{"id":309321,"date":"2023-07-22T07:22:25","date_gmt":"2023-07-22T10:22:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=309321"},"modified":"2023-07-22T12:29:48","modified_gmt":"2023-07-22T15:29:48","slug":"povo-precisa-ajudar-lula-a-tirar-o-poder-das-maos-dos-derrotados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/povo-precisa-ajudar-lula-a-tirar-o-poder-das-maos-dos-derrotados\/","title":{"rendered":"Povo precisa ajudar Lula a tirar o poder das m\u00e3os dos derrotados"},"content":{"rendered":"<p>Toda a Hist\u00f3ria \u2013 a hist\u00f3ria do homem dominando a natureza \u2013 \u00e9 a hist\u00f3ria da viol\u00eancia, segundo a narrativa dos vencedores. No Brasil, a hist\u00f3ria da for\u00e7a ocupante, comandada pela alian\u00e7a da cruz com o bacamarte a servi\u00e7o da escravid\u00e3o e da acumula\u00e7\u00e3o do senhor de engenho n\u00e3o seria diferente, nem distintas suas consequ\u00eancias. De princ\u00edpio, projeto de pura explora\u00e7\u00e3o extrativista, alimentada pela escravid\u00e3o de negros africanos e o genoc\u00eddio dos povos origin\u00e1rios, o dom\u00ednio colonial impede a emerg\u00eancia de uma na\u00e7\u00e3o, como registra Auguste Saint-Hilaire, viajante franc\u00eas que aqui esteve entre 1816 e 1822: &#8220;[&#8230;] A situa\u00e7\u00e3o funcional dessa popula\u00e7\u00e3o pode ser resumida em uma palavra: o Brasil n\u00e3o tem povo&#8221;.<\/p>\n<p>O povo, dir\u00e1 Capistrano de Abreu, escrevendo cerca de cem anos passados, &#8220;foi capado e recapado, sangrado e ressangrado&#8221;. Sua obra \u00e9 do in\u00edcio do s\u00e9culo passado, e seria relida por Darcy Ribeiro: &#8220;N\u00e3o h\u00e1, nunca houve, aqui, um povo livre, regendo seu destino na busca da pr\u00f3pria prosperidade. [&#8230;] N\u00f3s, brasileiros, somos um povo sem ser, impedido de s\u00ea-lo&#8221;.<\/p>\n<p>Sem povo e sem na\u00e7\u00e3o, sem projeto, fizemos pa\u00eds antes de sociedade; por s\u00e9culos, longe de constituir uma comunidade de sentimentos, fomos um aglomerado de gente diversa, senhores e escravos, sem no\u00e7\u00e3o de pertencimento comum, negros e \u00edndios dominados por brancos de bara\u00e7o e cutelo, senhores da vida e da terra, caminhando em territ\u00f3rio imenso aberto \u00e0 explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria. Na vis\u00e3o de Hilaire, uma popula\u00e7\u00e3o, apenas, carente de unidade quando o pa\u00eds j\u00e1 se preparava para sua emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao cabo de 500 anos somos, ainda, uma na\u00e7\u00e3o por ser, uma expectativa: a profecia de Stefan Zweig que a perversidade da classe dominante transformou em maldi\u00e7\u00e3o. Pa\u00eds ainda em busca de seu destino, revela-se vincado pela trucul\u00eancia que, estruturada a partir da viol\u00eancia do Estado de classes, pervade toda a sociedade, como o denota a desigualdade econ\u00f4mica elevada a n\u00edveis ignominiosos.<\/p>\n<p>O tra\u00e7o essencial da forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica persiste na contemporaneidade, a saber, o primado da ordem estabelecida, do poder concentrado, da ditadura da classe dominante de par com a ideologia da concilia\u00e7\u00e3o, arguida para impedir a ruptura que enseja o progresso. A presen\u00e7a de um passado renitente. Um horror \u00e0s insurrei\u00e7\u00f5es das massas, todas esmagadas com extremada viol\u00eancia, desde os primeiros quilombos a Canudos e Contestado, ainda no s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>O \u00fanico levante vitorioso, a chamada &#8220;revolu\u00e7\u00e3o&#8221; de 1930, foi um movimento inter-olig\u00e1rquico, liderado por tr\u00eas governadores de Estado e comandado por meia d\u00fazia de oficiais superiores. A permanente rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a, um espectro insond\u00e1vel que \u00e9 substitu\u00eddo pela preserva\u00e7\u00e3o do statu quo. Somos um projeto lampedusiano. Assim, n\u00e3o fizemos nem a revolu\u00e7\u00e3o social, nem mesmo a revolu\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Nossa independ\u00eancia, como \u00e9 sabido, decorreu de uma negocia\u00e7\u00e3o inter-mon\u00e1rquica arbitrada pela Inglaterra, a custos alt\u00edssimos para a nova prov\u00edncia; seguem-se quase 70 anos de um imp\u00e9rio alheio ao progresso. A classe dirigente imperial entrega o Estado aos herdeiros da casa-grande como indeniza\u00e7\u00e3o pelo fim da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1889, um golpe militar levantado para depor o gabinete Ouro Preto (indisposto com a caserna), derruba a monarquia e institui, sempre sem povo, um regime pretensamente republicano que, na verdade, representava o retorno \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o luso-brasileira de concentra\u00e7\u00e3o de poderes em torno do chefe de Estado \u2013 antes imperador, doravante presidente da Rep\u00fablica e por muitos anos e em v\u00e1rias oportunidades, ditador.