{"id":305074,"date":"2023-05-17T11:07:01","date_gmt":"2023-05-17T14:07:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=305074"},"modified":"2023-05-17T11:07:01","modified_gmt":"2023-05-17T14:07:01","slug":"cemiterios-do-pais-viram-museus-a-ceu-aberto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cemiterios-do-pais-viram-museus-a-ceu-aberto\/","title":{"rendered":"Cemit\u00e9rios do Pa\u00eds viram museus a c\u00e9u aberto"},"content":{"rendered":"<p>De dia ou de noite, eles percorrem lugares que causam arrepios em muitas pessoas. Entre t\u00famulos e epit\u00e1fios, encontram materiais de valor hist\u00f3rico, art\u00edstico e cultural. Convictos de que os cemit\u00e9rios podem ser uma galeria a c\u00e9u aberto, pesquisadores da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Estudos Cemiteriais (Abec) organizaram uma agenda de visitas gratuitas pelo pa\u00eds. A programa\u00e7\u00e3o faz parte da 21\u00aa Semana Nacional de Museus, que come\u00e7ou na segunda-feira (15).<\/p>\n<p>Dois eventos j\u00e1 ocorreram na \u00faltima sexta-feira (12) &#8211; os passeios guiados no Cemit\u00e9rio S\u00e3o Bonif\u00e1cio, em Curu\u00e7\u00e1 (PA), e no Cemit\u00e9rio do Ara\u00e7\u00e1, na capital paulista. Est\u00e3o previstos mais 13 eventos, entre os dias 18 e 28 de maio, em Bel\u00e9m, na capital paulista, em Campinas, Guarulhos, Piracicaba e Ja\u00fa, em S\u00e3o Paulo, em Belo Horizonte (MG) e Torres (RS).<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, a visita ser\u00e1 no Cemit\u00e9rio S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, no pr\u00f3ximo s\u00e1bado (20, mediada pelas historiadoras Maria de F\u00e1tima Fonseca e Marcia Costa Carneiro, ao lado da pedagoga Isabela Silveira. No cemit\u00e9rio, h\u00e1 um n\u00famero grande de pessoas famosas sepultadas, como o ex-presidentes Floriano Peixoto, o compositor Tom Jobim e o escritor Carlos Drummond de Andrade. Mas a visita desta vez tem enfoque diferente. O tema \u00e9 a mem\u00f3ria do samba e do carnaval, pensada a partir das desigualdades sociais.<\/p>\n<p>\u201cA maior parte dos sambistas cariocas foi sepultada em cemit\u00e9rios da zona norte, uma vez que o S\u00e3o Jo\u00e3o Batista \u00e9 historicamente um local de elites. Ali, os poucos negros est\u00e3o em \u00e1reas menos valorizadas. Na nossa visita, dois exemplos s\u00e3o os jazigos de Clementina de Jesus e Donga\u201d, explica a historiadora Maria de F\u00e1tima. \u201cA proposta \u00e9 chamar a aten\u00e7\u00e3o para os cemit\u00e9rios como locais de mem\u00f3ria e hist\u00f3ria da cidade. As desigualdades sociais t\u00eam reflexos nos espa\u00e7os cemiteriais, o que nos mostra que nem a morte \u00e9 igual para todos\u201d.<\/p>\n<p>Maria de F\u00e1tima pesquisa no mestrado os funerais das artistas Carmen Miranda e Clara Nunes. O foco \u00e9 entender mudan\u00e7as na perspectiva sobre o luto no s\u00e9culo 20 e o papel da m\u00eddia em estimular a como\u00e7\u00e3o p\u00fablica. O interesse pelo tema da morte surgiu durante o per\u00edodo mais cr\u00edtico da pandemia de covid-19. Para ela, foi um jeito de lidar com o pr\u00f3prio medo de morrer.<\/p>\n<p>\u201cEstudar a morte foi a forma que encontrei n\u00e3o apenas para a temer menos, mas tamb\u00e9m para valorizar a vida. Quando estudamos a hist\u00f3ria da morte, percebemos o quanto o tema se tornou tabu na sociedade contempor\u00e2nea. Foi desnaturalizada, quando na verdade \u00e9 o reverso da vida. Isso interfere na nossa capacidade de elaborar o luto quando perdemos algu\u00e9m querido. Sofremos mais e sozinhos\u201d.