{"id":306442,"date":"2023-06-07T00:33:23","date_gmt":"2023-06-07T03:33:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=306442"},"modified":"2023-06-07T09:36:10","modified_gmt":"2023-06-07T12:36:10","slug":"nove-em-cada-10-jovens-veem-desigualdades-historicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/nove-em-cada-10-jovens-veem-desigualdades-historicas\/","title":{"rendered":"Nove em cada 10 jovens veem desigualdades hist\u00f3ricas"},"content":{"rendered":"<p>A organiza\u00e7\u00e3o Juventudes Potentes divulgou os resultados de uma pesquisa que buscou investigar o que jovens da capital paulista entendem por injusti\u00e7as estruturais. Uma das constata\u00e7\u00f5es foi a de que nove em cada dez deles acreditam que h\u00e1 um processo de desigualdades hist\u00f3ricas que atinge pessoas e grupos e as mant\u00eam em vantagem, na compara\u00e7\u00e3o com outras parcelas da sociedade.<\/p>\n<p>Ao todo, foram entrevistados 600 jovens das zonas sul e leste da cidade, com idade entre 15 e 29 anos, sendo que 71% dos participantes da pesquisa se autodeclararam negros. O per\u00edodo de coleta de respostas foi de dezembro de 2022 a abril de 2023. O processo de pesquisa foi participativo do come\u00e7o ao fim, j\u00e1 que foi tamb\u00e9m um grupo de jovens, chamado de jovens pesquisadores, que pensou em como poderia extrair melhor as respostas dos demais e que, por isso, ficou respons\u00e1vel por formular as perguntas do question\u00e1rio.<\/p>\n<p>At\u00e9 a semana passada, a organiza\u00e7\u00e3o se chamava Global Opportunity Youth Network &#8211; S\u00e3o Paulo. A mudan\u00e7a de nome busca estabelecer &#8220;uma conex\u00e3o direta com juventudes historicamente exclu\u00eddas de oportunidades dignas de forma\u00e7\u00e3o e trabalho&#8221;, de acordo com informa\u00e7\u00f5es divulgadas no site da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de sondar as impress\u00f5es dos jovens sobre o assunto central, a pesquisa permitiu que se conhecesse mais acerca das condi\u00e7\u00f5es em que vivem. Para um quarto dos entrevistados, faltam \u00e1gua (26%) e energia (25%) com frequ\u00eancia, em suas casas, e um quinto (19%) mora em lugares que se tornam, constantemente, pontos de alagamentos. Os negros foram maioria entre os que relataram tais situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A jovem pesquisadora Karina In\u00e1cio, negra e da comunidade Vila Bela, vivencia essa situa\u00e7\u00e3o, diariamente. &#8220;Ontem mesmo faltou \u00e1gua e eu precisava tomar banho para ir \u00e0 faculdade&#8221;, contou ela, que \u00e9 a terceira de sua fam\u00edlia a cursar uma gradua\u00e7\u00e3o. &#8220;A \u00e1gua \u00e9 desligada \u00e0 meia-noite e s\u00f3 volta \u00e0s 6h da manh\u00e3.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Obst\u00e1culos \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e carreira<\/strong><br \/>\nKarina vive em um lugar que sofre com o abandono do poder p\u00fablico, mas, por meio de sua fala, o que se percebe \u00e9 que passou, para realizar entrevistas, por locais de moradia ainda mais prec\u00e1rios, com pontes improvisadas interligando passagens de pedestres. Ela destaca o contraste entre a realidade de um jovem de Vila Mariana e uma jovem de Cidade Tiradentes, com os quais conversou. A jovem, lembra Karina, tinha 22 anos e dois filhos e estava desempregada, tendo como \u00fanica fonte de renda a remunera\u00e7\u00e3o do companheiro, de um sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p>A paternidade e a maternidade precoces e como esses contextos impactam os planos de estudo e profiss\u00e3o foram outros aspectos que a pesquisa capturou. Pelas respostas, identificou-se que 38% t\u00eam filhos, sendo que 37% tornaram-se pais de atingir a maioridade. Outro dado que se levantou \u00e9 que 56% dos jovens que tiveram filhos antes dos 18 anos estudaram somente at\u00e9 o ensino fundamental, o que evidencia como a responsabilidade de se tornar pai ou m\u00e3e muito cedo os impede de conciliar a tarefa com o estudo.<\/p>\n<p>No campo da educa\u00e7\u00e3o, a pesquisa traz informa\u00e7\u00f5es relevantes, como a propor\u00e7\u00e3o de jovens que j\u00e1 cogitou largar os estudos de forma definitiva, que chega a 44%. No total, 21% disseram ter, de fato, interrompido os estudos.