{"id":305333,"date":"2023-05-21T08:45:44","date_gmt":"2023-05-21T11:45:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=305333"},"modified":"2023-05-21T08:45:44","modified_gmt":"2023-05-21T11:45:44","slug":"movimentos-sociais-precisam-cercar-lula-contra-avancos-de-lira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/movimentos-sociais-precisam-cercar-lula-contra-avancos-de-lira\/","title":{"rendered":"Movimentos sociais precisam cercar Lula contra avan\u00e7os de Lira"},"content":{"rendered":"<p>A elei\u00e7\u00e3o de 2002 representou algo de revolucion\u00e1rio, porque, nas circunst\u00e2ncias, nada menos do que revolucion\u00e1rio poderia significar a elei\u00e7\u00e3o para a presid\u00eancia da republica, ap\u00f3s 21 anos da ditadura militar, de um oper\u00e1rio, ex-emigrante nordestino. Amarg\u00e1vamos uma frustrante concilia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (\u00e0 revelia da vontade nacional, como sempre) que nos imp\u00f4s uma \u201canistia\u201d que premiava torturadores e a preemin\u00eancia castrense no regime prometidamente de recupera\u00e7\u00e3o civil e democr\u00e1tica, ainda que n\u00e3o ungido pela soberania popular.<\/p>\n<p>Esta, chamada \u00e0 vez 29 anos passados do pleito de 1960, o derradeiro antes do golpe militar, promovera a emerg\u00eancia de Fernando Collor, trag\u00e9dia pol\u00edtica que assinalaria a primeira grande crise da nova ordem, contornada com a ascens\u00e3o do vice Itamar Franco, ao fim e ao cabo a plataforma que ensejaria a elei\u00e7\u00e3o e reelei\u00e7\u00e3o de Fernando Henrique Cardoso, que, vindo da grande frente contra a ditadura, se compusera com os militares e o grande capital, reinante desde sempre.<\/p>\n<p>Realizara-se a \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o poss\u00edvel\u201d, mas ainda permanecia distante a expectativa de um governo popular, e no plano econ\u00f4mico-pol\u00edtico vencia o neoliberalismo que Itamar, antes de fazer de FHC seu ministro da Fazenda, sonhara conter. Passados 17 anos da implos\u00e3o do col\u00e9gio eleitoral montado pelos militares para eleger Paulo Salim Maluf e tr\u00eas elei\u00e7\u00f5es diretas, esse era o quadro pol\u00edtico nacional da abertura do terceiro mil\u00eanio. Ainda pobre em sua transgenia pol\u00edtica, mas incitando otimismo.<\/p>\n<p>Os personagens mudam com a hist\u00f3ria que fazem. Entendendo as li\u00e7\u00f5es ditadas por tr\u00eas derrotas eleitorais seguidas (1989, 1994 e 1998), o Lula de 2002 distanciara-se de sua representa\u00e7\u00e3o de 1989; esse resguardo foi decisivo para sua elei\u00e7\u00e3o (registre-se a \u201cCarta aos brasileiros\u201d) e, com alguns percal\u00e7os, garantiu-lhe o governo. Ficara para tr\u00e1s o l\u00edder sindical das greves de S\u00e3o Bernardo e dos discursos da Vila Euclides, e o desafio de ent\u00e3o era deter \u2013 evidentemente sem trincar as bases do poder econ\u00f4mico \u2013 o neoliberalismo da socialdemocracia paulista governante nos recentes oito anos.<\/p>\n<p>Relembre-se, por\u00e9m, que seu partido, hegemonizando as organiza\u00e7\u00f5es sindicais e o movimento social de um modo geral, se consolidara pela esquerda (embora houvesse moderado a original op\u00e7\u00e3o socialista) e que sua candidatura fora apoiada pelos comunistas (nomeadamente o PCdoB). Lula \u2013 escultor de si mesmo, pronto para fazer-se e refazer-se, sendo sempre contempor\u00e2neo \u2013 presidiria uma in\u00e9dita experi\u00eancia de dois governos de centro-esquerda, e se firmaria como um estadista a medir estatura com Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p>Ao fim do segundo mandato desce a rampa do Planalto, onde deixara Dilma Rousseff, ostentando in\u00e9ditos 80% de aprova\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>A