{"id":307659,"date":"2023-06-26T10:01:04","date_gmt":"2023-06-26T13:01:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=307659"},"modified":"2023-06-26T12:03:39","modified_gmt":"2023-06-26T15:03:39","slug":"vitimas-da-ditadura-pedem-memoria-e-providencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/vitimas-da-ditadura-pedem-memoria-e-providencias\/","title":{"rendered":"V\u00edtimas da ditadura pedem mem\u00f3ria e provid\u00eancias"},"content":{"rendered":"<p>A campainha tocou no apartamento 31. O estudante paulistano Adriano Diogo, de 23 anos, estava cansado. Estudante de geologia na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), ele, naquele dia, estava extenuado depois de cruzar a cidade e chegado de mais uma jornada como professor de ci\u00eancias em uma escola secundarista. Andou at\u00e9 a porta. Ao abrir, encontrou o pesadelo. Ele n\u00e3o esperava o que aconteceria a partir daquele 17 de mar\u00e7o de 1973. Hist\u00f3rias como a de Adriano t\u00eam mais um especial momento de reflex\u00e3o e mem\u00f3ria nesta segunda (26 de junho), Dia Internacional de Apoio \u00e0s V\u00edtimas de Tortura.<\/p>\n<p>Tudo est\u00e1 n\u00edtido na mem\u00f3ria de Adriano Diogo, hoje aos 74 anos de idade. \u201cPrimeiro, uma coronhada com o cabo da metralhadora no lado direito do olho\u201d, lembrou em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil. Ele recorda que foi sendo arrastado aos gritos pela escada, por militares disfar\u00e7ados. Haviam chegado em uma caminhonete com pintura falsa de um jornal da cidade. Sa\u00edram em um Opala verde. Adriano assustou-se com o \u00f3dio dos agentes.<\/p>\n<p>Do apartamento na Mooca (zona leste de S\u00e3o Paulo), os militares levaram o universit\u00e1rio por 10 quil\u00f4metros, at\u00e9 o Complexo do Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna (DOI-Codi), na Vila Mariana, onde funcionava a Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante (Oban), um centro de repress\u00e3o pol\u00edtica que desembocou em um espa\u00e7o de tortura e assassinatos durante a ditadura militar no Brasil.<\/p>\n<p><strong>90 dias na solit\u00e1ria<\/strong><br \/>\nAs diferentes viol\u00eancias que se seguiram \u00e0quele dia em que a campainha tocou, incluindo os 90 dias em uma solit\u00e1ria, depois 45 no pr\u00e9dio do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Deops), e mais um ano e meio no Pres\u00eddio do Hip\u00f3dromo, deixaram marcas profundas no homem. Mas n\u00e3o deixaram jamais os ideais e o ativismo. \u201cEmbora eu fosse bem jovem, desde o dia em que sa\u00ed da cadeia, h\u00e1 50 anos, eu fazia o que fa\u00e7o hoje. Vou em cadeias, em espa\u00e7os de interna\u00e7\u00e3o de menores, em delegacia. Quando pessoas de movimentos sociais s\u00e3o presas, busco saber o que aconteceu\u201d.<\/p>\n<p>Daqueles dias de dores diversas, ele se lembra com detalhes dos momentos. Inclusive que um dos algozes e dos mais violentos era um tal de major Tibiri\u00e7\u00e1, codinome do chefe do DOI-CODI \u00e0 \u00e9poca, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro militar a ser reconhecido como torturador pela Justi\u00e7a brasileira no ano de 2008.<\/p>\n<p>Foi Ustra quem recebeu Adriano Diogo no complexo da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante. Al\u00e9m de comandar a viol\u00eancia f\u00edsica, o militar, em diferentes ocasi\u00f5es, mostrava fotos de amigos e colegas assassinados e autopsiados em demonstra\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia psicol\u00f3gica. \u201cConte o que voc\u00ea viu aos seus amigos na cela\u201d, provocava.