<\/p>\n<p>O estigma sobre a morte \u00e9 uma das explica\u00e7\u00f5es para as visita\u00e7\u00f5es em cemit\u00e9rios ainda serem vistas com desconfian\u00e7a no Brasil, de acordo com o historiador Paulo Renato Tot Pinto. Ele \u00e9 de Piracicaba, integra a diretoria da Abec e estuda o tema da morte na m\u00fasica sertaneja. Paulo entende que o pa\u00eds precisa valorizar mais os cemit\u00e9rios como espa\u00e7os museol\u00f3gicos, mesmo que fora dos padr\u00f5es tradicionais. Ele cita exemplos bem-sucedidos de valoriza\u00e7\u00e3o patrimonial e tur\u00edstica, como o cemit\u00e9rio da Recoleta, em Buenos Aires, na Argentina, lugar que, paradoxalmente, recebe muitos brasileiros que visitam o pa\u00eds vizinho.<\/p>\n<p>\u201cQuando voc\u00ea mostra que n\u00e3o \u00e9 apenas um lugar para sepultar pessoas, mas que l\u00e1 existem esculturas que foram constru\u00eddas, entre outras coisas, rela\u00e7\u00f5es sociais de afeto, elas conseguem entender melhor a cidade dos mortos. Que nada mais \u00e9 do que um reflexo da cidade dos vivos. L\u00e1 voc\u00ea tem ruas, divis\u00f5es entre o centro e a periferia, a ostenta\u00e7\u00e3o de materiais. Principalmente quando voc\u00ea analisa sepulturas do s\u00e9culo 19 e do in\u00edcio do 20, e v\u00ea que as pessoas tentavam se diferenciar socialmente at\u00e9 depois da morte\u201d.<\/p>\n<p>Paulo defende que os cemit\u00e9rios guardam m\u00faltiplas riquezas. N\u00e3o \u00e0 toa, a Abec re\u00fane pesquisadores de diversas \u00e1reas do conhecimento: hist\u00f3ria, antropologia, sociologia, pedagogia, arquitetura, geografia e at\u00e9 medicina. Ela foi fundada em 2004, a partir de um encontro que ocorreu na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). H\u00e1 associados em quase todos os estados do pa\u00eds, em Portugal e nos Estados Unidos. A cada dois anos, eles se encontram para debater sobre esculturas, elementos arquitet\u00f4nicos, costumes, rela\u00e7\u00f5es sociais, configura\u00e7\u00e3o espacial e outros temas cemiteriais.<\/p>\n<p>Fomentar uma agenda de estudos e de visitas guiadas ajuda, assim, a manter a vida nos cemit\u00e9rios. Mais do que a morte f\u00edsica, o que preocupa os pesquisadores \u00e9 a morte pelo apagamento da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea morre quando \u00e9 esquecido. Quando voc\u00ea utiliza o cemit\u00e9rio para visitas e passeios, est\u00e1 rememorando e trazendo \u00e0 vida aquelas pessoas que est\u00e3o sepultadas ali. Se elas s\u00e3o esquecidas, realmente morrem e somem da hist\u00f3ria\u201d, analisa Paulo Renato Tot. \u201cVoc\u00ea v\u00ea nos cemit\u00e9rios do pa\u00eds muita degrada\u00e7\u00e3o, muito roubo. Quando voc\u00ea ocupa o espa\u00e7o, ele entra no olhar do Poder P\u00fablico de forma diferente. E as pessoas entendem que os roubos que acontecem ali n\u00e3o s\u00e3o dos materiais em si, como o bronze. Mas que foram roubados o patrim\u00f4nio, a hist\u00f3ria e uma parte da cidade\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De dia ou de noite, eles percorrem lugares que causam arrepios em muitas pessoas. 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