saga que se segue \u00e9 recente e conhecida. O fato novo, mais desconcertante do que o golpe militar de 1964, por\u00e9m, \u00e9 a in\u00e9dita elei\u00e7\u00e3o de um governo protofascista emergindo de um pleito democr\u00e1tico, e que, nada obstante o desacerto pol\u00edtico-administrativo-econ\u00f4mico-moral com que assolou o pa\u00eds, lograria, no seu curso, cimentar o apoio popular, o que fica fora de d\u00favida com o desempenho do incumbente candidato \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 2022, Lula voltou \u00e0 li\u00e7a, e uma vez mais haviam mudado as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e o personagem. Diferentemente de 2002 \u2013 quando o desafio cobrava o avan\u00e7o pol\u00edtico \u2013, a necessidade de agora era impedir a persist\u00eancia do passado no presente. Venceu aquela que se proclamava como sua \u00faltima batalha.<\/p>\n<p>O Lula que volta \u00e0 tona, mais velho, mais experiente e mais lido, \u00e9 tamb\u00e9m um pol\u00edtico mais decidido, mais apurado em suas ideias e convic\u00e7\u00f5es, mais informado das contradi\u00e7\u00f5es do sistema social, mais c\u00f4nscio da luta de classes e do papel do imperialismo na vida nacional. O apoio dos fardados \u00e0 aventura protofascista, a sustenta\u00e7\u00e3o da candidatura de Jair Bolsonaro e a resist\u00eancia \u00e0 sua (dele, Lula) posse \u2013 no limite da tentativa de golpe, ter-lhe-iam fornecido melhores luzes para compreender a quest\u00e3o militar, persistente e at\u00e9 aqui n\u00e3o enfrentada.<\/p>\n<p>Mais do que tudo, foram did\u00e1ticos os epis\u00f3dios do inomin\u00e1vel 8 de janeiro. Por fim, e certamente t\u00e3o importante quanto tudo isso, chegava o presidente aos 77 anos, ciente de que lhe caberia, subordinado ao cinzel da hist\u00f3ria, a defini\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria biografia. Assim se resume um desafio pessoal incontorn\u00e1vel, e se coloca o desafio do papel do indiv\u00edduo na Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O novo Lula, renascido ap\u00f3s 580 dias de cadeia, retemperado pela renova\u00e7\u00e3o do apoio popular, vencedor na mais renhida disputa eleitoral da vida republicana recente, respons\u00e1vel direto pela conten\u00e7\u00e3o do continu\u00edsmo protofascista, enfrenta, por\u00e9m, no governo a t\u00e3o duras penas conquistado, uma combina\u00e7\u00e3o de for\u00e7as acachapante: \u00e0 alian\u00e7a da resist\u00eancia militar e empresarial (notadamente do grande capital) soma-se a oposi\u00e7\u00e3o congressual, sobretudo da C\u00e2mara dos Deputados, cujo chefe se porta como se primeiro-ministro fosse, tal a crise do presidencialismo, e nele, a fragiliza\u00e7\u00e3o do Executivo, cujas atribui\u00e7\u00f5es e poderes decaem, seja por for\u00e7a do protagonismo do judici\u00e1rio e do legislativo, seja em face da a\u00e7\u00e3o de um banco central que n\u00e3o tergiversa no prop\u00f3sito de inviabilizar a pol\u00edtica desenvolvimentista do governo \u2013 sem a qual o lulismo conhecer\u00e1 o fracasso, que pode abrir caminho para novos e ainda mais tr\u00e1gicos retrocessos pol\u00edticos, de que n\u00e3o se d\u00e1 conta a casa-grande.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui, nada obstante as concess\u00f5es a que se viu for\u00e7ado a ceder na formula\u00e7\u00e3o e nas negocia\u00e7\u00f5es do chamado \u201carcabou\u00e7o fiscal\u201d, Lula vem resistindo \u00e0s press\u00f5es as mais fortes da Faria Lima, que intenta impor-lhe a cartilha neoliberal de governo que a soberania popular rejeitou, ao eleg\u00ea-lo em 2022.