{"id":308016,"date":"2023-07-02T07:00:26","date_gmt":"2023-07-02T10:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=308016"},"modified":"2023-07-02T07:00:32","modified_gmt":"2023-07-02T10:00:32","slug":"lider-nato-lula-caminha-certo-mas-falta-ver-politica-externa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lider-nato-lula-caminha-certo-mas-falta-ver-politica-externa\/","title":{"rendered":"L\u00edder nato, Lula caminha certo, mas falta ver pol\u00edtica externa"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;Podemos estar assistindo \u00e0 emerg\u00eancia de um l\u00edder, oriundo do Sul, que acende esperan\u00e7as em escala global. Lula est\u00e1 se tornando um \u00edcone dos que demandam uma nova ordem. Nunca houve isso antes. \u00c9 desconcertante para os que querem continuar mandando em tudo.&#8221;-<\/em> Manuel Domingos Neto, autor de O que fazer com o militar(anota\u00e7\u00f5es para uma nova defesa nacional)<\/p>\n<p>A chamada classe-dominante \u2013 os herdeiros da casa-grande \u2013 n\u00e3o consulta sua hist\u00f3ria (de que n\u00e3o tem mem\u00f3ria) e se recusa a olhar para o futuro. \u00c9 o aqui e o agora da mediocridade e do atraso. N\u00e3o h\u00e1 de ser fruto do acaso estarmos, nos primeiros anos da terceira d\u00e9cada do terceiro mil\u00eanio, patinando na periferia do capitalismo. E mesmo no capitalismo permanecemos \u00f3rf\u00e3os de um projeto de sociedade e pa\u00eds.<\/p>\n<p>Desde sempre carecemos de pioneiros, de vision\u00e1rios, aqueles que se recusam a aceitar o statu quo como um determinismo, uma fatalidade ou des\u00edgnio divino, e se devotam, muitos a vida toda, a intervir na realidade, visando a transform\u00e1-la, confrontando os riscos da incerteza, o outro lado da acomoda\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que nos caracteriza. Ao contr\u00e1rio, criamo-nos e formamo-nos sob o signo da depend\u00eancia ideol\u00f3gica, a marca colonial que presidiu o imp\u00e9rio e chega \u00e0 Rep\u00fablica dos nossos dias. Caminh\u00e1vamos e caminhamos no contrapelo daquelas sociedades que puderam construir seu destino, ousando mesmo a aventura do desconhecido.<\/p>\n<p>Nossa forma\u00e7\u00e3o de cinco s\u00e9culos registra a supremacia da concilia\u00e7\u00e3o sobre a ruptura, o reino da ordem estabelecida que se contrap\u00f5e ao progresso, t\u00e3o bem e t\u00e3o insistentemente denunciado por Jos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues. A busca do novo, a revolu\u00e7\u00e3o \u2013 que quase todos os povos experimentaram na base de seu processo hist\u00f3rico \u2013 foi sempre, entre n\u00f3s, tratada como erva daninha. As reformas permitidas foram t\u00e3o-s\u00f3 aquelas destinadas a preservar a ordem dominante, a mesma h\u00e1 500 anos. As mudan\u00e7as s\u00e3o aquelas necess\u00e1rias para que tudo permane\u00e7a como est\u00e1, materializa\u00e7\u00e3o da s\u00edntese consagrada por Lampedusa.<\/p>\n<p>N\u00e3o foram poucos os intelectuais org\u00e2nicos, comprometidos com seu povo, que lutaram pela constru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds desenvolvido e de uma sociedade feliz, desde Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio e Joaquim Nabuco. No s\u00e9culo passado, Darcy Ribeiro, que lograria reunir a interven\u00e7\u00e3o intelectual \u00e0 a\u00e7\u00e3o p\u00fablica, reconheceria sua frustra\u00e7\u00e3o. J\u00e1 no fim da luta, reconheceria haver fracassado em tudo o que tentara na vida, ressaltando, contudo: &#8220;Os fracassos s\u00e3o minhas vit\u00f3rias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu&#8221;. Muitos dos vencedores est\u00e3o hoje em Lisboa no doce farniente promovido pelo empres\u00e1rio Gilmar Mendes.