<\/p>\n<p>Ao se ler os gr\u00e1ficos do levantamento, nota-se uma rela\u00e7\u00e3o entre a disposi\u00e7\u00e3o para se continuar frequentando a escola e o trabalho infantil ou o trabalho iniciado cedo. A parcela dos jovens que declararam estar trabalhando, atualmente, \u00e9 de 64% e a dos que come\u00e7aram a trabalhar antes de fazer 16 anos de idade \u00e9 de 42%. A maioria (72%) j\u00e1 trabalhou e estudou ao mesmo tempo e 38% n\u00e3o conseguem concluir sua forma\u00e7\u00e3o ou estudar, por n\u00e3o terem tempo dispon\u00edvel. Apesar das dificuldades, 78% dos jovens afirmaram que pretendem continuar ou retomar os estudos.<\/p>\n<p>A hostilidade contra os jovens de periferia permanece sendo um problema. Quase metade dos que responderam ao question\u00e1rio (46%) sofreu preconceito e\/ou discrimina\u00e7\u00e3o das empresas onde trabalharam, por causa de sua origem. Nisso, o empreendedorismo aparece como uma alternativa, uma esp\u00e9cie de ref\u00fagio. Uma parcela de 72% disse que teria uma empresa pr\u00f3pria, se tivesse condi\u00e7\u00f5es. Simultaneamente, a no\u00e7\u00e3o de que a informalidade no mercado de trabalho \u00e9 um mau neg\u00f3cio est\u00e1 presente, j\u00e1 que, na percep\u00e7\u00e3o da maioria, a carteira assinada \u00e9 associada ao que veem como uma boa vaga de emprego.<\/p>\n<p><strong>Racismo e LGBTQIA+fobia<\/strong><br \/>\nAlimentar o sentimento de pertencimento, diante de tantos obst\u00e1culos, pode ser um desafio, sobretudo quando h\u00e1 mais de um marcador social, como \u00e9 o caso da comunidade LGBTQIA+. Para 80% dos jovens da pesquisa que se encaixam nela, a sa\u00fade mental anda &#8220;mais ou menos&#8221; ou &#8220;ruim&#8221;.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, o racismo segue segregando, inclusive na escola, como coloca o jovem Jos\u00e9 Ricardo Paiva, membro desde 2021 do coletivo Encrespados, que desenvolve a\u00e7\u00f5es antirracistas e foi fundado em 2015.<\/p>\n<p>&#8220;A escola, sendo o primeiro espa\u00e7o formal de ensino e sendo um reflexo de sociedade, tamb\u00e9m \u00e9 um espa\u00e7o em que vivenciamos as primeiras viol\u00eancias, porque a escola, como um ambiente formal e estruturado, tamb\u00e9m faz parte dessa estrutura que acaba violentando determinados corpos, g\u00eaneros, etnias&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>&#8220;A\u00ed, a gente pensa, o que a gente faz para tentar amenizar um pouco dessas dores que esses corpos v\u00eam sofrendo ao longo de toda a sua vida? Porque o lugar onde voc\u00ea nasce, a sua cor, a sua orienta\u00e7\u00e3o [sexual], o seu g\u00eanero s\u00e3o determinantes para o seu trajeto e acho que a gente tem que admitir isso. A primeira etapa para voc\u00ea trabalhar uma educa\u00e7\u00e3o antirracista \u00e9 voc\u00ea reconhecer essa estrutura. Se voc\u00ea olha para esses dados e eles n\u00e3o falam sobre a sua realidade, eles falam sobre a realidade de algu\u00e9m. E a\u00ed, a gente precisa olhar: quem \u00e9 esse algu\u00e9m? Onde eles est\u00e3o? Est\u00e3o na margem da cidade.&#8221;<\/p>\n<p>Apesar dos obst\u00e1culos, 74% dos jovens afirmaram se sentir parte da cidade. &#8220;Homens circulam e se sentem mais parte da cidade do que mulheres. Cinco em cada dez mulheres n\u00e3o se sentem seguras de chegar tarde em casa e tr\u00eas em cada dez jovens LGBTQIA+ n\u00e3o se sentem seguros no bairro onde moram&#8221;, observa Emilly Carvalho, que integra a Rede Conhecimento Social.<\/p>\n<p><strong>Perseguindo os sonhos<\/strong><br \/>\nA pesquisa tamb\u00e9m se interessou por saber quais as expectativas, afinal, dos jovens que vivem na capital. Um total de 34% deseja ter uma casa pr\u00f3pria, enquanto 31% pretendem trabalhar com o que acredita e 18% querem trabalhar por conta pr\u00f3pria. Um quinto deles (20%) sonha em fazer uma faculdade e 18% deles estar\u00e3o satisfeitos se tiverem um emprego e um sal\u00e1rio que cubra o pagamento das contas.<\/p>\n<p>Somente 17% t\u00eam no horizonte a constru\u00e7\u00e3o de uma fam\u00edlia. A maioria (98%) acredita que vai conseguir alcan\u00e7ar seus sonhos, com a for\u00e7a que Jos\u00e9 Ricardo Paiva sugere que tenham e contrariando as fam\u00edlias de metade deles, que j\u00e1 se sentiram desacreditados diante delas: &#8220;N\u00e3o deixar a quebrada onde a gente mora ser um cemit\u00e9rio de sonhos.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A organiza\u00e7\u00e3o Juventudes Potentes divulgou os resultados de uma pesquisa que buscou investigar o que jovens da capital paulista entendem por injusti\u00e7as estruturais. 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