<\/p>\n<p>Conquistando no primeiro turno 48% do total de votos para presidente, o PT e seus aliados (PCdoB, PV, PSB e PSOL-Rede) tiveram, na mesma ocasi\u00e3o, desempenho desprez\u00edvel para a C\u00e2mara dos Deputados, amealhando apenas 95 cadeiras num coletivo de 513 (ou seja, 18% do total), quando a maioria simples, o m\u00ednimo necess\u00e1rio para a aprova\u00e7\u00e3o de qualquer medida, inclusive travar a tramita\u00e7\u00e3o de qualquer proposta de impeachment, requer 257 votos. Este fato objetivo cobra consequ\u00eancias, como tudo na pol\u00edtica, e ajuda a explicar as atuais dificuldades do presidente, al\u00e9m de nos trazer \u00e0 lembran\u00e7a a coer\u00e7\u00e3o que a C\u00e2mara dos Depurados exerceu sobre o governo Dilma Rousseff, at\u00e9 finalmente asfixi\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O s\u00e1trapa daquele ent\u00e3o, como se sabe, fez escola. O atual presidente da C\u00e2mara, em recente convescote de lobistas em Londres, anunciou que o presidente da rep\u00fablica n\u00e3o pode rever \u201cos avan\u00e7os do neoliberalismo\u201d e muito menos as privatiza\u00e7\u00f5es. O coronel promete defender o \u201clegado das reformas\u201d. Em entrevista a uma r\u00e1dio paulista, quando maiores s\u00e3o as press\u00f5es parlamentares para libera\u00e7\u00e3o de verbas or\u00e7ament\u00e1rias (pinguela do \u201cor\u00e7amento secreto\u201d sob sua ger\u00eancia), diz que o governo precisa \u201cdescentralizar, confiar e delegar\u201d.<\/p>\n<p>O recado n\u00e3o pode ser mais claro: o presidente da C\u00e2mara reclama a partilha do poder que a soberania popular confiou a Lula. Em artigo desta semana (O Globo, 17\/05\/2023) Bernardo Mello Franco nos d\u00e1 a medida da crise do presidencialismo parlamentarizado por baixo: \u201cLira \u00e9 o dono da pauta. Pode travar vota\u00e7\u00f5es, engavetar projetos, criar dificuldades. Se ele n\u00e3o quiser, as \u2018coisas\u2019 n\u00e3o andam\u201d.<\/p>\n<p>E n\u00e3o est\u00e3o andando. O impasse presente \u00e9 o alto pre\u00e7o.<\/p>\n<p>O jornal dos Marinhos (18\/04\/2023) registra que \u201cBase e Centr\u00e3o articulam novas derrotas ao governo\u201d. Entre elas estariam mudan\u00e7as na estrutura pol\u00edtico-administrativa, com o objetivo de \u201cretirar poderes de ministros petistas\u201d.<br \/>\nQuando mais se v\u00ea pessoal e emocionalmente amadurecido e intelectualmente preparado para realizar um governo consagrador \u2013 no encontro do desenvolvimento nacional com o combate \u00e0 pobreza e a erradica\u00e7\u00e3o da fome, o mantra de sua vida \u2013 , mais Lula dele se v\u00ea afastado pela conjuntura pol\u00edtica. Quando maiores s\u00e3o as aspira\u00e7\u00f5es pol\u00edticas sugerindo a aprova\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica definitiva, quando mais coerente \u00e9 sua decis\u00e3o de n\u00e3o ceder \u00e0s concess\u00f5es lavradas nos dois primeiros mandados, mais se v\u00ea aprisionado pelas injun\u00e7\u00f5es da pequena pol\u00edtica, sem as quais n\u00e3o poder\u00e1 governar \u2013 embora, para salvar o mandato, possa ser obrigado a governar no contrapelo de seu projeto mais \u00edntimo.<\/p>\n<p>Desse desastre precisamos salv\u00e1-lo \u2013 e as expectativas se voltam para o movimento social \u2013 pois o que realmente est\u00e1 em jogo \u00e9 o projeto de pa\u00eds que queremos, e n\u00e3o h\u00e1 alternativa ao atual governo, simplesmente porque o protofascismo, cujas garras j\u00e1 conhecemos, n\u00e3o \u00e9 alternativa. E \u00e9 o que est\u00e1 \u00e0 espreita.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A elei\u00e7\u00e3o de 2002 representou algo de revolucion\u00e1rio, porque, nas circunst\u00e2ncias, nada menos do que revolucion\u00e1rio poderia significar a elei\u00e7\u00e3o para a presid\u00eancia da republica, ap\u00f3s 21 anos da ditadura militar, de um oper\u00e1rio, ex-emigrante nordestino. 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