<\/p>\n<p>O l\u00edder revolucion\u00e1rio, o que abre as portas para o novo, al\u00e9m de condutor de massas, \u00e9 agente social, condicionado em seu papel pol\u00edtico pela intera\u00e7\u00e3o entre a consci\u00eancia de classe e a necessidade hist\u00f3rica, ditadas ambas por circunst\u00e2ncias que n\u00e3o s\u00e3o de sua escolha, sen\u00e3o aquelas &#8220;legadas e transmitidas pelo passado&#8221;, como ensinou Marx, mas que n\u00e3o lhe cassam o papel de sujeito: se o indiv\u00edduo n\u00e3o escolhe as circunst\u00e2ncias nas quais atuar, escolhe seu papel diante delas. De Gaulle e P\u00e9tain, em 1940, em face da mesma hist\u00f3ria (a derrocada militar e moral da Fran\u00e7a) optaram por pap\u00e9is opostos. Um, ep\u00edtome da resist\u00eancia, o outro vassalo do invasor. Entre n\u00f3s, diante da ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros, em 1961, o marechal Odylio Dennys intentou um golpe militar e o governador Leonel Brizola liderou o pa\u00eds na defesa da legalidade. Todos, ao tempo em que se escolhiam, interferiam no processo hist\u00f3rico, como Get\u00falio Vargas em 1954. Com o seu suic\u00eddio, o presidente adiou por uma d\u00e9cada a ditadura militar que se estenderia por 21 anos.<\/p>\n<p>O l\u00edder, quando tamb\u00e9m pioneiro, revolucion\u00e1rio ou reformista, n\u00e3o \u00e9 mais simplesmente aquele que em diversos momentos conduz as grandes massas, ou por elas \u00e9 amado, mas o raro personagem que aponta rumos e \u00e9 seguido mesmo quando o ponto de chegada \u00e9 desconhecido. Esse l\u00edder n\u00e3o caminha ao lado do povo: este \u00e9 que o sente ao seu lado na jornada a que foi convocado. Vision\u00e1rio e estrategista, pode ser um profeta; quando interfere na moldagem do futuro, \u00e9 um revolucion\u00e1rio. H\u00e1 de ser sempre um gauche na vida: n\u00e3o entende que o indiv\u00edduo tenha de se adaptar ao mundo \u2013 \u00e0s condi\u00e7\u00f5es impostas a sua exist\u00eancia pelas circunst\u00e2ncias \u2013 e por isso forceja por adaptar o mundo \u00e0s suas necessidades, ou \u00e0s necessidades de seu sonho.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria republicana \u00e9 parca de l\u00edderes e reformadores, e a pasmaceira nacional, abalada pelos levantes militares de 1922 e 1924, e ainda subjugada pelo pacto agroexportador que controlava o poder desde a ascens\u00e3o de Prudente de Moraes, conhece a fratura imposta pelo levante que a historiografia consagraria como &#8220;Revolu\u00e7\u00e3o de 1930&#8221;, uma insurrei\u00e7\u00e3o inter-olig\u00e1rquica que, no entanto, seria respons\u00e1vel pela moderniza\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro.<\/p>\n<p>O que se segue \u00e9 hist\u00f3ria consabida. Dela cuido apenas da emerg\u00eancia, a partir desse evento, daqueles nomes que me parecem ser hoje os principais l\u00edderes-estadistas dessa fase republicana, e me limito a apenas tr\u00eas, na ordem cronol\u00f3gica de atua\u00e7\u00e3o: Get\u00falio Vargas, o primeiro grande l\u00edder republicano e ainda o mais destacado de quantos tivemos; Juscelino Kubitschek, o vision\u00e1rio construtor de Bras\u00edlia, e Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, o primeiro l\u00edder da classe oper\u00e1ria a chegar \u00e0 presid\u00eancia.