{"id":308947,"date":"2023-07-16T04:05:55","date_gmt":"2023-07-16T07:05:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=308947"},"modified":"2023-07-16T04:03:49","modified_gmt":"2023-07-16T07:03:49","slug":"lula-baixa-cabeca-ao-centrao-ou-tropeca-no-seu-projeto-de-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lula-baixa-cabeca-ao-centrao-ou-tropeca-no-seu-projeto-de-poder\/","title":{"rendered":"Lula baixa cabe\u00e7a ao Centr\u00e3o ou trope\u00e7a no seu projeto de poder"},"content":{"rendered":"<p>Ouso afirmar que a caracter\u00edstica nodal de nossa forma\u00e7\u00e3o \u00e9 o monolitismo do poder, imp\u00e1vido, insens\u00edvel ao progresso social, arcaico e no entanto irremov\u00edvel. Imune \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais, \u00e0s rebeli\u00f5es, \u00e0s insurrei\u00e7\u00f5es massacradas, como \u00e0s &#8220;revolu\u00e7\u00f5es&#8221; e aos golpes de Estado perpetrados pela classe dominante acionando seu bra\u00e7o armado. Assim, feitoria, col\u00f4nia de explora\u00e7\u00e3o e extra\u00e7\u00e3o (jamais projeto de povoamento), vice-reinado, imp\u00e9rio, rep\u00fablica, passados 500 anos de tentativa de constru\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o, a cujo povo foi negado o papel de sujeito, permanecemos presos ao projeto da casa-grande, senhora de bra\u00e7o e cutelo desde a col\u00f4nia: do engenho de a\u00e7\u00facar \u00e0 Avenida Paulista, conhecemos um s\u00f3 mando.<\/p>\n<p>Somos, na segunda d\u00e9cada do terceiro mil\u00eanio, ainda o que \u00e9ramos no s\u00e9culo XVI, uma economia prim\u00e1rio-exportadora: o 3\u00ba produtor mundial de alimentos em pa\u00eds no qual nada menos de 10 milh\u00f5es de pessoas s\u00e3o classificadas pela FAO (ONU) como desnutridas, mais de 21 milh\u00f5es n\u00e3o t\u00eam o que comer, e 70,3 milh\u00f5es padecem inseguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>Segundo dados da Oxfam, seis brasileiros det\u00eam uma riqueza equivalente ao patrim\u00f4nio dos 100 milh\u00f5es mais pobres. Os 5% mais ricos det\u00eam a mesma fatia de renda dos demais 95%. O 1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o brasileira recebe, em m\u00e9dia, mais de 25% de toda a renda nacional ).<\/p>\n<p>Este, o Brasil legado pela casa-grande ap\u00f3s cinco s\u00e9culos de ininterrupta explora\u00e7\u00e3o da terra e de sua gente. Somos o que herdamos do passado, mas agravado pela hist\u00f3ria do presente.<\/p>\n<p>O grande capital monopolista internacional, com a inef\u00e1vel ajuda de seus agentes nativos, realiza o projeto do Alvar\u00e1 de D. Maria, a Rainha Louca, que determinou, em 1785, a aboli\u00e7\u00e3o e extin\u00e7\u00e3o de todas as f\u00e1bricas do Brasil, veto mais tarde (1822) reiterado pela Inglaterra. Viver o pa\u00eds entre o atraso e a estagna\u00e7\u00e3o, enquanto sua classe dominante \u00e9 uma das mais ricas do mundo, n\u00e3o \u00e9 um acidente, chuva de ver\u00e3o, mas projeto essencial \u00e0 hegemonia de classe, fonte de nosso descompasso hist\u00f3rico, reprodutor, na segunda d\u00e9cada do terceiro mil\u00eanio, da sociedade olig\u00e1rquica denunciada por Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, o Mo\u00e7o, em 1823: &#8220;Neste pa\u00eds, a pir\u00e2mide do poder assenta sobre o v\u00e9rtice e n\u00e3o sobre a base&#8221;.<\/p>\n<p>Naquele ent\u00e3o, pelas m\u00e3os de uma concilia\u00e7\u00e3o inter-mon\u00e1rquica concertada pela diplomacia das belonaves inglesas (afinal, os Bragan\u00e7as governariam Portugal e a prov\u00edncia desgarrada), inici\u00e1vamos a aventura de um Estado aspirante \u00e0 independ\u00eancia. Ao livrar-se do cutelo portugu\u00eas, todavia, o Brasil se perderia nas amarras do imp\u00e9rio brit\u00e2nico, de quem \u2013 foi este o pre\u00e7o cobrado pelas negocia\u00e7\u00f5es de 1822 \u2013 nos torn\u00e1vamos sua col\u00f4nia na Am\u00e9rica que se chamara de portuguesa. O que se segue n\u00e3o caminha para al\u00e9m das consequ\u00eancias inevit\u00e1veis: a depend\u00eancia econ\u00f4mica, pol\u00edtica, militar e ideol\u00f3gica nos acompanharia at\u00e9 as primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado, quando a hist\u00f3ria registra a ascens\u00e3o dos EUA.