{"id":306234,"date":"2023-06-04T05:35:02","date_gmt":"2023-06-04T08:35:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=306234"},"modified":"2023-06-04T05:41:35","modified_gmt":"2023-06-04T08:41:35","slug":"golpismo-a-vista-pode-ser-barrado-pelos-progressistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/golpismo-a-vista-pode-ser-barrado-pelos-progressistas\/","title":{"rendered":"Golpe \u00e0 vista pode ser barrado por progressistas"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;<em>Quando come\u00e7o a pensar no pr\u00f3ximo filme, meu desejo \u00e9 realizar uma obra-prima, o filme dos filmes. Ent\u00e3o as filmagens come\u00e7am, surgem as primeiras dificuldades, e percebo que no m\u00e1ximo conseguirei fazer um bom filme. Ao final, s\u00e3o tantos os contratempos, empecilhos etc., que acabo me contentando em fazer um filme<\/em>.&#8221; Fran\u00e7ois Truffaut.<\/p>\n<p>A Realpolitik \u2013 o &#8220;realismo&#8221; governante do mundo e de nossas vidas \u2013, desdenha do sonho para impor-se como a arte do poss\u00edvel. Assim a humanidade se organizou e chega aos nossos dias. Regida pelos ditos esp\u00edritos pragm\u00e1ticos, entre os quais se encontram os vencedores, a pol\u00edtica se faz servidora do imp\u00e9rio das circunst\u00e2ncias, um arco conceitual que caminha da Terra ao infinito. Os tempos atuais parecem haver defenestrado a utopia. O vision\u00e1rio, o antecipador \u00e9 expulso de cena. Quase sempre o &#8220;realismo&#8221; obriga o l\u00edder a adequar-se \u00e0s condi\u00e7\u00f5es objetivas, ou, nas palavras de Truffaut, render-se \u00e0s dificuldades, aos contratempos e aos empecilhos para, impedido de vencer, pelo menos n\u00e3o perder, o que j\u00e1 seria um &#8220;ganho&#8221;.<\/p>\n<p>Sonhando em escalar o topo, o l\u00edder pode, vencido pelas circunst\u00e2ncias, conformar-se no repouso do sop\u00e9. S\u00e3o corre\u00e7\u00f5es de rota, revis\u00e3o de objetivos e, fundamentalmente, composi\u00e7\u00e3o de interesses visando \u00e0 tomada ou conserva\u00e7\u00e3o do poder, quase sempre em novos modos e novas medidas. Assim, a Nova Rep\u00fablica, na reg\u00eancia de Jos\u00e9 Sarney, comp\u00f5e-se com o regime deca\u00eddo e enseja a preemin\u00eancia militar na reconstru\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria registra tipos e formas as mais variadas de vit\u00f3ria: a mais citada, certamente \u00e9 a &#8220;vit\u00f3ria de Pirro&#8221; na Batalha de \u00c1sculo, em 279 a.C., contra os romanos, quando o rei comandante, chamado a comemorar o feito (que custara preju\u00edzos irrepar\u00e1veis em suas fileiras), teria dito a seus generais: &#8220;Mais uma vit\u00f3ria como esta, e estarei perdido&#8221;. Ficou como s\u00edmbolo do vencer que equivale \u00e0 perda. Lembro-me da vit\u00f3ria eleitoral das for\u00e7as progressistas em 2014.<\/p>\n<p>Truffaut nos convida \u00e0 reflex\u00e3o sobre o sonho (o projeto) submetido \u00e0s limita\u00e7\u00f5es de sua viabilidade: as dificuldades impostas pela realidade objetiva.<\/p>\n<p>No campo das esquerdas \u2013 considerado seu espectro mais largo \u2013 o peso da realidade muitas vezes se abate de forma a mais radical, impondo mesmo a ren\u00fancia ao sonho. N\u00e3o se trata, t\u00e3o-s\u00f3, de rever caminhos e construir veredas alternativas, mas de renunciar ao projeto como fim, abra\u00e7ando os meios, ocupando as margens do processo hist\u00f3rico, transformando em metas o que antes n\u00e3o passava de esta\u00e7\u00e3o de tr\u00e2nsito. N\u00e3o \u00e9 ainda o lado mais doloroso, pois h\u00e1 mesmo, e os fatos s\u00e3o contempor\u00e2neos, aquelas experi\u00eancias de progresso social que logo sucumbem, como a pedra do supl\u00edcio de S\u00edsifo que despencava ladeira abaixo quando chegava ao cume.<\/p>\n<p>No Brasil, o processo social parece dar dois passos atr\u00e1s sempre que \u00e9 dado um passo \u00e0 frente: o golpe militar de 24 de agosto fechando no governo Vargas; vinte e um anos de ditadura ap\u00f3s o governo de Jo\u00e3o Goulart, o golpe parlamentar de 2016 e a ascens\u00e3o do bolsonarismo como resposta \u00e0 experi\u00eancia dos governos petistas.<\/p>\n<p>Os tempos \u00e1ridos desestimulam a semeadura. O l\u00edder n\u00e3o mais se apega sonho \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do sonho, porque o projeto de um bom governo foi reduzido pelas circunst\u00e2ncias \u00e0 pura e simples conquista do poder para a montagem (muitas vezes a qualquer pre\u00e7o) de qualquer governo, e o desafio passa a ser manter-se nele (tamb\u00e9m a qualquer pre\u00e7o), inseguro como o ginete que enfrenta a resist\u00eancia da montaria.