{"id":309827,"date":"2023-07-29T00:39:02","date_gmt":"2023-07-29T03:39:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=309827"},"modified":"2023-07-29T07:47:14","modified_gmt":"2023-07-29T10:47:14","slug":"brasil-vive-drama-posto-a-margem-do-desenvolvimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-vive-drama-posto-a-margem-do-desenvolvimento\/","title":{"rendered":"Brasil vive drama posto \u00e0 margem do desenvolvimento"},"content":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria da humanidade desconhece exemplo de pa\u00eds que se tenha desenvolvido e aspirado \u00e0 categoria de pot\u00eancia (sob qualquer t\u00edtulo) sem antes haver investido, sistem\u00e1tica e pesadamente, em educa\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia e tecnologia e desenvolvimento industrial, exatamente nesta ordem, porque sem ci\u00eancia e tecnologia n\u00e3o h\u00e1 ind\u00fastria nem desenvolvimento, qualquer, a come\u00e7ar pelo desenvolvimento social, que exige pleno emprego e distribui\u00e7\u00e3o de renda. E sem desenvolvimento industrial nenhum pa\u00eds pode aspirar \u00e0 soberania, e seu povo a algum grau de liberdade.<\/p>\n<p>A industrializa\u00e7\u00e3o proporciona aumento da produtividade, enseja cria\u00e7\u00e3o de empregos em todos os setores da economia, em face de seu poder multiplicador, promove o desenvolvimento de novas tecnologias e inova\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de maior diversifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. E quem n\u00e3o domina a tecnologia e a inova\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o tem ind\u00fastria, tampouco tem for\u00e7as armadas dignas desse nome, ou seja, capazes de garantir a defesa do pa\u00eds, eis que terminam condenadas a fabricar o inimigo interno (a popula\u00e7\u00e3o que as sustenta) para construir o autoengano de que t\u00eam alguma raz\u00e3o de ser. A experi\u00eancia brasileira \u00e9 exemplar nesse triste sentido.<\/p>\n<p>\u00c9 not\u00f3rio o papel da Escola de Sagres para o ciclo das conquistas mar\u00edtimas portuguesas. De igual modo \u00e9 impens\u00e1vel a revolu\u00e7\u00e3o industrial inglesa sem a inven\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina a vapor, que, por seu turno, mudou as regras do guerrear at\u00e9 ent\u00e3o conhecido, regras que variam a cada conflito \u2013 e os conflitos, afora o mais, servem para o teste e aperfei\u00e7oamento dos novos inventos.<\/p>\n<p>A preemin\u00eancia da tecnologia como condi\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento econ\u00f4mico e a soberania, que passa pelo desenvolvimento industrial, \u00e9 o testemunho dos EUA desde o s\u00e9culo 18, e da Uni\u00e3o Europeia de hoje, que sobrevive, mesmo politicamente subalternizada, gra\u00e7as aos frutos acumulados de seu passado de desenvolvimento cient\u00edfico, tecnol\u00f3gico e industrial. \u00c9 de igual sorte a li\u00e7\u00e3o da \u00cdndia e dos &#8220;Tigres asi\u00e1ticos&#8221;. Mas o modelo paradigm\u00e1tico de desenvolvimento acelerado e cont\u00ednuo \u00e9 oferecido pela China.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses asi\u00e1ticos se desenvolveram na contram\u00e3o do atraso brasileiro, persistente, porque \u00e9 persistente, entre n\u00f3s, a ditadura de uma mesma classe dominante, aquela que vem do engenho e da casa-grande e hoje se instala na Faria Lima para, dali, conectada com Wall Street, comandar o grande capital, o centro do poder real, desapartado da produ\u00e7\u00e3o que gera bens e servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Nos fins do s\u00e9culo 18, quando ainda veget\u00e1vamos na col\u00f4nia, avessa ao desenvolvimento, os EUA optaram pela integra\u00e7\u00e3o na revolu\u00e7\u00e3o industrial inglesa de 1780. O Report on Manufactures, de Alexander Hamilton, data de 1791. Naquele ent\u00e3o continu\u00e1vamos exportadores de a\u00e7\u00facar e das mat\u00e9rias-primas demandadas pela Europa, proibida, pela corte de Lisboa, qualquer iniciativa visando \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de manufaturas. Bem depois, j\u00e1 em 1864, em mais uma vit\u00f3ria da terra, os empreendimentos do Bar\u00e3o de Mau\u00e1, empres\u00e1rio pioneiro na industrializa\u00e7\u00e3o nacional, conheceram a bancarrota, apressada pela m\u00e1 vontade de um imperador autorit\u00e1rio e incuravelmente reacion\u00e1rio, velho de senilidade precoce. Hoje somos t\u00e3o s\u00f3 uma expectativa de desenvolvimento na periferia do capitalismo; uma sociedade obscenamente injusta, pois arrimada na desigualdade mais profunda \u2013 que se manifesta nos planos econ\u00f4mico, social, racial e de g\u00eanero \u2013 e gritantes desn\u00edveis regionais.