistematiza\u00e7\u00e3o l\u00f3gica de fatos do passado, mas a interpreta\u00e7\u00e3o, comprometida, do fen\u00f4meno social, que explica, emprestando-lhe valor e significado. E essa interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o se esgota em si, pois, tamb\u00e9m fruto da a\u00e7\u00e3o do homem em seu meio, \u00e9 a chave de sua interven\u00e7\u00e3o no processo social.<\/p>\n<p>O historiador, portanto, \u00e9 (ou deve ser) um intelectual comprometido. Esta a ideia que perpassa, com extremada congru\u00eancia, todas as p\u00e1ginas de Brasil, cr\u00edtica impura, impura exatamente porque expressa suas convic\u00e7\u00f5es de ensa\u00edsta militante, como muito apropriadamente se autoqualifica Lincoln Penna.<\/p>\n<p>O intelectual cl\u00e1ssico \u00e9 definido, desde o caso Dreyfus (1894-1906) como aquele &#8220;homem de letras&#8221; que se p\u00f5e a servi\u00e7o de uma causa, pol\u00edtica ou social. O paradigma seria Voltaire. Nessa galeria se encontram Victor Hugo, Zola e, dominando o s\u00e9culo passado, Bertrand Russell e sobretudo Sartre, o intelectual &#8220;engajado&#8221; por excel\u00eancia; prementemente comprometido, n\u00e3o professa distin\u00e7\u00e3o entre teoria e pr\u00e1tica, discurso e a\u00e7\u00e3o. Gramsci grafou a express\u00e3o &#8220;intelectual org\u00e2nico&#8221; para, em oposi\u00e7\u00e3o ao conceito de intelectual tradicional, aquele sempre a servi\u00e7o da classe dominante, definir o intelectual que se conserva fiel aos interesses de sua classe de origem e deles se faz porta-voz.<\/p>\n<p>Luiz In\u00e1cio Lula da Silva \u00e9 exemplo paradigm\u00e1tico de intelectual org\u00e2nico da classe trabalhadora, assim como Luiza Erundina, que nunca mudou de lado. H\u00e1, por\u00e9m, e felizmente n\u00e3o s\u00e3o poucos (os exemplos matriciais remontam a Engels e Marx), aqueles intelectuais que, apartando-se dos interesses de sua origem de classe, adotam como causa de vida e produ\u00e7\u00e3o intelectual a defesa dos interesses das massas subjugadas. No mundo contempor\u00e2neo \u00e9 a saga dos intelectuais socialistas e comunistas de modo geral, mas, de especial, dos de filia\u00e7\u00e3o marxista, rol no qual se insere Lincoln Penna. Sua caracter\u00edstica \u00e9 a milit\u00e2ncia, caminhando a mesma trilha de Astrojildo Pereira.<\/p>\n<p>Ser hist\u00f3rico, contempor\u00e2neo, o intelectual de esquerda, necessariamente militante, cumpre a miss\u00e3o de incomodar, inquietar, desassossegar. Uma consci\u00eancia atormentada e atormentadora. Seu compromisso em face da realidade \u00e9 alterar o mando de classe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Produto sociopol\u00edtico, a historiografia \u00e9, sempre, uma leitura ideol\u00f3gica do fato, narrado, comentado ou tentativamente interpretado. E, sabidamente, toda leitura ideol\u00f3gica se caracteriza pelo descomprometimento com a realidade f\u00e1tica, pois seu elemento essencial (a lente mediante a qual o narrador ou int\u00e9rprete l\u00ea o mundo) \u00e9 uma t\u00e1bua de valores. 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