<\/p>\n<p>As raras emerg\u00eancias de governo populares e mesmo de centro-esquerda, s\u00e3o decepadas por golpes de Estado, seja militares (Vargas e Jango), seja parlamentares (Dilma Rousseff). Ou, como atual governo, se veem acossados por uma conjun\u00e7\u00e3o aparentemente irresist\u00edvel dos mais torpes interesses de classe, que une no projeto de golpe de Estado permanente o que de mais atrasado o latif\u00fandio, o escravismo e o racismo, irm\u00e3os siameses, puderam produzir. O ano de 2016 deve ser visto como uma antecipa\u00e7\u00e3o de 2023.<\/p>\n<p>Nesse quadro, o socialismo se apresenta como quimera, o revolucion\u00e1rio torna-se reformista, mesmo um governo de centro-esquerda timidamente mudancista \u00e9 enfrentado como um risco, e todos terminam, pelas mais diversas portas, admitindo que, nas circunst\u00e2ncias, as \u00fanicas mudan\u00e7as poss\u00edveis s\u00e3o aquelas que n\u00e3o alcan\u00e7am o \u00e2mago do poder, porque a ordem regente \u00e9 concebida para que o sistema permane\u00e7a imune a abalos, nada obstante as concess\u00f5es \u00e0 democracia representativa, sob vigil\u00e2ncia legal, judicial, econ\u00f4mica e militar da classe dominante.<\/p>\n<p>Nesse quadro, a esquerda n\u00e3o pode ter vez; a centro-esquerda reformista, no governo, n\u00e3o pode governar. A emerg\u00eancia das massas \u00e9 amea\u00e7a, como \u00e9 amea\u00e7a a simples sobreviv\u00eancia das popula\u00e7\u00f5es nativas, quando a disciplina constitucional da demarca\u00e7\u00e3o das terras ind\u00edgenas \u00e9 apresentada pelo latif\u00fandio como amea\u00e7a \u00e0 propriedade privada (e derru\u00edda por mera lei ordin\u00e1ria, fabricada por um Congresso reacion\u00e1rio).<\/p>\n<p>Explica-se: como a experi\u00eancia demonstra, os detentores dos meios de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00eam por que abandonar seus recursos de poder simplesmente porque seu candidato preferencial deixou de ser eleito. Seu dom\u00ednio \u00e9 tal, principalmente sobre os fundamentos da pauta pol\u00edtico-econ\u00f4mica, que a classe dominante nunca perde no voto: quem perde, aqui e ali, s\u00e3o seus candidatos dal cuore.<\/p>\n<p>Em 2022 impedimos a reelei\u00e7\u00e3o do capit\u00e3o \u2013 um grande feito que vale comemorar, at\u00e9 pelas dificuldades enfrentadas. Mas n\u00e3o derrotamos o ide\u00e1rio protofascista; ele est\u00e1 vivo e atuante, na sociedade e na pol\u00edtica, dando as cartas no Congresso, isto \u00e9, legislando de forma unilateral, e co-governando por meio da C\u00e2mara dos Deputados, a mais atrasada de quantas o pa\u00eds conheceu, desde a frustrada constituinte de 1823.<\/p>\n<p>Trata-se de uma Casa hegemonizada pela associa\u00e7\u00e3o do atraso pol\u00edtico com o mais abjeto fisiologismo, chefiada por um capo (cria do famigerado Eduardo Cunha) que, em nome da corpora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se peja em chantagear o governo. Essa \u00e9 sua hist\u00f3ria desde a posse de Lula, e assim dever\u00e1 ser no curso dos pr\u00f3ximos anos. N\u00e3o era necess\u00e1rio, mas o grande recado foi dado na vota\u00e7\u00e3o da Medida Provis\u00f3ria que reestrutura os minist\u00e9rios, aprovada na und\u00e9cima hora, ap\u00f3s o Executivo, acuado, liberar R$ 1 bilh\u00e3o e setecentos milh\u00f5es em verbas p\u00fablicas para parlamentares. A C\u00e2mara deu o recado e apresentou seu pre\u00e7o, o governo curvou-se \u00e0 chantagem, pagou, e o jagun\u00e7o das Alagoas entregou o pr\u00eamio, como \u00e9 de regra entre certos agrupamentos de comportamento antissocial. E, para que mude o humor da C\u00e2mara, s\u00e3o anunciadas &#8220;novas pactua\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>Em entrevista coletiva, mesmo ap\u00f3s o pagamento do &#8220;resgate&#8221;, o chefe da C\u00e2mara reclama da &#8220;falta de pragmatismo&#8221; do governo assacado.<\/p>\n<p>O 28 de outubro, repito, n\u00e3o enterrou o projeto da extrema-direita nativa. O fracasso da intentona de 8 de janeiro n\u00e3o encerra a hist\u00f3ria. O processo de golpe permanente continua de p\u00e9, e conserva intacto o apoio das for\u00e7as que deram seguran\u00e7a \u00e0 aventura protofascista. Repetindo hist\u00f3ria conhecida, a inviabiliza\u00e7\u00e3o do governo Lula \u00e9 o ponto de partida da guerra em curso. Defender o mandato do presidente e o projeto de campanha consagrada pelas urnas \u00e9, pois, a tarefa de todos os democratas. A alternativa j\u00e1 conhecemos, e ela deixou triste mem\u00f3ria. O caminho j\u00e1 foi percorrido pelos que souberam fazer a hora: a constru\u00e7\u00e3o de uma nova maioria pol\u00edtica, o que reclama nova estrat\u00e9gia do governo, dos partidos do campo popular e do movimento social.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Quando come\u00e7o a pensar no pr\u00f3ximo filme, meu desejo \u00e9 realizar uma obra-prima, o filme dos filmes. 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