<\/p>\n<p>Vargas \u00e9 o mais longevo, o mais amado e o mais temido em seu tempo, e, sem d\u00favida o mais contradit\u00f3rio de quantos estadistas conhecemos, de quantos l\u00edderes tivemos, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, nesses 134 anos de uma rep\u00fablica permanentemente por fazer-se e uma democracia formal temerosa da emerg\u00eancia do povo como sujeito pol\u00edtico. Dele podemos dizer tratar-se de esfinge ainda indecifrada, tais as paix\u00f5es que desperta, passados quase 70 anos de sua morte e 93 anos da tomada do poder, que exerceu por 18 anos (respeitado o interregno de cinco anos entre a queda do &#8220;Estado novo&#8221; e as elei\u00e7\u00f5es de 1950), presidindo uma ditadura e um governo democr\u00e1tico, apeado de ambos por insurg\u00eancias levadas a cabo por militares antes aliados.<\/p>\n<p>Dele poder-se-\u00e1 dizer que viveu suas circunst\u00e2ncias no mais puro sentido orteguiano, dominando-as, at\u00e9 ceder \u00e0 \u00faltima investida, aparentemente impossibilitado de agir como agia, lembrando a famosa frase de Lutero: &#8220;aqui me acho e n\u00e3o posso faz\u00ea-lo de outra forma&#8221;. Ficou para a hist\u00f3ria como modernizador do estado, l\u00edder trabalhista e &#8220;pai dos pobres&#8221;, nacionalista, combatente pela soberania nacional.<\/p>\n<p>Se para Get\u00falio a pol\u00edtica era &#8220;a arte do poss\u00edvel&#8221;, para JK torna-se o instrumento de uma determina\u00e7\u00e3o. Era vision\u00e1rio e profeta. Prometeu &#8220;50 anos em cinco&#8221;, e em menos de cinco transformou um descampado \u00e1rido em meio ao Cerrado goiano na capital da rep\u00fablica, incorporando o Oeste \u00e0 pol\u00edtica e \u00e0 economia do pa\u00eds. Sem ferir a ordem democr\u00e1tica, enfrentou duas intentonas militares e um sem-n\u00famero de tentativas de impedimento.<\/p>\n<p>Lula se destaca, de in\u00edcio, como o primeiro l\u00edder nacional oriundo do proletariado, que at\u00e9 sua emerg\u00eancia pedia emprestado \u00e0 classe dominante seus defensores. Trata-se de fen\u00f4meno pol\u00edtico extraordin\u00e1rio em pa\u00eds que n\u00e3o conseguiu purgar suas origens escravocratas nem livrar-se do dom\u00ednio pol\u00edtico-ideol\u00f3gico da casa-grande, que sobrevive sob o imp\u00e9rio da Faria Lima e do agrobusiness. Seu sucesso, uma vit\u00f3ria da classe oper\u00e1ria que o formou, \u00e9 tanto mais significativo quando consideramos que o pa\u00eds que o elegeu mais uma vez em 2022, fraturado pela ascens\u00e3o do protofascismo, \u00e9 ainda aquele no qual &#8220;a pir\u00e2mide do poder assenta sobre o v\u00e9rtice e n\u00e3o sobre a base&#8221;, como denunciava Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, o mo\u00e7o, no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>O ex-metal\u00fargico \u00e9 o \u00fanico emigrante das secas, o \u00fanico n\u00e3o doutor, general ou capit\u00e3o, e o primeiro brasileiro a eleger-se tr\u00eas vezes presidente da rep\u00fablica. Hoje \u00e9 o primeiro l\u00edder da Am\u00e9rica do Sul com audi\u00eancia mundial. \u00c9 exatamente seu papel de l\u00edder mundial que quero p\u00f4r em relevo, pois o destaque de seu desempenho deriva da qualidade de suas interven\u00e7\u00f5es mais recentes, como as de Paris, diante de uma multid\u00e3o que lotava o Campo de Marte, defronte \u00e0 Torre Eiffel, e sobretudo a que fez no dia seguinte, durante a reuni\u00e3o de c\u00fapula convocada por Macron, quando ressaltou a prioridade do combate \u00e0 fome, a responsabilidade dos pa\u00edses ricos no enfrentamento \u00e0 crise clim\u00e1tica e a fal\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es de Bretton Woods.