{"id":308762,"date":"2023-07-14T03:15:37","date_gmt":"2023-07-14T06:15:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=308762"},"modified":"2023-07-14T03:23:10","modified_gmt":"2023-07-14T06:23:10","slug":"tio-de-damares-frauda-documento-de-posse-de-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tio-de-damares-frauda-documento-de-posse-de-terra\/","title":{"rendered":"Tio de Damares frauda documento de posse de terra"},"content":{"rendered":"<p>O pastor e ex-deputado federal Josu\u00e9 Bengtson, tio da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), cria gado em 6.866,52 hectares dentro de terras pertencentes \u00e0 Uni\u00e3o \u2014 quase o dobro do Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro. Desse total, 4.932,39 hectares ou 72% da propriedade est\u00e3o em \u00e1rea pertencente \u00e0 gleba federal Pau de Remo, destinada desde 2015 \u00e0 reforma agr\u00e1ria. Uma parcela desse territ\u00f3rio teve um t\u00edtulo de posse emitido pelo Instituto de Terras do Par\u00e1 (Iterpa). De Olho nos Ruralistas constatou que esse documento tem origem fraudulenta. A fazenda tamb\u00e9m \u00e9 vizinha \u00e0 Terra Ind\u00edgena Alto Rio Guam\u00e1, do povo Temb\u00e9, que sofre com a invas\u00e3o de madeireiros a partir da Pau de Remo e de outra gleba vizinha, a Cidapar.<\/p>\n<p>Josu\u00e9 Bengtson voltou ao notici\u00e1rio no fim de maio, quando a Pol\u00edcia Federal apreendeu 290 quilos de skunk, um tipo mais forte de maconha, em um avi\u00e3o pertencente \u00e0 Igreja do Evangelho Quadrangular (IEQ), fundada e liderada pelo tio de Damares. A apreens\u00e3o ocorreu no dia 27, no Aeroporto Internacional de Bel\u00e9m. Damares foi destaque na ter\u00e7a-feira (11) em reportagem do Estad\u00e3o, que aponta a participa\u00e7\u00e3o da ex-ministra no desvio de R$ 2,5 milh\u00f5es em verbas p\u00fablicas que seriam destinadas a duas ONGs. O valor foi parar em empresas de fachada ligadas ao ex-deputado evang\u00e9lico Professor Joziel (Patriotas-RJ), um aliado pol\u00edtico de Damares.<\/p>\n<p>Uma parcela da propriedade de Bengtson, de 1.821 hectares, tem t\u00edtulo definitivo datado de 1961, per\u00edodo anterior \u00e0 an\u00e1lise do Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra), realizada em 1982, que definiu as terras como p\u00fablicas. O t\u00edtulo provis\u00f3rio, de 4 de junho de 2003, referente a 2.492,12 hectares, teve origem fraudulenta. O crime fundi\u00e1rio \u00e9 apontado pelo Incra, em of\u00edcio datado de 2019, a partir de avalia\u00e7\u00e3o apresentada pelo Iterpa:<\/p>\n<p>\u2014 Com base na an\u00e1lise precedida pela Ger\u00eancia de Cartografia deste instituto, o T\u00edtulo Provis\u00f3rio n\u00ba 20 est\u00e1 localizado a dist\u00e2ncia de 27,390 km do per\u00edmetro do im\u00f3vel \u2018Fazenda Camar\u00e1\u2019 (sic), n\u00e3o havendo, portanto, correspond\u00eancia entre o TP e a \u00e1rea objeto do pedido de informa\u00e7\u00e3o feito por essa Autarquia Federal, conforme mapa e laudo t\u00e9cnicos que seguem anexos a esse expediente.<\/p>\n<p>Isto \u00e9, o t\u00edtulo provis\u00f3rio apresentado por Bengtson para comprovar sua posse dentro da Gleba Pau de Remo est\u00e1 localizado em outra \u00e1rea, longe dali. \u201cConclui-se que, na verdade, o TP expedido encontra-se inserido nos limites do munic\u00edpio de Cachoeira do Piri\u00e1 e n\u00e3o de Santa Luzia do Par\u00e1 (\u00e1rea ocupada), totalmente inserido dentro do assentamento do Incra, denominado PA Cidapar 1\u00aa Parte\u201d, finaliza o of\u00edcio, que classifica o t\u00edtulo do tio de Damares como \u201csem valor legal\u201d.<\/p>\n<p>Em resposta \u00e0 reportagem, Marcos Bengtson, filho de Josu\u00e9 Bengtson, informou que, ao adquirir as terras, a fam\u00edlia n\u00e3o tinha conhecimento de se tratar de uma \u00e1rea federal. \u201cAcreditamos que nem o pr\u00f3prio Iterpa tinha essa informa\u00e7\u00e3o, seja por falta de recursos tecnol\u00f3gicos na \u00e9poca, ou pela cartografia muito prec\u00e1ria existente\u201d, justifica, em texto enviado por e-mail.