<\/p>\n<p>S\u00e9rgio Buarque de Holanda, no seminal Ra\u00edzes do Brasil, comentaria que a democracia, entre n\u00f3s, foi sempre um mal-entendido. Ou, digamos, um regime que os militares jamais entenderam e que a classe dominante admite at\u00e9 o momento em que seus interesses podem (no seu imagin\u00e1rio) correr algum risco.<\/p>\n<p>Diante da crise presente, esta que amea\u00e7a o governo rec\u00e9m ungido pela soberania popular, s\u00e3o alvitradas todas as li\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia pol\u00edtica, a come\u00e7ar pela rainha de todas as artes, que \u00e9 a concilia\u00e7\u00e3o, a negocia\u00e7\u00e3o, a composi\u00e7\u00e3o, o arrego e, at\u00e9, a ren\u00fancia a projetos. Nessa equa\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o povo, que, em qualquer hip\u00f3tese, pagar\u00e1 a conta hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Conting\u00eancias que n\u00e3o dominamos dizem-nos que pertencemos \u00e0 &#8220;civiliza\u00e7\u00e3o ocidental e crist\u00e3&#8221;, e, por decorr\u00eancia, somos pe\u00e7a da geopol\u00edtica militar sob o comando dos EUA. Dependentes, somos criticados quando intentamos uma pol\u00edtica externa de simples n\u00e3o alinhamento autom\u00e1tico com o Departamento de Estado. A globaliza\u00e7\u00e3o acelera o processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o e acentua o imp\u00e9rio do grande capital. O pa\u00eds pode ir mal das pernas, mas os especuladores v\u00e3o sempre bem, porque seus neg\u00f3cios pouco dependem de nossa economia, internacionalizada como seus lucros.<\/p>\n<p>Em entrevista recente o ministro da Fazenda diz-nos que o 1% de brancos multimilion\u00e1rios, que abocanha 25% do total da renda nacional, n\u00e3o paga impostos, se aplica em um fundo exclusivo, como tamb\u00e9m n\u00e3o paga impostos quem ganha R$ 2.640.000,00, mas paga imposto de renda o assalariado que percebe um piso de meros R$ 2.650,00. O Banco Central do Brasil \u2013 quartel da resist\u00eancia antidesenvolvimentista \u2013 imp\u00f5e-nos uma taxa Selic de 13,75% ao ano, o que equivale a juros reais de 10%, quando a infla\u00e7\u00e3o, em vi\u00e9s de queda, aponta \u00edndices de 3%. Nos EUA, modelo para tudo entre n\u00f3s, com uma infla\u00e7\u00e3o de algo como 8% ao ano, os juros reais estabelecidos pelo FED giram em torno de 5 e 5,25%.<\/p>\n<p>\u00c9 de todo consabido que a pol\u00edtica de juros altos, mais que caturrice de um burocrata poderoso, e ainda \u00e0 solta, constitui atentado contra a economia nacional. Ela reflete a captura do Estado pela banca (que se convencionou chamar de &#8220;mercado&#8221;) e, portanto, sua exig\u00eancia de que a economia do pa\u00eds, n\u00e3o importa quantas bocas precisemos alimentar, priorize a garantia do financiamento do capital financeiro.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 possibilidade, qualquer, de recupera\u00e7\u00e3o nacional sem oferta de cr\u00e9dito, seja ao produtor (que est\u00e1 longe da Faria Lima), seja do consumidor. Juros estratosf\u00e9ricos e cr\u00e9dito constituem uma antinomia. A infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 em queda, fala-se, at\u00e9, em defla\u00e7\u00e3o, o d\u00f3lar cai, mas o BC quer juros altos. Por qu\u00ea? Porque, ele mesmo diz, teme a recupera\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho.<\/p>\n<p>Para os Chicago boys, onipresentes no notici\u00e1rio econ\u00f4mico, queda do desemprego \u00e9 sin\u00f4nimo de aquecimento do mercado, porque o aumento do n\u00famero de trabalhadores empregados pode pressionar para cima os sal\u00e1rios e produzir infla\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, o que o BC persegue \u00e9 o desemprego, a estagna\u00e7\u00e3o. Assim, temos governo e sociedade lutando pela cria\u00e7\u00e3o de emprego e renda, e a grei de Roberto Campos Neto (que n\u00e3o nega suas origens) forcejando desemprego.<\/p>\n<p>A grande imprensa, por\u00e9m, defende tudo isso, como reclama quando Lula enfrenta a Uni\u00e3o Europeia na defesa do Mercosul. E critica as iniciativas visando \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o industrial, mesmo as mais t\u00edmidas, como a prioridade das compras governamentais.