<\/p>\n<p>Adriano Diogo descobriu na cadeia a morte de um grande amigo, nos dias seguintes ao que chegou ao DOI\/Codi o l\u00edder estudantil Alexandre Vannucchi Leme, aos 22 anos de idade, tamb\u00e9m estudante de geologia na USP. Para o amigo Adriano, Alexandre era o \u201cMinhoca\u201d, apelido dos tempos da faculdade. \u201cPara tentar apagar as marcas de tortura contra o Minhoca, eles levaram o corpo para fora da Oban e simularam atropelamento com um caminh\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m acreditou na fraude. Tamanha foi a repercuss\u00e3o que o arcebispo de S\u00e3o Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, organizou uma missa no dia 30 de mar\u00e7o em mem\u00f3ria do estudante. A repercuss\u00e3o foi grande. \u201cO Ustra ficou muito nervoso. Levou todos os presos para o p\u00e1tio e bateram na gente de todas as formas\u201d, recorda Adriano Diogo.<\/p>\n<p>Enquanto Ustra esteve na chefia, durante 40 meses, houve 40 mortes. Al\u00e9m disso, chegou, em m\u00e9dia, uma den\u00fancia de tortura a cada 60 horas, segundo registrou a Comiss\u00e3o da Verdade. Outro momento marcante, em 1973, foi aquele em que Gilberto Gil cantou a m\u00fasica C\u00e1lice (composta em parceria com Chico Buarque) na USP, em primeira m\u00e3o, para dezenas de estudantes. \u201cEle teve muita coragem realmente\u201d, considera.<\/p>\n<p><strong>Retomar a vida<\/strong><br \/>\nDepois de quase dois anos, Adriano Diogo saiu da cadeia. \u201cFui buscar o diploma l\u00e1 na geologia e retomar a vida\u201d. Ele fez carreira como ge\u00f3logo e pesquisador. Foi deputado e at\u00e9 presidiu a Comiss\u00e3o da Verdade na Assembleia Legislativa de S\u00e3o Paulo. Um problema, por\u00e9m, foi que as recomenda\u00e7\u00f5es do relat\u00f3rio ficaram apenas no papel. O relat\u00f3rio final foi entregue \u00e0 sociedade em mar\u00e7o de 2015. depois de tr\u00eas anos de trabalho.<\/p>\n<p>Um dos cap\u00edtulos \u00e9 de \u201cMortos e Desaparecidos\u201d, com 165 casos investigados, inclusive a do amigo Alexandre Vannucchi Leme . \u201cN\u00f3s fizemos uma s\u00e9rie de recomenda\u00e7\u00f5es ao Estado brasileiro e n\u00e3o foram atendidas (confira aqui o relat\u00f3rio). Para voc\u00ea ter uma ideia, o Brasil \u00e9 signat\u00e1rio do Protocolo de Istambul de combate \u00e0 tortura. Sabe quantos comit\u00eas de combate \u00e0 tortura t\u00eam no Brasil, al\u00e9m do nacional? S\u00f3 um (no Rio de Janeiro)\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>Na sexta (23), o atual governo reativou o Sistema Nacional de Preven\u00e7\u00e3o e Combate \u00e0 Tortura. Uma reuni\u00e3o marcada para o dia 21 de agosto, data que marca os dez anos da lei que criou esse sistema, vai estabelecer um plano de trabalho e de atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Marcas registradas<\/strong><br \/>\nO relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV) trouxe 29 recomenda\u00e7\u00f5es e a maioria ficou tamb\u00e9m somente no papel, identificou um relat\u00f3rio do Instituto Wladimir Herzog.<\/p>\n<p>Apenas duas recomenda\u00e7\u00f5es foram atendidas pelo poder p\u00fablico, avaliou a entidade. A revoga\u00e7\u00e3o da Lei de Seguran\u00e7a Nacional e a introdu\u00e7\u00e3o da audi\u00eancia de cust\u00f3dia, para preven\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica da tortura e de pris\u00e3o ilegal, foram as exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para a coordenadora do relat\u00f3rio, a historiadora Gabrielle Abreu, o sentimento das pessoas torturadas no Brasil, \u00e9 mesmo esse de impunidade. \u201cA viol\u00eancia e a impunidade, infelizmente, s\u00e3o marcas registradas no Brasil. Vimos ocorrer no per\u00edodo da escravid\u00e3o, por exemplo, quando milh\u00f5es de homens e mulheres negros foram escravizados\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio, segundo ela, tem a finalidade de estimular uma reflex\u00e3o verdadeira e cr\u00edtica sobre o que foi a ditadura e outros per\u00edodos de grave viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos. A busca por n\u00e3o deixar esquecidas essas hist\u00f3rias \u00e9 fundamental, disse a historiadora. Al\u00e9m disso, h\u00e1 no entender dela, invisibilidade e apagamentos de torturas e mortes de diferentes grupos ind\u00edgenas, quilombolas, ribeirinhos, popula\u00e7\u00f5es mais pobres submetidas aos desmandos.