<\/p>\n<p>\u00c0 monarquia dos Bragan\u00e7as sucede a rep\u00fablica tutelada dos latifundi\u00e1rios, dos militares e dos especuladores, que, como coletivo, atendem hoje pelo codinome de &#8220;mercado&#8221;. Se, naquele imp\u00e9rio que j\u00e1 nascera velho, o poder moderador era exercido pelo trono, na rep\u00fablica importada por um golpe de Estado esse papel \u00e9 assumido pelas for\u00e7as armadas, nomeadamente pelo ex\u00e9rcito, atento, como no massacre dos camponeses de Canudos, aos reclamos da plutocracia rural, que s\u00f3 vai conhecer decl\u00ednio a partir de 1930.<\/p>\n<p>Tivemos a disjuntiva entre um passado que resiste \u00e0 sepultura e um presente que forceja por vir \u00e0 luz; o futuro \u00e9 permanentemente adiado porque o arcaico sobrevive \u2013 e podemos encontrar indicador mais contundente desse atraso do que a preemin\u00eancia da caserna sobre a vida civil? \u2013, nos pondo ao largo da contemporaneidade. Por isso mesmo, a vit\u00f3ria da concilia\u00e7\u00e3o sobre a ruptura que pode amea\u00e7ar o mando; ao inv\u00e9s da revolu\u00e7\u00e3o, a ordem, que sufoca o progresso. Enfim, um pa\u00eds por ser, na s\u00edntese de Darcy Ribeiro.<\/p>\n<p>O texto que nos serve de ep\u00edgrafe \u00e9 a suma lapidar da ideologia da classe dominante. Louve-se o autor da p\u00e9rola, mantido no anonimato. Foi escrito para o discurso lido pelo presidente da C\u00e2mara dos Deputados na noite do \u00faltimo 6 de julho, quando o antigo representante dos usineiros alagoanos (que j\u00e1 nos deram um presidente da rep\u00fablica, com os custos conhecidos) foi \u00e0 tribuna do plen\u00e1rio, de onde falam os deputados comuns, que s\u00e3o todos os demais, para encaminhar a vota\u00e7\u00e3o da reforma tribut\u00e1ria, com cujo sucesso anunciado j\u00e1 contava para a colheita dos frutos expl\u00edcitos, prenda que a grande imprensa naturaliza como jogo de pesos e contrapesos da realpolitik.<\/p>\n<p>O gerente do Centr\u00e3o, agora or\u00e1culo do sistema e em seu nome fiador da governabilidade, se anuncia vitorioso e no poder, apesar de seu candidato haver perdido as elei\u00e7\u00f5es. Porque no capitalismo, e no perif\u00e9rico sobretudo, a hegemonia da classe dominante independe das elei\u00e7\u00f5es que ordena: ela pode, at\u00e9, em determinadas e epis\u00f3dicas ocasi\u00f5es, como recentemente em 2022, n\u00e3o eleger o presidente da rep\u00fablica de seus sonhos, mas em hip\u00f3tese alguma admite deixar escorrer-lhe pelos dedos o controle do poder, que, a partir do monop\u00f3lio da economia, tudo manipula: ideologia, valores, pol\u00edtica, e, ao fim e ao cabo, condiciona a governabilidade dos que permite governar, cobrando pre\u00e7o alt\u00edssimo \u00e0 rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Assim, mesmo n\u00e3o logrando eleger o candidato pelo qual tanto se empenhou (louvados sejam, sempre, os engenhos dos deuses do Olimpo insond\u00e1vel), o Centr\u00e3o conserva em suas m\u00e3os os cord\u00e9is do poder, imune ao veredito do segundo turno de 2022. \u00c9 em face do imp\u00e9rio dessas circunst\u00e2ncias que se deve compreender a dramaticidade do governo Lula, ainda tateante em seus primeiros passos, jungido entre a necessidade de transigir para salvar o mandato (<em>conditio sine qua non<\/em> para o que quer que seja) e o risco de sobreviver ao pre\u00e7o da ingovernabilidade pol\u00edtica, entendida como a impossibilidade de governar nos termos do programa apresentado no processo eleitoral e referendado pela soberania popular. Aquele de que carece o pa\u00eds para salvar-se a si pr\u00f3prio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ouso afirmar que a caracter\u00edstica nodal de nossa forma\u00e7\u00e3o \u00e9 o monolitismo do poder, imp\u00e1vido, insens\u00edvel ao progresso social, arcaico e no entanto irremov\u00edvel. Imune \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais, \u00e0s rebeli\u00f5es, \u00e0s insurrei\u00e7\u00f5es massacradas, como \u00e0s &#8220;revolu\u00e7\u00f5es&#8221; e aos golpes de Estado perpetrados pela classe dominante acionando seu bra\u00e7o armado. 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