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o ao t\u00edtulo provis\u00f3rio, ele alega ser proveniente de erro do Iterpa, que teria reconhecido o equ\u00edvoco em meados de 2014. Entretanto, a an\u00e1lise do Incra que aponta a fraude \u00e9 posterior a essa data. Confira aqui a \u00edntegra da resposta de Marcos.<\/p>\n<p>O im\u00f3vel da fam\u00edlia Bengtson \u00e9 utilizado para cria\u00e7\u00e3o extensiva de gado. Segundo dados obtidos pela plataforma Mapbiomas, referentes a 2021, 62% da \u00e1rea da Fazenda Cambar\u00e1 encontra-se desmatada.<\/p>\n<p>Em 2007, a Fazenda Cambar\u00e1 foi ocupada pela primeira vez por agricultores vinculados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que se organizaram h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada no acampamento Quintino Lira, onde plantam gr\u00e3os, legumes e frutas e fazem a extra\u00e7\u00e3o do a\u00e7a\u00ed e do murumuru. Em 2009, os camponeses foram despejados em uma a\u00e7\u00e3o policial, retornando no ano seguinte.<\/p>\n<p>O pol\u00edtico e pastor evang\u00e9lico Josu\u00e9 Bengtson possui fazenda grilada no Par\u00e1. (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/IEQ)<br \/>\nAp\u00f3s a vistoria realizada pelo Incra, em 2015, a autarquia deu parecer favor\u00e1vel \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do assentamento. Quase dez anos depois da an\u00e1lise, os acampados ainda aguardam pela posse da terra. Isso porque a batalha judicial entre o Incra e a fam\u00edlia Bengtson atravanca a regulamenta\u00e7\u00e3o da \u00e1rea, sujeitando os camponeses a uma rotina de amea\u00e7as por parte dos religiosos da Igreja do Evangelho Quadrangular.<\/p>\n<p>A lavoura do acampamento fica pr\u00f3xima das pastagens onde est\u00e1 o gado da fazenda, em lotes separados por uma cerca. Por mais de uma vez, os animais atravessaram a barreira e destru\u00edram os ro\u00e7ados. Em janeiro de 2021, um avi\u00e3o sobrevoou a \u00e1rea dos sem-terra e pulverizou agrot\u00f3xicos, prejudicando as planta\u00e7\u00f5es e deixando as fam\u00edlias sem alimento e fonte de renda. \u201cTudo o que a gente tinha perdemos\u201d, conta Jo\u00e3o Galdino, um dos l\u00edderes do acampamento. \u201cAcabou contudo, ro\u00e7a, nossos p\u00e9s de planta, a\u00e7aizeiros\u2026 Estamos construindo de novo\u201d. Segundo ele, as amea\u00e7as s\u00f3 cessaram em 2022.<\/p>\n<p>Esse n\u00e3o foi o primeiro caso de viol\u00eancia vivenciado por Galdino. Em 2010, ele e Jos\u00e9 Valmeristo de Souza, o Carib\u00e9, moradores do acampamento, foram pegos em uma emboscada. Galdino conseguiu fugir, mas Carib\u00e9 foi assassinado a tiros. As investiga\u00e7\u00f5es apontaram Marcos Bengtson, filho de Josu\u00e9 e administrador da Fazenda Cambar\u00e1, como mandante do crime. O caso tramita na justi\u00e7a at\u00e9 hoje, \u00e0 espera do Tribunal do J\u00fari.<\/p>\n<p>Na resposta enviada \u00e0 reportagem, Marcos alega inoc\u00eancia, afirma que colaborou com as investiga\u00e7\u00f5es e que espera pelo desfecho do caso. Ele tamb\u00e9m afirma que, um ano antes do assassinato de Carib\u00e9, um funcion\u00e1rio da fazenda chamado Darielson \u2014 ele n\u00e3o apontou sobrenome \u2014 foi morto por membros do acampamento e que \u201ca morte dele n\u00e3o ganhou manchetes nos jornais\u201d.<\/p>\n<p>\u201cMinha fam\u00edlia e eu n\u00e3o compactuamos com nenhum tipo de viol\u00eancia e lamentamos a perda precoce de duas vidas, pois toda vida \u00e9 muito importante\u201d, afirma. Marcos tamb\u00e9m acusa os sem-terra de amea\u00e7as aos funcion\u00e1rios da fazenda, roubo de gado, invas\u00e3o da \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o ambiental para derrubada de \u00e1rvores e para provocar queimadas.