{"id":306250,"date":"2023-06-04T00:41:28","date_gmt":"2023-06-04T03:41:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=306250"},"modified":"2023-06-04T06:43:50","modified_gmt":"2023-06-04T09:43:50","slug":"bonecas-de-pano-resgatam-as-matriarcas-do-samba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/bonecas-de-pano-resgatam-as-matriarcas-do-samba\/","title":{"rendered":"Bonecas de pano resgatam as matriarcas do samba"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto manuseava carreteis, linhas e agulhas, a mente de Gabriela Sarmento vagava \u00e0 procura de um tema para o trabalho de conclus\u00e3o do curso de Belas Artes, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). E a\u00ed, veio a ideia de juntar tr\u00eas elementos centrais na forma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria identidade: a costura, o carnaval e a cultura negra. O TCC entregue em 2021 tratou das roupas usadas pelas baianas nas escolas de samba do Rio de Janeiro, uma das alas mais tradicionais da Sapuca\u00ed. Al\u00e9m da parte te\u00f3rica, ela apresentou uma boneca de pano com fantasia de baiana inspirada nos tempos mais remotos da folia.<\/p>\n<p>O projeto foi al\u00e9m do diploma: hoje ela confecciona e vende as bonecas na internet. Elas t\u00eam 30 cm de altura, podem ser personalizadas nas cores de todas as escolas de samba e custam R$ 80.<\/p>\n<p>\u201cDentro da faculdade de Artes, eu sentia essa necessidade de falar sobre arte brasileira e indument\u00e1rias a partir de uma \u00f3tica que n\u00e3o fosse europeia. Eu n\u00e3o via nada sobre isso nas disciplinas que cursava. Ent\u00e3o, decidi pelo tema para mergulhar um pouco mais nesse universo e fazer uma cr\u00edtica com rela\u00e7\u00e3o a essa aus\u00eancia no curso\u201d, recorda. \u201cQuando eu comprei a minha primeira m\u00e1quina de costura e passei a produzir um pouco mais, tive a ideia de fazer uma boneca de pano a m\u00e3o. Eu n\u00e3o queria que fosse uma boneca de pl\u00e1stico, tipo uma Barbie, porque achava que ela n\u00e3o teria a est\u00e9tica que eu gostaria\u201d.<\/p>\n<p>A est\u00e9tica escolhida por Gabriela Sarmento, que hoje tem 27 anos e mora em Realengo, zona oeste da cidade, traz refer\u00eancias de uma cultura ancestral e diasp\u00f3rica. As bonecas negras de pano com vestes tradicionais remetem \u00e0s ra\u00edzes africanas, aos costumes das mulheres que foram escravizadas e trazidas para a Am\u00e9rica portuguesa e, finalmente, aos trajes das \u201ctias baianas\u201d. Estas \u00faltimas eram rec\u00e9m-libertas e costumavam trabalhar como cozinheiras e vendedoras de quitutes pelas ruas do pa\u00eds no fim do s\u00e9culo 19 e in\u00edcio do 20.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, as casas de muitas delas passaram a ser lugares de reuni\u00e3o, onde aconteciam cultos de religi\u00f5es afro-brasileiras, rodas de capoeira e ensaios de m\u00fasica. O samba nasceu em ambientes como esses. Por isso, \u00e9 comum dar a elas o t\u00edtulo de \u201cmatriarcas do samba\u201d. Esse reconhecimento veio a partir de alas espec\u00edficas em blocos e ranchos carnavalescos, e nas agremia\u00e7\u00f5es que come\u00e7aram a desfilar na virada da d\u00e9cada de 1920 para a de 1930. E continua at\u00e9 os dias atuais: as baianas comp\u00f5e uma ala obrigat\u00f3ria do carnaval carioca.<\/p>\n<p>De l\u00e1 para c\u00e1, as fantasias passaram por uma s\u00e9rie de modifica\u00e7\u00f5es. O processo de moderniza\u00e7\u00e3o come\u00e7ou na d\u00e9cada de 1960. A partir da base tradicional, foram inseridos novos elementos de acordo com a criatividade do carnavalesco. Hoje, as fantasias podem pesar at\u00e9 15kg. Bem diferente do que era no passado.<\/p>\n<p>Para chegar a um resultado mais fiel do que eram as vestimentas tradicionais, Gabriela pesquisou refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas e entrevistou baianas mais experientes. Uma delas foi a Tia Nilda, que estreou na fun\u00e7\u00e3o em 1979 na Mocidade Independente de Padre Miguel. Ela lembrou que a fantasia tradicional inclu\u00eda apenas turbante, pulseiras, uma bata leve e, por baixo, uma an\u00e1gua com condu\u00edte.<\/p>\n<p>Para a Gabriela, as bonecas s\u00e3o mais do que objetos decorativos. Funcionam como suporte material de uma cultura constru\u00edda historicamente por mulheres negras que deve ser preservada. Ela defende que os carnavalescos deem maior protagonismo \u00e0s baianas que desfilam na Sapuca\u00ed na hora de planejar as fantasias. Seria a melhor maneira de n\u00e3o descaracterizar completamente uma tradi\u00e7\u00e3o de tantos anos, carregada de significados sociopol\u00edticos.<\/p>\n<p>\u201cAs bonecas contam parte dessa hist\u00f3ria das baianas, porque trazem um pouco de como eram as fantasias l\u00e1 atr\u00e1s quando as escolas de samba come\u00e7aram. Ent\u00e3o, s\u00e3o um s\u00edmbolo daquela \u00e9poca e do papel das mulheres negras. E podem servir ainda como material educativo. Seja para as crian\u00e7as, seja para os adultos, s\u00e3o uma forma de estudar e conhecer mais desse passado\u201d.<\/p>\n<p><strong>Quilombo do Samba<\/strong><br \/>\nO trabalho da Gabriela tamb\u00e9m est\u00e1 integrado ao grupo Quilombo do Samba, do qual faz parte, e que ajuda a divulgar as bonecas. Ele foi formado em 2019 com profissionais de diferentes \u00e1reas (artes, pedagogia, biologia e publicidade) com o prop\u00f3sito de estudar e divulgar a contribui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra para o samba. O grupo se equilibra entre o meio acad\u00eamico e as atividades do universo do carnaval.<\/p>\n<p>Guilherme Niegro, de 32 anos, \u00e9 um dos membros. Pedagogo e especialista em rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais, ele pesquisa a influ\u00eancia bantu, grupo etnolingu\u00edstico que vive na \u00c1frica subsaariana, no carnaval brasileiro. Al\u00e9m de pensar em artigos cient\u00edficos e cursos de extens\u00e3o, o Quilombo do Samba quer produzir conhecimento sobre o protagonismo negro atual nos desfiles.<\/p>\n<p>\u201cCome\u00e7amos a organizar conversas pela internet com pessoas do mundo do samba e elas tiveram um grande alcance. Percebemos o potencial disso. Entrevistamos pessoas como porta-bandeiras, int\u00e9rpretes, presidente da Liga-RJ. Foram 52 entrevistas. Depois, fomos nas quadras, nos barrac\u00f5es da S\u00e9rie Especial e da S\u00e9rie Ouro. Com foco sempre em destacar o papel das pessoas pretas que constroem o carnaval\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto manuseava carreteis, linhas e agulhas, a mente de Gabriela Sarmento vagava \u00e0 procura de um tema para o trabalho de conclus\u00e3o do curso de Belas Artes, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). 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