{"id":308417,"date":"2023-07-07T06:00:22","date_gmt":"2023-07-07T09:00:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=308417"},"modified":"2023-07-07T05:59:01","modified_gmt":"2023-07-07T08:59:01","slug":"sera-que-vamos-esquecer-a-origem-de-cabare","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/sera-que-vamos-esquecer-a-origem-de-cabare\/","title":{"rendered":"Ser\u00e1 que vamos esquecer a origem de cabar\u00e9?"},"content":{"rendered":"<p>No melhor estilo Rita Lee, eu n\u00e3o me levo a s\u00e9rio, mas mantenho a seriedade em tudo que fa\u00e7o. Por exemplo, procuro sempre escutar a consci\u00eancia antes de propor a meus \u201cpares\u201d levantar a bandeira da moraliza\u00e7\u00e3o. Tenho pavor de ser tachado como provocador do conceito da desforra por sugerir quase diariamente que vivemos um cotidiano prom\u00edscuo, comandado prioritariamente pelos pol\u00edticos, com a eventual inclus\u00e3o de cidad\u00e3os e servidores pagos para servir. Meu medo maior \u00e9 perceber um dia que foi uma perda de tempo todo o trabalho em busca da coer\u00eancia, da licitude, da preserva\u00e7\u00e3o dos valores e honestidade acima de tudo.<\/p>\n<p>Sei que corro o risco de malhar em ferro frio. A frase a seguir n\u00e3o \u00e9 minha, mas, de t\u00e3o perfeita, resolvi inclu\u00ed-la nesta narrativa: \u201cSer\u00e1 que o Brasil quer mesmo esquecer sua origem de cabar\u00e9, onde todos entram e gozam?\u201d Dif\u00edcil responder negativamente, principalmente porque boa parte da popula\u00e7\u00e3o insiste em condenar os grandes corruptos, mas n\u00e3o consegue abandonar a pr\u00e1tica de pequenos e variados delitos. O conflito entre ser bom e ser condescendente com atos anti\u00e9ticos \u00e9 eterno. Para os que se acham acima do bem e do mal, vale lembrar que sonegar impostos, se utilizar da gatonet, jogar lixo na rua, destruir bens p\u00fablicos ou monumentos hist\u00f3ricos, se insurgir contra a democracia e at\u00e9 parat em fila dupla \u00e9 t\u00e3o criminoso como roubar os cofres da vi\u00fava.<\/p>\n<p>Uma pena, mas, al\u00e9m do complexo de vira-latas, convivemos bem e em paz com o r\u00f3tulo de republiqueta de bananas. Permitam-me divergir de quem pensa assim, mas sonho com o dia em que deixarei de fazer refer\u00eancia ao Brasil como terra de ningu\u00e9m. Por isso, n\u00e3o admiro aqueles que vinculam nosso fracasso quase absoluto como na\u00e7\u00e3o pujante, independente e s\u00f3lida politicamente ao fato de sermos remanescentes de um legado portugu\u00eas. Somos ludibriados, trapaceados e explorados exclusivamente pela aus\u00eancia de l\u00edderes capazes de nos defender dos exploradores com argumentos inteligentes e justos. E estes somos n\u00f3s quem os escolhemos.<\/p>\n<p>Como diz o fil\u00f3sofo e advogado pernambucano Pierre Logan, pol\u00edticos e l\u00edderes ruins n\u00e3o caem do c\u00e9u. Eles s\u00e3o eleitos. Portanto, em \u00faltima an\u00e1lise, somos o que merecemos. Nunca \u00e9 demais lembrar que o tempo pret\u00e9rito se torna presente pela mem\u00f3ria, e o futuro pela nossa imagina\u00e7\u00e3o. No Brasil de 523 anos, normalmente fazemos mais festa \u00e0s pessoas que tememos do que \u00e0quelas a quem amamos. Infelizmente, isto \u00e9 um fato contra o qual n\u00e3o adiantam argumentos, tampouco profecias profil\u00e1ticas, neurol\u00f3gicas ou ginecol\u00f3gicas. Somos a ess\u00eancia do paradoxo. Lutamos para que o Brasil d\u00ea certo, mas fazemos de tudo para que ele d\u00ea errado.<\/p>\n<p>Somos negros, mas o racismo faz parte do dia a dia de um aglomerado de brasileiros. Adoramos o arco \u00edris, mas escorra\u00e7amos os que dele se adornam. Amamos as mulheres, mas as matamos na primeira crise existencial. Enfim, ou mudamos com urg\u00eancia ou, com a mesma urg\u00eancia, chegaremos \u00e0 conclus\u00e3o de que realmente somos uma republiqueta de bananas, na qual, fora o toque retal, pouco ou nada tem o efeito desejado. No Brasil de hoje, nem mesmo a ficha limpa consegue deixar de ser suja. Ser\u00e1 que teremos coragem de propor as necess\u00e1rias mudan\u00e7as, aproveitando que o ch\u00e3o da f\u00e1brica est\u00e1 sem chefe? Me valho da ocasi\u00e3o para reafirmar que sinto comich\u00f5es e arrepios de \u00faltimo grau s\u00f3 de imaginar o retrocesso que seria a perman\u00eancia dele entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Me recuso a falar do ser humano, pois tudo que Deus criou, inclusive os primatas, deve ser visto como uma estrada. S\u00e3o de nossa responsabilidade a sinaliza\u00e7\u00e3o e as flores com as quais cumprimentamos os iguais. Tamb\u00e9m dependem de n\u00f3s o mapeamento das curvas e dos trevos usados para nos distinguirmos dos inimigos que, durante um tempo, estiveram perto de n\u00f3s e, de repente, se sentiram fascinados pelo nosso oponente. Estes s\u00e3o muito piores do que aqueles que nos odiavam desde sempre. Evitamos a ofeliza\u00e7\u00e3o do Brasil, a trag\u00e9dia anunciada. Agora, resta-nos banir da vida p\u00fablica todos que ajudaram o cidad\u00e3o a cuspir no prato em que se fartou. Quem sabe \u00e9 este o in\u00edcio da recupera\u00e7\u00e3o de nossa bandeira da moraliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No melhor estilo Rita Lee, eu n\u00e3o me levo a s\u00e9rio, mas mantenho a seriedade em tudo que fa\u00e7o. Por exemplo, procuro sempre escutar a consci\u00eancia antes de propor a meus \u201cpares\u201d levantar a bandeira da moraliza\u00e7\u00e3o. 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