<\/p>\n<p>Enquanto os EUA caminhavam para a industrializa\u00e7\u00e3o, o Brasil, ao se apartar de Portugal, erguia um imp\u00e9rio arcaico dominado pelos senhores da terra, usufrutu\u00e1rios de uma agricultura predat\u00f3ria, explorada como latif\u00fandio, sustentada na escravid\u00e3o de negros africanos e \u00ednd\u00edgenas apresados e na explora\u00e7\u00e3o do branco pobre. O latif\u00fandio, terras a perder de vista, que, pela vastid\u00e3o de suas extens\u00f5es dispensava cuidados, \u00e9 consagrado em 1850, com a Lei das Terras, o estatuto da propriedade privada sacralizada e da agricultura de exporta\u00e7\u00e3o, fechando o acesso \u00e0 terra aos que nela queriam e precisavam trabalhar.<\/p>\n<p>Como lecionava o Conselheiro Ac\u00e1cio, tudo tem suas consequ\u00eancias e elas sempre v\u00eam depois, principalmente quando s\u00e3o daninhas. Uma delas \u00e9 a inc\u00f4moda dist\u00e2ncia do desenvolvimento de dois pa\u00edses nascidos na mesma \u00e9poca: Brasil e EUA. O PIB do Brasil, apurado em 2022, somava US$ 1,92 trilh\u00e3o em 2022; o dos EUA, US$ 26,13 trilh\u00f5es. O outro lado desses n\u00fameros: enquanto nos EUA a ind\u00fastria participa com 25% da forma\u00e7\u00e3o do PIB, no Brasil seu peso, em queda, est\u00e1 em 10%. Por fim, enquanto no Brasil a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola responde por algo pr\u00f3ximo de 40% da balan\u00e7a comercial, no Grande Irm\u00e3o do Norte seu peso varia entre 10 e 15%.<\/p>\n<p>Neste s\u00e9culo, tardiamente libertada do imperialismo ingl\u00eas (1947), a \u00cdndia, devassada por lutas fraticidas e movimentos autonomistas, dividida em castas, dialetos e cren\u00e7as religiosas, parecia mais uma civiliza\u00e7\u00e3o invi\u00e1vel. Hoje est\u00e1 no topo do desenvolvimento industrial. \u00c9 uma pot\u00eancia nuclear e um exemplo de desenvolvimento industrial em curto prazo. E n\u00e3o h\u00e1 &#8220;milagres&#8221; a registrar \u2013 pois eles n\u00e3o existem na hist\u00f3ria \u2013, sen\u00e3o investimentos maci\u00e7os e continuados em ci\u00eancia e tecnologia, a que o pa\u00eds se dedicou no \u00faltimo dec\u00eanio. A qualidade de sua classe dominante, vis a vis a nossa, faz diferen\u00e7a e tamb\u00e9m vai explicar o desenvolvimento da Coreia do Sul.<\/p>\n<p>O tigre asi\u00e1tico \u00e9 hoje um pa\u00eds altamente industrializado, e seu povo desfruta, de modo geral, de boas condi\u00e7\u00f5es de vida. Mas h\u00e1 poucas d\u00e9cadas, ao fim da guerra de 1950-53 que o partiu ao meio, era um pa\u00eds devastado, contando algo de milh\u00f5es de v\u00edtimas do conflito fratricida. Atualmente, \u00e9 o maior exportador de chips do mundo.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria n\u00e3o h\u00e1 &#8220;milagres econ\u00f4micos&#8221;. Mas igualmente n\u00e3o h\u00e1 acaso, nem fen\u00f4meno sem causa. Anualmente, a Coreia do Sul forma 80 mil engenheiros (em uma popula\u00e7\u00e3o de cerca de 52 milh\u00f5es), a \u00cdndia forma 200 mil e a China, aquele antigo pa\u00eds de camponeses at\u00e9 a segunda metade do s\u00e9culo passado, forma 300 mil engenheiros. O Brasil, que nos anos 1940-50, na tradi\u00e7\u00e3o do varguismo, investia em seu processo de industrializa\u00e7\u00e3o, e que nos anos 1960 festejaria uma ind\u00fastria automobil\u00edstica que nunca veio a lume, forma apenas 20 mil engenheiros, em uma popula\u00e7\u00e3o E, merc\u00ea dos governos que se seguiram ao golpe de 2016, padece a inexist\u00eancia de estrat\u00e9gia tecnol\u00f3gica, de intelig\u00eancia artificial, de biotecnologia e cibern\u00e9tica; no governo do capit\u00e3o, que imp\u00f4s dieta de recursos \u00e0 universidade p\u00fablica, cerrou as portas do \u00fanico embri\u00e3o que possu\u00edamos para a fabrica\u00e7\u00e3o de chips, tamb\u00e9m a \u00fanica iniciativa conhecida na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias de nossos pa\u00edses se encontraram nos idos de 1970. Quando a ditadura castrense cantava loas ao &#8220;milagre&#8221; dos n\u00fameros delfinianos, o ent\u00e3o presidente da FINEP, Jos\u00e9 Pel\u00facio Ferreira, um homem honrado, recebeu uma comiss\u00e3o de altos dirigentes do governo e executivos sul-coreanos, que, projetando sua entrada na ind\u00fastria automobil\u00edstica, queriam conhecer a experi\u00eancia brasileira. Ap\u00f3s competente exposi\u00e7\u00e3o de Pel\u00facio, os coreanos revelaram sua frustra\u00e7\u00e3o, pois o projeto que os animava era, realmente, o de uma ind\u00fastria automotiva nacional, e n\u00e3o, como se revelava o caso brasileiro, de um conjunto de montadoras estrangeiras de m\u00e1quinas projetadas e produzidas no exterior. Este relato me foi passado pelo professor Wanderley de Souza, presente \u00e0 citada reuni\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao final, passados cerca de 50 anos, o Brasil conhece apenas um n\u00famero elevad\u00edssimo de montadoras estrangeiras, inclusive sul-coreanas, e nenhuma marca nacional.