<\/p>\n<p>De acordo com a promotora de Justi\u00e7a Agr\u00e1ria Ione Nakamura, do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado do Par\u00e1 (MPPA), \u00e9 necess\u00e1ria uma decis\u00e3o judicial definitiva para as terras. O Incra n\u00e3o tomou todas, at\u00e9 o momento, as medidas administrativas necess\u00e1rias para consolidar o assentamento. \u201c\u00c9 uma medida que seria importante para a pacifica\u00e7\u00e3o daquela regi\u00e3o\u201d, avalia.<\/p>\n<p>Entre os anos de 2009 e 2016, os moradores do acampamento registraram treze boletins de ocorr\u00eancia de amea\u00e7as recebidas por parte dos funcion\u00e1rios da fazenda. Em outubro de 2015, dois jovens foram v\u00edtimas de uma emboscada: um deles levou um tiro de rasp\u00e3o e o outro foi ferido com coronhadas no rosto. Em abril de 2022, os acampados denunciaram o descumprimento a um acordo feito por meio da Vara Agr\u00e1ria de Castanhal para que houvesse o respeito em rela\u00e7\u00e3o a \u00e1rea desafetada, conforme noticiado por este observat\u00f3rio: \u201cFam\u00edlia dona do avi\u00e3o com maconha tem hist\u00f3ria de grilagem e assassinato de sem-terra\u201c.<\/p>\n<p>Como pastor e l\u00edder religioso, Josu\u00e9 esteve \u00e0 frente do projeto de expans\u00e3o da Igreja do Evangelho Quadrangular no Brasil a partir dos anos 60, sendo o respons\u00e1vel pela abertura de templos em diversas regi\u00f5es do pa\u00eds. Em sua carreira religiosa, Damares atuou como pastora na igreja do tio.<\/p>\n<p>No livro \u201cDas tendas \u00e0 Igreja do Evangelho Quadrangular: hist\u00f3ria da IEQ no Brasil\u201d, de autoria de Jefferson Grijo, h\u00e1 um cap\u00edtulo dedicado \u00e0 jornada de Bengtson. Nascido em Getulina (SP), ele teria chegado ao Par\u00e1 no in\u00edcio da d\u00e9cada de 70, por conta pr\u00f3pria, \u201cobedecendo a um chamado e come\u00e7ando do zero\u201d. Em 1999, foi eleito deputado federal pelo PTB. Nesse mesmo ano, Damares mudou-se para Bras\u00edlia a convite do tio, para trabalhar em seu gabinete. Hoje, a IEQ do Par\u00e1 \u00e9 a maior do Brasil, com cerca de 4 mil pastores.<\/p>\n<p>Em 2018, Josu\u00e9 foi condenado pela Justi\u00e7a Federal \u00e0 perda do mandato por enriquecimento il\u00edcito. Ele fez parte de um esquema de desvio de recursos da sa\u00fade no Par\u00e1, conhecido como \u201cm\u00e1fia das ambul\u00e2ncias\u201d. Seus direitos pol\u00edticos foram suspensos por oito anos. Segundo den\u00fancias do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF), o pastor direcionava verbas a munic\u00edpios, onde licita\u00e7\u00f5es eram fraudadas e o dinheiro era depositado na conta dele e da igreja que comanda. Entre os munic\u00edpios estava Santa Luzia do Par\u00e1, onde os pastores disputam terra com os camponeses.<\/p>\n<p>Em 1998, quando iniciava na pol\u00edtica eleitoral, Bengtson elegeu-se deputado federal, com um patrim\u00f4nio de R$ 274 mil. Em 16 anos, o pastor setuplicou, ou seja, multiplicou por sete sua fortuna, chegando a R$ 2 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Tentando ocupar o lugar do pai condenado, Paulo Bengtson, filho mais novo de Josu\u00e9, \u00e9 pastor e foi eleito deputado federal em 2018 pelo PTB. Na \u00e9poca, foi financiado pelo pr\u00f3prio Bengtson. Em 2022, quando teve doa\u00e7\u00e3o do seu irm\u00e3o mais velhos Marcos, n\u00e3o conseguiu a reelei\u00e7\u00e3o e, atualmente, \u00e9 secret\u00e1rio de Estado de Desenvolvimento Econ\u00f4mico, Minera\u00e7\u00e3o e Energia do Par\u00e1, no governo Helder Barbalho, do MDB.<\/p>\n<p>Marcos tamb\u00e9m \u00e9 pastor evang\u00e9lico, mas n\u00e3o tem atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. No processo do homic\u00eddio de Jos\u00e9 Valmeristo Soares, ele \u00e9 apontado administrador da Fazenda Cambar\u00e1. Em uma rede social, ele informa ser \u201cservo na empresa Jesus Cristo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pastor e ex-deputado federal Josu\u00e9 Bengtson, tio da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), cria gado em 6.866,52 hectares dentro de terras pertencentes \u00e0 Uni\u00e3o \u2014 quase o dobro do Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro. 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