<\/p>\n<p>O Brasil, gra\u00e7as ao seu presidente, \u00e9 hoje um ator global que anuncia demandas, e pode ser a voz do Sul na cobran\u00e7a de uma nova ordem mundial, superando alinhamentos autom\u00e1ticos, recusando o dictat das grandes pot\u00eancias, ao tempo em que p\u00f4e na mesa das negocia\u00e7\u00f5es nossos interesses, que jamais se confundem com os interesses dominantes, os quais d\u00e3o o tom da pol\u00edtica internacional.<\/p>\n<p>Anunciamos um pa\u00eds e um continente que n\u00e3o t\u00eam partido na disputa dos EUA com a China na tentativa que lhes interessa de preservar a hegemonia comercial e b\u00e9lica, quando a humanidade aspira \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma ordem baseada na paz, no multilateralismo e na conviv\u00eancia civilizada entre as na\u00e7\u00f5es e os povos. O fortalecimento dos blocos regionais \u00e9 conditio sine qua non, e nossa li\u00e7\u00e3o de casa come\u00e7a com o fortalecimento e a amplia\u00e7\u00e3o do Mercosul, a recupera\u00e7\u00e3o de organismos como a Unasul e o fortalecimento do BRICS.<\/p>\n<p>A frente externa, todavia, pouco se sustentar\u00e1 se n\u00e3o contar com o apoio da retaguarda nacional \u2013 caserna e empresariado \u2013, que jamais se identificou com as iniciativas brasileiras na execu\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica externa independente, vale dizer, sem subordina\u00e7\u00e3o de of\u00edcio aos interesses dos EUA, sede do grande capital brasileiro e fonte das doutrinas que dominam os cora\u00e7\u00f5es e mentes dos militares brasileiros.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 preciso concertar o discurso do governo. Em convescote em Lisboa, ao qual n\u00e3o deveria ter comparecido, o bom ministro Fl\u00e1vio Dino, que boas esperan\u00e7as tem despertado, decide-se por excursionar pela pol\u00edtica externa, e nesse passeio bate de frente com nossa diplomacia, que, sob orienta\u00e7\u00e3o presidencial, persegue independ\u00eancia ante o conflito hegem\u00f4nico promovido pelos EUA em face da emerg\u00eancia chinesa. Dino denuncia, como risco para a &#8220;democracia ocidental&#8221;, o deslocamento de poder para a \u00c1sia. Para nosso ministro, os pa\u00edses asi\u00e1ticos n\u00e3o &#8220;vivenciam&#8221; modelos assentados na democracia ocidental. Antony Blinken assinaria embaixo.<\/p>\n<p>Lula, esperamos, poder\u00e1 cacifar internamente os efeitos de sua diplomacia presidencial, mas, lembra o professor Manuel Domingos, ela &#8220;\u00e9 desconcertante para os que querem continuar mandando em tudo&#8221;. Poder\u00e1, pois, estar aprofundando contradi\u00e7\u00f5es internas. O tempo, juiz de tudo, nos dir\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Podemos estar assistindo \u00e0 emerg\u00eancia de um l\u00edder, oriundo do Sul, que acende esperan\u00e7as em escala global. Lula est\u00e1 se tornando um \u00edcone dos que demandam uma nova ordem. 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