<\/p>\n<p>Em pouco mais de meio s\u00e9culo a China, subdesenvolvida, pa\u00eds de camponeses, meio ambiente ingrato, entre geleiras e terras \u00e1ridas, desindustrializada, devastada por guerras e invas\u00f5es seculares, realizou, em ritmo de maratona, o percurso da pobreza aguda para a disputa da hegemonia pol\u00edtica mundial, gra\u00e7as ao alto desenvolvimento cient\u00edfico. Essa China tampouco \u00e9 fruto do des\u00edgnio de Deus, sen\u00e3o da perseveran\u00e7a de um projeto nacional, que, deitando ra\u00edzes em 1949, seria formulado em 1975, por Deng Xiaoping: &#8220;A chave para conquistar a moderniza\u00e7\u00e3o \u00e9 o desenvolvimento da ci\u00eancia e da tecnologia. E a menos que prestemos especial aten\u00e7\u00e3o na educa\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 imposs\u00edvel desenvolver a ci\u00eancia e a tecnologia&#8221;. Nenhum membro da classe dominante brasileira seria capaz dessa formula\u00e7\u00e3o, mas o projeto nela impl\u00edcito fez com que a China superasse o que, naquela ocasi\u00e3o, o mesmo Xiaoping identificava como vinte anos de atraso em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses desenvolvidos em ci\u00eancia, tecnologia e educa\u00e7\u00e3o. Hoje, a China \u00e9 o maior centro cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico do mundo e o maior exportador de manufaturados.<\/p>\n<p>Do Brasil importa gr\u00e3os, carne e min\u00e9rio de ferro in natura que devolve como trilhos. Dela importamos quase tudo, mas principalmente produtos tecnol\u00f3gicos e autom\u00f3veis, bem como f\u00e1bricas de autom\u00f3veis e caminh\u00f5es. Os chineses prometem nos ceder a tecnologia dos motores el\u00e9tricos, a pa\u00eds que n\u00e3o teve a compet\u00eancia de registrar uma s\u00f3 patente de motor a explos\u00e3o, essa pr\u00f3xima rel\u00edquia tecnol\u00f3gica. \u00c9 de suas bases, e com seus foguetes, que o Brasil, que n\u00e3o tem foguete nem base, esta cedida aos EUA, lan\u00e7a os poucos sat\u00e9lites da linha CBERS, fabricados com cess\u00e3o de tecnologia chinesa, e sofrendo embargos do Departamento de Estado dos EUA.<\/p>\n<p>Nosso atraso, por\u00e9m, pode tornar-se irrevers\u00edvel. O Brasil pode, no futuro muito pr\u00f3ximo, passar o Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00e3os do Centr\u00e3o, a choldra que exige o governo (e nele as verbas p\u00fablicas) para permitir que o presidente eleito pela vontade popular possa governar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria da humanidade desconhece exemplo de pa\u00eds que se tenha desenvolvido e aspirado \u00e0 categoria de pot\u00eancia (sob qualquer t\u00edtulo) sem antes haver investido, sistem\u00e1tica e pesadamente, em educa\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia e tecnologia e desenvolvimento industrial, exatamente nesta ordem, porque sem ci\u00eancia e tecnologia n\u00e3o h\u00e1 ind\u00fastria nem desenvolvimento, qualquer, a come\u00e7ar pelo desenvolvimento social, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":309828,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[153],"tags":[95],"class_list":["post-309827","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-business","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/309827","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=309827"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/309827\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":309829,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/309827\/revisions\/309829"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/309828"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=309827"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=309827"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=309827"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}