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 hist\u00f3ria desconhecidas da ditadura, como nas favelas. \u00c9 uma montanha de viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos que foram apagadas\u201d.<\/p>\n<p>Os dados do relat\u00f3rio mostram n\u00e3o somente ter havido recomenda\u00e7\u00f5es da CNV n\u00e3o realizadas (total de 14), mas tamb\u00e9m retrocessos (sete). Esse \u00e9 o caso da recocomenda\u00e7\u00e3o da \u201ccria\u00e7\u00e3o de mecanismos de preven\u00e7\u00e3o e combate \u00e0 tortura\u201d.<\/p>\n<p><strong>Tortura aos 16 anos<\/strong><br \/>\nVoltar ao passado, por\u00e9m, \u00e9 reconhecer hist\u00f3rias de viol\u00eancias inadmiss\u00edveis. No dia 16 de abril de 1971, Ivan Soares, com apenas 16 anos de idade, foi capturado junto com o pai, o oper\u00e1rio Joaquim, e levado para as instala\u00e7\u00f5es do DOI-Codi, em S\u00e3o Paulo. Pai e filho participavam do Movimento Revolucion\u00e1rio Tiradentes.<\/p>\n<p>\u201cEles nos torturaram durante dois dias seguidos. Eles mataram meu pai e eu continuei preso. Prenderam tamb\u00e9m a minha m\u00e3e (uma professora) e minhas irm\u00e3s. Elas foram espancadas, Uma delas foi estuprada\u201d.<\/p>\n<p>Menor de idade, Ivan ficou nas m\u00e3os da ditadura durante quase seis anos sem ser processado ou condenado. \u201cOs militares anunciaram que ele tinha morrido em um suposto tiroteio com as for\u00e7as de repress\u00e3o\u201d. Ivan era estudante do ent\u00e3o gin\u00e1sio. \u201cA gente tinha a vida de trabalhadores pobres. Nasci numa favela em Porto Alegre onde n\u00e3o tinha nada. N\u00e3o tinha \u00e1gua encanada, luz, \u00f4nibus,esgoto, escolas. Tudo era muito dif\u00edcil\u201d.<\/p>\n<p>Ele explica que os moradores dessa comunidade de Vila Jardim lutavam por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. \u201cDesde que me entendi por gente eu vi as lutas das pessoas que s\u00e3o da classe trabalhadora, tentando sair da condi\u00e7\u00e3o de ser pisado pelo sistema capitalista\u201d.<\/p>\n<p>Os \u00faltimos tr\u00eas anos de cadeia Ivan cumpriu em um pres\u00eddio de seguran\u00e7a m\u00e1xima, que foi a Casa de Cust\u00f3dia e Tratamento de Taubat\u00e9. Ele era o \u00fanico preso pol\u00edtico e convivia com os presos e pacientes psiqui\u00e1tricos.<\/p>\n<p>Ivan saiu da pris\u00e3o em agosto de 1976, disposto a recome\u00e7ar a vida. Mas as persegui\u00e7\u00f5es n\u00e3o cessaram. Uma vez por semana, ele precisava se apresentar na auditoria militar. \u201cEu era seguido todos os dias, 24 horas por dia. Eu ia estudar, trabalhar. Mas sempre com a presen\u00e7a dela, dessas figuras execr\u00e1veis por perto&#8221;.<\/p>\n<p>\u201cEu descia do \u00f4nibus e tinha que caminhar a p\u00e9 at\u00e9 a escola. Em um carro, eles passavam me xingando fazendo piadinha. Diziam para eu correr para eles treinarem tiro\u201d. A tortura era tamb\u00e9m do lado de fora. \u201cDesde o momento em que eu estava sendo torturado, tinha absoluta no\u00e7\u00e3o de que vivia um processo hist\u00f3rico, Eu me mantive pelo fator ideol\u00f3gico\u201d. Hoje, ele mora na cidade de Foz do Igua\u00e7u (PR).<\/p>\n<p>Hoje, ele considera fundamental a aplica\u00e7\u00e3o das recomenda\u00e7\u00f5es da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade. \u201dN\u00f3s revelamos os crimes da ditadura. E a gente vai continuar lutando\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A campainha tocou no apartamento 31. O estudante paulistano Adriano Diogo, de 23 anos, estava cansado. 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