<\/p>\n<p>\u00c9 a vez de lembrar uma justamente esquecida ministra da Fazenda para quem, em sua pol\u00edtica, o povo era apenas &#8220;um detalhe&#8221;. Este \u00e9 o pano de fundo das negocia\u00e7\u00f5es que se desenvolvem em Bras\u00edlia e alhures, encoberto pela vers\u00e3o impressionista da grande m\u00eddia.<\/p>\n<p>A rep\u00fablica assiste, algo ausente, ao drama quase solit\u00e1rio do presidente Lula neste toma l\u00e1 d\u00e1 c\u00e1 que come\u00e7a a definir seu rumo, o governo poss\u00edvel, determinado pelas circunst\u00e2ncias da pol\u00edtica real: o imp\u00e9rio de uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que p\u00f5e o governante \u00e0 merc\u00ea do jogo imposto pelos derrotados nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais, porque se aceita a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as como um determinismo, e n\u00e3o como uma conting\u00eancia.<\/p>\n<p>O sistema pol\u00edtico-institucional governante est\u00e1 esgotado. Dessa evid\u00eancia solar nos recusamos a tomar consci\u00eancia, temerosos de assumir suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Os derrotados governam. Porque s\u00e3o derrotados que, no entanto, controlam o Congresso, efetivo delegado do poder hegem\u00f4nico que vem do engenho e da casa-grande e chega, imut\u00e1vel em 500 anos, \u00e0 Faria Lima, filial do grande capital que nos governa de Washington, como j\u00e1 nos governou por mais de cem anos a partir da City de Londres. De l\u00e1 manipula a vida brasileira \u2013 da economia \u00e0 pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Para permitir o governo democr\u00e1tico na sucess\u00e3o do projeto protofascista (determinada pelo segundo turno de 2022), a direita que atende pelo codinome de Centr\u00e3o, ap\u00f3s amea\u00e7ar a governabilidade, exige agora a coabita\u00e7\u00e3o, que implica posi\u00e7\u00e3o de mando de que decorre interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no governo.<\/p>\n<p>Se a frente ampla partid\u00e1ria montada por Lula para assegurar a vit\u00f3ria mostrou resultados, o mesmo n\u00e3o se pode dizer daquela, ampl\u00edssima, que o presidente arquitetou para governar. A direita quer mais. O pa\u00eds conhece as habilidades de Lula como negociador, mas ele se encontra diante de um fato concreto, que os estrategistas de centro-esquerda devem estar estudando: se ganhamos as elei\u00e7\u00f5es presidenciais, perdemos as elei\u00e7\u00f5es legislativas. Este ju\u00edzo de fato cobra uma resposta.<\/p>\n<p>Temos que nos lembrar do porqu\u00ea de havermos depositado todas as nossas for\u00e7as em derrotar eleitoralmente o protofascismo liberal (esse mostrengo brasileiro) e retomar o comando da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, e assim lembrando retomar a batalha ideol\u00f3gica, a educa\u00e7\u00e3o das massas, a den\u00fancia do projeto da classe dominante e a defesa da alternativa popular.<\/p>\n<p>Apenas dar fim \u00e0s maiores alopra\u00e7\u00f5es bolsonaristas e recriar alguns bons programas de nossos governos anteriores \u2013 tarefas, sem d\u00favida, necess\u00e1rias \u2013 n\u00e3o parece suficiente nem para enfrentar os desafios presentes, nem muito menos para fincar as bases de um projeto de longo prazo.<\/p>\n<p>A extrema-direita, forte, espreita. E os representantes da casa-grande, a direita que n\u00e3o zurra, sabem muito bem colocar um p\u00e9 em cada canoa \u2013 fazem isso h\u00e1 500 anos, sem jamais cair. O desafio colocado para a esquerda pode ser o de retomar suas origens; sem esquecer o aqui e o agora, pensar no m\u00e9dio prazo e retomar agora como prioridade a abandonada organiza\u00e7\u00e3o popular. A\u00ed ent\u00e3o, ao inv\u00e9s de objeto, o povo assumir\u00e1 seu papel de agente hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o podemos \u00e9 perder sem lutar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda a Hist\u00f3ria \u2013 a hist\u00f3ria do homem dominando a natureza \u2013 \u00e9 a hist\u00f3ria da viol\u00eancia, segundo a narrativa dos vencedores. No Brasil, a hist\u00f3ria da for\u00e7a ocupante, comandada pela alian\u00e7a da cruz com o bacamarte a servi\u00e7o da escravid\u00e3o e da acumula\u00e7\u00e3o do senhor de engenho n\u00e3o seria diferente, nem distintas suas consequ\u00eancias. 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